Montfort Associação Cultural

8 de janeiro de 2013

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O brasão episcopal de Dom Gaenswein

Artigo de  Andrea Gagliarducci,

Publicado em Korazym,

Tradução Montfort

Comentário Lucia Zucchi

Não partilhamos o entusiasmo da mídia diante de Dom Georg Gaenswein, digno de um fan-club de celebridade. Se ele não teve responsabilidade no caso Vatileaks, o certo é que foi inteiramente enganado pelo mordomo Paolo Gabrieli, que confessou agir na mesa ao lado e em presença do Secretário Pontifício… No final do caso, foi “punido” seu superior, James Michael Harvey, o Prefeito da Casa Pontifícia, bem à moda vaticana, com a promoção a Cardeal e nomeação para São Paulo fora dos Muros. E Dom Georg foi promovido, recebendo a dignidade de Arcebispo e a função de Prefeito da Casa Pontifícia, mantendo ainda o fundamental ofício de secretário particular do Santo Padre. “Dize-me quem te aprecia e eu te direi quem és”, a antipatia do clero alemão pesa a favor dele, a amizade com o Prefeito da Doutrina da Fé, Dom Muller, pesa contra. Enfim, a escolha do brasão e do lema mostram um programa muito interessante, que quisemos apontar para nossos leitores. 

Será um futuro no signo de Bento XVI, o de Dom Georg Gaenswein? Sim, a julgar pela escolha do brasão episcopal do secretário particular de Sua Santidade, que amanhã será ordenado bispo. O brasão de armas é dividido em duas partes: à esquerda, a reprodução exata do brasão de armas do Papa Bento XVI – a concha de Santo Agostinho, o urso de São Corbiniano e o mouro coroado do brasão de  armas dos bispos de Freising, que para Ratzinger era uma expressão da  universalidade da Igreja; na direita o dragão em campo azul com a estrela. O campo azul com a Estrela de Belém é uma clara referência a Maria. O dragão é usado na heráldica para representar fidelidade, vigilância e valor militar. Mas na heráldica eclesiástica lembra o dragão contra quem lutou São Jorge [padroeiro do novo bispo]. O dragão cospe fogo contra a “casa” do Papa, mas é trespassado por uma lança que vem da estrela de Belém. O lema é “Testimonium perhibere veritati”, “Para dar testemunho da verdade” [tirado de São João, 18, 37, que traz a resposta de Nosso Senhor a Pilatos].  Tudo, em suma, sugere que Gaenswein quer dar a seu ministério episcopal a marca de Bento XVI. A imagem que sai do brasão e do lema é aquela de um colaborador fiel, leal e alerta. Não só isso, apresenta-se como um defensor do Papa constantemente sob ataque nos últimos anos.

Ele faz isso usando um privilégio heráldico de que gozam os prefeitos da Casa Pontifícia, ou seja de “enquartar” (ou seja, dividir o escudo do brasão de armas em quartos) em seu escudo o brasão de armas do Papa reinante. Tinha feito o mesmo  seu imediato predecessor James Michael Harvey – que agora que se tornou Cardeal Arcipreste da Basílica de São Paulo Fora dos Muros, tirou o brasão do Papa João Paulo II de seu brasão episcopal – mas não o tinha feito nem mesmo Stanislaw Dziwisz, o histórico secretário de João Paulo II (que entretanto era Prefeito adjunto). Fe-lo, no entanto, Dino Monduzzi, que havia precedido Harvey como Prefeito da Casa Pontifícia: o brasão de armas do Papa João Paulo II era “enquartado” em seu brasão episcopal.

Com sua escolha heráldica, Gaenswein se apresenta em contraste com muito do que foi escrito e dito sobre ele durante o escândalo do Vatileaks. Escândalo de que Don George (como se faz chamar, em Roma) saiu mais forte do que antes, com a promoção a arcebispo e nomeado Prefeito da Casa Pontifícia. Gaenswein é agora o único filtro para o acesso direto a Bento XVI. Isto apesar dos vários ataques que ocorreram contra ele, especialmente no ambiente alemão. É ainda mais significativo que o primeiro nome escolhido por Gaenswein para o abraço da paz, depois da ordenação seja o de Dom Robert Zoelltisch, presidente da Conferência Episcopal Alemã. Muitas vezes, no ambiente alemão mais “fiel” a Roma, Zoellitsch foi retratado como um bispo à mercê das correntes progressistas. Mas ele ainda é considerado – no ambiente alemão vaticano que circunda o Papa – um bispo fiel, cujo verdadeiro problema foi ter feito um salto de carreira maior do que ele. O fato de que ele seja chamado por Gaenswein para o abraço da paz também mostra a preocupação da parte do novo arcebispo, em manter boas relações com o clero alemão. Um clero para o qual Gaenswein nunca foi simpático. Talvez não seja coincidência que tenha sido principalmente da Alemanha que vieram os ataques mais fortes à figura do secretário do Papa, “promovido” a bispo da mídia alemã, pelo menos uma dúzia de vezes, sempre em diferentes dioceses da Alemanha, com a intenção de promover seu afastamento do Apartamento Pontifício.

Entre os bispos escolhidos para o abraço da paz, há também Gehrard Ludwig Mueller, prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, muito próximo do pensamento de Bento XVI [aí discute-se!], de quem está supervisionando as obras completas e de quem  herdou a casa na praça da Cidade Leonina. Uma presença que assinala ainda mais o desejo de manter fortes laços com o Papa. E, em seguida, Charles J. Brown, que se tornou núncio papal na Irlanda, após uma carreira não diplomática na Congregação para a Doutrina da Fé, uma nomeação que foi fortemente defendido pelo mesmo Gaenswein. Qual é o futuro da Gaenswein? A nomeação episcopal abre novos horizontes para ele. Seu papel na Fundação Joseph Ratzinger começa a se tornar fundamental. Para um bispo que nasce como defensor do Papa, que coisa melhor que defender-lhe ativamente o pensamento e fazer de modo que os estudos de Joseph Ratzinger se perpetuem, interpretados da maneira correta? Então, pode-se supor para Gaenswein um futuro como presidente da Fundação, impenhado com Mueller em publicar e re-editar as obras completas do Papa. Um trabalho que, no que diz respeito à tradução italiana, Mueller está fazendo em colaboração estreita e frutuosa com a Livraria Editora Vaticana. Por outro lado, o mesmo lema escolhido por Gaenswein lembra o de Bento XVI, “Cooperadores Veritatis”, “Cooperadores da Verdade”. Com seu “para dar testemunho da verdade”, ele quer significar de alguma forma a proximidade e lealdade para com o Papa “colaborador” da verdade.

Não só: a expressão foi usada pelo Papa Pio XII em sua primeira encíclica Pontificatus Summus, na qual ele escreveu: “De nada nos sentimos mais em dívida com Nosso Ofício e para com nosso tempo do que como de ‘prestar testemunho da verdade’“. O de Gaenswein, no entanto, não é um lema particularmente original. E é curioso notar que, antes que ele o tenha usado John Charles McQuaid, bispo de Dublin, que morreu em 1973, que havia sido acusado de abuso sexual (acusações que foram depois completamente desmentidas). E hoje o mesmo lema escolheu Piotr Jarecki, bispo auxiliar de Varsóvia, recentemente preso por dirigir em estado de embriaguez. Os precedentes não são de bom augúrio para o Secretário do Papa. Mas deve-se estar certo: com sua meticulosidade, precisão, fidelidade e amor ao Papa, Georg Gaenswein vai passar por cima dos maus presságios.

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