Montfort Associação Cultural

15 de janeiro de 2007

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O enfraquecimento do Catolicismo

Autor: Orlando Fedeli

  • Consulente: Roberto Ferreira Filho
  • Localizaçao: Corumbá – MS – Brasil
  • Escolaridade: Pós-graduação concluída
  • Profissão: Juiz de Direito
  • Religião: Católica

Professor.

O Sr. acredita que a constante perda de fiéis da Igreja irá perdurar? Porque o Sr. acha que algumas igrejas absolutamente sem doutrina, sem historia, sem seriedade vem ganhando adeptos? O que seria importante que nós, leigos, fizessemos para ajudar, neste particular, a Igreja de Cristo? Qual sua opinião sobre o papado de Bento XVI?
Obrigado.
Que Deus e Nossa Senhora sempre lhe proteja.

Muito prezado Dr. Roberto,
Salve Maria.
 
    É uma honra para o site Montfort tê-lo como leitor. Mais ainda me honra que me coloque uma questão e que peça meu parecer de tão pouco valor.
    Nosso Senhor disse:

Quando Eu for levantado, atrairei tudo a Mim” (Jo, XII, 32).


   
 Essas palavras se referiam, evidentemente, à crucificação. Mas, analogicamente, e com inteira propriedade, podem ser aplicadas à elevação da Hóstia, após a consagração, na Missa, visto que a Missa é a renovação do sacrifício do Calvário. Ora, a Nova Missa escamoteia que a Missa é a renovação do sacrifício da Cruz. Ela escamoteia a noção de sacrifício propiciatório, escamoteia o ofertório, e acentua de modo excessivo a Ressurreição, dando a entender que todos estão salvos com a tradução de “pro multis” com a expressão “por todos”, e não “por muitos”, agora, graças a Deus condenada pelo Vaticano.
    Além disso, vários afirmam que a transubstanciação não é do pão e do vinho no Corpo e Sangue de Cristo, e sim da “comunidade” em Cristo. O povo é que seria transubstanciado e divinizado pela consagração. E o povo é que seria o sacerdote. O celebrante apenas presidiria a assembléia. Daí, a missa ter que ser rezada em vernáculo, e de frente para o povo.
    Alguns desses erros podem tornar certas Missas inválidas. Outras certamente são sacrílegas. Por isso, ou Cristo não é realmente levantado, ou Ele é mal levantado, não obtendo o povo os frutos convenientes da Missa. E isso dura já quarenta anos.
    Cristo foi retirado do centro de nossas igrejas. Cristo não é exaltado como deveria ser. É natural então que o povo fuja, procurando o Redentor, que não mais encontra em certas igrejas. O povo fiel foge. As ovelhas se dispersam, e se refugiam em covis de lobos, em seitas e igrejolas heréticas precárias e enganadoras. 

     
Uma segunda causa do êxodo de católicos para igrejolas protestantes e pentecostais foi o ecumenismo do Concílio Vaticano II. Se todas as religiões podem salvar, por que ficar na Igreja Católica que — quand même — exige determinadas coisas que as igrejolas não exigem?
     E a RCC carismática prepara uma ponte atapetada e delirante para os católicos irem às seitas carismáticas confessadamente heréticas, pois RCC e pentecostalismo protestante fazem a mesma coisa! É tudo igual, diz o povo. E de novo, foi o Vaticano II que preparou esse êxodo.

     
Uma terceira causa da dispersão das ovelhas fiéis foi a Colegialidade pregada pelo Concílio Vaticano II e aplicada diligentemente, após esse Concílio. Pela Colegialidade, os Bispos se consideram, agora, independentes do Papa. Eles julgam chefiar igrejas autônomas.
    Recentemente, um Arcebispo brasileiro, muito ecumênico, recusou atender ao pedido de algumas pessoas que lhe pediam a Missa de S. Pio V. E declarou a elas que sabia do Motu Proprio que ia liberar a Missa de sempre, mas que depois que fosse promulgado o Motu Proprio do Papa, ele iria examinar o documento, para ver o que faria.
    Não declarou que, sem dúvida, obedeceria ao que o Papa determinasse. Iria examinar…
    E muitos anunciam que resistirão ao decreto papal, preparando um cisma. É o que estão fazendo os Bispos modernistas franceses, em particular o Arcebispo de Strasburgo.
    Se se dissesse a um Arcebispo, que se iria estudar uma decisão dele, para ver o que se iria fazer, esse Arcebispo ficaria furioso.
    E democraticamente exigiria uma obediência de lacaio.
    A Colegialidade foi um golpe no poder papal. Os Bispos “obedecem” ao Papa quando concordam com ele. E nem ligam para o Papa, ou o desafiam, quando discordam dele. Veja, Doutor, o decreto que mandou recolocar os confessionários com grades, na igrejas. Quase ninguém o obedeceu. Veja o desconhecimento e a desobediência sistemática dos Bispos e Padres ao documento papal Redemptionis Sacramentum coibindo os abusos na Missa. Ninguém toma conhecimento dele, e mantém os abusos que quer.
    Ainda agora, no fim do ano, o Bispo de Corumbá promoveu cerimônia católica-umbandista escandalosa.
    A Colegialidade democratizou a Igreja. A Nova Igreja Conciliar é democrática. É relativista.
    Hoje, cada um faz o que quer, na igreja conciliar. Ninguém manda. Sobretudo, ninguém obedece. A Igreja parece que virou república. A Colegialidade feriu o Pastor Supremo — o Papa – e as ovelhas se dispersaram.

    Uma quarta causa do êxodo dos fiéis vem das heresias e da ignorância do clero modernista. Os sermões do novo clero aggiornato são um descalabro. A Nova Missa fez do sacerdote um show man. E para atrair o povo, os seminários se preocupam em formar padres “simpáticos” (ridículos), “atraentes” (bonitinhos), labiosos” (parladores ignorantes). Já não se distribui ao povo fiel o pão da palavra de Deus. O novo clero demonstra uma ignorância teológica ao nível de suas virtudes…
     
    Veja Doutor, o que acabo de ler num livreco de um desses padres moderninhos:

Infelizmente, a linguagem “Tridentina” (do Concílio de Trento– 1545- 1563), muito certa naquele tempo, é uma espécie de “espelho deformante“: reflete uma figura completamente distorcida para hoje. Tanto assim que a linguagem “moderna” (especialmente dos jovens) não consegue “captar” o sentido de “puríssimo, infinito, perfeito”. Os JOVENS de hoje diriam: “Deus é um barato”, “crer em Deus é uma boa”,”Deus é legal, (…) XYZ” (Padre Luis Bedin, Creio  O Recado Editora, São Paulo, 1996, p. 6. Substitui uma palavra abreviada, mas chula, por XYZ).,

    
Como um Padre escreve tais barbaridades?! Como isso se publica em letra de forma?!
    Não se sabe o que é maior nesse texto, se a ignorância filosófica, ou se a incapacidade intelectual do autor… para falar respeitosamente…
    Um padre com esse nível intelectual, e com esse cabedal filosófico e teológico pode atrair JOVENS que “captam” mas que não entendem o que ouvem. Porque “captam” pela “linguagem deles“, não pelo intelecto!
    Um padre com essa “linguagem” e com essa ausência de conhecimento — que refletem uma ausência completa de Sabedoria — não pode atrair ninguém, nem JOVENS, por longo tempo. Tanto mais que os JOVENS, passados alguns anos, necessariamente amadurecem.
    O clero JOVEM, porém, não amadurece. Fica eternamente zezinho…
    O clero JOVEM é uma vergonha para a Igreja, e espiritualmente, é um enorme fracasso. Dai as contínuas apostasias e escândalos.
    Toda fonte só dá a água que tem. 
   
    Em épocas de crise da Igreja crescem as seitas, como em lavoura abandonada crescem as ervas daninhas e o mato. Excomungados os erros, porém, se dará um rápido retorno das ovelhas perdidas ao redil.
    Quando Cristo for de novo sacramental e corretamente levantado, Ele atrairá tudo e todos a Ele.
    As seitas se derretem rapidamente ao calor do Sol de Justiça. As seitas são como fogo de palha: queimam rápido, e rapidamente se fazem cinzas, que o vento de Deus varre e faz logo desaparecer. Porque a misericórdia de Deus é infinita.
 
    O senhor me pergunta o que nós leigos podemos fazer. Respondo-lhe: vigiar, rezar, estudar, dar bom exemplo, ensinar.
    Em suma: combater.
    É o que procura fazer a Montfort.
    Rogo-lhe que nos apóie com sua vigilância, com suas orações, com seus estudos e bom exemplo, ajudando-nos em nosso combate, por exemplo com artigos, e estudos que seriam aproveitados por nossos Amigos em reuniões.
    Finalmente, o senhor pede que lhe dê minha opinião sobre o papado de Bento XVI. Sublinhei papado, isto é, sobre o governo pontifício de Bento XVI.
    Poucas vezes, na História, um Papa causou tanta celeuma. 
    Ratzinger teve formação modernista. Durante anos defendeu teses bem progressistas a ponto de dizer que o Vaticano II era um anti Syllabus, e que não era possível nenhum retorno ao que a Igreja fora antes do malfadado Concílio pastoral de João XXIII e Paulo VI.
    Hoje, da extrema esquerda modernista (Golias, Adista, TL, etc) até entre os mais rijos tradicionalistas da FSSPX, todos concordam que Bento XVI está mudando, e que, com suas medidas, ele ameaça o Vaticano II (É claro que sempre haverá exceções, e estou pensando em Dom Williamson).
    A tão anunciada liberação total da Missa de sempre é interpretada pelos modernistas como o sepultamento e a condenação do Concílio Vaticano II, pelo menos em símbolo, como disse o próprio Paulo VI.
    Dom Fellay manifesta esperanças, e reza para que o Papa tenha coragem de enfrentar os lobos.
    A Montfort faz o mesmo: reza pelo Papa e espera. Espera em Deus.
    A própria delonga em publicar o Motu Proprio, liberando a Missa de sempre, comprova as enormes pressões que a esquerda herética faz sobre o Papa, para impedir a publicação dessa medida, pois os modernistas vêem nela um golpe decisivo, e até mortal, contra a heresia conciliar pastoral.
    Pois não dizem os comentaristas e Bispos modernistas franceses que a liberação da missa de sempre será o sepultamento do Vaticano II? E não disse o próprio Paulo VI que jamais permitiria a liberação da Missa dita de São Pio V, porque, fazer isso, seria condenar pelo menos simbolicamente o Vaticano II? 
    Soube-se agora, que desde 1972, e desde 1982, Ratzinger se movia para posições de correção, e até de confronto, com relação a certos pontos do Concílio Vaticano II (leia mais). Sabe-se como ele procurou influenciar o Pontificado de João Paulo II que, sendo totalmente favorável ao Vaticano II, e à missa Nova, lentamente foi mudando, ainda que pouco, no final de seu pontificado.
     Em 1984, pela Instituição do Ecclesia Dei, o Papa João Paulo II permitiu a celebração da Missa de sempre, desde que se aceitassem duas condições:

          1) Aceitar o Concílio Vaticano II;
          2) Aceitar a Missa Nova de Paulo VI.
     
    Em 1988, o Papa João Paulo II retirou essas duas condições. Para permitir a celebração da Missa de sempre já não foi obrigatório declarar que se aceitava nem o Vaticano II e nem a Missa de Paulo VI. Era um passo significativo.
    Agora, em 2006, o Papa Bento XVI fundou o Instituto Pontifício do Bom Pastor com duas finalidades:

         1) Rezar só a Missa de sempre.
         2) Criticar construtivamente o Concílio Vaticano II.

    Passou-se da exigência da aceitação, para o direito de crítica do Vaticano II.
    Passou-se da exigência da aceitação da Missa de Paulo VI, para o direito de se rezar exclusivamente a Missa de sempre.
    Foi uma mudança de 180 graus.
    E numa rota, mudar 180 graus significa fazer o caminho inverso. Retornar.
    Claro que Bento XVI, teve formação modernista  e confessa que a teve, mas condena agora a Teologia Liberal e o Método Histórico Crítico nos quais foi formado. Claro que, por isso mesmo, é natural que persistam nele traços, e até manchas e vezos, dessa formação modernista. E isso o faz vacilar e cambalear, principalmente em matéria ecumênica.
    Lamento cada passo em falso e ecumênico de Bento XVI. E deploro cada discurso ecumênico dele. Desejando que ele conclua a marcha de 180 graus oposta ao Concílio Vaticano II.
    Desiderium desideravit.
    E rezo.
    Rezo por Bento XVI para que Deus o esclareça e lhe dê as forças necessárias para enfrentar os lobos. Como ele mesmo pediu, no início de seu pontificado, confessando que havia lobos, e que ele, Papa, tinha medo dos lobos vaticanescos.
    Em Roma, cidade da loba, que Cristo fez a Cidade do Pastor, sempre haverá lobos. Porque os lobos sempre rondam o redil.
    Há tanto tempo não se falava em lobos, no Vaticano. Há tanto tempo funcionava - ocultamente - uma Pontifícia Comissão para o Diálogo Ecumênico dos Pastores com os Lobos…
      
    Rezemos pelo Papa, meu caro Doutor Roberto.

In Corde Jesu, semper, 
Orlando Fedeli

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