Montfort Associação Cultural

20 de janeiro de 2011

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O limite entre o dinheiro e o pecado

Autor: André Melo

  • Consulente: Djoni Filho
  • Localizaçao: Fortaleza – CE – Brasil
  • Escolaridade: Superior incompleto
  • Profissão: Aux. Contabilidade
  • Religião: Católica

Ola, primeiramente gostaria enormemente de agradecer-lhes por reservar um espaço especial para os que desejam enviar cartas para o site. Nos últimos dias me veio a dúvida sobre o que Jesus realmente queria dizer quando afirmou que não podemos servir a Deus e ao dinheiro. Inclusive li o artigo “Condenação da Usura e do lucro“, enviado por Mário e respondido pelo Ilustríssimo Prof. Orlando Fedeli.

Entre tais artigos, li também outros artigos em outor sites católicos. Mas, mesmo sendo bem claro o Prof, ao me deparar com a Bíblia, entre as próprias passagens que este mencionou, e ao ler um artigo do Pe. Jonas (Canção Nova), fiquei em dúvida.

Ao meu entender – e acredito que isso casa muito bem com o texto lido aqui na MontFort – Servir ao dinheiro deve ser tratado como qualquer outra idolatria. A partir do momento que colocamos qualquer ente ou objeto acima de Deus, estamos cometendo tal pecado horrendo. Colocar algo acima de Deus, ou igualar algo a Ele, também atingira os preceitos Dele. Se faço algo que vai contra os preceitos de Deus, então estou igualmente pecando.

Por exemplo: recentemente tive conflitos familiares por conta de um carro, cujo direito de posse pertencia a mim e a minha irmã, e propriedade de meus pais. Por conta desse carro, briguei, discuti, agredi verbalmente, não honrei pai e mãe, entre outros. Ou seja, mesmo sem perceber, achando que apenas estava defendendo um direito meu, acabei comentendo inúmeros pecados, colocando o material, o dinheiro, acima de Deus, colocando esse carro como prioridade.

Para mim esse é um exemplo otimo de servir ao dinheiro. E abdiquei do carro. Hoje me sinto bem mais feliz. O problema é que em Mt 19,21-22 Jesus pede ao jovem rico para vender os bens dele, dar aos pobres e seguir à Ele, e assim herdará o reino dos céus. Ora, o jovem já seguia os mandamentos. Mas o jovem simplesmente ter de vener e doar todos os bens dele, TODOS, que provavelmente construiu com o maior sacrifício? Doar parte dos bens, fazer caridades, acabar com regalias, é uma coisa. Se desafzer de todos os bens, é outra. Concordo que o jovem não teve fé suficiente para isso. Mas ai eu me pergunto: Se Jesus não condena quem tem dinheiro, desde que façam caridades, sigam os preceitos de Deus, não coloque o dinheiro em primeiro lugar, por qual motivo pedir isso ao jovem?

Pois se termos bens é zelar por eles é colocar o dinheiro acima de Deus… ora, todos nós fazemos, não? Ou o sr. não zela pelos seus bens, seja um site, um objeto, etc?

O Pe. Jonas, em seu site, fala que “para ser verdadeiramente cristão e viver o Evangelho de Jesus, você tem de cultivar em si a pobreza, a simplicidade, o despojamento e contentar-se com aquilo que tem.”

Ele cita em seu site dois extremos: esbanjar dinheiro, ou viver na pobreza. Mas há o do meio. Eu, com meu emprego, querer sempre prosperar, vivar dignamente. Sem luxo, sem esbanjar, mas guardar dinheiro para quando for mais velho viver tranquilamente, ser promovido no trabalho… Tudo isso colocando com prioridade da minha vida Deus, e fazendo assim com Ele permitir.

O Pe. fala que a simplicidade, e pobreza, é cultivado no coração, e não nos bens materiais. Como se concretizaria isso? Como posso cultivar pobreza no meu coração, tendo eu dinheiro? Seria a caridade?

Desculpe-me se me “esbanjei” nas palavras, mas realmente fiquei em dúvidas. Sinta-se a vontade para editar ou cortar qualquer parte que queira.

Obrigado pela atenção,
Que Deus o(s) abençoe.

Djoni Filho

Muito prezado Djoni,
salve Maria!

     Obrigado por suas palavras em relação ao site Montfort. Peço-lhe que reze sempre por nosso apostolado e para que possamos de alguma forma continuar o trabalho feito por nosso tão estimado e tão saudoso Professor.

     Você pergunta “o que Jesus realmente queria dizer quando afirmou que não podemos servir a Deus e ao dinheiro?”. O próprio Nosso Senhor nos dá a resposta quando ensina que “ninguém pode servir a dois senhores; porque ou há de odiar a um e amar o outro, ou há de afeiçoar-se a um e desprezar o outro. Não podeis servir a Deus e à riqueza” (Mt 6, 24).
     Tudo o que Deus criou é bom. Logo, os bens materiais também são bons. Há no universo uma escala, uma hierarquia entre os bens. Assim, eu não posso colocar o bem da bebida acima do bem da sobriedade, da reta razão. A inversão dessa relação é o pecado da embriaguês. Não posso também colocar o bem do dinheiro acima de outro bem maior, o da justiça. O ladrão faz isso ao roubar. E é assim com todos os pecados. 

     O homem é sempre movido por um bem. O pecado está em inverter a ordem das coisas, a ordem dos bens, colocando um bem menor acima de um bem maior.
     Ora, como Deus é o Sumo Bem, nada pode ser colocado acima dEle. 
     
O que Cristo condena, portanto, é a colocação da riqueza acima de Deus, acima da justiça. Ele condena ter a riqueza como fim e não como meio.
     Ser rico não é, portanto, de si, um mal.
     
Há vários exemplos nas Sagradas Escrituras e na história que provam não ser a riqueza má em si mesma. Dessa forma, os Reis Magos trouxeram para o Menino Jesus ouro, incenso e mirra. Jó era muito rico e muito agradável a Deus. Vários santos foram ricos. Muitos, como são Luis, eram reis. Mesmos os pais de santa Teresinha, de grande virtude (e atualmente em processo de canonização), levavam uma vida com certa comodidade.
     
Cristo olhou com predileção para o jovem rico, mesmo ele sendo rico. O erro do jovem foi justamente o de não querer deixar a riqueza para seguir ao chamado (a vocação) de Cristo. Observe bem as palavras de Nosso Senhor:

se queres ser perfeito, vai, vende o que tens, e dá-o aos pobres, e terá um tesouro no céu; e depois vem e segue-me.“ (Mt. 19, 21).

     Nosso Senhor não diz, “se queres salvar sua alma, vai, vende o que tens, e dá-o aos pobres”. O que Ele disse foi:

se queres entrar na vida eterna guarda os mandamentos” (Mt. 19, 17).
     

     O conselho de perfeição (a pobreza) que Cristo deu aquele jovem não é condição para a salvação. Ninguém está obrigado a fazer em tudo o mais perfeito. Dessa forma, os conselhos evangélicos (pobreza, obediência e castidade), são conselhos, não preceitos.
     
Claro que a riqueza tem seus perigos. E não são poucos. Cristo mesmo disse, no mesmo episódio do jovem rico, que “é mais fácil passar um camelo pelo fundo de uma agulha, que entrar um rico no reino dos céus”. A riqueza é perigosa, pois ela facilmente inebria fazendo com que se lhe dedique e apegue o coração. É preciso, portanto, estar atento a este perigo. Um perigo que corre tanto o rico quanto o pobre, pois a Igreja sempre condenou o rico de espírito enquanto pregou a pobreza de espírito.
     
     
Rico de espírito é aquele que tem o coração apegado aos bens materiais. Pode ser a pessoa mais pobre do mundo, se ela tem o coração apegado à riqueza, se ela quer a todo custo, mesmo contra a justiça, enriquecer, se deseja acima de tudo possuir dinheiro para ter prestígio, conforto ou – pior – acesso ao pecado, essa pessoa é rica de espírito e peca pelo apego que tem ao dinheiro, mesmo não o possuindo.

Onde está seu tesouro, aí está também o teu coração” (Mt. 6, 21). 

     Tenhamos, pois, nosso coração nas coisas elevadas. Tenhamo-lo em Cristo Nosso Senhor e em Sua Mãe Santíssima. Quanto ao dinheiro, façamos com que ele nos sirva e nos ajude a servir a Deus, não o contrário.

In Corde Jesu, semper,
André Melo

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