Montfort Associação Cultural

3 de fevereiro de 2010

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Notas da Igreja

Autor: Orlando Fedeli

  • Consulente: Irineu Tolentino
  • Localizaçao: Mogi das Cruzes – SP – Brasil
  • Escolaridade: Superior concluído
  • Profissão: Funcionário Público
  • Religião: Católica

Caro Professor Orlando Fidelis e demais membros da Monfort,

Há algum tempo venho visitando o “site” de vocês. É um prazer enorme o passeio pelas páginas. Vejo aí grande variedade de material de utilidade cultural e teológica indiscutíveis. Por conta disso, aprecio, com muito gosto, a apologética da Monfort e, bem assim, dos missivistas, que, embora muitas vezes contrários, têm o valor de estarem trilhando caminho rumo à verdade.

Elevado nível teológico vaza nos textos bem dispostos no “site”, e, juntamente com ele, um grau não menor de sinceridade, dedicação e fidelidade à fé católica (que muito aprecio, embora de forma singela, talvez por fraqueza intelectual ou por turbação das coisas mundanas, o que reconheço como uma falha minha).

 
A honestidade que sinto vazar nos textos da Monfort é expressiva. Como sinto sinceridade em vocês cabe-me também sê-lo. Alias, sempre nos cabe isso. Portanto, apenas como um contributo, um “feedback”, uma singela colaboração, escrevo a presente como uma crítica perfunctória, gratuita, sem qualquer pretensão de evidenciar erudição que não tenho me passando por quem não sou.

Sei que esta minha manifestação certamente é apenas mais uma dentre tantas outras que essa associação deve receber diariamente. Talvez igual a uma mensagem numa garrafa jogada ao mar que possivelmente não seja lida. Mas isso não tem importância. Assim como vocês escreveram farto material sem saber se eu ou outros o leriam, escrevo a presente sem saber se vocês a lerão, o que não constitui problema algum, pois Deus lê; já que tudo sabe, tudo ouve, tudo vê. Então, vamos às minhas impressões:

Independentemente da opinião contrária que muitos detratores da fé católica guardam, ou mesmo da singeleza com que crentes/evangélicos tentam refutá-la à base da repetição mecânica, verdadeiras deuteroses muitas vezes insinceras, não se pode olvidar que a apologética e a hermenêutica aplicadas pela Monfort são extremamente coerentes no seu conjunto. Há uma verdade intra-sistêmica nelas que qualquer pessoa com espírito imparcial, imbuída do propósito de examiná-las com sinceridade, em busca da verdade, seja pela fé ou pela razão, ou, melhor ainda, com ambas, não poderá negar evidente valor lógico-teológico.

É o que sinto, embora, registro, não tenho compromisso algum no que afirmo – salvo nas promessas que faço, seja para com Deus ou para com os homens. É que, creio, as opiniões científicas ou teológicas sempre devem se curvar à verdade. Isso não as prejudica e nem lhes é incoerente. O que contém verdade é para sempre, independentemente das opiniões de quem quer que seja.

Embora eu veja muita consonância entre o que a Monfort afirma e aquilo que eu acredito (de forma substancial aliás), há pontos que ainda não estou inteiramente convencido e, portanto, não estou tranqüilo para afirmar que a Monfort esteja certa. Por favor, quando me refiro ao pensamento da Monfort de forma genérica, faço-o propositadamente de forma genérica, pois não quero criticar quem o externou, apenas quero discutir as idéias.

Por exemplo: não consigo aceitar a idéia de que o Rock seja do diabo. Não estou com isso dizendo que a Monfort esteja errada, longe disso. Apenas, no plano das idéias, não sinto, nesse particular, a presença da verdade. Gosto de música sacra, MPB, música clássica, mas gosto também de rock. Por que quero dizer que não creio seja o rock musica do diabo? Apenas pelo fato de que a música é una. As subdivisões são apenas limites imaginários. Não dá para separar com precisão o que é rock e o que não é. Não há um divisor de águas para isso, ou estou enganado? É preciso, antes, examinar o conteúdo caso a caso, o gênero parece-me inofensivo e não raro encerra coisas boas e coisas ruins, como há músicas sacras e músicas clássicas ruins. A propósito, “Os detalhes fazem cessar qualquer classificação” (Alberto Alonso Muñoz, “Transformações na Teoria Geral do Direito”). Assim, examinando-se os detalhes de cada música nenhum sentido terá sua classificação.

Esse é um ponto. Outro – que a oportunidade me permite examinar – é a possibilidade de autonomia na busca da verdade. Realmente creio (e há na Bílblia) que Cristo nomeou Pedro como o primeiro chefe da Igreja Cristã, “A minha Igreja” como Ele. Mas, penso que não estava dizendo que seria a Igreja Católica, embora eu goste dela e procuro, na medida do possível, seguir seus ensinamentos. Ele não deu nome à Igreja, e, portanto, poderíamos dizer que a verdadeira igreja é o “Cristianismo”. Suponho que seja assim. Ainda não tenho uma opinião definitiva sobre isso. Mas, refutar o protestantismo (como disse, não sou protestante) sob o argumento de que seria uma tentativa de dissolver o Cristianismo apenas porque há uma infinidade de igrejas (ou seitas, como preferir, apenas para facilitar o entendimento) não me parece coerente. A própria Igreja Católica contém um enorme número de fragmentos e subdivisões extremamente distintos uns dos outros, embora todos “ligados” ao mesmo tronco (Opus Dei, Franciscanos, que gosto muito, etc).

Bom, de qualquer forma, não estou querendo infirmar de forma absoluta o entendimento da Monfort, estou apenas fazendo o papel de advogado do diabo, e, também, sendo sincero, posto que, como disse, ainda não estou convencido do contrário. É possível que eu me convença do contrário, que eu descubra o meu erro e compreenda o que a Monfort vem pregando nesse particular (que não há salvação fora da Igreja Católica), pois a Bíblia é farta em exemplos de exceções em que Cristo assistiu pessoas para as quais “não fora enviado”. O próprio Cristo cedeu a argumentos contrários e afirmou “Qualquer, pois, que violar um destes mandamentos, por menor que seja, e assim ensinar aos homens, será chamado o menor no reino dos céus; aquele, porém, que os cumprir e ensinar será chamado grande no reino dos céus.” (Mateus 5, 19). Qual de nós pode afirmar conhecer precisamente a vontade de Deus? Assim, embora muitos pastores têm reputação duvidosa e desejam mais o dinheiro que ganham explorando a fé alheia do que as bênçãos de Deus, há evangélicos e pessoas de outras religiões, realmente honestas e que desejam o bem. Elas até podem estar erradas nas conclusões a que chegam, mas qual de nós poderia jogar a primeira pedra?

Perdoem-me se estou sendo impertinente. Por ora, um grande abraço a todos vocês.

Muito prezado Irineu,
Salve Maria.

     A “garrafa” contendo sua mensagem que você lançou ao mar de cartas, que me cerca de todos os lados, chegou até mim. Você a lançou — em tese — mas, confiando na hipótese que seria possível que eu a encontrasse. 
     Encontrei-a.

     Li sua mensagem, por sinal, muito bem escrita, e que me dá provas claras de que você estudou direito,– ou indícios de que estudou  Direito? —  e que, possivelmente, está fazendo pós graduação. Você não me dá esses detalhes. Mas o modo sério com que você escreve, sua modéstia visível, além de uma série de pormenores, levaram-me a essas conclusões.
     Pode ser que me engane quanto a seu estudo de Direito. Mas não me engano ao registrar suas virtudes, e que estudou direito. Deus o conserve assim com suas virtudes.

      Você se engana quanto a meu saber “teológico”. Estudei bem o Catecismo, aos seis anos de idade. Nunca estudei Teologia. E vendo o que aprenderam os “teólogos” nos seminários e nas atuais Faculdades de Teologia — sem falar dos “teólogos “ de internet e do “pOrkut” — dou graças a Deus por nunca me ter permitido pisar numa Faculdade de Teologia pós conciliar.
     No mais, tenho lido muito, mas guardado pouco do muito que estudei, e a velhice e a fadiga dos anos vão me fazendo estragos na minha “biblioteca” interior. Tudo passa. Só Deus não muda. Deus e a Igreja Católica. Porque ela é divina.
     Em todo caso, agradeço-lhe as palavars bondosas que teve para comigo.

     De sua carta, se depreende que você não é muito praticante ou conhecedor da doutrina católica. Ou, então, cometeu um engano bem grande ao atribuir à Montfort a opinião de que “fora da Igreja não há salvação”.
     Meu caro Irineu, essa não é a minha opinião, nem a da Montfort. Esse é um dogma da Igreja Católica.
     Esse dogma foi proclamado no IV Concílio de Latrão, em 1215. Isso foi sempre ensinado pela Igreja, e quem não crê nisso, automaticamente está excomungado, deixando de ser católico.

     Não tenho opiniões em matéria religiosa. Deus me livre de ter opiniões religiosas. Tenho certezas que vem da Fé. Nenhum católico pode ter opiniões em matéria de fé. Opiniões se têm do que não se sabe, ou do que é imprevisível. Na fé, há certezas. Por isso, jamais externo opiniões nesses assuntos. Repito o que ensina a Santa Igreja Católica, Apostólica, Romana, que é a única Igreja de Cristo, fora da qual não há salvação.

     Você me diz que Cristo não usou esses adjetivos, para designar a sua Igreja.
     Ele disse isso ao instituir Simão Bar Jonas como Papa (São Mateus, XVI):

Bem aventurado és tu Simão bar Jonas, porque não foi a carne nem o sangue que te inspiraram isso, mas Deus que está no Céu. Pois Eu te digo, que tu és pedra, e sobre essa pedra edificarei a minha Igreja”.

     Portanto, Cristo fundou “a” sua Igreja sobre Pedro.
     Portanto, a Igreja de Cristo é uma só, e é uma por ter uma só verdade e um só fundamento. E tem uma só verdade, porque Deus não pode ter duas verdades. A Igreja de Cristo então é uma só, e é uma por sua verdade una, por seu comando uno, por seu único batismo.
     Logo, a Igreja de Cristo é monárquica. Como Deus é monarca.

     Ora, Cristo Deus quer salvar a todos. Por isso a verdade que Ele trouxe é para todos: judeus e gentios, ricos e pobres, sábios e ignorantes, santos e pecadores, etc. A Igreja de Cristo é para todos, isto é, visa universalmente a todos. Por isso ela tem que ser Católica, termo que significa universal.
     Sendo Cristo Deus única cabeça da Igreja, sendo Cristo a Santidade absoluta, dEle promana para a Igreja a Verdade infalível e a santidade completa. A Igreja é santa. Ora, quem tem uma qualidade em ato é capaz de transmitir essa qualidade a outros que aceitem essa qualidade. Por isso a Igreja não só é santa, como é também santificadora. Se na Igreja há pecadores, eles existem porque eles livremente resistem, ou recusam receber a santidade da Igreja. 
     Portanto a Igreja é santa e santificadora.
     Ela é também Apostólica, porque vem dos apóstolos a quem Cristo disse: “Ide e ensinai a todos”. Mandou que ensinassem. Como mestres. Por isso, a Igreja é apostólica, porque tem origem ininterrupta dos Apóstolos, e porque tem a obrigação, como eles, de ensinar o que Cristo ensinou, e não o que “teólogos’ de novidades inventam em suas cacholas dialéticas…

     Por fim, a Igreja é Romana, pois que São Pedro foi o primeiro Bispo de Roma, o primeiro Papa. Lutero se rebelou contra o Papado, e ensinou o livre exame da Bíblia, isto é, que cada um entende a escritura pessoalmente, à sua maneira. Daí, haver milhares de seitas protestantes. Porque onde não há a Verdade, há a divisão, A unidade é prova e efeito da Verdade. Onde uma doutrina produz divisão, há mentira. Disso surgem as seitas. 

     Você me diz que, na Igreja hoje, há muitas divisões.
     Onde há divisóes não é na Igreja, e sim entre os homens. E os que na Igreja tem doutrina diferente daquela que a Igreja sempre ensinou, são hereges, e não mais católicos.
     Meu caro Irineu, muitos são chamados, mas poucos são os escolhidos.

     Passo para o nefando e satânico rock.
     Você me diz que ouve de tudo.
     Lamento, pois isso só prova sua falta de critério estético. 
     Ouvir de tudo, equivale a comer de tudo, coisas bem feitas e coisas mal feitas; alimentos sadios e alimentos podres. Coisas boas e nojentas. Ou ainda, equivale a tomar qualquer remédio, só por ser remédio. Ainda que já estragado. Quem fizesse isso, iria se matar. Quem come qualquer coisa, se envenena. Quem lê qualquer livro, é ignorante e constrói uma babel em sua cabeça.
     Quando não havia as atuais bibliotecas públicas, nasceu o ditado: “Teme o homem de um só livro”.
     Hoje, dever-se-ia dizer: “Teme o homem que leu muitos livros, sem critério “. Deles só vem confusão.
     Repare nos atuais diplomados e pós graduados…

     Tratando do rock, você me diz que, ao examinar os pormenores, fica impossível qualquer classificação.
Meu caro Irineu, o professor da Faculadade que lhe ensinou isso é nominalista.
     
Se assim fosse, você, por ter acidentes individuais inteiramente pessoais, não mais poderia ser classificado como ser humano.

     Não vou lhe repetir o que escrevi sobre o rock. Peço-lhe que leia, no site Montfort — que você sinceramente aprecia –  o que escrevi sobre as revoluções na Arte (A Cidade do Homem contra a Cidade de Deus), assim como o que escrevi sobre Beleza, nos trabalhos intulados Música e Beleza, e In Lumine tuo, onde trato da definição da beleza, e o que é arte. Você vai gostar.

In Corde Jesu, semper,
Orlando Fedeli

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