Montfort Associação Cultural

23 de novembro de 2004

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Neo catecumenato: confissão

Autor: Orlando Fedeli

  • Consulente: Margarida Hulshof
  • Localizaçao: – Brasil
  • Religião: Católica

Prezado Sr. Orlando,
Sou membro de uma comunidade neocatecumenal, há 11 anos. Escrevo-lhe para atender ao pedido de um irmão de comunidade que, tendo acompanhado a recente discussão em seu site a respeito do Caminho, pediu-me que interviesse. E precisou pedir muitas vezes antes que eu o atendesse, pois detesto polêmicas e discussões desse tipo, que são, a meu ver, inteiramente estéreis.  Ou podem até, em certos casos, acabar por produzir frutos, mas confesso que não tenho a paciência necessária para esperar por eles.
Se, porém, jamais entro em tais contendas por iniciativa própria, tenho por costume atender quando sou solicitada, pois penso que, quando a idéia não partiu de mim, são maiores as chances de que se trate de um chamado de Deus. E o fato é que me tenho visto envolvida em muito mais polêmicas do que gostaria… Seguir o Cristo, afinal, é escolher o caminho estreito, o caminho da cruz.
Consciente disso, concordei então em abrir o seu site, e li algumas – poucas – cartas e respostas. E, a julgar pelo que li, vejo que tenho um dado novo para trazer ao debate: eu li as apostilas de Kiko, e também o livro de Zoffoli. Fiz isso em 1997, quando um amigo enviou-me o livro de Zoffoli, pedindo que o comentasse.
Para tanto, pedi ao padre responsável por minha comunidade que me emprestasse as apostilas, o que ele fez prontamente, sem nenhuma restrição, autorizando-me inclusive a citar os trechos que achasse necessário. Fiquei com as apostilas pelo tempo que quis, e depois escrevi um longo comentário, do qual envio-lhe uma cópia em anexo.
Li apenas a apostila das catequeses iniciais, por ser a elas que Zoffoli se refere em seu livro. Mas sei que, se quiser ler as outras, isso me será concedido com a mesma facilidade.
Quanto ao seu site, as cartas que li foram: “Realismo e objetividade na análise do debate”, “As apostilas de Kiko realmente existem” e “O Neocatecumenato, o Papa e os bons frutos”.
Pelo que li, vejo que os irmãos do Caminho têm sido ponderados, lúcidos e equilibrados em suas colocações. Mesmo a “Princesa”, em sua simplicidade inflamada, tinha razão a seu modo, embora isso possa não ser tão claro para quem não conhece o Caminho. Infantilidades à parte, é perfeitamente normal que alguém se mostre indignado ao ver assim atacados os seus valores mais caros. Deus gosta dos impetuosos, como São Pedro, quando essa impetuosidade brota do amor, e nem se importa muito quando, às vezes, isso os torna meio desastrados. Havendo a grandeza de coração, para o resto basta a Graça, como disse Deus a São Paulo. Maior responsabilidade têm aqueles a quem mais foi confiado.
O Sr. diz estar defendendo a verdade, mas vejo que muitas vezes distorce ou desconsidera até mesmo os mais equilibrados argumentos dos irmãos, ou tira conclusões arbitrárias que vão além do que eles disseram. Por exemplo, quando a Bianca diz que “as apostilas são secretas, e assim devem permanecer”, o Sr. conclui, sem nenhuma base lógica, que isso significa que “todos estão sendo enganados”. Isso é o que o Sr. supõe, mas não faz parte do que ela disse, nem pode ser daí deduzido. O mesmo foi feito com as colocações de outro missivista – o Alexandre – mas ele próprio já esclareceu a questão, com muita propriedade.
Outra conclusão totalmente arbitrária é quando o Sr. afirma (na resposta ao Rafael Morales) que as pessoas sérias e sinceras do Caminho só são assim “por desconhecerem completamente o que se ensina nas apostilas de Kiko e Carmen”. Não há nenhuma justificativa válida para tal certeza, ainda mais da parte de alguém que não conhece o Caminho, e mal começa a entrar em contato com as ditas apostilas – o que também não significa conhecer o Caminho (falei sobre isso no comentário anexo).
Outra afirmação imprópria é a de que o Sr. reveria sua posição “caso ficasse provado que Zoffoli mentira”. O Sr. sabe muito bem que alguém pode estar errado sem estar mentindo, pode estar agindo com boas intenções, ainda que por engano. Ninguém pode afirmar que Zoffoli mentiu, e sim apenas que ele estava equivocado em seu julgamento. Assim como estamos convencidos de que também o Sr. está equivocado, ainda que possa ter as melhores intenções, das quais não duvidamos. E estamos convencidos porque fazemos parte do Caminho, falamos do que conhecemos e vivemos, ao contrário do Sr. e de Zoffoli. Também os protestantes gostam muito de julgar que têm autoridade para condenar algo que não vivem, apenas porque leram alguma coisa cuja autenticidade ou propriedade nem sequer pensam em investigar – ou então com base na própria palavra de Deus, que ninguém pode acusar de erro, mas que no entanto… leva-os a um julgamento totalmente errado sobre nós. É exatamente o que ocorre aqui. O que prova que essa história de “está escrito” pode não ser assim tão conclusiva. O Sr. pode estar vendo heresias nas palavras de Kiko, e no entanto… essas heresias não existirem. Nós, que vivemos a experiência concretamente, sabemos disso com certeza absoluta, mas aqueles que só lêem o que está escrito não conseguem compreender. Pense na problemática em relação aos protestantes, e terá talvez uma idéia do que está acorrendo neste caso. Sei que o Sr. encontrará com certeza muitas diferenças que, aos seus olhos, tornam inválida a comparação, mas… também os protestantes consideram inválidos os nossos argumentos, por mais irretocáveis que sejam. Alguns se sentem instigados e resolvem investigar mais a fundo… e, aí sim, compreendem. Da mesma forma, o Sr. também compreenderia, se fosse viver concretamente a experiência do Caminho, ao invés de ficar apenas preso ao documento escrito. Mesmo que não ficasse convencido, poderia ao menos formar um julgamento mais justo, com mais conhecimento de causa.
Parece também que o Sr. gosta de desviar o rumo do debate para coisas irrelevantes como nomes, apelidos ou o gosto artístico de cada um, o que em nada contribui para esclarecer a questão, e sim apenas para acirrar os ânimos e desviar a atenção do que realmente interessa.
Por essas e outras é que eu considero inúteis tais debates. A razão, sozinha, não convence ninguém, quando o coração está fechado. Por isso é que Jesus nem sempre se defendia diante de seus acusadores, e, na parábola de Lázaro, disse que não adianta alguém ressuscitar dos mortos, quando não há disposição para acolher a Palavra com o coração aberto e desarmado. Porque conhecer a Lei, eles conheciam, só que se fechavam em sua interpretação preconceituosa, motivo pelo qual não acreditaram que Jesus pudesse ser o Messias – ele não se encaixava em seus conceitos…
Quando lhe perguntaram onde morava, Jesus não ditou um endereço, mas, em vez disso, falou: “Vinde e vede…” não há outro caminho. Por isso, é esse o convite que seus leitores lhe têm feito insistentemente.
Uma mesma realidade pode ser percebida de formas diferentes, conforme o ângulo pelo qual se olha. Se as colocações dos seus missivistas podem parecer contraditórias, é simplesmente porque cada um expressa sua conclusão pessoal sobre algo que, afinal de contas, é estranho à sua realidade (apresso-me a esclarecer que não me refiro aqui ao conteúdo das catequeses, e sim às acusações de que as mesmas são heréticas ou secretas). É como sempre digo aos protestantes: se, muitas vezes, os católicos não sabem como responder corretamente às acusações de que são alvo, é porque nossa Igreja acha mais importante anunciar o Evangelho do que prevenir e armar seus fiéis contra a fé dos outros. Um católico, para ser bom católico, não tem necessidade de saber explicar exatamente por que crê naquilo que crê, e não em outra coisa. Ele crê porque a Igreja ensina, e ele confia em que a Igreja sabe do que fala. Nem tudo precisa ser racionalizado (ao menos não por todos) para ser aceito, exatamente!
 porque nós temos o magistério da Igreja que faz isso por nós – coisa que eles não têm. Se não fossem as contestações, a maioria dos católicos nunca precisaria colocar-se tais questões.
É o que acontece aqui. É natural que os leitores não saibam bem o que dizer, porque ninguém precisa aprender a defender-se de uma culpa que não tem. Cada um ouve as acusações e tenta encontrar uma explicação… cada um segundo sua experiência e segundo a visão que consegue ter do problema. Isso é natural, e as contradições que possa haver não provam que estão errados, e sim apenas que não conhecem suficientemente os pormenores da questão. E não conhecem porque não precisam…
Se uns dizem que as apostilas existem, e outros dizem que não, no fundo são duas visões igualmente possíveis, de acordo com o ângulo pelo qual se olha.
Alguns dirão que elas não existem porque nunca ouviram falar delas. E nem precisam, assim como quem lê um livro pode tirar todo o proveito possível dessa leitura, mesmo sem saber como funciona o processo de impressão de um livro. Esse desconhecimento não significa, em absoluto, que os leitores estejam sendo “enganados”, ou que esse processo seja “secreto”. Outros conhecem o processo, mas nem por isso tirarão maior proveito do livro que os demais.
O catequista usa a apostila para preparar sua catequese, depois apresenta oralmente essa catequese. Não há motivo algum para que ele diga: “Preparei esta catequese a partir de uma determinada apostila”, pois o que importa não é a apostila, e sim a catequese. E, como as apostilas não são levadas à estante, muitos podem nem ficar sabendo que a apostila existe – o que em nada os prejudica.
E por que as apostilas não são levadas à estante? Os fundadores do Caminho fazem questão de que os catequistas não se prendam demasiadamente ao texto escrito, porque acreditam (como São Paulo) na eficácia da pregação oral como meio propício para suscitar a fé, dentro do contexto da assembléia (“onde dois ou mais de vós estiverem reunidos em meu nome…”). Por isso é que se recusam a “elaborar” ou organizar mais didaticamente os textos, preferindo mantê-los em seu estado primitivo (reprodução da gravação de uma pregação oral, sem correções), para que sirvam apenas como guia e orientação na preparação das catequeses. O catequista deve confiar em sua própria inspiração na hora de falar, e não precisa – nem deve – dizer exatamente as palavras que constam no texto. O texto é para preparar e formar o catequista, para familiarizá-lo com o contexto do tema que ele irá apresentar. Mas a capacidade de compreensão do catequista é diferente da de seus ouvintes, por isso nem tudo o que constou da formação do catequista irá aparecer na catequese. É por esse motivo que, embora todos ouçam as catequeses, dificilmente alguém se lembrará daqueles trechos citados por Zoffoli. É simplesmente porque, além de a catequese ser apresentada com as próprias palavras do catequista, e acabar saindo, às vezes, bastante diferente do original, aqueles trechos mais polêmicos não são necessariamente parte do conteúdo a ser apresentado, e sim explicações destinadas ao catequista, para que este entenda melhor o contexto geral de onde surgiu a orientação adotada pelo Caminho.
A compreensão das realidades da fé é gradual, e vai sendo despertada aos poucos, conforme o grau de amadurecimento das comunidades. Entendo que isso seja difícil de compreender para quem está de fora, e está acostumado com uma Igreja que nada tem a “esconder”. Eu também pensaria exatamente assim, se não estivesse vivendo isso concretamente há vários anos. Porque estou vivendo, entendo… e cada vez admiro mais a extraordinária inspiração que está por trás dessas “etapas”. Não há mesmo como explicar, segundo a razão. Não que haja aqui algo inacessível à razão, mas, nesse caso, a compreensão exige a experiência, porque não se trata de algo apenas teórico, mas profundamente vivencial. A experiência de Deus é algo que sempre irá muito além das palavras. Teremos que ficar devendo essa, porque só mesmo vivendo para entender. O que posso dizer é que… isso não traz nenhum prejuízo à forma tradicional de viver a fé católica, não a contradiz nem anula, só contribui para enriquecer e!
xtraordinariamente a experiência da fé, fazendo com que tudo apareça na plenitude do seu sentido, e a Palavra se torne a Novidade que sempre deveria ser.
É por isso que alguns leitores apontam o “segredo” como motivo da não divulgação das apostilas, em seu texto original. Elas não são destinadas à divulgação sistemática, e, se não são divulgadas entre os catecúmenos, há menos motivo ainda para que sejam enviadas ao Sr. A atitude de Zoffoli e a sua são a maior prova dos enganos que podem ocorrer quando as coisas são consideradas fora do contexto a que se destinam.
Ter em mãos as apostilas, portanto, não resolve o problema, como não resolveu para Zoffoli. O Sr. acreditará estar em condições de julgar, como Zoffoli acreditava, mas qualquer catecúmeno sabe que sua avaliação será equivocada e incompleta. O Sr. acreditará poder fazer uma avaliação do Caminho, mas estará apenas avaliando um determinado texto escrito, que o Sr. pensa ser suficientemente representativo do Caminho, mas qualquer catecúmeno sabe que não é – principalmente os que conhecem muito bem as apostilas, e não estão “enganados” (sic) como os que lhe escreveram. Também entre esses há muita gente sincera e séria, acredite. Todos os catequistas conhecem o texto das catequeses… e continuam firmes no Caminho. Há também os desertores, claro (porque Deus nos deixa livres), mas nenhum deles deixou o Caminho por causa das apostilas.
Falando agora do conteúdo das catequeses: o Sr. diz que, naquilo que já leu, confirmou a existência das tais heresias. O que não é de surpreender, depois de tudo o que já expliquei. Muitas das colocações de Kiko e Carmem podem de fato dar margem a polêmicas, especialmente quando caem em mãos já prevenidas desfavoravelmente. Só que há uma grande diferença entre polêmica e heresia, entre interpretação teológica e erro doutrinário.
Kiko e Carmem, nas apostilas, não estão ensinando doutrinas. Como eu disse no comentário que vai anexo, não existe uma “doutrina de Kiko e Carmem”, pois a doutrina do Caminho é a doutrina da Igreja. O que está nas apostilas são apenas considerações teológicas, feitas para explicar em que se baseia a liturgia e os processos catequéticos adotados pelo Caminho. Kiko quer mostrar que a sua maneira de ver a questão não surgiu do nada, mas tem bases teológicas válidas – o que não significa que ele esteja pretendendo ser a sua visão a única válida. Ninguém é obrigado a participar da Igreja dentro do Caminho, se não gostar. O Caminho visa servir à Igreja, e não tomar posse dela.
Os teólogos sempre fizeram polêmica, construíram teorias e apresentaram visões muitas vezes contraditórias. Isso é normal e válido, enquanto estudo. Desse estudo irão sair as doutrinas, que só serão doutrinas depois de devidamente aprovadas pelo magistério oficial da Igreja.
Assim como as considerações dos teólogos, que são geralmente inócuas se permanecem entre eles, mas podem escandalizar quem não tem uma fé suficientemente madura (como já tem acontecido muitas vezes), também as considerações de Kiko não se destinam à divulgação sistemática, pelo mesmo motivo. Não é uma questão de segredo, e sim de contextos específicos, o que é perfeitamente compreensível para qualquer pessoa de bom senso.
Mas o mais importante é que não se trata de doutrinas, e portanto não se pode falar em erros doutrinários. A fundamentação doutrinária do Caminho é a da Igreja. Tudo o que fazemos está perfeitamente conforme ao que a Igreja ensina, e devidamente autorizado pelo Magistério.
Supondo, porém, que de fato existam ali doutrinas, como ficaria a questão? Como o Sr. diz, se as apostilas de Kiko contêm heresias, “de nada valem os elogios até de um anjo do céu”. Concordo. Se alguém ensina uma doutrina que não está de acordo com o ensinamento da Igreja, isso é uma heresia.
Mas, a quem é que cabe decidir o que está ou o que não está de acordo com o ensinamento da Igreja, senão à própria Igreja? O Sr. pode ler um texto e dizer: “isso aqui não está conforme à reta doutrina”, mas tal afirmativa permanecerá sendo uma opinião pessoal sua, por mais bem fundamentada que seja. Ora, o magistério da Igreja  também conhece muito bem a doutrina, ao menos tão bem quanto o Sr. Só que, além disso, esse magistério tem também a autoridade para decidir o que é heresia e o que não é. O Sr. pode até não confiar nessa autoridade, mas ela continua sendo a única de que dispomos.
Temos, é claro, a doutrina já definida, os dogmas, as verdades de fé permanentes. Isso não será mudado, é claro. Mas as situações e questionamentos novos vão exigindo respostas novas, interpretações novas. Tem sido assim ao longo de toda a história da Igreja. A Sagrada Tradição que o Sr. invoca não nasceu pronta e acabada, mas foi-se formando e sendo enriquecida ao longo do tempo, exatamente a partir dos questionamentos que iam surgindo. Muitas realidades foram sendo enriquecidas com novas visões e interpretações, sem que se alterasse um só dogma. Ao contrário, foram-se criando novos dogmas, embora sempre com parcimônia e prudência, como não poderia deixar de ser. Nem tudo o que a Igreja ensina é dogma, e seria perder uma imensa riqueza se considerássemos apenas os dogmas como ensinamento válido. Esse dinamismo e discernimento – confiado ao magistério – sempre existiu na Igreja, e não há nenhum motivo válido para supor que tenha agora deixado de existir, e que a Igreja já nada mais tenha a dizer além do que foi dito até determinada data. Isso equivaleria a dizer que o Espírito Santo abandonou a Igreja.
Também não faz sentido dizer que o Espírito Santo só está presente nas definições oficiais solenes (ex-cathedra), pois, ao longo de  toda a sua história, o magistério da Igreja tem sido coerente com a doutrina também nas definições não dogmáticas. E qualquer um pode ver que a Igreja continua mostrando hoje a mesma sabedoria de sempre, ao lidar com os questionamentos específicos de nosso tempo. Ela examina tudo criteriosamente e emite a sua posição oficial a respeito, sem nunca se deixar corromper ou manipular, sem abdicar da verdade para ceder às pressões, por maiores que sejam. Assim fez Paulo VI na Humanae vitae, e assim tem feito João Paulo II em todos os seus documentos, ao lidar com questões delicadas como a eutanásia, o aborto e o divórcio, a manipulação genética, a relação entre fé e razão, ou mesmo o espinhoso problema do ecumenismo – sem esquecer, naturalmente, as novas ideologias ou teologias que porventura surjam.
Sei que o Sr. cita casos em que o Papa “errou”. Mas eu não vejo nesses casos erro algum. Se, algumas vezes, um Papa veio a aprovar, e depois condenar um mesmo movimento ou corrente teológica, isso não significa que a sua opinião não seja confiável. Ao contrário, significa justamente que a Igreja está atenta, e que leva muito a sério a sua missão e o seu compromisso com a ortodoxia da fé.
Por exemplo, no caso da Teologia da Libertação: se, em determinado momento o Papa se mostrou favorável, é porque, até então, o que tinha sido ensinado era válido. Quando, depois disso, os abusos começaram a aparecer, o mesmo Papa apressou-se a condená-los. Não vejo nisso absolutamente nenhuma incoerência, nem um sinal de que o Papa “enganou-se” em seu julgamento, pois não se pode enganar-se sobre o que ainda não existe, a não ser que se esteja fazendo profecias, o que não é o caso. É exatamente por isso que a atualização constante é necessária.
E, se esse zelo e cuidado constantes são demonstrados em relação a teologias que surgem em terras distantes, não há motivo algum para crer que, no caso do Caminho, tenha havido descuido no exame dos conteúdos. As apostilas não são “secretas” para o Papa, nem ele emitiria sua posição oficial sem antes ter investigado cuidadosamente a questão, como sempre tem feito. Se um dia o Caminho ensinar heresias, é certo que o Papa não deixará de condená-las, sem medo algum de voltar atrás em sua posição anterior, para o bem da ortodoxia da fé. Até o presente momento, porém, tudo o que existe tem sido considerado válido e ortodoxo, apesar de todos os protestos de Zoffoli, que tiveram ao menos o mérito de garantir que o Papa não está pecando por ignorância.
E, se a Igreja não vê aqui heresias, pouco importa que o Sr. ou Zoffoli as vejam, ou mesmo um anjo do céu. Foi a Pedro que Jesus entregou as chaves do Reino dos Céus, e a autoridade suprema da Igreja continua nas mãos do Papa, doa a quem doer. É a ele que devemos obediência, por isso nossa consciência continua perfeitamente tranqüila – mesmo a de quem conhece as apostilas.
E se o Papa pode enganar-se… bem, o Sr. também pode. E, sabendo que o Papa conhece o Caminho muito melhor do que o Sr., e que conhece a doutrina da Igreja ao menos tão bem quanto o Sr., e que, além disso, não ignora a grande responsabilidade que está por trás de todos os seus posicionamentos, dogmáticos ou não – sabendo de tudo isso, nós preferimos ficar com a opinião do Papa.
Considero, no mínimo, uma infelicidade pertencer a uma Igreja em cujo dirigente não se possa confiar a não ser quando fala ex-cathedra. Eu acredito, sinceramente, que o Espírito Santo é mais generoso do que isso ao dirigir os rumos da Igreja de Cristo.
Atenciosamente,
Margarida Hulshof

Aqui vai o comentário sobre as catequeses:
                    Holambra, 12 de novembro de 1997

Caro amigo,

Que a paz e a alegria do Deus vivo estejam com você e com todos os seus, de quem me recordo sempre com carinho e saudade.
Finalmente posso enviar-lhe o comentário sobre o livreto CATEQUESE NEOCATECUMENAL E ORTODOXIA DO PAPA, de Enrico Zoffoli.
De fato, eu tenho essa “fraqueza” de me deixar abalar e ferir demais quando leio palavras ofensivas ou injustas contra a Igreja e a fé. Gostaria de ser mais forte, pois isso tornaria minha tarefa menos desgastante. Em todo caso, o “espinho na carne” pode doer, mas não me fará desistir. Creio também que o tempo irá aos poucos me “calejando” e me tornando menos sensível.
Como lhe havia dito, informei-me junto aos meus catequistas e pude confirmar que Zoffoli é, de fato, aquele mesmo teólogo visitado por Kiko em seu leito de morte, e que morreu chamando Kiko de “irmão”.
A primeira impressão que me despertou a leitura do livreto foi a de perplexidade. Não me surpreendo quando um ateu como o Chico ataca a Igreja, mas acho desconcertante ver pessoas de fé, pessoas íntegras, que sabemos serem de confiança e devotadas à Igreja, combatendo-se umas às outras e vendo umas nas outras a encarnação do Anti-Cristo. Se Deus se revelou tão claramente, e se a opção básica (colocada pelos apóstolos) consiste em aceitar ou não Jesus Cristo, por que tantas divergências sobre a melhor maneira de seguir o Mestre? Não deveria haver uma única maneira? Ou então, as diversas vocações e carismas não deveriam conviver harmonicamente, formando uma unidade, segundo a imagem paulina do Corpo Místico de Cristo? Afinal, se todos trabalhamos pelo mesmo objetivo…
Mas Jesus não estava brincando quando disse que “não viera trazer a paz, mas a espada”… “atear fogo à terra” e dividir entre si os membros de uma mesma família (filha contra mãe, nora contra sogra)… Certamente, ele não se referia apenas às divergências entre aqueles que o aceitariam e os que o negariam, mas também – e talvez principalmente – àqueles que fazem da própria fé motivo de discórdia. Deus não cessa de nos desconcertar e surpreender, de nos confrontar com nossa miséria e com nossos limites. Parece-me que, permitindo essas “feridas” em seu próprio corpo, Ele deseja obrigar-nos à humildade, ao reconhecimento de nossa pequenez, para que ninguém se julgue infalível, para que nos lembremos sempre de que “os caminhos de Deus não são os nossos caminhos” e de que o seu Reino não se constrói de maneira vistosa e ostensiva, mas na humildade do grão de mostarda, no reconhecimento da própria incapacidade de amar e compreender. Você, que defende Vassula Ryden, tem vivido na pele a experiência desse impasse. Mas Vassula, por enquanto, não apenas não recebeu aprovação da Santa Sé, como recebeu mesmo reprovação oficial. Com o Caminho Neocatecumenal, porém, dá-se o contrário, e foi aí que Zoffoli se viu encurralado, sem saber como explicar a posição declaradamente favorável do Papa e de tantos Bispos e padres. Tanto que ele mesmo reconheceu como insatisfatória e improvável a única hipótese que lhe parecia possível, ou seja, a de que o Pontífice estivesse mal informado (pág. 58). Penso que esse impasse deveria ser suficiente para fazê-lo reconsiderar, e o fato de preferir desconfiar do Papa a abdicar de sua posição, mostra até que ponto a obstinação pode bloquear a razão. Isso explica também a atitude de silêncio que ele diz ter sido a única resposta às suas tentativas de esclarecimento. A princípio esse silêncio me surpreendeu, e pensei: “Mas por que ninguém quis esclarecê-lo, se afinal ele apenas buscava a verdade?” Depois, porém, compreendi… É como você disse em sua última carta: “Quando a pessoa está fechada, é inútil tentar dialogar.” Não leva a nada e apenas desgasta, como pude verificar em minhas tentativas de argumentar com os protestantes. Jesus também não quis justificar-se diante de seus acusadores, porque estes não buscavam a verdade, e sim pretextos para condená-lo.
Ao ler o livreto, fiquei pensando: como é possível que todas essas “heresias” estejam nas Catequeses, se a mim, em sete anos de Caminho, nunca ensinaram nada disso? Ao contrário, minha experiência é a de que o Caminho sempre fez questão de manter-se firmemente integrado na paróquia, na Diocese e no Magistério da Igreja, cujos documentos nos são apresentados e recomendados com insistência pelos catequistas. Em nenhum momento se percebe nada que se pareça com a intenção de “demolir a Igreja Católica para fundar uma outra Igreja”, como acusa Zoffoli na pág. 48. Recentemente me escrevia uma jovem amiga da minha antiga comunidade de Buritis, sobre sua experiência na peregrinação à França: “Ouvindo as palavras do Papa, vi que o Caminho está 100% em comunhão com a Igreja.” O que aprendo no Caminho é também aquilo que transmito em meus artigos, e até hoje nenhum padre ou Bispo contestou algo que eu disse, pelo contrário. E sei de pelo menos dois Bispos que me lêem sempre, além de inúmeros padres.
Zoffoli fala muitas vezes na “doutrina” de Kiko e Carmem, estranhando que esta não seja organizada e oficialmente apresentada para apreciação. Isto se explica facilmente pelo fato de que não existe nenhuma “doutrina de Kiko e Carmem”. A doutrina ensinada no Caminho é a mesma da Igreja Católica Apostólica Romana. As catequeses de Kiko e Carmem são apenas catequeses, explicações, atualizações da Palavra, feitas de forma espontânea e reproduzidas de gravações. Essa forma de apresentação atinge muito mais as pessoas do que uma forma acadêmica e impessoal. E que tais catequeses são úteis e necessárias, a Igreja mesma o reconhece, quando proclama a necessidade de uma “nova evangelização, com novos métodos e novo ardor missionário”. É isso, exatamente, o que faz o Caminho. A novidade está no enfoque e nos métodos – e, é claro, no ardor – e não na doutrina. E se isso não fosse necessário, a fé “ortodoxa” defendida por Zoffoli não estaria em flagrante declínio, especialmente na Europa. Os “bons frutos” que ele, com surpresa e quase incredulidade, vê surgirem da “árvore má” do Caminho, não são simplesmente derivados da boa tradição católica já arraigada em algumas pessoas, e que frutifica “apesar” do Caminho (pag. 32). Se assim fosse, essa mesma boa tradição não estaria dando tantos frutos maus por aí, tanto esvaziamento de Igrejas,   indiferentismo e relativismo religioso.
Claro, os bons frutos continuam sendo frutos da Igreja e da “boa tradição”. Mas não subsistem “apesar” do Caminho, e sim são, justamente, despertados e estimulados por ele, cuja função é precisamente essa: reavivar a fé (da Igreja, não outra fé) e levar as pessoas a uma conversão profunda e concreta. Nunca me esqueço das palavras do Pe. José Vicente, pároco de Buritis, ao definir o movimento (que estava para ser implantado na paróquia,  mas que ele já conhecia e do qual já havia participado) como “um caminho seguro de conversão”. Isso me animou muito, pois, diante das dificuldades que cercam a vivência da fé, nada melhor, pensei, do que contar com um “caminho seguro” que possa nos garantir que chegaremos lá.
Eu mesma sou testemunha do que dizia há pouco sobre “reavivar a fé da Igreja”. Tendo tido, desde criança, uma sólida formação católica tradicional, o Caminho não veio arrancar nada do que já estava plantado, mas fez, justamente, florescer tudo isso. Foi como se me tivessem tirado uma venda dos olhos (tudo a ver com a imagem da cegueira de São Paulo após a visão no caminho de Damasco), e de repente eu começasse a ver de forma clara e nítida, a experimentar no concreto da vida coisas que antes eram apenas teorias, conceitos e leis. Não que antes eu não tivesse fé ou não a vivesse. A diferença é algo sutil e difícil de explicar, só mesmo experimentando, daí o “vinde e vede” repetido pelos catequistas. É um encontro pessoal com Deus que nos faz conhecer melhor a nós mesmos, uma efusão do Espírito Santo que “renova todas as coisas”, aprofunda-lhes o sentido sem anulá-las, como Jesus fez com a lei de Moisés. Isso explica, certamente, a adesão de tantos Bispos e padres, o que por s!
i já contradiz a acusação de que “a grande maioria dos catecúmenos compõe-se de gente humilde, inculta, quase analfabeta em matéria de religião, de tal modo que Kiko pode permitir-se fazer dizerem os documentos do Vaticano II o contrário do que dizem, convicto de que ninguém é capaz de verificar a exatidão das citações…” (pág. 48). Insinuar que todos esses Bispos e padres “esqueceram” a teologia que aprenderam ou que nunca chegaram a aprendê-la (pág. 11) é atitude, no mínimo, infantil.
Quanto a mim, mesmo sem ser teóloga, estava longe de ser “inculta” ou “analfabeta em matéria de religião”. Aliás, naquela época eu achava que sabia muito,  mas aprendi muito mais depois de ter começado o Caminho.
E quanto àqueles que entram sem nenhuma formação religiosa, não sei definir qual é a sua experiência, mas os frutos são visivelmente positivos. Se, por um lado, eles podem demorar mais tempo para compreender as verdades da fé, em compensação colocam menos obstáculos à ação da Graça, por não ter em si o farisaísmo que provoca atitudes como essa de Zoffoli, e que, mesmo entre os catecúmenos, coloca às vezes barreiras de defesa que dificultam a abertura. Afinal, foram justamente os simples e humildes que melhor entenderam a mensagem de Jesus…
Aliás, no que se refere à “incapacidade de verificar a exatidão das citações”, quem parece querer aproveitar-se disso é o próprio Zoffoli. Não quero julgá-lo nem duvidar de suas boas intenções, mas fica difícil acreditar nelas quando se confronta as citações por ele feitas das catequeses de Kiko, com o conjunto do texto de que foram tiradas.
Como eu não sabia que resposta dar a algumas daquelas acusações de “heresias” (a não ser o testemunho de que elas nunca me foram ensinadas), fui conversar com o Pe. João Paulo, pároco da Matriz de Mogi-Guaçu e responsável por nossas comunidades, além de ser ele mesmo catecúmeno e catequista, irmão de catequista e filho de catecúmenos com mais de 20 anos de Caminho. Ele me emprestou o texto das catequeses e me autorizou a citar os trechos que achasse necessário.
Vejamos, por exemplo, o nr. 1 da pág. 15 do livreto: “Na Eucaristia não há nenhuma oferta”, a Missa não é “sacrifício”.
Na catequese sobre a Eucaristia é feita uma retrospectiva histórica, mostrando como, depois de Constantino, a presença do imperador nas celebrações fez aparecer na Eucaristia um caráter de solenidade e de ostentação que antes não existia. Antes, a ênfase era dada ao louvor jubiloso e à ação de graças pelo acontecimento salvífico da Páscoa.
Ao mesmo tempo, como o cristianismo passou a ser a religião obrigatória, muitas pessoas entravam para a Igreja sem terem sido catequizadas, trazendo por isso vestígios de suas religiões pagãs, como a idéia de oferecer a Deus sacrifícios e ofertas diversas, como faziam com seus deuses pagãos, para conseguir a benevolência dos mesmos.
Mesmo em nossos dias, persiste essa mentalidade de supervalorizar as ofertas, de fazer disso uma forma de ostentação, como se pudéssemos “comprar” a salvação, como se a oferta nos tornasse “quites” com Deus. Ao menos, era essa a mentalidade vigente na Europa quando Kiko começou suas catequeses. E ele diz então:
“É claro que oferecer coisas a Deus não é nenhuma coisa má. Você pode oferecer a Deus o que quiser, mas a Eucaristia é uma coisa diferente, completamente diferente de tudo isso. Na Eucaristia você não oferece nada. É Deus absolutamente presente que nos dá a coisa maior, isto é, a vitória de Jesus Cristo sobre a morte. Ele vem dar-lhe tudo e levá-lo ao Pai.” (pág. 256 das Orientações para os Catequistas).
Está mais do que claro. Kiko não diz que não há oferta, e sim que a oferta não parte de nós, mas de Deus. E ele se dá de forma totalmente gratuita, sem exigir que lhe paguemos por isso – mesmo porque não o poderíamos.
Na catequese sobre a Eucaristia (pág. 262), após fazer longa retrospectiva histórica sobre as mudanças que foram aparecendo na celebração da missa e os fatores que as provocaram, Kiko menciona as reformas trazidas pelo Concílio Vaticano II, inclusive quanto às orações para o ofertório, e é nesse momento que ele diz: “A Igreja primitiva não tinha ofertório: simplesmente trazia-se o pão e o vinho para celebrar os mistérios. Agora recuperou-se o sentido hebraico das bênçãos ascendentes e se diz: “Como se reúnem os grãos de trigo para formar um só pão, assim seremos reunidos no teu Reino.” Porém ainda ficaram resquícios humanistas quando se diz: “Fruto do trabalho do homem”.
Acontece que muitos padres jovens, que querem coisas novas, fazem o ofertório como se fosse uma grande renovação. Não entendem a finalidade da reforma. Na Eucaristia não há oferta nenhuma; as ofertas se trazem e se apresentam simplesmente.”
Isso fica mais fácil de entender quando se acompanha todo o contexto e se vai percebendo como, aos poucos, a liturgia se foi afastando do seu sentido original. O Concílio percebeu a necessidade da reforma, mas também sabia que esta teria que ser feita de forma gradual e acompanhada de uma catequização, caso contrário as pessoas se escandalizariam e não entenderiam nada. Não se desfaz de um dia para o outro conceitos e costumes que se foram enraizando durante séculos.
Quanto ao “sacrifício”, Kiko diz que houve também a contaminação com a idéia de sacrifício pagão, onde um animal ou mesmo uma pessoa era sacrificada à divindade. Era essa também a mentalidade do povo do Antigo Testamento. Mas Jesus salientou a ineficácia desse tipo de sacrifício, substituindo-o pelo “sacrifício perfeito” – o seu próprio, que é diferente porque Cristo não ficou na morte, mas ressuscitou. Na letra e) da pág. 20, Zoffoli acusa Kiko de “atribuir a salvação à ressurreição de Cristo, não à sua paixão e morte, que – conforme todas as fontes da Revelação e a unânime tradição do Magistério, é a única causa meritória da sua própria ressurreição e de todos os nossos bens espirituais e eternos.”
Ora, isso é querer forçar as coisas. O próprio São Paulo disse que, se Cristo não tivesse ressuscitado, vã seria a nossa fé. É portanto a ressurreição que dá sentido à morte de Cristo, embora não lhe tire o valor, já que não há ressurreição sem morte. Tenho visto muitas vezes os padres se lamentarem (não só os do Caminho) de que as pessoas dão mais importância à liturgia da Sexta-feira Santa do que à do Domingo da Ressurreição, esquecendo-se de que esta é que é o acontecimento central da Páscoa. Morrer é algo humano. A ressurreição sim, é que é divina. O valor central da Páscoa não está no fato de que Cristo morreu, mas sim no fato de que ele venceu a morte. O que não significa, absolutamente, que estejamos diminuindo o mérito de sua paixão e morte.
A catequese de Kiko diz o seguinte: “Quando, na Idade Média, se começa a discutir sobre o sacrifício, no fundo discutem coisas que não existiam na Eucaristia primitiva, porque sacrifício na religião pagã  é “sacrum facere”, fazer o sagrado, colocar-se em contato com a divindade através de sacrifícios cruentos. Nesse sentido, não há sacrifício na Eucaristia. A Eucaristia é sacrifício num outro sentido, porque na Eucaristia há, sim, a morte, mas também há a ressurreição da morte. A Eucaristia é Páscoa, passagem da morte à ressurreição. Por isso, dizer que a Eucaristia é sacrifício está certo, mas está incompleto. A Eucaristia é sacrifício de louvor, um louvor completo de comunicação com Deus através da Páscoa do Senhor. Ocorre que na Idade Média a idéia de sacrifício não era entendida desta forma, mas no sentido pagão. O que se via na missa é que alguém se sacrificava – o Cristo. Na Eucaristia via-se unicamente o sacrifício da cruz de Jesus Cristo. Aos poucos, foi-se encobrindo a Páscoa.” (pág. 256-257)
Como se pode ver, o texto não deixa dúvidas. É difícil acreditar que Zoffoli, tendo, como diz, estudado “cuidadosamente”, durante seis anos, as catequeses de Kiko, não tenha compreendido o verdadeiro sentido das palavras que cita. Se apesar disso ele acusa o Caminho de ensinar que “na missa não há oferta, nem sacrifício”, fica difícil não concluir que ele o faz de má fé, não com o objetivo de defender a verdade, mas sim o de predispor contra o Caminho pessoas que não terão acesso ao texto das catequeses, como sua conhecida Maria Izabel e seu amigo Bispo.
É possível, porém, que não tenha havido má fé, mas apenas cegueira, falta de abertura. Kiko sempre acreditou que, no fundo, a atitude de Zoffoli era movida pelo zelo e que sua intenção era boa, e por isso nunca o acusou. Argumentar, porém, nessas condições teria sido inútil, e por isso os dirigentes do Caminho e mesmo o Papa lhe responderam com o silêncio.  O silêncio, aí, não foi omissão, mas sinal de prudência e mesmo de respeito à pessoa de Zoffoli (assim como José não quis acusar publicamente Maria quando a soube grávida). Não havia necessidade de defesa porque o Caminho não está aí para provar e nem para impor nada. Ele existe para servir à Igreja, não para competir com ela, e por isso não precisa ficar escondendo-se ou dissimulando-se por medo de ser por esta “desmascarado”, como interpretou Zoffoli na pág. 48.
E já que estamos falando de Eucaristia, vejamos a questão da comunhão. Zoffoli diz que “Kiko autoriza a todos a receber a comunhão”, cometendo assim um “sacrilégio”, já que mesmo as pessoas que vivem em pecado são convidadas a comungar. Ora, se examinarmos as palavras de Kiko por ele citadas na pág. 45, veremos que elas não falam em “receber a comunhão”, mas apenas em “celebrar a Eucaristia”, ou seja, participar da celebração. Na verdade, existe um sério cuidado quanto a isso. Embora no início do Caminho nada seja cobrado em termos de mudança de comportamento moral, as pessoas são devidamente instruídas sobre as situações em que estão impedidas de comungar. Também a Igreja tradicional convida a todos para participar da celebração da Missa, ainda que não possam comungar, como se vê na recente ênfase dada ao acolhimento dos “casais em situação especial”. E acontece que, na Missa tradicional, que é aberta a qualquer pessoa, há muito mais possibilidade de que alguém comungue em estado de pecado, uma vez que não se conhece as pessoas como nas comunidades catecumenais, que são pequenas e onde todos se conhecem.
Há também a questão das “migalhas”, à qual Zoffoli não deu destaque na presente obra, mas que já mencionou em outras, dizendo que, nas Eucaristias do Caminho, as pessoas dançam pisando nas migalhas do pão Eucarístico caídas no chão. É verdade que nós dançamos após a celebração, porque a Eucaristia é uma festa. E, se houver no chão migalhas, é possível que, sem querer, pisemos em cima delas. Mas é tomado todo o cuidado possível no sentido de evitar que caiam migalhas no chão. Se ainda assim isso acontecer, o risco é pelo menos igual ao das Missas tradicionais. Antigamente o cuidado era maior, com a comunhão sobre uma balaustrada, dada diretamente na boca e ainda com a patena colocada por baixo. Se a Igreja quis abolir tudo isso, implantar a comunhão nas mãos e ainda autorizar a distribuição da comunhão por ministros extraordinários, que a levam  aos doentes nas casas e às celebrações do culto eucarístico em comunidades rurais, suponho que seja por haver compreendido que Deus faz mais questão de estar presente no coração das pessoas do que estar cercado de respeito e cuidado, mas distante e inacessível. As mudanças pastorais do Concílio Vaticano II foram uma tentativa de resgatar os valores originais e a forma original de fé vivida pelas primeiras comunidades cristãs, que tinham Cristo como presença real e concreta em suas vidas, alguém familiar e não distante, como a idéia de Deus que se foi criando com o tempo, respeitosa mas desvinculada da vida. Também o Caminho Neocatecumenal caminha exatamente na direção desse resgate da força e da pureza original da fé das primeiras comunidades, desejando limpá-la dos desvios e acessórios que se foram instalando com o tempo. Como no Caminho as comunidades são pequenas e restritas, esse “resgate” pode ser feito de uma forma mais profunda, o que acaba “chocando” a nossa mentalidade geralmente refratária a mudanças (principalmente na Europa).
Vejamos agora a questão do sacerdócio ministerial, que Zoffoli afirma ser negado por Kiko. No texto das catequeses, depois de explicar sobre a noção de “templo” e “sacerdote” na religiosidade natural e pagã, ou seja, a idéia de “comprar” os favores de Deus com sacrifícios e promessas, Kiko continua:
“No cristianismo não há templo, nem altar, nem sacerdotes no sentido da religiosidade natural. Não há templo no sentido de lugar sacrossanto, em que se apresenta um culto sagrado, a Casa de Deus, onde Ele mora, ao passo que o resto é lugar profano.” Ele menciona aqui a passagem da Samaritana, onde Jesus diz que os verdadeiros adoradores não irão adorar a Deus neste ou naquele lugar, mas sim “em espírito e em verdade”. E eu lembraria ainda que as primeiras comunidades “partiam o pão nas casas”, porque o importante não era o local, mas Cristo que se fazia presente na assembléia familiar. “Onde dois ou três estiverem reunidos em meu nome, eu estarei no meio deles.” E Kiko continua:
“Jesus Cristo disse também: ‘Destruireis este templo e eu o reconstruirei em três dias.’, relacionando isso ao templo do seu corpo. De fato, o templo, no cristianismo, é Cristo. E Cristo onde está? Na Igreja. Mas a Igreja não é o templo de pedras; a Igreja somos nós, cristãos. Nós somos o templo vivo do Espírito Santo.
Da mesma maneira, no cristianismo, não há altar no sentido de uma pedra sagrada da qual ninguém pode se aproximar e muito menos tocar. Aqueles, entre vocês, que viveram o cristianismo a nível de religiosidade natural, devem lembrar-se de que, quando iam à missa, se colocavam atrás, e, se acontecia de se encontrarem perto do sacrário, já o coração batia mais forte, porque se encontravam perto do intocável, do lugar onde havia o sagrado. (lembro aqui também o Santo dos Santos do Antigo Testamento, onde somente o sacerdote podia penetrar, e mesmo assim uma só vez por ano. Quando Cristo morreu, “rasgou-se o véu do templo”, ou seja, foi eliminada a distância que tornava Deus inacessível a nós.) Nós, cristãos, não temos altar, porque a única pedra santa é Cristo. Pedra angular. Por isso nós podemos celebrar a Eucaristia sobre uma mesa, e podemos celebrá-la numa praça, no campo ou em qualquer lugar de que gostarmos. (O sacramento eucarístico foi instituído numa refeição – a última ceia – e tem portanto o sentido de refeição, e não de sacrifício expiatório, embora seja também a memória do sacrifício de Cristo. Mas foi o próprio Cristo que associou a sua entrega com uma refeição, dizendo que ali, naquele pão partilhado, se fazia presente a oferta de seu corpo na cruz. E era essa partilha do pão que os apóstolos foram incumbidos de repetir, e não o sacrifício no sentido judeu.) Não temos um lugar exclusivo para celebrar o culto. E nem temos sacerdotes, no sentido de pessoas que se separam de todos os outros, para que, em nosso nome, se coloquem em contato com a divindade. Porque o nosso sacerdote, aquele que intercede por nós, é Cristo. E como somos o seu corpo, somos todos sacerdotes. A Igreja toda é sacerdotal, no sentido de que intercede pelo mundo. É verdade que esse sacerdócio se visibiliza num serviço, e há alguns irmãos que são servidores desse sacerdócio, ministros do sacerdócio. No Novo Testamento não se usa a palavra “sacerdote”, a não ser rela!
cionada a Cristo; ao contrário, se fala de ministros e de presbíteros.” (pág. 42-43 das Catequeses iniciais).
Como se vê, não há aí nenhuma negação ou depreciação do ministério sacerdotal, mas apenas uma explicitação do lugar que este ocupa dentro do sacerdócio comum da Igreja enquanto participação no sacerdócio de Cristo, em oposição à idéia pagã de sacerdote como mediador do sacrifício expiatório. A Carta aos Hebreus trata precisamente disso, em especial no capítulo 9 e início do 10.
Ficam, portanto, sem efeito e sem procedência todas as conseqüências enumeradas por Zoffoli nas págs. 16 e 17, que decorreriam da negação do sacerdócio ministerial.
Para encerrar o tema da Eucaristia, cito agora alguns trechos que tratam da questão dos “sinais”, da “presença real” e da “transubstanciação” (pág 21 de Zoffoli). A catequese comenta como, com os abusos que começaram a aparecer nas celebrações da Eucaristia, foi preciso estabelecer um cânone, algumas formas fixas para as orações, e nesse contexto surgiu também a uniformização com a língua latina. Em conseqüência disso, como muitos não entendiam essa língua, foi-se perdendo a participação da assembléia na celebração. Com esse distanciamento das fontes, surgiram as racionalizações, as filosofias e teologias que tentam interpretar racionalmente realidades que ultrapassam a razão, justamente por serem mistérios. O mistério, que não pode ser explicado pela razão, torna-se presente por meio de sinais. Com a racionalização, deixou-se de dar tanta importância aos sinais, e Kiko diz que Lutero percebeu essa lacuna:
“Lutero não contesta a presença real, mas viu que se perderam os sinais e quer recuperá-los. Então o Concílio de Trento diz: ‘Se alguém diz que os sacramentos são somente sinais da fé, seja anátema.’
Um sacramento é formado por dois elementos: um é o sinal, explicitação do mistério, e o outro é a eficácia do sinal, que realiza o que o sinal significa. Lutero quis dar tamanha importância ao primeiro elemento, que o Concílio teve que ressaltar o segundo: os sacramentos dão a graça que significam. O Concílio disse a verdade, mas os que vieram depois, para se contraporem a Lutero, ficaram com a eficácia dos sacramentos, dando pouco valor ao sinal. Por isso, tanto faz que um só beba do cálice ou que todos bebam dele. O cânone dizia: ‘Tomou o cálice, deu graças e o distribuiu aos seus discípulos dizendo: tomai e bebei todos…’ mas na realidade quem bebe é apenas o sacerdote. O cânone diz que Jesus partiu o pão, mas a hóstia hoje mais parece papel do que pão. Quanto à eficácia, o sacramento se realiza, mas não se dá importância alguma ao sinal.
É importante insistir sobre isso: dos dois elementos do sacramento, nós ficamos com a eficácia, que é o importante para a mentalidade racionalista: a essência das coisas. Fizemos isso sem conhecer o valor precioso do sinal. Os sinais preparam o homem para se colocar em disponibilidade para que se realize o sacramento. O pão e o vinho, enquanto sinais, ajudam e preparam o homem para receber a ação de Deus. Mas, depois de Trento, ficamos com as essências e a eficácia, deixando perder-se o valor dos sinais. Por isso o Concílio Vaticano II estabeleceu que se recuperem os sinais em toda a sua riqueza, além de retirar todas as coisas que tinham sido introduzidas na missa, que são secundárias e obscurecem o que é principal: foram abandonadas as orações ao pé do altar, o último Evangelho, as três Ave-Marias, os altares laterais e as missas simultâneas, etc. A renovação significa limpar toda aquela casca que havia, para que o núcleo e o conteúdo que estavam escondidos apareçam em todo o seu esplendor.” (aqui fiz um pouco um resumo, selecionando os tópicos mais significativos, pois o texto da catequese é bem   mais extenso).
Agora transcrevo um trecho que fala especificamente da “presença real”: “A Igreja primitiva nunca teve problemas a respeito da presença real. Se tivessem perguntado a São Pedro se Jesus Cristo estava presente na Eucaristia, ele teria se espantado, porque ele nem se colocava tal problema. Para ele, Cristo é uma realidade vivente que faz Páscoa e arrasta a Igreja. Não se trata de migalhas ou coisas desse tipo; São Pedro ter-se-ia escandalizado muito mais pelo fato de não haver assembléia ou que um só bebesse do cálice. É questão de sacramento, de assembléia.
Mas vejam que agora, com a filosofia, começa a haver uma obsessão sobre a presença de Cristo no pão e no vinho e a maneira dessa presença. Eu poderia mostrar-lhes discussões teológicas sobre este problema que suscitariam risadas. A verdadeira teologia é um canto a Deus, é a própria Eucaristia, um canto completo de louvor a Deus porque se deixou conhecer. As teologias do século XVI não passam de elucubrações mentais sem a experiência bíblica de onde jorra a Eucaristia. O mistério centra-se sobre a presença: “os protestantes dizem que…”, “Calvino diz que…” A Igreja católica torna-se obcecada a respeito da presença real, como se esta fosse tudo. Começam as grandes exposições do Santíssimo, que antes não existiam, porque a presença estava em função da celebração eucarística, e não o contrário. O pão e o vinho não são feitos para serem expostos, porque se estragariam. O pão e o vinho são feitos para serem comidos e bebidos.
Eu sempre digo aos Sacramentinos de Roma, que construíram um sacrário imenso: se Jesus Cristo tivesse querido a Eucaristia para ficar ali, ter-se-ia feito presente numa pedra que não se estraga.
O pão é para o banquete, para conduzir-nos à Páscoa. A presença real é sempre um meio para conduzir-nos a um fim, que é a Páscoa. Não é um absoluto. Jesus Cristo está presente em função do mistério pascal. Ao contrário, de Trento em diante celebrou-se a missa para consagrar e ter presente Jesus Cristo e colocá-lo no sacrário. Em muitos conventos de freiras se disse a missa só para encher o sacrário. Transformamos a Eucaristia, que era um canto a Cristo glorioso, no divino prisioneiro do sacrário.
Nesta época começam o Corpus Christi, as exposições soleníssimas do Santíssimo, as procissões com o Santíssimo e todas as devoções eucarísticas, que se tornam mais importantes do que a celebração eucarística.
A presença de Jesus Cristo é outra coisa. É o carro de fogo que vem para nos arrastar para a glória, para nos transportar da morte para a ressurreição, para nos fazer verdadeiramente entrar na morte. Isso é muito diferente. A Eucaristia é completamente dinâmica, coloca-nos a caminho. Nós a transformamos em algo de estático e manipulável por nós. Tanto que ainda fazemos o agradecimento após ter comungado, quando a Eucaristia toda é uma ação de graças.” (Catequese de Carmem, pág. 262-263.)
Em seguida Carmem comenta as mudanças que o Concílio Vaticano II (e não o Caminho!) veio trazer a esse contexto, “tirando, como coisas secundárias, os valores de adoração e contemplação, que são alheios à celebração do banquete”. Foi estabelecido, por exemplo, que se tirasse o sacrário da nave principal, para que o Santíssimo não permanecesse presente durante a celebração da Eucaristia, atitude que escandalizou muitas pessoas. Mas a Igreja diz, no documento “Eucharisticum Mysterium”,nr. 55: “Na celebração da missa aparecem sucessivamente os principais modos da presença de Cristo em sua Igreja: presente em primeiro lugar no próprio povo fiel  reunido em seu Nome, em seguida, em sua Palavra quando se proclamam e se comentam as Escrituras; depois na pessoa do Ministro; e finalmente, de modo especial, sob as espécies eucarísticas. Assim, em razão do sinal, convém melhor à natureza da celebração, que no altar onde a missa é celebrada, não haja desde o início, pela conservação das sagradas espécies no tabernáculo, a presença de Cristo Eucarístico, que é fruto da ação eucarística, e como tal deve aparecer.”
A reserva, como explica a catequese, existe apenas em função dos enfermos, aos quais não foi possível assistir à celebração, e que podem assim participar também da assembléia celebrada pelos irmãos. Porém o mais importante é a celebração inteira em função da qual estão as espécies.
Está claro, portanto, que não existe negação da presença real, mas sim esclarecimento do seu verdadeiro sentido. Também não existe a idéia de que o pão e vinho consagrados sejam apenas um símbolo. Quanto à afirmação de que “pão e vinho consagrados permanecem substancialmente imutáveis” (pág. 21), não encontrei nada sobre isso (a afirmação é de Zoffoli, não uma citação das catequeses). De qualquer forma, se houve aqui algum mal-entendido, foi apenas de ordem filosófica, porque o conceito filosófico de “substância” é diferente do conceito científico e material dessa palavra. No aspecto material, a filosofia chama de “acidentes” aquilo que existe concretamente no momento e pode mudar, ao contrário da “substância” filosófica, que seria a presença real. O que importa é que o contexto da catequese deixa claro que não há nenhuma dúvida sobre a presença real, e bastaria mudar o termo utilizado para eliminar o impasse. Não é uma questão de “doutrina diferente”, e sim, apenas, do sentido de alguns termos. Talvez tenha sido por isso que Lutero se opôs à palavra transubstanciação, por considerá-la inadequada para expressar o mistério da presença real, no que Kiko concorda com ele. Isso não significa negar a presença real, nem significa que Kiko concorde com tudo o que Lutero disse. A catequese menciona também os pontos onde Lutero errou.
Continuando, passemos à questão do pecado (pág. 18). Mais um “equívoco grosseiro”, para usar as próprias palavras de Zoffoli. Segundo ele, Kiko afirma que “o pecado não ofende a Deus”. Kiko fala sobre isso ao orientar os catequistas sobre a resposta que deve ser dada à seguinte pergunta de um questionário proposto para levar os candidatos a catecúmenos à reflexão, na catequese sobre o sacramento da penitência: “Pode-se ofender a Deus sem ofender, ao mesmo tempo, ao próximo e a si mesmo?” Alguns dirão que não se pode ofender somente a Deus, porque somos o Corpo Místico de Cristo, e, portanto, o pecado de cada um repercute sobre os outros. A pergunta tem uma armadilha. Ela questiona as pessoas se é possível ofender unicamente a Deus. A pergunta é colocada assim, porque nós temos uma concepção vertical do pecado, individualista: que somos nós que ofendemos, de maneira particular, a Deus, como se o pecado fosse uma ofensa a Deus, no sentido de roubar a Deus a sua glória. Nós acreditamos que podemos causar dano a Deus.
A primeira coisa que devemos pensar é que não se pode causar danos a Deus. Deus não pode ser ofendido no sentido de tirar-se-lhe a glória, porque, então, Deus seria vulnerável e não seria mais Deus. Deus é invulnerável. Você não pode tirar-lhe a glória de jeito nenhum. Há um salmo que também diz isso: ‘Estes que levantam o seu arco contra o céu, acaso acreditam poder alcançar a Mim? Não sabem que as flechas que lançam contra Mim vão recair sobre eles?’ Isso surpreende muitíssimo as pessoas, porque desde pequenos nos disseram que os pecados fazem sofrer o Menino Jesus, se formos maus e desobedientes. Assim, as pessoas adquiriram conceitos sentimentais, achando que o pecado faz Jesus Cristo sofrer muito.
Em que sentido se pode falar em ofender a Deus? No sentido de que o pecado quebra o plano de Deus. Qual é o plano de Deus, o desígnio de Deus sobre o homem?  O AMOR! O pecado é sempre uma lesão ao amor. Mesmo que eu diga uma blasfêmia sem que ninguém perceba, isso me degrada interiormente como pessoa, e essa degradação repercute de alguma maneira nas minhas relações com os outros. É o que diz também a psicologia profunda. Um homem está com raiva, por exemplo, porque teve uma discussão com alguém no ônibus, ou porque alguém pisou no seu pé, então desabafará com a mulher em casa. Se você tem um problema que o amargura, seu relacionamento com as pessoas será diferente de quando você está alegre. Até um pensamento ruim condiciona a sua atitude frente aos outros. E se você se degrada, está quebrando o plano de Deus. Nesse sentido se diz que ofendemos a Deus: no sentido de que quebramos o plano de Deus.
Então, quando você peca, ofende a Deus porque quebra o plano de Deus, e então o que acontece é que causa dano para você mesmo e para os outros. Portanto, é impossível ofender a Deus sem ofender também aos outros e a si mesmo.” (pág. 140-141).
Portanto, mais uma vez, não existe aí nenhuma negação, mas sim um aprofundamento, para que as pessoas comecem a ver o pecado não apenas como atos isolados de ofensa a Deus, mas sim como algo que nos mata, que nos faz mal, e em conseqüência disso faz mal também aos outros. É nesse sentido que ele nunca será um ato exclusivamente individual, mas sempre também (e não só) social (cf. letra b) de Zoffoli, pág. 23). Kiko e Carmem querem desfazer aquela noção de “infração de uma lei” que leva uma pessoa a pensar (como se exemplifica mais adiante): “Pode ser que um dia eu tenha que pagar por isso, mas pelo menos aproveitei enquanto podia.” Ou seja, o pecado seria um “bem” que pode até custar caro, mas vale a pena.
Trata-se de desfazer também aquela noção (da qual nem temos consciência) de que o pecado é um ato isolado que cometo, e do qual fico inteiramente perdoada com a confissão, e não algo que faz parte da minha natureza. Eu não apenas cometo pecados, mas eu sou um pecador. Portanto, não basta buscar o sacramento da confissão como uma espécie de “lata de lixo” onde jogo aquilo que não presta, e assim fico limpa. Para que eu fique limpa de fato, é preciso mudar a minha natureza, ou seja, converter-me. Caso contrário, posso confessar-me sempre, mas isso não me mudará interiormente. Assim, a confissão pode acabar transformando-se numa atitude comodista, um meio de tranqüilizar a consciência sem que sintamos a necessidade de uma conversão profunda.
Evidentemente, é preciso cuidado ao falar de coisas assim, para evitar mal-entendidos. Posso compreender que muitas pessoas fiquem chocadas, pois eu mesma me vi resistindo às palavras de Kiko e Carmem, ao ler agora o texto da catequese. Como pode alguém vir dizer que a confissão não é uma coisa boa? Como, porém, já estou familiarizada com a orientação do Caminho o suficiente para ter confiança, consegui vencer o preconceito e tentar entender o sentido profundo por trás daquelas palavras. E que diferença, depois que a gente entende! O essencial começa a aparecer por trás dos acessórios que nos sobrecarregavam e dificultavam a caminhada e a visão. “Vinde a mim todos vós que estais sobrecarregados…” sobrecarregados também de conceitos e preconceitos, de visões estreitas e legalistas  que não nos permitiam enxergar o essencial.
Essa mudança de mentalidade (conversão) não é coisa de momento, mas é um processo que leva anos, é uma longa caminhada catecumenal. Kiko repete sempre que nem tudo o que ele está dizendo é para ser repassado às pessoas, ao menos não tudo de uma vez. Ali ele está formando os catequistas, para que estes possam depois formar suas comunidades, segundo o ritmo próprio delas. As coisas não podem ser jogadas de qualquer maneira, sem uma preparação, porque nesse caso seriam mal compreendidas. É esse o único motivo do “segredo” que tanto incomoda as pessoas. E, nesse sentido, o zelo inoportuno de Zoffoli terá talvez sido pedra de tropeço e motivo de escândalo para muitos “pequeninos” que, como diz São Paulo, ainda estavam na fase de alimentar-se com leite e não com comida sólida.
No primeiro momento, trata-se de fazer as pessoas compreenderem que são pecadoras, muito mais pecadoras do que pensam. Jesus disse que o Paráclito viria para “convencer o mundo do pecado”, e João Paulo II disse, citando Pio XII, que “o pecado do século é a perda do sentido do pecado”. E ninguém se sentirá pecador de fato enquanto não compreender que os pecados não são simples atos exteriores que podemos ou não cometer, mas que é algo arraigado na nossa natureza. E chegamos assim àquela questão de que “o homem é constrangido a pecar”, em torno da qual Zoffoli fez tanto drama (pág. 18 e outras).
Kiko fala sobre isso comentando o texto de Romanos 7, que diz muito claramente: “Eu sou carnal, vendido como escravo ao pecado. Não faço o bem que quero, mas o mal que não quero. Não sou mais eu que pratico a ação, mas o pecado que habita em mim. Querer o bem está ao meu alcance, mas não o praticá-lo.” São João também diz: “Se alguém afirma não ter pecado, é um mentiroso.” Portanto, se Kiko está negando a liberdade de responder à ação da graça, então também São João e São Paulo fazem o mesmo.
Mas não. São Paulo salienta o antagonismo entre a carne e o espírito, que permanece mesmo após a Redenção. Cristo libertou o homem do pecado para que ele viva segundo as obras do espírito e não as da carne, mas, enquanto estivermos neste mundo e presos ao nosso corpo carnal, continuamos constrangidos a pecar. Iremos nos libertando do pecado aos poucos, na medida em que abrirmos espaço para a graça, mas nunca completamente, nesta vida.
Kiko fala sobre isso para que as pessoas não desanimem diante da impossibilidade de atingir a perfeição. Se esperamos demais de nós mesmos, fatalmente nos decepcionamos. Na religião tradicional em que fui educada, existe facilmente a tendência de acharmos que somos melhores do que os outros e que já estamos salvos porque praticamos as obras da lei. Quem está vivendo essa realidade não tem consciência dela, só vai perceber quando começa a ver as coisas por outro ângulo, como me aconteceu quando fui morar em Buritis. A primeira coisa que descobri foi que não estava cumprindo nem mesmo o primeiro mandamento, quanto mais os outros. E nunca tinha percebido isso antes.
Quando a gente se acha “bom” e de repente se vê caindo num pecado grave, toda a estrutura pode desmoronar e conduzir mesmo ao abandono da fé, pois nos consideramos indignos de estar na Igreja. A gente se considera imune ao pecado, por isso não se previne contra ele, ou então fecha inconscientemente os olhos para ele, mantendo uma religião de aparências, sem sentir necessidade de uma conversão profunda.
Por isso São Paulo diz que a lei não salva ninguém, porque ninguém é capaz de cumprir a lei. A única utilidade da lei é justamente mostrar-nos o nosso pecado, a nossa incapacidade de cumprí-la. Enquanto a pessoa achar que pode libertar-se do pecado por seus próprios esforços, por suas próprias obras, sempre se verá frustrada, porque voltará sempre a pecar. E é nesse sentido que somos, sim, constrangidos a pecar, como São Paulo afirmou.
O que é preciso entender é que não são as nossas obras que nos salvam, mas sim Jesus Cristo. E a redenção acontece apesar do nosso pecado, embora nos vá libertando dele aos poucos, na medida em que correspondemos à graça. Nossa liberdade consiste em que podemos ou não permitir que Deus nos salve. Mas o mérito será sempre dele, nunca nosso.
Se pudéssemos, por nós mesmos, libertar-nos do pecado, chegaria um momento em que não mais precisaríamos nos confessar. No entanto, mesmo as pessoas de vida mais santa precisam da confissão, e aliás são essas as que mais pecadoras se sentem. Isso quer dizer que a graça não está nelas? Se apesar de serem santas elas pecam, é porque sua natureza imperfeita as constrange a isso, e seu maior mérito está em reconhecer que tudo que nelas há de bom é mérito de Deus, e não seu. Quando a pessoa chega a esse ponto de liberdade interior, já não se escandaliza dos próprios pecados, como Santa Teresinha que se alegrava por suas imperfeições, porque isso a tornava mais devedora à graça de Deus.
Na catequese sobre o querigma  há um trecho lindo que mostra justamente isso:
“Vós sabeis qual é a diferença entre um cristão e um pagão? Vamos a um bar e imaginemos encontrar aí um cristão e um pagão que bebem um café. Diremos ao pagão: Tu és um homem egoísta e orgulhoso. Este homem ficaria com muitíssima raiva e diria: com que direito o senhor me insulta? Quem pensa que é? Eu, egoísta? Jamais fui egoísta! O egoísta és tu! Digamos, agora, a mesma coisa ao cristão (imaginai que seja São Francisco de Assis). Toquemo-lo no ombro e digamos-lhe: “Permite? O Senhor é um homem profundamente egoísta e orgulhoso.” O que pensais que São Francisco vai-vos responder? “Vistes muito bem. Eu sou ainda pior do que vós dizeis. Sou um pecador, profundamente pecador e egoísta.”
Então, eis que surge uma questão: como é possível ser um santo e ser egoísta? O que torna santo a São Francisco de Assis e a qualquer cristão, não é o fato de não mais ser egoísta (porque sempre o seremos), mas o fato de haver compreendido que Deus é o único capaz de amar um egoísta.
O pagão é cego a respeito de sua situação e todos os dias assina para si mesmo um atestado de boa conduta, porque se ele não é bom, a sociedade não o aceita. E como ele quer ser aceito pela sociedade, todos os dias diz a si mesmo que é bom. São Francisco, ao contrário, não se deixa julgar pela sociedade, mas pela cruz de Jesus Cristo, que reuniu em si o pecado de todos, para a todos manifestar misericórdia. São Francisco se conhecia profundamente e isso o levou a amar a Deus, a saber que não há necessidade de usar uma máscara de pessoa boa diante dos outros, porque Deus ama o pecador. Deus veio para fazer-se a si mesmo pecado, para encontrar a ovelha perdida. Ele desceu até a nossa realidade mais profunda de maldade. (Enquanto não nos sabemos pecadores, não aceitamos que Jesus nos liberte do pecado, pois só pede quem se reconhece necessitado).
Quem descobriu verdadeiramente a sua realidade de pecador, não julga mais os outros, porque sabe que é pior do que os outros. E nós, através de um catecumenato, chegaremos à mesma conclusão: descobriremos a nossa profunda realidade de pecadores.
O que é o catecumenato para a Igreja primitiva? É descer até conhecer a nossa realidade de pecado e deixar-se submergir na Cruz. Submergir na cruz quer dizer submergir na água do Batismo. A água significa ao mesmo tempo vida e morte; e submergir-se na cruz de Cristo quer dizer morrer, para então poder viver.
E por que nós devemos fazer um longo caminho? Porque é muito difícil acreditar verdadeiramente que nós somos pecadores. Quando um homem está convencido de que é um pecador, aí então a Igreja o convida a despojar-se desse homem velho, a deixá-lo na água, a crer no poder de Deus, a crer que o Espírito que ressuscitou um morto e o fez sair do túmulo, entra no vosso íntimo, então ‘este mesmo Espírito ressuscitará o vosso corpo, fará de vós uma nova criatura, uma nova vida’.”
Quando Kiko diz que a Igreja primitiva não tinha a confissão como a temos hoje (pág. 23 do livreto de Zoffoli) e que o que ficava em seu lugar era o Batismo, isso acontecia porque as pessoas só recebiam o batismo depois de terem feito um longo catecumenato, depois de estarem convertidas. E quando chegavam a esse ponto, a graça do Batismo tinha uma força muito maior (porque o coração estava preparado), e por isso dificilmente voltavam a pecar gravemente. Quando alguém pecava, era excluído da comunidade, para que sentisse novamente a necessidade de conversão. Quando esta acontecia, a pessoa era readmitida na comunidade, e essa foi a primeira forma de manifestar o perdão dos pecados, sendo considerada como um “segundo Batismo”. Kiko diz que “o importante não era a absolvição”, porque o fato principal aí era a conversão que tornava a pessoa apta a participar novamente da comunidade dos santos. Todo esse processo tinha um caráter eclesial, comunitário, sendo a exclusão e a readmissão conduzidas pelo bispo, dentro da assembléia. É esse o sentido da “visão comunitária” do pecado que Zoffoli quis condenar.
Depois Kiko continua fazendo uma longa e interessante retrospectiva histórica, mostrando como, de mudança em mudança (provocadas por fatores externos diversos, sobretudo políticos e sociais) o sacramento da confissão foi aos poucos adquirindo a forma que conserva até hoje. Quando Kiko diz que “a partir do Concílio de Trento, tudo ficou bloqueado” (pág. 24) não significa que houve “retrocesso” como interpretou Zoffoli, mas sim que não houve mais mudanças, até o Concílio Vaticano II. É interessantíssimo acompanhar a evolução da exposição de Kiko, e perceber como o sacramento da confissão foi perdendo o caráter profundo de conversão, tornando-se um ato quase mágico, onde o importante não era mudar de vida, mas sim dizer os pecados e receber a absolvição, como se isso,  em si, conduzisse à santificação pessoal. Ora, a graça da absolvição não produz efeito se não houver predisposição interior, assim como a água de uma torneira pode jorrar à vontade, que não servirá para nada se n!
ão a recolhermos de alguma forma.
O Caminho quer restaurar a consciência da importância da conversão, desfazendo a idéia de que a absolvição, por si, resolve tudo. O conteúdo da catequese é riquíssimo e não há como esgotá-lo aqui. Um exame profundo e desarmado mostra que não há heresias, apenas aprofundamento, como eu já disse antes. A renovação, como a conversão, exige coragem, e nós temos muita dificuldade para nos desprendermos daquilo que já está arraigado em nós (o homem velho). Conversão é “renunciar a si mesmo”, é mudança de vida, e mudar é mergulhar no desconhecido, por isso nos assusta. Preferimos a comodidade do já conhecido, do caminho já batido. “Estreita, porém, é a porta, e apertado o caminho que conduz à vida.”
Admiramos muito a atitude radical dos primeiros cristãos, dos mártires e santos, mas não pensamos nisso como uma possibilidade concreta para nós, algo a que nós também somos chamados. Quando alguém descobre a pérola e vem conseguindo tirar a santidade do plano da utopia e transformá-la em realidade, em regra de vida e não mais exceção (“Sede santos como eu sou santo”), acusam-no de heresia e de oposição à Igreja. Damos mais importância aos detalhes teóricos da doutrina do que à sua prática, e preferimos ver nossas Igrejas esvaziando-se do que mudar alguma coisa em nossa catequese. É compreensível, pois a conversão nos acusa e nos desinstala, daí a oposição que cercou (e matou!) Jesus. O Papa João Paulo II, porém, enxerga mais longe…
Zoffoli, na pág. 20, acusa Kiko de dizer que Jesus Cristo não é um modelo a ser imitado, um ideal de vida. Na verdade, Kiko quer dizer que nós, por nosso próprio esforço, não temos condições de vencer a morte, de imitar Jesus. Por isso, não devemos achar que podemos ser como Jesus, mas justamente compreender que não o podemos. Não por nós mesmos, mas sim se acolhermos, pela fé, a graça da cruz e da ressurreição de Jesus. Podemos receber a vida justamente porque pecamos, porque somos incapazes de ter vida por nós mesmos. Como diz o pregão pascal: “Ó feliz culpa, que mereceu tão grande redentor!” Quem escreveu essas palavras, certamente já tinha aprendido a não se escandalizar dos próprios pecados…
Kiko não diz que “Jesus não operou a redenção”, como acusa Zoffoli na pág. 19. Quando ele diz que, a partir do Concílio Vaticano II, “não se falou mais no dogma da Redenção”,  mas sim em “mistério pascal”, significa que o Concílio procurou resgatar o sentido da Páscoa como VIDA NOVA, e não simplesmente expiação de uma culpa. Nem se trata, portanto, de uma iniciativa de Kiko, mas sim do Vaticano II, que Kiko teve o mérito de compreender mais profundamente do que Zoffoli. Ele quer que não nos limitemos a acreditar na Redenção, mas que cheguemos a experimentá-la de fato, para que um dia, quando estivermos na fase do “Credo”, possamos levantar-nos diante de toda a comunidade e explicar por que cremos num Deus que é Pai, todo-poderoso, que enviou seu filho para morrer e ressuscitar por nós. Não vamos dizer que cremos nisso simplesmente porque a Igreja o ensina, mas porque o temos, de fato, experimentado em nossa vida.
Zoffoli achou que, para julgar o Caminho, seria suficiente examinar o texto das catequeses. Talvez fosse mesmo, se ele conseguisse fazer uma leitura desarmada e despreconceituosa. Em todo caso, a observação da vivência concreta das comunidades teria ajudado muito a desfazer os enganos. Porque o mais importante não são as palavras consideradas isoladamente, mas a noção que fica na cabeça e no coração das pessoas, e a atitude concreta que daí brota.
Vem-me à mente, agora, a insistência do Caminho sobre a afirmação de São Paulo de que “a fé vem pela pregação”. É como se a pregação em si fosse um sacramento e, como tal, eficaz, e essa eficácia estivesse também relacionada à presença da assembléia. Zoffoli contesta a idéia de que “é da assembléia que brota a Eucaristia”, (pág. 22) mas esta é de fato, um elemento fundamental, tanto que não se pode celebrar a Eucaristia sem que haja pelo menos uma pessoa presente, além do celebrante. Sendo assim, é possível também que a presença da comunidade tivesse ajudado Zoffoli a abrir o espírito, se ele tivesse feito a experiência. (Isso não é “doutrina” minha nem do Caminho, mas apenas um pensamento que me ocorreu.)

Creio que terminei, aqui, a parte concernente às “heresias doutrinárias”. Passo agora às questões morais, a começar pelo espinhoso tema do dinheiro.
É mesmo impressionante o poder corruptor do deus dinheiro. Quando ele está envolvido, tudo nos parece suspeito, até mesmo o desprendimento dos outros, de cuja sinceridade duvidamos por não sermos capazes de imitá-la. Não foi à toa que Jesus disse não ser possível prestar culto simultâneo aos dois: ou Deus, ou o dinheiro.
É justamente esse antagonismo que nos é apresentado na catequese do Primeiro Escrutínio sobre esse tema. As pessoas são chamadas a conscientizar-se de que muitas vezes têm tentado servir aos dois senhores, sem perceber que, se servem ao dinheiro, estão deixando de servir a Jesus Cristo. Não posso aqui, como antes, confrontar as citações de Zoffoli com o texto das catequeses, pois não tenho em mãos esse texto, e sim apenas o das orientações para as catequeses iniciais. Mas creio ser desnecessária essa confrontação, pois já demonstrei suficientemente a arbitrariedade com que Zoffoli “manipulou” as palavras de Kiko e Carmem.
Aliás, ele deveria ter mais cuidado, pois, ao contrapor à insistência de Kiko (sobre o fato de que Deus não nos quer pobres) o convite de São Paulo para que mortifiquemos nossa carne (pág. 27), esquece-se de considerar que os “católicos tradicionais”, mesmo os praticantes, estão igualmente longe de seguir esse conselho. Estão mesmo mais longe ainda, já que em momento algum lhes é dito que vendam seus bens – a não ser no Evangelho, que ninguém considera como um convite pessoal. O que se vê na fé tradicional, que eu vivi, é que se leva muito a sério algumas práticas, mas se amortece a consciência ao ouvir ou ler certas passagens que incomodam, como se não fosse conosco, ou como se “não fosse bem assim”. É o caso da passagem do jovem rico, quando Jesus diz: “Se queres ser perfeito, vai, vende teus bens, dá aos pobres e terás um tesouro no céu; depois, vem e segue-me.” Quem de nós se sente convidado a fazer isso de fato? Ninguém. E no entanto nossa consciência permanece perfeitamente tranqüila, nem ao menos nos entristecemos como aconteceu com o jovem rico. Se, porém, alguém vier nos dizer que não seguimos Jesus Cristo, discordaremos enfaticamente dele.
Às vezes nos desculpamos dizendo que ajudamos muita gente, somos honestos (será?), precisamos sustentar a família, etc. Mas quase sempre damos apenas o que nos sobra. Se um ladrão vem e nos rouba tudo o que temos, ficamos completamente transtornados.
No primeiro escrutínio nos é apresentada essa realidade de escravidão ao dinheiro, e nos é perguntado se queremos permitir que Deus comece a nos libertar dela. Nunca ouvi falar – e tampouco o Pe. João Paulo – que a alguém tenha sido pedido que venda todos os seus bens, a ponto de ficar na miséria. O que nos é pedido é que descubramos onde está o nosso tesouro, a qual de nossos bens estamos mais apegados, e vendamos esse, ainda que não tenha nenhum valor comercial. Depois, somos convidados a colocar o dinheiro num envelope e enfiá-lo debaixo da porta de algum casebre pobre, sem que ninguém nos veja e sem que saibamos a quem pertence a casa, para que não possamos receber agradecimentos, nem ter a satisfação de saber se fomos de fato úteis aos moradores da casa, pois nesse caso “já teríamos tido a nossa recompensa”.
Somos convidados a fazer isso no mínimo uma vez, mas podemos repetí-lo quantas vezes o nosso coração mandar. E não é para ficar pobres que o fazemos, mas sim para experimentar a fidelidade de Jesus quando diz que nos retribuirá cem vezes mais, mesmo ainda nesta vida. Por isso é que se diz que Deus não nos quer pobres. Ele nos quer desprendidos e desapegados, sabendo viver igualmente bem na fartura ou na penúria como São Paulo, sendo administradores dos bens, mas não escravos deles. E sabendo, como Jó, que tudo o que temos é dom de Deus e pertence a Ele, e que portanto Ele pode nos dar ou tirar como lhe aprouver, sem que nos sintamos lesados. Quem tiver esse espírito, pode usufruir dos seus bens sem peso de consciência, na simplicidade de quem se sabe indigno, mas mesmo assim acredita no amor gratuito de Deus que nos sustenta.
Kiko condena a ascese e a renúncia no sentido de não cairmos na tentação de pensar que, com elas, podemos merecer o céu, “comprar” a salvação. Esta será sempre dom gratuito, nunca fruto de nossas obras. É claro que o caminho do céu  é estreito e passa pela cruz e pela morte, mas precisamos chegar a entender a cruz como dom e não como um preço ou condição imposta.
Nesse sentido as cartas dos apóstolos apresentam contradições, pois em várias passagens São Paulo diz e repete que é a fé e não as obras que salvam, mas depois vem São Tiago e diz que “a fé, sem obras, é morta”, e o próprio Paulo fala em castigar o corpo e em “praticar as obras do Espírito”.
O dilema está em descobrir o verdadeiro sentido das obras. Elas existem como fruto da conversão, da fé e do amor que temos a Deus e aos irmãos, e não como condições para a salvação, como a vêem geralmente os protestantes. Não é fácil chegar a compreender isso em profundidade, e o Caminho quer ir-nos preparando pouco a pouco para chegar a essa liberdade dos filhos de Deus, que nos torna capazes de amar o inimigo. Numa palavra, o objetivo final do Caminho é tornar-nos capazes de viver o Sermão da Montanha, sabendo, porém, que não adianta tentá-lo somente com nossas forças, ou somente com gestos exteriores, que não vêm do coração.
O primeiro passo proposto é a libertação da escravidão ao dinheiro. Se alguém tiver tido a coragem de vender todos os seus bens, isso teria sido louvável se tivesse sido acompanhado de igual confiança no Deus que alimenta os passarinhos e veste a erva do campo. Se, porém, a pessoa não o fez de coração, a ponto de ficar revoltada e condenar o Caminho por causa disso, é evidente que não deveria tê-lo feito, pois não estava preparada. Se houve algum catequista que pressionou as pessoas nesse sentido, terá sido erro do catequista, pois não é essa a orientação do Caminho. Os catequistas não são perfeitos nem infalíveis, e geralmente demonstram notável humildade em reconhecer os próprios erros, repetindo sempre que, embora transportem um tesouro, continuam sendo vasos de barro. Mas o mais provável é que o catecúmeno não tenha compreendido bem as coisas. E se de fato a pessoa ficou “na miséria” (pág. 35), é porque não teve a humildade de pedir o auxílio da comunidade. Pois o orgulho é um ídolo ainda mais poderoso do que o dinheiro, e muito mais difícil de abandonar. Mas o que pode também ter acontecido, é que alguém recuse assumir seus compromissos com a comunidade, mas ainda assim deseje ser sustentado por esta. Eu mesma tenho notícia de um caso desses, um ex-catecúmeno de Brasília que foi expulso de sua comunidade por querer dela apenas dinheiro, e hoje anda rodando as comunidades do Brasil, conquistando as pessoas com seu conhecimento do Caminho e citando pessoas como referência, para pedir dinheiro. Isso é vagabundagem, e obviamente não deve ser incentivado.
Quanto ao fato de que somente aos iniciantes é pedida a renúncia aos bens, isso não acontece porque os demais podem e devem viver com fartura e regalar-se, mas sim porque estes já terão atingido a liberdade em relação ao dinheiro, como expliquei atrás. E é certo que, se por um lado Deus é generoso, por outro lado também prova mais severamente aqueles a quem mais cumulou, e com freqüência os catecúmenos são chamados a dar provas da firmeza de sua fé e confiança, como aconteceu com Jó. Isso está muito longe de uma “interpretação hedonista da vida cristã”, conforme o julgamento maldoso de Zoffoli (pág. 29).
A verdade é que os catequistas e as pessoas mais adiantadas no Caminho levam uma vida muito difícil. São provados de diversas formas, inclusive com dificuldades financeiras, problemas de família, trabalho, etc. E é na sua reação a esses acontecimentos que vemos a diferença entre o cristão e o pagão, como naquela história de São Francisco. Eles sofrem, sim, e carregam cruzes pesadas, mas conservam a alegria e a serenidade, sabem abandonar-se confiantes nas mãos do Pai. Não se comprazem masoquistamente no sofrimento, nem fazem alarde dele para que todos vejam, mas alegram-se por serem considerados dignos de participar da cruz de Cristo. Evidentemente, nem todo mundo é capaz de compreender isso.
O mesmo se pode dizer em relação às famílias itinerantes, cuja situação pode parecer-se com tudo, menos com a de “turistas abastados, livres de toda preocupação econômica” (pág. 38). Eles não vão para lugares aprazíveis e ricos em diversões, mas vão justamente para lugares problemáticos, onde as pessoas vivem sem Deus e por isso se faz necessário o testemunho do Evangelho. Lá eles compartilham das condições de vida locais, freqüentemente precárias, e sua função não é pregar pelas praças, mas simplesmente ser presença e dar testemunho de uma vida segundo o Evangelho. Sua maneira de viver e de se comportar frente aos problemas e aos atrativos do mundo acaba por chamar a atenção das pessoas, que vêem neles uma força diferente, valores diferentes, que não garantem uma vida fácil, mas sim uma vida que tem sentido, ou seja, exatamente aquilo de que as pessoas mais necessitam, e que o mundo não pode oferecer. Seus filhos, por exemplo, recusam-se a participar de “demonstrações práticas” em aulas de educação sexual nas escolas;  no emprego, eles não se deixam corromper (médicos não fazem abortos, comerciantes não roubam nos preços ou nas medidas, coisas assim). Nos lugares onde vivem eles também trabalham para sustentar-se. Em caso de necessidade podem, sim, recorrer à comunidade, mas certamente não pedirão nada além do indispensável, mesmo porque recorrer à caridade dos outros é algo muito difícil para o nosso orgulho, e exige que a pessoa seja, ou muito “safada”, ou muito humilde. Lá em Buritis, certa vez, um catequista itinerante comentou comigo, com encantadora simplicidade, que ficava feliz ao receber roupas de presente, pois não gostava de pedir à sua comunidade dinheiro para comprar roupas, a não ser que fosse absolutamente necessário.
Junto com as famílias itinerantes sempre vai um padre, que se coloca a serviço da paróquia local e aí dá também seu testemunho.
Foi dito que apenas aos iniciantes é pedida a venda dos bens. Mais adiante, porém, a comunidade é convidada a dar o dízimo, que é a forma como realizam a atitude das primeiras comunidades cristãs que “tinham tudo em comum e dividiam seus bens com alegria”. É desse dízimo que vem o auxílio aos itinerantes ou seminaristas que pertençam àquela comunidade, bem como a qualquer membro da comunidade que necessite.
Zoffoli fala de “incoerências”, mas ele também é incoerente ao condenar, por um lado, o “padrão de vida magnífico” dos catequistas, enquanto por outro lado condena “a insistência sobre a venda dos bens, como se fosse uma condição necessária para ser autênticos cristãos” (pág 40). E continua dizendo que “também na Igreja primitiva de Jerusalém aquela venda era muito livre…” Eu perguntaria então como fica o episódio de Ananias e Safira, narrado em Atos 5, onde ambos foram fulminados em conseqüência de sua tentativa de fraude. As pessoas são livres no sentido de aceitar ou não o convite ao desprendimento. Mas Deus não aceita o meio-termo, prefere a recusa à hipocrisia, prefere o frio ao morno.
Quanto à prestação de contas, é aí que, a meu ver, Zoffoli mais se condena. Todos os catecúmenos sabem que o dinheiro recolhido nas coletas (ou o dízimo) destina-se a sustentar os itinerantes, os seminários, ajudar irmãos necessitados, financiar eventos e construções como os seminários e as casas de formação, comprar vinho, flores ou outros objetos para o uso da comunidade, além de ajudar também nas obras da paróquia, mesmo não ligadas ao Caminho. Essa história de que “só se ajuda aos irmãos da comunidade e se exclui os outros” é falsa. Mas naturalmente a comunhão de bens é realizada dentro da comunidade, nem poderia ser diferente, já que é uma coisa feita “em comum”. Também nas primeiras comunidades era assim. Os bens não eram, em princípio, distribuídos a esmo, mas dentro da própria comunidade (“não havia necessitados entre eles”), o que não significa que não se praticava a caridade para com os de fora. Inclusive nos é ensinado que, quando damos esmola a um mendigo, não de!
vemos ficar preocupados com o uso que ele fará daquele dinheiro (se vai comprar bebidas ou drogas), porque o objetivo primeiro da esmola não é beneficiar o outro, mas sim a nós mesmos, pelo desprendimento dos bens. Se fazemos questão de saber que o dinheiro foi bem empregado, que não foi desperdiçado, é porque estamos na verdade supervalorizando o nosso gesto, querendo recompensa por nossa virtude (o que não significa, é claro, que não devamos usar de discernimento na hora de dar esmolas, procurando ajudar a pessoa da maneira que será mais útil para ela).
O mesmo se aplica à prestação de contas. Sempre que se faz uma coleta, somos devidamente informados do fim ao qual ela se destina. Nunca ouvimos falar naquele tal “saco de imundícies”, nem eu nem o Pe. João Paulo, que no entanto conhece muitas comunidades, inclusive na Europa.
Quanto a apresentar um balancete com tudo discriminado, para que cada um saiba exatamente para onde foi cada centavo, isso também não é prática comum na Igreja, embora hoje exista em algumas paróquias. Nas Igrejas antigas, além da coleta no ofertório, havia aquelas caixas de espórtulas, geralmente sob as imagens, onde as pessoas deixavam dinheiro “para o santo”. Também não ficávamos sabendo para onde ia esse dinheiro, embora soubéssemos que se destinava a obras assistenciais ou ao sustento da Igreja.
Ora, convenhamos que, se para nós é absolutamente imprescindível saber o que foi feito do nosso dinheiro, então isso deixa de ser caridade e desprendimento, para tornar-se uma espécie de investimento financeiro. Quando damos, está dado, não nos pertence mais, e não nos deve preocupar o destino do nosso dom (“não saiba a tua mão direita…”). Pode ser que algum catequista não tenha sabido explicar isso corretamente, mas o mais provável é que esses ex-catecúmenos que escreveram a Zoffoli tivessem o coração fechado e não tenham entendido o espírito da coisa.
Os próprios “grandes investimentos” citados por Zoffoli dão testemunho de que o dinheiro é aplicado na evangelização, e não desviado para o bolso de alguém.
Quanto a essa história de “molhar a mão” dos Bispos para conseguir sua adesão ao Caminho, é pura (e grave!) calúnia. Nenhum Bispo autorizou o Caminho contra a sua vontade. Mas, ainda que fosse verdade: se os Bispos se deixam corromper, isso depõe contra eles, ao menos tanto quanto contra o Caminho.
A leitura das observações de Zoffoli revela até que ponto pode chegar a cegueira provocada pela obstinação. Ele fala num “emaranhado de mal-entendidos, de estranhezas, de contradições”, sem perceber que essas contradições só aparecem quando ele tenta enquadrar o Caminho dentro da sua visão distorcida. Como é possível que um teólogo, conhecedor dos mistérios da fé e do poder de Deus, encontre no “fascínio carismático” exercido por Kiko e Carmem a “mais séria” explicação para as atitudes radicais de coragem, fé e humildade observadas nos catecúmenos? (pág. 42) Para ele, então, a Igreja verdadeira é aquela Igreja fria, que se preocupa com detalhes dogmáticos (como os fariseus!), mas esqueceu a coragem dos mártires? O heroísmo da santidade, hoje, lhe parece algo tão impossível, para que sua visão desperte suspeitas de persuasão hipnótica ou manipulação psicológica? Foi, então, o zelo farisaico desvinculado da vida, que Jesus veio defender? Terá Zoffoli esquecido que Jesus desprezou “os sábios deste mundo”, porque era lá, entre os pecadores e os ignorantes, que ele encontrava a autêntica fé? Não foi à toa que Jesus disse aos fariseus: “Oxalá fôsseis cegos! Mas, porque pensais ver, vosso pecado é maior.” (Jo 9, 41)
Assim como os fariseus atribuíam ao demônio os milagres de Jesus, porque não podiam admitir um Deus tão diferente dos seus conceitos, assim também os inimigos do Caminho chegam ao ponto de falar em “magia” e “técnicas psicológicas” para explicar o “fanatismo” dos catecúmenos… (pág 42). Quando não se quer ver, nem os milagres adiantam… Seria mais prudente que esses “zelosos” Bispos seguissem os conselhos de Gamaliel: “Cuidado para que não vos aconteça estar combatendo contra Deus…”
Que Kiko e Carmem sejam líderes, não há como negar. Isso acontece com qualquer fundador de ordem ou movimento religioso. Mas que exista um “culto” à sua figura, isso é mentira. O enfoque do Caminho não é, de forma alguma, centrado sobre a figura deles, mas sim sobre Jesus Cristo, a fé e a conversão. Fala-se muito daquilo que Kiko ensina, mas não da pessoa dele. Eu mesma pude ver, no encontro que tivemos com Kiko no Rio de Janeiro, a maneira mais do que simples como ele chegou e se apresentou, sem nenhum aparato nem honra especial. Mal percebemos a sua presença, até que ele se levantou para iniciar sua pregação. E quando, ao final, ele ia chamar Carmem à frente, percebeu que esta já tinha saído…
Os que colocam sua confiança em Deus não se preocupam em defender-se das perseguições, porque não estão em busca da aprovação do mundo. Ao contrário, os santos alegram-se ao se verem desprezados.
As humilhações e os “testemunhos de pecado” (pág. 43) não são algo desconhecido na história da Igreja, muito pelo contrário. Os grandes santos não tinham problemas de “falso pudor”. São Francisco não deixou de ser santo por ter ficado nu em praça pública, e o próprio Jesus foi crucificado nu, apesar do decoroso paninho que as imagens apresentam para evitar escândalos. Mas a cruz é escândalo, afirma São Paulo. E também muitas passagens bíblicas, se forem analisadas nesta perspectiva, como o profeta Oséias e o Cântico dos Cânticos, que durante muitos anos não fui capaz de ler porque me escandalizava.
Quanto às acusações da “testemunha” citada à pag. 43, não está claro o que ela quis dizer com “liturgias”. O que acontece é que, nas Eucaristias, é feita a ressonância da Palavra, ou seja, as pessoas são convidadas a partilhar com os irmãos aquilo que a Palavra lhes disse, de que forma esta as questionou, exortou ou denunciou. Somos convidados a colocar aí nossa experiência concreta, mas posso dizer que é muito difícil que alguém chegue a expor detalhes tão íntimos como os mencionados pela testemunha. Eu, pelo menos, nunca vi. Nas convivências há a “roda de experiências”, onde a liberdade é um pouco maior. Ali, porém, estão presentes apenas os membros da comunidade. Como a idade mínima para ingressar numa comunidade é de 14 anos, e como as pessoas levam vários anos para ter a coragem de expor assim suas vidas, é praticamente impossível que haja crianças e adolescentes presentes. Na Eucaristia sim, as crianças participam, mas, se alguém chegou ao ponto de relatar experiências como as citadas, certamente trata-se de comunidades já maduras, onde mesmo as crianças, se houver, já terão nascido dentro de uma comunidade. Quem se escandaliza são os “xeretas” que nada entendem, mas no entanto contestam o cuidadoso zelo que motiva o “segredo” catecumenal.
E aqui eu questiono o suposto “zelo” de Zoffoli e sua “testemunha”. Esta diz que tais “confissões públicas” “escandalizam” os jovens   e “fomentam neles curiosidades nocivas”… Eu perguntaria, então, se os programas de televisão e todos os demais meios de comunicação (incluindo as letras de músicas) não são muito mais prejudiciais. Disse-me o Pe. João Paulo que, na TV italiana, apresenta-se programas de “streap-tease” às 8 hs. da noite. No Brasil, a coisa não é muito diferente. Do jeito que o mundo está hoje, não será uma “confissão” como aquela que irá “fomentar” nenhuma “curiosidade nociva” que já não tenha sido mais do que fomentada. Ao contrário, a colocação dos pecados em sua verdadeira perspectiva, ou seja, como vícios e pecados que matam e fazem sofrer, e não como “virtudes”, como apregoa a mídia, será certamente mais útil para a formação dos jovens do que o silêncio, do que passar uma falsa imagem de correção moral que não os prepara para enfrentar as próprias fraquezas, deixando-os por isso mais vulneráveis a elas. O reconhecimento dos próprios pecados é o primeiro passo para superá-los, além de nos ajudar a não julgar as atitudes dos outros. O testemunho das fraquezas dos irmãos ajudará os jovens a entender que Deus nos ama apesar de nossas fraquezas, e que nós somos chamados a fazer o mesmo.
Quanto ao “mau comportamento” que as “testemunhas insuspeitas” observaram em membros das comunidades (pág. 34), eu perguntaria se essas mesmas atitudes não existem, por acaso, em membros da Igreja tradicional (a não ser que esta seja freqüentada apenas por velhinhas…). A Igreja não é para os santos, mas para os pecadores. É justamente de “tais ambientes” que pode nascer o “homem novo”, pois este não virá enquanto não percebermos o “homem velho” que há em nós e que precisa morrer. Foi Jesus mesmo que disse aos fariseus: “Os publicanos e as prostitutas vos precederão no reino de Deus.” Isso, é claro, porque mudaram de vida. Mas só se muda de vida depois de se reconhecer pecador.
 Da mesma forma, também os “católicos tradicionais” (incluindo padres) mudam de religião ou se tornam ateus – eu diria mesmo que isso acontece com muito mais freqüência entre estes do que entre os catecúmenos. Isso é normal, pois, embora o chamado seja para todos, nem todos o aceitam.
Quanto à acusação de que o Caminho separa as famílias, o que nós vemos é exatamente o contrário. O Caminho ensina a ser fiel, a perdoar e amar. Se, porém, um dos membros da família não aceita o convite para o Banquete, não foi Kiko, e sim Jesus que disse: “Se alguém amar pai, mãe, esposa ou filhos mais do que a mim, não é digno de mim.”
Entra aqui a controvérsia sobre a palavra “odiar”, que aparece em Lc 14, 26: “Se alguém vem a mim e não odeia seu próprio pai e mãe, mulher e filhos, irmãos e até a própria vida, não pode ser meu discípulo.” Quanto a isso eu também acho que os catequistas insistem demais sobre a palavra “odiar”, sendo que o sentido claro do “hebraísmo” é aquele explicado pela nota de rodapé na Bíblia de Jerusalém (que, no entanto, mantém a palavra “odiar”): “Jesus não exige ódio, mas desapego completo e imediato.” Entendo, no entanto, a insistência dos catequistas como uma reação à tendência que temos de minimizar a palavra de Deus, para que ela se torne menos chocante e não nos acuse tanto. Nesse caso, por exemplo, preocupamo-nos tanto em salientar que Jesus não exige ódio, que nos esquecemos que “desapego completo e imediato” é algo igualmente radical e difícil de ser praticado. O importante é saber que Deus vem em primeiro lugar, e a vontade de Deus é que nos amemos uns aos outros. Só que o conceito de amor que temos é muito diferente daquele que Deus quer. No fundo estamos amando não à família, mas a nós mesmos. Quando tentamos minimizar a palavra do Evangelho, o que queremos na verdade não é amar nossos familiares, mas poder trocar Deus pela nossa vontade. Se no Evangelho, ao invés de “odiar”, estivesse escrito que, para ser discípulo de Jesus, é preciso amar, perdoar e ser fiel a um marido bêbado ou a uma esposa adúltera, nesse caso acharíamos melhor que Jesus mandasse odiar… Quando Jesus efetivamente diz isso, os discípulos protestam, e nós também, sem perceber a incoerência. 
Em resumo: se nós estivéssemos, de fato, dispostos a amar nossa família, então sim teríamos o direito de contestar a palavra “odiar”. Só que já não o faríamos, porque teríamos entendido que tudo se resume em fazer a vontade de Deus, e não a nossa.
Se uma esposa ou marido cede à pressão do cônjuge para abandonar a Igreja, nem sempre isso acontece por amor ao cônjuge, mas sim por comodismo, para fugir das dificuldades. Às vezes a oposição corajosa pode significar maior amor para com a parte rebelde, do que concordar com ela.
Nessa questão não existe uma regra única, cada caso é um caso, e a atitude a tomar deve ser ditada pelo discernimento orientado pela oração e pela procura de aconselhamento. Se uma mãe ou pai de família achar que, naquele momento, atender ao desejo da família trará mais benefícios para todos, ela não estará errada por renunciar à sua participação na comunidade, mas poderá, ao contrário, estar praticando um ato de virtude heróica. O critério que deve orientar a decisão, aí, é não buscar a própria vontade, não procurar o caminho mais fácil e cômodo, mas sim o que for mais conforme à vontade de Deus, segundo o discernimento de cada um. Isso será “amar a Deus sobre todas as coisas”, ainda que signifique renunciar ao consolo da vivência da fé em comunidade.
Evidentemente, numa situação dessas, não é fácil ver claro, e é possível que se adotem atitudes erradas. O importante é que estejamos buscando acertar. Se confiarmos em Deus, Ele fará o resto. Se houve alguma vez separação ou destruição de famílias, é mais provável que a iniciativa da separação tenha sido da parte rebelde, e não do catecúmeno, embora estes também possam errar, evidentemente, como também os catequistas. Mas não é o Caminho que promove isso. A orientação do Caminho é sempre no sentido de promover a união da família, nunca a desunião. Tanto é assim que, por respeito ao vínculo matrimonial, o Caminho abre uma exceção, permitindo que marido ou esposa comece a acompanhar seu cônjuge na comunidade mesmo sem ter começado do início, pois “o que Deus uniu, o homem não separe”.
Enfim, a  palavra de Deus é exigente mesmo, e também na “Igreja tradicional” acontece esse problema dos desacordos familiares (quero frisar que não sou eu que estou fazendo essa distinção entre “Igreja tradicional” e Catecumenato, e sim Zoffoli e os demais inimigos do Caminho. Para mim, é a mesma Igreja.). Também São Francisco de Assis rejeitou seu pai terreno, dizendo que dali em diante somente Deus seria seu Pai. Em relação a esses testemunhos citados por Zoffoli, seria prudente, antes de julgar, procurar discernir qual foi a motivação que levou essas pessoas à revolta. Provavelmente foi o egoísmo, e não um verdadeiro amor à família, pois quem ama verdadeiramente seu cônjuge não o proíbe de viver sua fé.
Quanto a “deixar que os filhos escolham livremente o próprio caminho” (pág. 38), isso nem merece comentários, pois ninguém pode ser obrigado a ser católico ou a ter fé. E se houve alguma mãe que expulsou de casa o filho porque não queria participar da comunidade, essa mãe está errada. Mas o mais provável é que a história esteja mal contada. Assim como não é verdade, também, que os catequistas “abandonem” os filhos e a família para viajar em missão (pág. 36). Se chegarem a fazê-lo, será por estar colocando “as coisas do Pai” acima do apego à família (como manda o Evangelho), e certamente estarão confiantes na providência de Deus que cuidará dos filhos em sua ausência. Isso é muito diferente de “abandonar”. Mesmo distantes, esses pais podem estar muito mais próximos e cuidar melhor de seus filhos do que outros que estão apenas “de corpo presente”, mas se omitem em sua educação.
Não se trata de dizer que não existem erros e falhas. Também no Caminho, a Igreja é “povo santo e pecador”. E como em toda a Igreja, existem divergências em alguns pontos, como por exemplo no que se refere ao planejamento familiar (pág. 4l). Alguns catequistas são mais rígidos do que outros, e eu, pessoalmente, não acho certo condenar sumariamente algo que a própria Igreja apresenta como válido (o planejamento familiar pelos métodos naturais). Por outro lado, entendo que o objetivo, aqui, é combater a mentalidade anti-natalista que, na Europa, é uma verdadeira tragédia. No Brasil a realidade é um pouco diferente, e talvez alguns catequistas não tenham sabido fazer a adaptação. Em todo caso, é importante lembrar que mesmo os métodos naturais não devem ser usados para evitar simplesmente os filhos, por motivos egoístas, mas sempre colocados a serviço do amor e da família, de forma generosa. O egoísmo costuma aproveitar-se de qualquer brecha que encontra, e muitas pessoas de fé se deixam dominar por ele, permanecendo com a consciência tranqüila pelo fato de estarem usando métodos naturais. É essa “armadilha” que a rigidez de alguns catequistas quer combater.
Seja como for, as famílias numerosas do Caminho são, sem dúvida, um belo testemunho. Desfazem um pouco aquela idéia de que só quem tem muitos filhos, hoje em dia, são os miseráveis que nem sequer são famílias, mas jogam simplesmente crianças no mundo por não saber como evitá-lo.
Também se vê, às vezes, abusos por parte de alguns catequistas, que pretendem passar por cima da própria orientação do diretor espiritual. Mas também  não é difícil compreender que isso, às vezes, se torna inevitável. Eu mesma, quando jovem, cheguei ao ponto de não encontrar padre com quem pudesse me confessar, pois eles não viam pecado em nada, e eu não sentia nenhuma confiança na orientação deles. Também os padres, infelizmente, caem na tentação do comodismo e da tibieza, e perdem o sentido do pecado. Numa palavra, também os padres precisam converter-se, só que é muito mais difícil, para eles, convencerem-se disso.
E o pecado do orgulho atinge também, evidentemente, os padres formados pelos seminários Redemptoris Mater, que se sentem muitas vezes superiores aos outros e podem mostrar-se arrogantes. Mas nem por isso deixam de ser padres de fato, ao contrário dos receios expostos por Zoffoli nas págs. 39-40. Inserem-se, sim, na hierarquia católica e são submissos ao seu Bispo. E naturalmente estão, sim, decididos a consagrar-se a Deus no celibato, apesar da maldosa e infantil insinuação da pág. 40, porque acreditam que consagrar-se a Deus não é um sofrimento, mas é, antes, uma grande alegria e uma grande honra. Será que Zoffoli, por sua vez, pensava diferente? Será que o sacerdócio, para ele, era um grande sofrimento, uma pesada cruz?
Outro extremismo em que caem os catequistas é quando, na convivência do primeiro escrutínio, insistem em afirmar que nenhum de nós tem fé. Bem sabemos que nossa fé ainda não é capaz de remover montanhas, mas não seria necessário, a  meu ver, desprezar como inútil a talvez ingênua, mas certamente real pequena fé que tem sustentado tantas pessoas em meio às tempestades da vida.
Assim, acontece-me às vezes discordar dos catequistas, mas isso são coisas pequenas que em nada me impedem de continuar caminhando (mesmo porque estou consciente de que talvez um dia venha a entender melhor o que hoje me parece sem sentido), nem chegam a impedir os belos frutos do Caminho. Belos justamente porque não são obra dos homens, mas unicamente obra de Deus nos homens, até mesmo apesar dos homens. Os catequistas são suficientemente humanos e falíveis para que ninguém caia na tentação de endeusá-los…
Como o Caminho visa unicamente servir à causa do Evangelho, nada tem a temer dos homens, nem precisa provar nada a ninguém. Por isso mesmo sinto quase vergonha de ter escrito esse longo comentário, como se tivesse do que me justificar. Mais do que nunca entendo que, diante de certo tipo de críticas, a melhor atitude é mesmo o silêncio. No momento, porém, acredito poder prestar serviço a algumas pessoas com esta carta, e por isso a envio. Espero estar sendo útil.
Fico aguardando suas impressões. Que Deus o abençoe e à sua família.
Afetuosamente,
                                  Margarida

Prezada Sra. Margareth Hulschof,

Que a Cruz de Cristo lhe traga a verdadeira paz!

Salve Maria!

Li com grande alegria sua carta, e o Comentário que a Sra. teve a bondade de me enviar sobre o Neo Catecumenato e as acusações que Padre Enrico Zoffoli fez desse movimento, baseado nas Apostilas de Kiko Arguelo. (Por ora, respondo apenas sua carta, deixando para depois as observações pertinentes a seu Comentário).

Esse Comentário que a Sra. redigiu em defesa do NC contra Padre Zoffoli é bem valioso, porque a Sra., além de seu próprio valor intelectual, patente em sua missiva, tem uma experiência viva de onze anos de freqüência nesse movimento. Além disso, seu trabalho goza de valor maior, porque foi, de certo modo, autorizado pelo menos por um sacerdote desse movimento. E, como esse seu Comentário circula há quatro anos sem ter sido desautorizado pela Direção do movimento, ele como que ganhou uma espécie de oficialização. Finalmente, sua missiva e o Comentário a ela anexado ganham valor extraordinário, porque a Sra. afirma que leu, senão todas as apostilas de Kiko, mas pelo menos algumas, e reproduziu trechos importantes delas .

A Sra. me informa que alguma dessas apostilas lhe foram fornecidas por um catequista do NC, Padre João Paulo, de Mogi Guaçu, e que ele lhe poderia emprestar outras apostilas caso a Sra. lhas pedisse.

Devo, então, agradecer-lhe porque, enfim, aparece, aqui no Brasil, alguém que confirma documentalmente que as apostilas de Kiko existem realmente. Deste modo, uma parte da polêmica fica resolvida e encerrada: as Apostilas de Kiko existem.

Deste modo, todos aqueles que me escreveram, negando que as Apostilas existiam, se não sabiam delas, estavam equivocados, e foram subjetiva e objetivamente enganados. Mas, se sabiam de sua existência, e negaram que existiam, não disseram a verdade. Finalmente, quem sabia da existência delas e se calou, deixou de dizer a verdade, por omissão.

A Sra. nega que esse engano dos inocentes ingênuos seja praticado propositalmente pelos dirigentes do NC.

Essa é uma questão interna entre os membros do Neo Catecumenato, mas se eu pertencesse a um movimento que me fizesse crer que certos documentos que se lhe incriminam não existem, quando eles, de fato, existem, eu me sentiria fraudado, ao tomar conhecimento que me haviam mantido em ilusão e em engano.

A Sra. mesmo confessa que não conhecia a existência das apostilas, e que não as possui, apesar de pertencer ao NC há onze anos. Padre João Paulo emprestou-lhe algumas — não todas — e a Sra. teve que devolvê-las depois de lê-las e de ter tido permissão de publicar trechos delas. Portanto, pense e diga a Sra. o que quiser, as Apostilas são “reservadas”… Isto é, são realmente secretas até para membros que freqüentam o NC há onze anos.

Primeira conclusão: Padre Zoffoli tinha razão nesse ponto: as apostilas existem e são, de fato, secretas.

E se

as apostilas existem, sendo desconhecida sua existência por muitos dos elementos do NC, a ponto de deixarem que muitos do NC publicamente neguem um fato que os dirigentes sabem ser verdadeiro, é impossível não concluir que esses membros estão sendo mantidos em engano pelos dirigentes do NC.

Como confiar em dirigentes que mantém na “ilusão” — no engano — seus dirigidos ? Como acreditar, depois disso, que eles não estejam escondendo algo muito grave ?

A Sra. mesmo não pode garantir que não haja textos “pouco ortodoxos” , como declarou uma Congregação Romana, em Apostilas de Kiko que a Sra. ainda não leu, pois que lhe são mantidas em segredo.

Sua defesa dos missivistas que negaram a existência das Apostilas, e, ao mesmo tempo, dos que defendem a sua existência, a leva a uma contradição chocante e escandalosa. Pois escreve-me a Sra. :

“Se uns dizem que as apostilas existem, e outros dizem que não, no fundo, são duas visões igualmente possíveis, de acordo com o ângulo que se olha.”

(Margarida Hulschof, carta a Orlando Fedeli, p.2).

Perdoe-me, mas a Sra. sofisma. Cada um deles pode estar sendo sincero, subjetivamente, dizendo o que conhece, mas o que se discute não é a sinceridade de cada depoente, mas a existência objetiva das Apostilas.

Os que sinceramente negaram a existência das Apostilas, porque desconheciam sua existência, não mentiram. Foram sinceros. Mas, quem os manteve nesse engano, sabendo que as Apostilas existiam, ficando calados, ou negando a existência delas, não deram testemunho da verdade, ou por omissão, ou conscientemente

Mais ainda devo agradecer-lhe a exposição que a Sra. faz na carta a mim dirigida, porque nela fica patente a formação de fundo modernista que a Sra. recebeu no Neo Catecumenato. Com efeito, o Modernismo foi uma heresia anti intelectualista, pois negava a capacidade da inteligência em captar a verdade das coisas. Para o Modernismo, a fé era um sentimento, e esse sentimento seria inefável, isto é, seria impossível traduzí-lo em palavras. Esse sentimento revelador se daria no “coração” do homem. Daí, os Modernistas valorizarem mais o coração do que a razão. Tudo isso pode ser encontrado na exposição da doutrina Modernista feita por São Pio X, quando condenou a heresia Modernista como a pior de todas as heresias, na encíclica Pascendi. Tudo isso pode ser confirmado nos textos originais dos principais heresiarcas modernistas.

Ora, a Sra. defende a mesma tese dos modernistas ao escrever-me:

“O que prova que essa história de “está escrito” pode não ser assim tão conclusiva. O Sr. pode estar vendo heresias nas palavras de Kiko, e no entanto…essas heresias não existirem. Nós, que vivemos a experiência concretamente, sabemos disso com certeza absoluta, mas aqueles que só lêem o que está escrito não conseguem compreender. Pense na problemática em relação aos protestantes, e terá talvez uma idéia do que está ocorrendo nesse caso” (p. 2).

Pensei exatamente nos protestantes, porque, muitos deles dizem precisamente o mesmo: eles afirmam que tiveram uma “experiência com Jesus”, e. com base nessa “experiência” puramente subjetiva, se recusam aceitar o que a própria Bíblia afirma.

A Sra., como certos protestantes, declara que pelo que “está escrito” por Kiko não pode ser compreendido perfeitamente: seria preciso “experimentar” o Neo Catecumenato, para compreendê-lo. Outros do NC já me convidaram para fazer essa “experiência” intransmissível pela palavra escrita.

E confirmando essa tese, a Sra. diz uma página depois:

“A experiência de Deus é algo que sempre irá muito além das palavras”

“Teremos que ficar devendo essa, porque só mesmo vivendo para entender”

( p. 3)

Minha Sra., como me escreve a Sra. que “essa história de “está escrito” pode não ser assim tão conclusiva”?

Se o que “está escrito” não é tão conclusivo, porque a Sra. me escreve? Por que a Sra. é jornalista ?

Sua desvalorização da palavra em favor da “experiência” cheira fortemente a Modernismo e, mesmo, a protestantismo. ( Cfr. São Pio X, Pascendi, Denzinger, 2.074).

Tenho que lhe agradecer, ainda, sua involuntária admissão de que nem tudo é ensinado para os novatos do NC, e até mesmo para os que são há sete anos já membros desse movimento. Muita coisa, especialmente as teses “mais polêmicas”, são mantidas em segredo. A Sra. escreveu — e não vá me dizer que estando escrito não vale — que:

“Ao ler o livreto

[de Zoffoli], fiquei pensando: como é possível que todas essas “heresias” estejam na Catequese, se a mim, em sete anos de Caminho, nunca ensinaram nada disso ? ” (p..1-2 de seu Comentário ao livro de Zoffoli).

E, entretanto as heresias — como veremos — estavam lá, claramente escritas — embora nunca as tivessem ensinado à Sra. durante sete anos

Mais ainda. A Sra. admitiu em sua carta a mim que:

“É por esse motivo que, embora todos ouçam as catequeses, dificilmente alguém se lembrará daqueles trechos citados por Zoffoli. É simplesmente porque, além de a catequese ser apresentada com as próprias palavras do catequista, e acabar saindo, às vezes, bastante diferente do original, aqueles trechos mais polêmicos não são necessariamente parte do conteúdo a ser apresentado, e sim explicações destinadas ao catequista, para que este entenda melhor o contexto geral de onde surgiu a orientação dada pelo Caminho”.

Portanto, a Sra. admite que “as teses mais polêmicas” não são sempre ensinadas para todos. São só para os catequistas e para alguns outros.

Outro agradecimento ainda: a Sra. admite que o texto das Apostilas contém afirmações que podem dar margem a polêmicas para pessoas “desfavoravelmente prevenidas”:

Falando agora do conteúdo das catequeses: o Sr. diz que, naquilo que já leu, confirmou a existência das tais heresias. O que não é de surpreender, depois de tudo o que já expliquei. Muitas das colocações de Kiko e Carmem podem dar margem a polêmicas, especialmente quando caem em mãos já prevenidas desfavoravelmente”. ( p. 4 de sua carta).

Mas a Sra. mesmo, quando leu os textos das Apostilas citados pelo Padre Zoffoli se perguntou como aquelas “heresias” nunca lhe haviam sido ensinadas, apesar de estar há sete anos no NC. Então admitiu que havia, lá, textos que, se davam margem a polêmicas, é porque, em seu primeiro sentido, pelo menos, pareciam heterodoxos, lhe pareciam “heresias”.

Mas a Sra. escreveu mais:

“A compreensão das realidades da Fé é gradual, e vai sendo despertada aos poucos, conforme o grau de amadurecimento das comunidades. Entendo que isso seja difícil de compreender para quem está de fora, e acostumado com uma Igreja que nada tem a “esconder”. Eu também pensaria exatamente assim, se não estivesse vivendo isso concretamente há vários anos”

(Carta, p. 3).

Pois então a Sra. confessa que, na Igreja Católica, nada se “esconde”, enquanto no caminho Neo Catecumenal se escondem as teses “mais polêmicas”, e que elas vão sendo ensinadas gradualmente, conforme o “amadurecimento” da comunidade.

E depois disso a Sra. ainda ousa querer defender que no NC não há um ensinamento secreto ? Perdoe-me, minha Sra. mas isso é abusar da “inocência” e da inteligência dos leitores.

E como conciliar essa política de segredo, e essa doutrinação esotérica do Neo Catecumenato com a palavra de Nosso Senhor Jesus Cristo que nos ordenou:

“O que Eu vos digo nas trevas, dizei-o às claras; e o que é dito ao ouvido, pregai-o sobre os tetos”

( Mt. X, 27) ?

O Neo Catecumenato faz exatamente o oposto do que Cristo ordenou: ensina secretamente o que não proclama em público. E quando é desvelado o que foi ensinado escondidamente, nega-se que as Apostilas existam. Provada sua existência, nega-se que os textos digam o que neles é explícito. Provado que está dito o que neles é explícito, então se diz que aquilo deve ser compreendido ‘pelo coração”, e que o que “está escrito” não pode ser entendido sem uma experiência viva do que se vive no Neo Catecumenato.

Minha Sra., isso é demais. Passa todo o limite do admissível, por mais boa vontade que se tenha.

Mas o que mais me deu alegria em sua carta foi o documento que a Sra. teve a caridade de me enviar. Refiro-me a seu Comentário analisando as acusações de Padre Zoffoli.

Nesse Comentário a Sra. cita textos “polêmicos” e escandalosos de Kiko, e os defende.

De modo que, agora, não só fica evidente qua as Apostilas existem e que elas são secretas, mas que as heresias estão lá mesmo.

Kiko ensinou heresias. Padre Zoffoli as denunciou. Dona Margarida as confirmou

Muito obrigado, Dona Margarida. A Sra. “entregou o ouro”. A Sra. explicitou o que estava ainda escondido, pelo menos no Brasil.

O texto de seu Comentário é tão decisivo na questão das heresias e erros no Neo Catecumenato, que ficará famoso como clara admissão de culpa.

Depois de seu Comentário, ficaria quase dispensável a publicação das Apostilas de Kiko.

A menos que os dirigentes do Neo Catecumenato venham a repelir o seu texto como falseador do pensamento de Kiko. Nesse caso, que eles publiquem o que Kiko escreveu para desmentí – la.

Graças a Deus, seu Comentário confirma o que disse Cristo:

“Não há nada de encoberto que não se venha a descobrir, nem de oculto que não se venha a saber”(Mt .X, 26 ).

Permita-me, ainda, nesta carta introdutória, respeitosamente fazer-lhe uma crítica pessoal ?

Pois a Sra. é muito contraditória em seu posicionamento face ao Padre Zoffoli.

A Sra. escreveu:

“Quem descobriu verdadeiramente a sua realidade de pecador, não julga mais os outros, porque sabe que é pior do que os outros. E nós, através de um catecumenato, chegaremos à mesma conclusão: descobriremos a nossa profunda realidade de pecadores”

(Hulschof, “Comentário”, p. 20. O sublinhado é meu).

Então a Sra. afirma que, tendo feito o catecumenato, “não julga mais os outros”. Entretanto a Sra. julga – e julga mal — o Padre Zoffoli, pois escreveu muito contraditoriamente:

“Ninguém pode afirmar que Zoffoli mentiu, e sim apenas que ele estava equivocado em seu julgamento”

(Hulschof, Carta a OF, p. 2).

Depois, a Sra. o chama de “xereta”, contestando o seu zelo:

“Quem se escandaliza são os “xeretas” que nada entendem, mas no entanto contestam o cuidadoso zelo que motiva o “segredo” catecumenal.

“E aqui eu questiono o suposto “zelo” de Zoffoli e sua “testemunha”

(Hulschof, “Comentário”, p. 28).

Ademais, para a Sra., Zoffoli seria “incoerente”:

“Zoffoli fala de “incoerências”, mas ele também é incoerente ao condenar, por um lado, o “padrão de vida magnífico” dos catequistas, enquanto por outro lado condena “a insistência sobre a venda dos bens, como se fosse uma condição necessária para ser autênticos cristãos” (pág 40)”

(Hulschof, Comentário”, p. 26).

Carregando a nota, a Sra., o diz “manipulador” dos textos de Kiko:

“Mas creio ser desnecessária essa confrontação, pois já demonstrei suficientemente a arbitrariedade com que Zoffoli “manipulou” as palavras de Kiko e Carmem”

(Hulschof, “Comentário”, p. 22).

Daí, a Sra. que não julga ninguém, declara que Padre Zoffoli é afetado por “cegueira” e por “obstinação”, e que, como “cego”, ele tem ” visão distorcida”:

“A leitura das observações de Zoffoli revela até que ponto pode chegar a cegueira provocada pela obstinação. Ele fala num “emaranhado de mal-entendidos, de estranhezas, de contradições”, sem perceber que essas contradições só aparecem quando ele tenta enquadrar o Caminho dentro da sua visão distorcida.”

(Hulschof, “Comentário”, p. 27).

Prezada Sra. Como alguém afetado por cegueira por obstinação tem visão distorcida ? Quem é cego não tem visão nenhuma.

A sua obstinação na defesa do Neo Catecumenato é que a leva a cair em tais desconcertantes contradições.

E a Sra., que dizia não julgar a ninguém, acusa Padre Zoffoli de agir com “farisaísmo”:

“Se, por um lado, eles podem demorar mais tempo para compreender as verdades da fé, em compensação colocam menos obstáculos à ação da Graça, por não ter em si o farisaísmo que provoca atitudes como essa de Zoffoli, e que, mesmo entre os catecúmenos, coloca às vezes barreiras de defesa que dificultam a abertura

“.(Hulschof, Comentário”, p. 9 . O sublinhado é meu).

Por fim , a Sra. insinua — e depois retira parcialmente a acusação — de que Padre Zoffoli agiu de “má fé”:

“É difícil acreditar que Zoffoli, tendo, como diz, estudado “cuidadosamente”, durante seis anos, as catequeses de Kiko, não tenha compreendido o verdadeiro sentido das palavras que cita. Se apesar disso ele acusa o Caminho de ensinar que “na missa não há oferta, nem sacrifício”, fica difícil não concluir que ele o faz de má fé, não com o objetivo de defender a verdade, mas sim o de predispor contra o Caminho pessoas que não terão acesso ao texto das catequeses, como sua conhecida Maria Izabel e seu amigo Bispo.

É possível, porém, que não tenha havido má fé, mas apenas cegueira, falta de abertura. Kiko sempre acreditou que, no fundo, a atitude de Zoffoli era movida pelo zelo e que sua intenção era boa, e por isso nunca o acusou”

(Hulschof, “Comentário” p.11. O sublinhado é meu).

Sob aparência de imparcialidade e de frieza de estilo, declarando que não quer julgar, a Sra. julga, acusa e sentencia.

Quanta contradição !

Mas a contradição mais lamentável da Sra. é a de apresentar-se como defensora da doutrina ortodoxa, distilando friamente doutrinas “pouco ortodoxas”, para usar a expressão de uma Congregação Romana que analisou as Apostilas de Kiko.

Queira Deus que esta carta que lhe envio possa ajudá-la a abrir os olhos e perceber que o escândalo que lhe causou a primeira leitura das Apostilas de Kiko era fruto da graça de Deus alertando-a contra a doutrina má que é ensinada por Kiko e Carmem aos membros do Neo Catecumenato.

Que Nossa Senhora a salve de tantos erros, e que nos una na verdade católica é o que lhe desejo do fundo da alma, in Corde Jesu semper,

São Paulo, 21 de Novembro de 2001.
Orlando Fedeli

In Corde Jesu, semper, Orlando Fedeli.

Ps. Publicarei sua carta e seu Comentário na íntegra, fazendo as elucidações necessárias, para que fique bem claro que tanto o texto de Kiko quanto o seu contrariam a doutrina católica em pontos fundamentais para a fé. OF.

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