Montfort Associação Cultural

31 de outubro de 2008

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O Cristo de Chopra: A Criação Mística de um Pan-Evangelista da Nova Era

Autor: Orlando Fedeli

  • Consulente: Sergio
  • Localizaçao: São José dos Campos – SP – Brasil
  • Escolaridade: Superior concluído
  • Profissão: Engenheiro
  • Religião: Católica

Caro Prof Orlando, Salve Maria

É incrível como os ataques a Jesus Cristo, sua divindade, sua doutrina e sua Igreja hoje em dia se escondem por trás de obras com belas mensagens sobre a busca da felicidade, de um futuro melhor, livre do fundamentalismo religioso e baseado apenas no amor, na compreensão e na harmonia espiritual.  E é uma boa estratégia do inimigo, pois ninguém coloca veneno em pedras. Assim as pessoas menos conhecedoras da verdadeira doutrina Católica, o que inclui infelizmente a maioria dos Católicos, vão sendo embebidas desse veneno e se tornam cada dia mais apáticas para repudiar o absurdo apregoado por essas obras.

Pois foi lançado no Brasil recentemente mais uma dessas obras que cumprem com esse propósito. Trata-se de “O Terceiro Jesus” de Deepak Chopra. As resenhas que já li sobre o livro dizem que se trata da “procura do verdadeiro Cristo no coração da teologia Cristã”. Mas na verdade utiliza-se de uma fórmula, mais do que gasta, usada pelos movimentos da Nova Era, de apresentar Jesus como um “guia espiritual” para despertar em nossas consciências o “Eu divino”.

Na forma como é apresentado no livro, o primeiro Jesus é o homem apenas, o segundo um mito criado pelos seus seguidores para estabelecer uma religião dogmática e autoritária e finalmente o Terceiro Jesus, que é aquele que todos devem buscar, é um guia espiritual cujos ensinamentos envolvem toda a humanidade e todos os credos.

Não pretendo ler o livro, até porque já conheço o teor gnóstico da mensagem do autor Deepak Chopra de outras obras suas que tive a infelicidade de ler. E pedir para que o sr. o lesse para criticá-lo e apontar os erros contidos no mesmo seria pedir de mais. Mas com a intenção de não deixar passar em branco, para os leitores brasileiros, uma crítica mais séria sobre esse livro, encontrei uma crítica feita pelo site www.ignatiousinsight.com e a traduzi para compartilhar aqui com os leitores do site Montfort, claro, se o sr. achar por bem publicá-la.

Um abraço cordial em Jesus e Maria.
Sergio


http://www.ignatiusinsight.com/features2008/colson_chopra2_may08.asp

O Cristo de Chopra: A Criação Mística de um Pan-Evangelista da Nova Era
Uma resenha de “O Terceiro Jesus: O Cristo que Não Podemos Ignorar”, de Deepak Chopra / 5 de Maio de 2008
Carl E Olson

Começarei com um ponto positivo: O novo livro de Deepak Chopra, “O Terceiro Jesus”, tem uma contra-capa bem desenhada e que prende a atenção.

Agora um negativo: O resto do livro não é nem um pouco atraente. Nem de perto.

De fato, é muitas vezes inequivocamente repulsivo, de um fundamentalismo de Nova Era, com ataques violentos ao Cristianismo, intelectualmente insípido e de uma certa forma, historicamente enganador.

Chopra, o médico que foi uma vez descrito em 1999 pela revista TIME como o “o poeta-profeta da medicina alternativa”, pôs como subtítulo do seu livro, “O Cristo Que Não Podemos Ignorar”. O que nós poderíamos ignorar seria esse livro e o falso Cristo que ele apresenta. Mas, Chopra, que é autor de uns cinqüenta livros e tem ganhado milhões de dólares de sua filial particular do monismo neo-Hindu para as massas (ele foi discípulo de Maharishi Mahesh Yogi, fundador da Meditação Transcendental), é muito popular. E parece que “O Terceiro Jesus”, publicado em Fevereiro de 2008, tem vendido bem e tem estado há várias semanas na lista do “The New York Times” dos dez livros de “Auto Ajuda” mais vendidos. [1]

O pior é que “O Terceiro Jesus” tem sido elogiado por um número de Cristãos, alguns deles bem conhecidos como “progressistas” tais como John Shelby e o ex padre Católico Mattew Fox. Poucos deles são Católicos. Por exemplo, o Padre Paul Keenan, o apresentador de “Como Você Pensa”, um programa no Canal Católico/Sirius 159, diz: “Em “O Terceiro Jesus” Deepak Chopra revela para nós o espírito de Jesus, e com uma reverência que é ao mesmo tempo simples e profunda e torna seu espírito acessível para nós em nossas vidas de cada dia”. Talvez, Padre Keenan na verdade não tenha lido o livro. Eu espero que esse seja o caso, porque se ele pensa que o Jesus invocado por Chopra tem alguma coisa a ver com o Jesus histórico, bíblico e adorado por Cristãos ortodoxos, ele precisa encontrar uma cópia do Catecismo da Igreja Católica e reforçar seus conhecimentos de Cristologia. (101)  

Pelo menos Miceal (ou Michael) Ledwith, ex presidente e professor de teologia na Universidade Maynooth parece entender a necessidade de se escolher entre os vários Cristos incompatíveis. Ledwith foi ordenado padre Católico em 1967 e serviu de 1980 a 1987 na Comissão Teológica Internacional do Vaticano “sob o pontificado de João Paulo II quando o Cardeal Joseph Ratzinger era presidente”, como sua mini-biografia em “O Terceiro Jesus” declara. A dedução óbvia (dessa biografia) é que Ledwith é um bem-respeitado padre Católico. Mas não está claro qual é o status oficial de Ledwith no momento, pois ele renunciou, em desgraça, a presidência da Maynooth depois de uma série de acusações de abuso sexual que datam do começo dos anos 1980 e que se tornaram públicos. Ledwith é agora um palestrante na Escola Ramtha de Iluminação, um centro da Nova Era sediado em Yelm, Washington, para o qual ele tem produzido vídeos, incluindo um intitulado: “Como Jesus se Tornou Um Cristo”. Ledwith oferece este elogio ao livro de Chopra:

“A mensagem de Jesus foi clara, simples e direta. Mas após uma geração de sua paixão foi comprometida para acomodar os pontos de vistas largamente conflitantes entre aqueles que reivindicavam segui-Lo…Em contraste com uma mensagem originalmente pretendida a inspirar as pessoas para as maravilhas de um mundo renascido em Deus, a ênfase hoje em dia torna quase impossível pensar em Jesus ou mesmo a própria Cristandade em si exceto em termos do salvador sofredor que morreu para satisfazer a ira de Deus contra nós. O terrível preço que essa ênfase tem precisamente sobre a mensagem é sensivelmente tratada na forma mais atraente nesse valioso trabalho”.

Colocado de forma simples, o Cristo do Cristianismo não é o Cristo de Chopra. O uso da biografia de Ledwith é enganador, dando a impressão de que um padre Católico de alguma reputação e em boa posição com a Igreja prontamente endossa o livro de Chopra. Este pequeno, mas não insignificante exemplo de manipulação dos fatos é, não obstante, um gostinho do tipo de descrição enganosa, distorções e de um francamente “ele escreveu isso mesmo?”, de erros clamorosos que se seguem.

“O Terceiro Jesus” é um Encantamento da Nova Era

“O Terceiro Jesus” consiste de três principais partes. A parte de abertura, “O Terceiro Jesus” apresenta o Cristo de Chopra e instiga os leitores a abandonar o Jesus encontrado na Bíblia e nos ensinamentos da Igreja. Nessa seção, com menos de cinqüenta páginas, que resume os pontos essenciais do entendimento de Chopra a respeito de Jesus. (Ele segue sem dizer que este “O Terceiro Jesus” não deveria ser confundido com a “A Terceira Busca”, que reflete algumas das melhores compreensões do Novo Testamento das poucas décadas passadas.)

Se há alguma coisa com que esse livro não deveria ser confundido é com uma boa compreensão do Novo Testamento. (Ou qualquer coisa que possa se chamar de boa compreensão). A segunda parte, “O Evangelho da Iluminação” interpreta vários dizeres de Jesus, incluindo alguns do Gnóstico “Evangelho de São Tomé” e conclui com a seção intitulada “Quem é o Jesus Real?”. A parte final, “Tomando Jesus como Seu Mestre: Um Guia para os que Buscam”, oferece quinze passos para a “consciência divina” e finaliza com um ataque desmoralizador aos Cristãos ortodoxos – “fundamentalistas”, na avaliação simplista de Chopra – intitulada, “O Que Jesus Faria?”

Chopra começa dizendo que Jesus deixou um “enigma” que “dois mil anos de adoração não resolveu”. O enigma: “Porque os ensinamentos de Jesus são impossíveis de viver?”. Para Chopra, o Cristianismo tradicional e ortodoxo não somente falhou em ajudar as pessoas a seguirem Cristo; ele criou um falso Cristo que mantém as verdadeiras intenções de Jesus escondidas. O que Jesus realmente intencionava, nos é dito, era “uma visão completamente nova da natureza humana, e a menos que você se transforme, você interpreta mal o que ele tinha para dizer… Ele queria inspirar um mundo renascido em Deus” (2) [2]

Há um sentido, claro, o qual Jesus realmente tinha em mente de um novo entendimento da natureza humana, mas ele não flui da auto-transformação do homem, mas de uma transformação trabalhada por Deus através de Jesus Cristo, no poder do Espírito Santo. Mas Chopra insiste que o homem pode se salvar se ele apenas reconhecer o que fez Jesus se destacar na multidão: “O que fez de Jesus o Filho de Deus foi o fato que ele realizou a consciência Divina” (3-4). E, algumas páginas depois, no que é claramente uma petição de princípio (enfatizada por itálicos): “Jesus pretendeu salvar o mundo mostrando aos outros o caminho para a consciência Divina.” (10).[3]

Para melhor apreciar o que isso significa, nós precisamos voltar e considerar as três versões de Jesus descritas por Chopra – duas falsas e uma verdadeira, ele afirma. O primeiro Jesus “é histórico e nós sabemos quase nada sobre ele” (8). Chopra emprega contradições em esforçar-se para anular esse Jesus. “O primeiro Jesus foi um rabi que vagou pelas praias do norte da Galiléia há muitos séculos atrás. Este Jesus ainda se sente perto o suficiente para tocar.” E ainda, enquanto ele parece tão perto e conhecido, ele é completamente desconhecido. Porque? “Este Jesus histórico, entretanto foi perdido, varrido pela história” (8)

Você certamente irá se perguntar: O que isso significa? Significa alguma coisa? (Na maioria dos casos a resposta é simplesmente: “Não, não significa”). Aparentemente pretendeu ser vigoroso e devastador, mas na verdade soa como alguma coisa que um calouro no colegial pode escrever num ensaio de mil palavras intitulado: “O que aprendi do Código da Vinci Neste Verão”. Admitimos, o comentário de Chopra sobre história é absurdo, mas também é significativo: absurdo, uma vez que ele não tem nenhum sentido (imaginem alguém escrever, “O Julio César histórico, Ricardo Coração de Leão e George Washington, entretanto se perderam, varridos da história”); significativo, porque ele dá o tom para todo o livro, o qual transborda com essas pieguices non sequiturs.

Não que Chopra seja consistente sobre esse ponto. Longe disso. Duzentas páginas mais a frente os leitores são informados, “a história pode obscurecer a biografia de Jesus, mas ela não pode extinguir a luz.” (217). Assim, qual é que é, Ele foi varrido ou meramente obscurecido?[4] O argumento de Chopra – usando o termo com deliberada desenvoltura – é que “o primeiro Jesus é menos do que consistente, como uma leitura mais de perto dos Evangelhos vai mostrar” (8). Ele das duas uma, não está ciente ou parou de considerar o fato que os Cristãos têm a muito tempo lutado com as “desconcertantes contradições” personificadas por Jesus, e concluíram (colocando de forma simples para ser breve) que se nós pudéssemos entender tudo sobre Jesus, isto fortemente sugeriria que ele não foi divino afinal. Além disso, entretanto “consistência” não seja uma preocupação de Chopra.

A falta de interesse de Chopra por muitos dos escritos de teólogos e estudiosos Cristãos está  de fato aparente na sua desconsideração pelo “segundo Jesus”, que é “o Jesus construído ao longo de milhares de anos pelos teólogos e outros estudiosos.” Este Jesus, Chopra categoricamente diz que: “nunca existiu” e “nem mesmo reinvidica a fugaz substância do primeiro Jesus” (9). Neste ponto Chopra nos fornece um toque cômico, dizendo que esse suposto não-existente Jesus criado pela Igreja “é o Espírito Santo, o Cristo Três em Um, a fonte dos sacramentos e orações que eram desconhecidas para o rabi Jesus quando ele caminhou sobre a Terra.”(9). Algumas questões vem imediatamente à mente: Se o Jesus histórico foi “varrido pela história” (a apenas três parágrafos atrás), como podemos saber o que foi conhecido ou desconhecido para ele? Onde a Igreja Católica ensina que Jesus é o Espírito Santo? O que Chopra quer dizer com “O Cristo Três-em-Um”? Ele está se referindo a Trindade? Ele leu pelo menos um manual básico de teologia Cristã? Considerando que os únicos pensadores Cristãos pós apostólicos citados no seu livo são Dante (de passagem) e Kierkegaard (uma breve menção de um isso ou aquilo), eu aposto em : “Não. Nunca. Absolutamente que não”.

Em meras nove páginas adentro de seu belamente desenhado volume Chopra faz alguns argumentos inadvertidos, mas fortes para merecer o prêmio de “O Fundamentalista da Nova Era do Ano”. Fundamentalismo, como tem sido geralmente descrito (para o bem ou mal), é caracterizado por uma visão de mundo simplista, um arrogante senso de superioridade moral ou auto-retidão, uma recusa de tomar seriamente outros pontos de vista, um desprezo pela compreensão e matiz de pensamento, um relacionamento seletivo e muitas vezes tênue com a razão, cronologicamente pretensioso, e de desprezo pela Igreja Católica. Todas essas qualidades estão presente, transbordando em abundância. Eu vou destacar apenas duas aqui.

Primeiro Chopra desdenhosamente lança fora a Teologia e a Metafísica. “A Teologia muda com a maré dos assuntos humanos. A Metafísica por si só é tão complexa que contradiz a simplicidade das palavras de Jesus”. No mundo de Chopra, a teologia desconcertante e a complexa metafísica são, por incrível que pareça, usadas por intelectuais retardados, fundamentalistas cristãos promotores do ódio e que são incapazes de entender conceitos complicados como a Regra de Ouro, o antropomorfismo, a separação entre Igreja e Estado, e o gênio infalível de Deepak Chopra. (Em “Tentando  Encontrar `o Verdadeiro Jesus´”, Chopra mais tarde garante aos leitores que “é basicamente um esforço fundamentalista”(139), o que certamente deve ser divertido para estudiosos do Novo Testamento do mais alto nível tais como N. T. Wright, Richard Bauckham, Craig Blomberg, Craig Evans e inúmeros outros)

Mas eu estou sinceramente convencido que mesmo a pessoa mais rústica e inculturada com a Bíblia reconheceria que você não pode exaltar “a simplicidade das palavras de Jesus” e então, meio livro depois, dizer “Qualquer um pode inventar uma nova interpretação do Novo Testamento. Infelizmente , este grande texto é ambíguo e confuso o suficiente para apoiar quase qualquer tese a respeito de seu significado”(139).

A razão para Chopra desdenhar a Teologia – da palavra graga theos (Deus) e logia (discurso ou discussão) parece simples o suficiente: ele não gosta de pensar logicamente a respeito de Deus – ou pelo menos o Deus pessoal dos Judeus e Cristãos. E quando Chopra encontra um argumento ou posição que ele discorda, ele simplesmente a desconsidera: “Teologia é arbitrária; ela pode contar qualquer estória que ela quiser, encontrar qualquer significado escondido” (136). As próprias arbitrariedades do método e descobertas de Chopra são aparentemente isentas de qualquer criticismo.  

Uma outra marca notável do fundamentalismo de Chopra é seu desdém pela Igreja Católica, e especialmente pela autoridade da Igreja – um desprezo que assume decididamente um sabor de anti-Católico. (Chopra, isso deve ressaltado, passou parte de sua infância freqüentando uma escola Católica, e ele dedicou o livro “aos irmãos irlandeses Cristãos na Índia que me apresentaram Jesus…”) Assim o segundo Jesus – descrito como “uma criação teológica abstrata” – “nos conduz para dentro de uma região deserta sem um caminho claro de saída”(9). O Cristianismo é marcado pela divisão e sectarismo, argumentos sem fim, e um doentio apetite pela autoridade: “mas pode qualquer autoridade, não importando o quão nobre seja, realmente nos informar a respeito do que Jesus teria pensado?” Meu palpite mais fundamentalista é que o bom doutor não está se referindo à autoridade local da Primeira Comunidade Não-Denominacional, ou mesmo da Igreja Luterana Emmanuel, mas sim da Igreja Católica. E ainda assim esse comentário é seguido por mais de duzentas páginas que declaram, num tom autoritário e algumas vezes exaltado, o que Jesus de fato pensou, teria pensado, e deve ter pensado a respeito de uma vastidão de assuntos. Dessa forma, sim, eu acredito que alguma autoridade auto enaltecida, que atende pelo nome de Deepak Chopra, tenta fazer o impensável. (Um alerta estraga prazer: ele falha miseravelmente. Mas, como eu tomo as dores para indicar isso, digo que a capa é lindamente desenhada)

Jesus e a “Consciência Divina”

O que nos leva, finalmente, ao Terceiro Jesus, ou o “Cristo de Chopra”. Este é o Jesus que “ensinou seus discípulos como alcançar a consciência Divina”. Este Jesus foi o “salvador”, mas “não o salvador, não o único filho de Deus. Ao contrário, Jesus incorporou o mais alto nível de iluminação…Jesus pretendeu salvar o mundo mostrando aos outros o caminho para a consciência Divina”(10). Então, tendo já alegado que o Jesus histórico não pode ser conhecido e que o segundo Jesus é uma sórdida mentira, Chopra oferece uma trégua não convincente: “Tal leitura no Novo Testamento não diminui os dois primeiros Jesus(es). Ao contrário, eles são trazidos para um foco mais preciso. No lugar da história perdida e da história complexa, o terceiro Jesus oferece um relacionamento direto que é pessoal e presente.”(10). Mas se o Jesus histórico não pode ser conhecido e o Jesus da doutrina e teologia é uma fabricação, como que eles podem ser “trazidos para um foco mais preciso”?

E sob que evidência Chopra constrói seu retrato de Jesus? Como apontado, Chopra não revela muito a respeito das fontes que usou, mas eu suspeito que elas tenham sido uma combinação de trabalhos de Workshops sobre Jesus, textos de feministas radicais, tomos neo-Gnósticos, e as buscas no Google para exortações tais como “Cristãos fundamentalistas homofóbicos” e “Cristãos zelotes fundamentalistas”. Qualquer que tenha sido as fontes de Chopra (não há uma nota de roda-pé nem bibliografia sequer), elas aparentemente não são muito interessadas no contexto do primeiro século no qual os Evangelhos foram escritos, especialmente o contexto judeu, o qual qualquer e todos estudiosos bíblicos de qualquer importância reconhece como essencial. Ainda, à parte de ocasionalmente mencionar os conflitos de Jesus com vários líderes religiosos e alguns comentários sobre os quarenta dias de Jesus no deserto, sobre o caráter Judaico explícito dos Evangelhos e da Bíblia, na sua maior parte não se perde tempo. Chopra simplesmente assume que grande parte do Novo Testamento é historicamente impreciso, escrito por discípulos de Jesus que ansiosamente distorceram e manipularam suas principais palavras para seus próprios propósitos. Claro que nenhuma evidência é fornecida para essa importante suposição: nenhum argumento é dado, nenhum estudioso é citado, nenhum esforço é feito para mostrar como e porque Chopra aceita um verso como autêntico enquanto desconsidera outros como de alguma forma distorcidos ou corrompidos para fins ideológicos e dogmáticos. Chame isso de uma variedade de baixo nível da “hermenêutica da suspeita”. Ou chame a de conveniente, auto-satisfatória, desonesta. Qualquer uma serve.

Em acréscimo ao seu estranho argumento de que os Cristãos acreditam que Jesus é o Espírito Santo, Chopra comete outro erro clamoroso. Por exemplo, “Jesus chama a si mesmo de o Novo Adão”(15). Não, ele não chama. De fato, o único uso de “Adão” nos Evangelhos está na genealogia de São Lucas. O termo “Novo Adão” não aparece no Novo Testamento; ao contrário, São Paulo compara o “último Adão”(Jesus) ao “primeiro homem, Adão” (1 Cor 15:45). Sim, Jesus é entendido como sendo o Novo Adão (veja Catecismo da Igreja Católica, par. 504, 505, 539), mas os Evangelhos não registram Jesus se referindo a si mesmo dessa forma.

Citando João 8 (“Eu sou a luz do mundo…”), Chopra tenta fornecer o contexto de que: “Jesus tinha entrado em Jerusalém pela última vez. Dentro de algumas horas ele seria preso pelos Romanos…”(22). Errado. Aquilo foi ainda algum tempo depois, pois a Festa da Dedicação ainda tinha que acontecer (Jo 10:22-42), assim como ressuscitar Lázaro (Jo 11), a entrada triunfal em Jerusalém (Jo 12:12-19), e a öltima Ceia (Jo 13-17).

Chopra alega que “Jesus expressou objeção contra a lei..” (23). Errado. Jesus exaltou a Lei – foi o uso errado e o abuso da Lei que o desagradou. Ele disse,: “Não penseis que Eu vim para abolir a Lei e os profetas; Eu vim não para aboli-los mas para cumpri-los. Verdadeiramente Eu vos digo, até que passem o céu e a terra, nem um só jota será tirado da Lei até que tudo se cumpra.”(Mt 5:17-18). E Jesus, insiste Chopra, “não dramatizou o Fim dos Dias”, o que vem como uma surpresa para aqueles familiarizados com Mateus 24 e 25, Marcos 13 e Lucas 21. Ele descreve o pré-Cristão Paulo como um “cético mundano”, o que contradiz diretamente o testemunho claro de Paulo sobre sua lealdade zelosa ao Judaísmo (Atos 26:4 ss, Filp 3:4 ss).

Mais importante, Chopra tem pouco ou nenhum interesse no que os Cristãos sempre entenderam ser o coração dos Evangelhos: A Paixão, Morte e Ressurreição de Jesus Cristo. Ele faz o estranho comentário que “com a ressurreição o homem de carne e sangue foi transformado numa substância completamente divina – o Espírito Santo”(136), e conclui que os primeiros Cristãos, desesperados para ter Jesus de volta com eles, criaram a crença na Ressurreição (179). Do contrário, nada. Há muita falação sobre Jesus apontando o homem na direção do “divino” e da “consciência divina”, mas é invariavelmente efêmero e vago. Ler Chopra tentando explicar a natureza da vida e obra de seu Jesus é como assistir um louco atirando no nevoeiro com uma pistola. Ele alega ter acertado o alvo todas as vezes, mas o nevoeiro permanece e nada de fato aconteceu, mesmo enquanto a auto-confiança do atirador cresce a cada disparo.

O Cristo de Chopra desconsidera o mundo material. Ele não tem nada a ver com a Cristandade ou a Igreja, ou com o Deus dos Judeus e dos Cristãos. Ele não tem nenhum interesse na fé, preocupado apenas com a iluminação e em um estado mais elevado de consciência. “Uma vez que vejamos Jesus como um mestre da iluminação, a fé muda seu foco. Você não precisa ter fé no Messias ou na sua missão. Ao contrário, você tem fé na visão de uma consciência mais elevada” (62). Este Jesus não nos pede para acreditarmos nele, mas para buscarmos “sua essência, que é a luz da pura consciência” (63). A inteligência Divina, o atirador louco opina, “se manifesta onde quer que possamos imaginar” (65). Talvez toda essa bobagem seja melhor resumida numa declaração encontrada no áudio tape de Chopra “Mente Sã, Corpo Sadio”: “Dentro de cada pessoa há um deus em embrião. Ele só tem um desejo. Ele quer nascer.”


Chopra diz que ele não é Gnóstico, mas há muito mais sobre o seu Cristo que se mantém fiel com o antigo Gnosticismo, e ele favoravelmente cita textos Gnósticos em várias partes. Porém , mais do que Gnósticas, as crenças de Chopra – embora inconsistentes e auto-contraditórias – são panteístas. Este é o monismo para as massas, onde o panteísmo e o tele-evangelismo se encontram e se tornam um: O pan-evangelismo. E o que é ensinado não é apenas diferente dos ensinamentos do Jesus real e de Sua Igreja, mas é deliberadamente o oposto deles. Focalizar em Jesus e em nossa resposta a Ele, diz Chopra, é perder o objetivo. Quando alguém atinge a consciência-Divina “a plenitude prevalece. Não há mais indo para ou vindo de Deus, vindo para ou se afastando de Deus. A experiência de Deus se torna uma constante por uma razão somente:“Eu” e “Deus” nos tornamos um e a mesma coisa.” (212). Jesus pode ser um bom exemplo, mas Ele não é o objetivo: “Mas Jesus é mesma coisa que você e eu e não seremos como ele uma vez que chegarmos à consciência-Divina” (213)

O (Anti)Cristo da Nova Era.

No final (e no começo e no meio também) o Cristo de Chopra não tem nada a ver com o Jesus descrito pelos Evangelhos, confessado nos ensinamentos da Igreja, e testemunhado pelos místicos e Santos. A despeito de ensinar de modos diferentes, para diferentes grupos, sobre o mesmo assunto, Chopra claramente apresenta seu Jesus como o Jesus real: único, novo e redescoberto depois de séculos de escuridão e opressão por parte da Igreja. Mesmo assim esse Jesus é dificilmente único ou novo; ele é na verdade idêntico ou quase idêntico a uma multidão de Cristos da Nova Era que têm sido criados, re-criados, reencarnados e outras vezes regurgitados ao longo dos séculos por autores como Levi Dowling, Jose Silva, Edgar Cayce, Richard Bach, Mattew Fox e muitos outros.

Em seu livro de 1996, “Em Busca do Jesus Verdadeiro numa Era de Controvérsias” (Eugene, OR: Harvest House), o apologista Evangélico e filósofo Dr. Douglas Groothuis delineou vários traços comuns do Jesus da Nova Era [5]. Todos eles são encontrados no livro de Chopra, incluindo:

“Jesus é espiritualmente avançado sendo aquele que nos fornece um exemplo para realizarmos nossa própria “evolução espiritual”. Ele é frequentemente comparado com, ou posto ao lado, de Buda”. Assim, Chopra insiste, “o Cristão que procura e que quer alcançar Deus não é diferente de um Budista. Ambos são direcionados para dentro de suas próprias consciências.” (87) [6]

Como temos visto, o Jesus histórico “está separado do Cristo universal, impessoal e eterno ou Consciência Crística, a qual Jesus incorporou, mas não monopolizou.” E o entendimento ortodoxo Cristão de um Jesus como o Verbo Encarnado e único Filho de Deus é “desprezado como ilegítimo” uma vez que isso “é visto como muito limitado e provincial”. Ou, nas palavras de Chopra: “Claramente Jesus não tinha uma visão provincial de si mesmo. Embora sendo um Judeu e rabi (ou Mestre), ele via a si mesmo em termos universais” (20)

A morte de Jesus na Cruz e Sua ressurreição são de pouca ou nenhuma importância. Assim, uma significante parte dos Evangelhos (quase um quarto dos textos) é simplesmente ignorada ou desprezada como sem importância.

A segunda vinda de Jesus não é literal, um evento visível ao final dos tempos, mas “um estágio no avanço evolucionário da raça…” Como Chopra diz, “A Segunda Vinda será uma mudança na consciência que renova a natureza humana elevando a ao nível do Divino” (40)

Documentos extrabíblicos, especialmente textos Gnósticos, são usados e considerados como fontes autênticas para a vida de Jesus. Enquanto que os Evangelhos são citados seletivamente e frequentemente “corrigidos” por outras fontes. “Outros documentos podem ser tão antigos quanto os quatro evangelhos” Chopra escreve, “e, portanto fazerem suas próprias reivindicações por autenticidade”(133)

Às passagens bíblicas são dadas interpretações esotéricas que contradizem o entendimento ortodoxo assim como os fatos históricos. Chopra especialmente aprecia re-interpretar textos sobre “luz”, ignorando (como no Evangelho de João) o contexto da Festa das Luzes e a conexão feita no Evangelho de João com a Shekinah, Glória de Deus. O documento do Vaticano, “Jesus Cristo a Fonte da Água da Vida: Uma Reflexão Cristã sobre a Nova Era” publicado em 2003 pelo Concílio Pontifical para a Cultura e o Concílio Pontifical para o Diálogo Inter-religioso, compara o Cristo da Nova Era com o Jesus do Cristianismo e resume bem as diferenças:


Para os Cristãos, o Cristo cósmico real é aquele que está presente ativamente nos vários membros do seu corpo, o qual é a Igreja. Eles não olham para os poderes cósmicos impessoais, mas para o cuidado amoroso de um Deus pessoal; para eles o bio-centrismo cósmico tem que ser transposto para dentro de um conjunto de relacionamentos sociais (na Igreja); e eles não estão trancados dentro de um padrão cíclico de eventos cósmicos, mas foca no Jesus histórico, em particular na sua Crucificação e Ressurreição. Nós encontramos na Epístola aos Colossenses e no Novo Testamento uma doutrina de Deus diferente daquela implícita no pensamento da Nova Era: a concepção Cristã de Deus é Una numa Trindade de Pessoas que criaram a raça humana do desejo de compartilhar a comunhão da vida da Trindade com as criaturas humanas. Apropriadamente entendido, isto significa que espiritualidade autentica não é tanto nossa busca por Deus, mas a busca de Deus por nós (par 3.3)

Assim como muitos antes dele, Chopra não se interessa por história, fatos, ou lógica em apresentar sua versão de Jesus. Ele é completamente secundário e não original, a despeito de sua tentativa de parecer o contrário.

Algumas Críticas aos Cristãos Fora de Moda da Nova Era.

Qualquer leitor honesto – incluindo os não Cristãos – devem ver, espero, que Chopra gosta de agradar gregos e troianos. Por exemplo, ao discutir como as palavras de Jesus deveriam ser interpretadas, Chopra reflete: “O truque, de fato, é tomar Jesus literalmente. Depois de séculos de teologia, nossas mentes encontram dificuldades para considerá-lo sem as armadilhas do Messias”(25). Porém mais tarde ele reclama: “Todo mundo está ciente que um senso de literalismo tomou conta do Cristianismo… Nós precisamos tomar cuidado especial, portanto, em mostrar porque o literalismo se apóia em terreno duvidoso.” (131)

Como discutido antes, Chopra desconsidera a teologia Cristã e a metafísica, dizendo que os Cristãos “argumentam sem fim sobre” tais assuntos (9). Uns poucos capítulos a frente, no entanto, ele alega que “a Igreja passou muito dos últimos mil anos sem necessidade de argumentar qualquer fato” (131). Ele não aprecia que tudo da teologia que ele desmioladamente atira fora pela janela contêm uma abundância de argumentos sobre os fatos: De uma maneira relacionada, ele denuncia a “criação teológica abstrata”(9) do segundo Jesus – que é, o Jesus da doutrina e teologia Cristã – mas, duzentas páginas a frente, denuncia os Cristãos de fazerem o contrário: “O Cristianismo tem feito todo o possível para humanizar Jesus, porque nós não podemos conceber alguém tão completamente transcendente que mesmo nossas mais estimadas qualidades, como o amor e a compaixão, não atinjam o objetivo da sua realidade” (220)


Parece que os cristãos ortodoxos, aos olhos de Chopra, estão condenados de qualquer forma. Esta suspeita é verificada no capítulo final do livro, “O que Jesus Faria?” o qual nada mais é que um discurso longo e raivoso contra o Cristianismo tradicional, o tipo de discurso bombástico que deixaria Christopher Hitchens ou Sam Harris orgulhosos. Os Cristãos (“fundamentalistas”), rosna Chopra, alegam ter amor, mas são crescentemente repletos de ódio: “O que é pregado é a tolerância farisaica.”(220). Ele aponta como que “escolas de Direito, Cristãs” estão (gasp!) treinando advogados Cristãos (o horror!), muitos dos quais vão para dentro do governo (diga que não!). “Alguém disse a eles que a Palavra de Deus (isto é a Bíblia), é explicitamente livre de amarras num estado secular?”. Pergunta ele freneticamente, “ou que Deus tem outras faces além da Cristã?” (221). Estes Cristãos são acusados de estarem envolvidos em “ataques à gays” e “ataques violentos à clínicas de aborto”. Estas “forças reacionárias” de mente estreita repletas de “zelo fundamentalista” estão fazendo assim porque eles “recuaram para a tradição medieval do Imitatio Christi, adorando Cristo imitando-O”(222). É isso mesmo: as forças malignas dos Cristãos fundamentalistas estão enraizadas na busca pelas pessoas em adorar e imitar Jesus.”

Chopra também deprecia como “a Igreja Católica tem feito adições às Escrituras desde o começo, e o significado literal do Novo Testamento forma somente o núcleo da crença. Um bando de santos, concílios da Igreja, teólogos e papas alteraram os ensinamentos de Jesus enquanto adotavam sua autoridade”(223). Então vem o que é certamente a mais bizarra e irracional passagem de “O Terceiro Jesus” (o que é uma bela façanha):


“Alegar que Jesus condenaria o aborto significa que alguém escolheu um Jesus muito específico, o rabi ortodoxo que alerta seus discípulos que eles devem obedecer as leis de Moisés. Tal Jesus certamente existe, e uma vez que o Velho Testamento condena o aborto isto permite aos pró-vida contornar um problema significativo: Jesus mesmo não menciona o aborto”. (223)

Pegou? Uma vez que Jesus não falou sobre aborto e outros assuntos, tais como contraceptivos e homossexualidade, Chopra acha que é errado os Cristãos se oporem a isso. Mas se Jesus não fala nada sobre eles, como pode Chopra deduzir que Jesus os apoiaria? Isto não é nada mais que um “argumento” de uma arrogância completa, ao mesmo tempo Chopra não só fica chateado que alguns Cristãos pensem que Jesus é contrário a estas coisas, mas com aqueles Cristãos que são contrários as crenças de Chopra sobre essas coisas.

E fica ainda pior, ao passo que Chopra coloca o “Jesus preciso” contra o “Jesus místico”, usando qualificativos historicamente questionáveis e completamente subjetivos que meramente refletem as crenças de Chopra, a qual por sua vez são baseadas somente na sua própria autoridade. De que maneira isso é mais convincente do que dois mil anos de ensinamentos da Igreja? Ele iguala os homossexuais com o homem salvo pelo bom samaritano, alegando que eles são uma “classe desprezada” de pessoas, como se rejeitar a suposta bondade dos atos homossexuais fosse o mesmo que roubar e espancar um homem inocente. Cristãos conservadores são denunciados por tratar as mulheres como “membros de segunda classe da Igreja, se não pior” (225). São Paulo é retratado como um tolo misógino. E Chopra sugere que a devoção da Igreja à Maria não só é sem fundamento, mas hipócrita, uma vez que mulheres não podem ser ordenadas sacerdotisas.

Retornando aos estudantes Cristãos de Direito que ele tinha insultado antes, Chopra tem a audácia moral mal desenvolvida de compará-los ao jihadistas e homens bombas! Qual o ponto comum entre advogados Cristãos que obedecem a lei e muçulmanos radicais que matam gente inocente: Acreditar na verdade: “Verdade absoluta é verdade cega.” (229). Ouso perguntar: É essa assertiva absolutamente verdade? Por que se for, é uma verdade cega. E se não for, então não é verdade. E por ai vai. Posto de forma simples, a arrogância de Chopra só é páreo para sua atordoante e vulgar falta de lógica. E hipocrisia: “A questão não é julgar a religião correta. Não somente tal comportamento não seria edificante, seria totalmente contra-produtivo como estratégia” (232)

A Estrada para o Narcisismo Espiritual

Uma mensagem essencial de “O Terceiro Jesus” é o desgastado, mas popular mantra: espiritualidade é bom, religião é má (como em “Eu sou espiritualista, não religioso!”). Precisamos, Chopra exorta os leitores, descartar “o modelo de religião. Congregar-se no caminho não é o mesmo que formar um secto. Não há nenhuma necessidade para dogma, oração, ritual, sacerdotes ou escritura oficial. Ninguém é para ser elevado acima dos outros”(171). Mas se o Terceiro Jesus (e muitos outros livros de Chopra) é alguma coisa, é um livro dogmático, um tipo de escritura que provê rituais e meditação. Chopra é um tipo de sacerdote, o líder espiritual que provê ensinamento, guia, afirmação. Seu website proeminentemente exibe a descrição dada à ele pela revista TIME: “o poeta-profeta da medicina alternativa.” Ele se tornou um milionário vendendo livros e fitas, dando palestras pelo mundo e operando o Centro Chopra de Bem-estar em Carlsbad, Califórnia, assim como outros centros.

James A Herrick, em seu excelente estudo, “A Criação da Nova Espiritualidade” (InterVarsity Press, 2003), escreve sobre como a Nova Síntese Religiosa (seu termo para movimentos da Nova Era e sistemas de crenças relacionados) liquida a história para abrir o caminho para o “insight religioso”. As crenças religiosas são separadas dos eventos históricos e o foco se torna o íntimo. Nesse contexto, a porta está aberta para a mística ao seu próprio estilo, o charlatão espiritual, o expert religioso ou apenas o próximo auto-iludido, cada um operando num reino de interpretação pessoal de ilusórias evidências largamente inacessíveis aos seus seguidores ou a qualquer um que fosse crítico…Shamans, gurus, estudiosos de religião e mesmo cientistas de laboratório agora intervêm entre o público e o divino como uma nova classe de sacerdotes. Claramente, um movimento longe da história não tem servido para democratizar a espiritualidade. Antes o contrário é o que tem ocorrido.

Sob a Nova Síntese Religiosa uma relação assimétrica se desenvolve entre os poucos agraciados com acesso ilimitado à verdade espiritual e os muitos dependentes incapazes de avaliar aquela verdade. [7]
Chopra é um desses gurus, e ele com certeza alcançou um status elevado, não baseado na razão, mas nas interpretações pessoais que ele descreve como “espiritualidade secular”, a qual é, na verdade, uma religião: a adoração e a divinização do Eu. Herrick, mais tarde ponderando a tensão entre aqueles que acreditam num Deus pessoal e Jesus Cristo e aqueles que aderem a uma Unicidade impessoal e a necessidade de alcançar uma forma mais elevada de “consciência”, escreve sobre essa espiritualidade de auto-obsessão:

“A Nova Síntese Religiosa nos chama para a auto-adoração como espiritualidade, para a exaltação de nossa própria auto-consciência racional – “a divindade operando dentro de nós”… – como um ato de adoração. A Outra Jornada da Espiritualidade longe da submissão a uma Divindade pessoal e suprema, longe da responsabilidade moral perante um Deus Criador, longe da comunidade construída sobre a adoração do Transcendente, chega ao destino nada mais interessante do que o narcisismo espiritual.” [8]

“Narcisismo Espiritual” é uma perfeita descrição para “O Terceiro Jesus”. O livro de Chopra é apenas superficialmente sobre Jesus; de fato, ele raramente faz qualquer esforço para encontrar o Jesus verdadeiro, tendo descartado – sem prover qualquer razão vital – o Jesus “histórico” e o Jesus da doutrina e teologia. Pelo contrário, este livro é um exercício de olhar para o umbigo numa auto-absorção pseudomística, o tipo de livro cuja bela capa disfarça um trabalho irreal e vazio que é confuso, insípido e espiritualmente tóxico.  

[1] Um completo tratamento das crenças da Nova Era e do panteísmo monismo oriental não é, por motivos óbvios, possível aqui. Uma execelente introdução popular pode ser encontrada em “O Universo ao Lado” (InterVarsity Press, 1988, 2ª edição, especialmente nas páginas 136-208), de James W Sire. Sire aponta que enquanto o monismo Hindu tradicional enfatiza a unidade de um Deus impessoal (“Atman is Brahman”), as crenças da Nova Era geralmente dão grande ênfase ao indivíduo,  acreditando até mesmo numa unidade panteísta impessoal.

[2] Um excelente exame Católico do movimento da Nova Era é o documento do Vaticano, “Jesus Cristo a Fonte da Água da Vida: Uma Reflexão Cristã sobre a Nova Era, publicado em 2003 pelo Concílio Pontifical pela Cultura e o Concílio Pontifical pelo Diálogo Inter-religioso.

[3] “A experiência íntima da Nova Era é a consciência cósmica, na qual simples categorias de espaço, tempo e moralidade tendem a desaparecer” (Sire, 176)

[4] “Além disso, como no Oriente, o pensamento da Nova Era rejeita a razão (o que Andrew Weil chama de “pensamento reto”) como guia da realidade. O mundo é realmente irracional ou super-racional, e exige novos modos de apreciação…” (Sire, 166)

[5] Esta seção é baseada nas páginas 64-76 do livro de Groothuis.

[6] A cem anos atrás, G.K. Chesterton escreveu o seguinte a respeito do Budismo em “Ortodoxia”, “O Budismo é centrípeto, mas o Cristianismo é centrífugo: ele se expande” e “O budista está olhando com intenção peculiar para dentro. O Cristão está olhando com intenção frenética para fora.” Também veja, “Catolicismo e Budsimo”, por Anthony E. Clark e Carl E Olson (Ignatius Insight, 2005), e Sonhos Budistas e Esquemas Espiritualistas” e uma entrevista com o Dr. John B Buescher (Ignatius Insight, April 1, 2008)

[7] Herrick, 256

[8] Herrick, 259.
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Carl E. Olson is the editor de IgnatiusInsight.com

Ele é co-autor de “A Farsa do Código da Vince: Expondo os Erros do Código da Vince” e autor de “Serão os Católicos ´Deixados para Trás´”? Ele escreve para numerosos periódicos Católicos e é um colaborador regular para o Registro Nacional de Católicos e o jornal “Nosso Visitante do Domingo”. Ele tem Mestrado em Estudos Teológicos pela Universidade de Dallas.
 

Muito prezado  Sergio,
Salve Maria.
 
Agradeço por seu trabalho em traduzir este texto. Seria interessante se você pudesse fazer também outros comentários sobre este texto.
 
In Corde Jesu, semper,
Orlando Fedeli

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