Montfort Associação Cultural

16 de janeiro de 2012

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Não tenho mais fé

Autor: Orlando Fedeli

  • Consulente: Vanessa
  • Localizaçao: Taguatinga – DF – Brasil
  • Religião: Católica

Caro senhor Orlando, bom dia.

Eu sempre fui uma frequentadora assídua do seu site e usava alguns temas debatidos aqui como base para minhas formações. Fui uma das coordenadoras que ajudaram a fundar um grupo de formação missionária na paróquia que sempre participei e cantora de dois ministérios de música católicos. Fui educada na fé católica desde que me entendo por gente, e sempre tive a ajuda constante de minha avó materna, muito religiosa e devota de Nossa Senhora da Conceição.
Apaixonada por Jesus e Seus ensinamentos, passei os 26 anos da minha vida dentro da Igreja, participando sempre, ajudando na formação de jovens, cantando ou o que fosse. Era bom saber que apesar das minhas dificuldades eu teria o conforto dos braços de Deus e, como não cansava de repetir: “Ah, se ao fim dos meus passos incertos eu tivesse por cruz os Teus braços abertos…”
Enfim, não me lembro de ter dado motivos para um desagrado de Deus, levando meu namoro na santidade, não murmurando porque sempre dizia que “quem murmura conversa com o capeta”, me confessando, comungando (e isso era a maior graça da minha vida), indo à retiros, trabalhando para evangelização, etc…
Porém, comecei a perceber em meu coração um certo vazio. Passei por uma aridez espiritual tremenda que perdurou por mais tempo do que eu achei que suportaria e, quando ela parecia acabar, me dei conta de que havia mudado, já não sentia Deus, não o ouvia bem e as piores coisas aconteciam: todos os meus sonhos desmoronaram na minha frente.
Pedi forças a Deus, pois estava fraca e sem esperanças, queria que a vontade dEle se fizesse e não a minha, se Ele não queria que eu fizesse faculdade, me casasse ou conseguisse um bom emprego eu aceitaria tudo, só pedia que me desse forças porque estava dificil ver minha vida desfalecer em tristeza, tantos à minha volta comemorando suas realizações e minha fé se perdendo.
Meus amigos próximos são testemunhas fiéis do que passei, até cantar nas Missas eu ia por causa deles, já que não sentia em meu coração motivação alguma.
Me julgando hipócrita decidi me afastar, mas antes dessa decisão haveria um retiro que seria muito importante para mim e eu pedi que Deus me ajudasse a ir, me confessei e esperei ansiosa pelo dia da ida. Mas parece que Ele não quis. As possibilidades se dificultaram e o meio que eu tinha de ir ficou impossível. Me aborreci muito com dois amigos que foram ao retiro e ligaram de manhã cedinho brigando comigo porque tinham entendido errado uma ordem minha como coordenadora e que, antes de me ouvir, me jogaram pedras…desanimei. Desfiz as malas e fui sincera com Deus: Se não me queres perto de Ti, que assim seja.
Fui rever meu diário espiritual, fazia um ano que eu não escrevia e me dei conta de que minha vida não havia melhorado em absolutamente nada nesse ano, mesmo com toda minha doação, mesmo acreditando na frase: “Cuida das Minhas coisas que cuido das tuas.”
Ontem a pouca fé que ainda podia ter restado se foi quando vi minha mãe chorar que nem uma criança, soluçando e se perguntando porque o sonho que ela buscou por tanto tempo tinha se perdido de uma forma tão triste. Logo ela, que esse tempo todo manteve os joelhos no chão e implorou misericórdia de Deus (algo que não concordo pois, se Ele sabe do que preciso porque tenho que implorar? Por que sofrer para conseguir uma graça?). Como Deus pode ser tão cruel com os filhos que mais o buscam? E sinceramente, isso de que Deus prova os Seus me parece conversa de quem não sabe explicar a razão de tanto sofrimento.
Eu já julguei muito os ateus, fiquei triste com um amigo que viu a irmã adoecer e perdeu a fé em Deus, mas quando esse Pai de Amor só mostra atenção e cuidado com os outros e não com você e, ainda por cima sua vida parece desandar as coisas mudam.
Não, não tenho mais fé, não espero que Deus vá fazer algo de bom em minha vida porque sinceramente não me lembro de uma só vez que Ele o tenha feito sem antes eu ter muito chorado e implorado ajuda. Nem meu pai terreno consegue me ver sofrendo assim…
Hoje busco dentro de mim a força que não recebi de Deus e escrevo para mostrar ao senhor que nem todos os ateus são maus, que nem todos os que buscam conforto em outras religiões um dia não se entregaram ao Amor do Deus em quem sempre confiaram.
Espero de todo o eu coração que Ele possa abençoá-lo a seguir seu trabalho. Os cristãos precisam de guias que não os deixem sucumbir diante de acusações e julgamentos, precisam de suporte e o senhor o dá. Só peço que quando receber uma carta de alguém triste, lembre disso que escrevi (pedindo perdão por me estender tanto) e tente olhar essa pessoa com amor e compreensão. Certamente, por mais distante que ele esteja de sua fé, Deus estará em seu coração e um dia, quem sabe, ele possa voltar a confiar.

Atenciosamente,
Vanessa Santos
Em 19 de Novembro de 2008

Data 26.11.2008
 

 
Muito prezada Vanessa,
Salve Maria.

     Sua carta é contaditória. Como diz você que perdeu a fé e depois afirma que “Certamente, por mais distante que ele esteja de sua fé, Deus estará em seu coração e um dia, quem sabe, ele possa voltar a confiar”?

     Se, para você, Deus não existe, como diz você que espera Ele estar no coração de alguém?


     Em sua carta os termos sentimentais se repetem com freqüência. Não se sente a Deus. Deus não é sorvete para ser sentido. Recomendo-lhe que leia as provas da existência de Deus de São Tomás de Aquino.

     Recomendo-lhe também que jogue fora seu diário, porque nele você olha só para si mesma e para o que sente e não para a verdade que não se sente, mas se compreende.


     Deus quer ser implorado sim, porque deseja que o amemos como único Bem. E a quem O busca Ele se dá.

     Reze o terço a Nossa Senhora pedindo que Ela lhe obtenha de Deus a graça de ter Fé, que é virtude intelectual e nunca sentimental.

In Corde Jesu, semper,
Orlando Fedeli

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