Montfort Associação Cultural

24 de janeiro de 2008

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Não estamos sós

Autor: Orlando Fedeli

  • Consulente: Teresa Cristina Gomes Martins
  • Localizaçao: Duque de Caxias – RJ – Brasil
  • Escolaridade: Superior concluído
  • Profissão: Funcionária Pública
  • Religião: Católica

Prezado professor: Louvado seja NSJC

Há dois meses estou explorando seu site. Quando acho que estou acabando, vejo que ainda tem muita coisa. É uma verdadeira biblioteca! Tenho imprimido muita coisa, já tenho uma gaveta cheia de artigos e respostas interessantes, verdadeiramente espirituais (e até espirituosas) Na verdade já li muito e conheço bem suas posições. 
Estou espantada. Não sabia que existiam pessoas com tais opiniões na igreja. Veja bem, eu nasci em 1957 e a Igreja que conheço é pós Concilio Vaticano II. É difícil pra mim imaginar como seria uma Igreja diferente que deva ser restaurada. Mas , no fundo, eu a conhecia sim, pois meu coração sempre amou a Igreja só que amava algo que não via e o que via detestava.
Quando criança li as aparições de Fátima e na adolescência e pós adolescência li a vida de alguns santos. Nas entrelinhas eu percebia coisas diferentes da igreja que eu conhecia.
Lembro também de minha mãe que não freqüentava igreja mas era profunda conhecedora de tudo (teologia, exegese, sacramentos, encíclicas, historia da igreja etc). Dava um banho na minha tia evangélica que queria “convertê-la”. Mas não freqüentava igreja. “Por que , mãe?” “Deixa que eu me entendo com Deus”, ela dizia. Parece que não gostava muito de missa em vernáculo e padre de frente, e cantos populares…sei lá, “que idéia!!! Que bobagem!” , eu pensava. Mas ela não dava margem pra questioná-la, apenas não ia a igreja, embora nutrisse profunda fé na Santíssima Eucaristia. Não gostou quando eu quis ser freira, mas não tentou impedir. Nunca deixou de rezar o terço, e no fim da vida voltou a receber a Eucaristia quando já de cama pela doença, mantendo entretanto sua postura e deixando o confessor meio confuso com suas palavras, sua santidade e sua coerência.
Eu prossegui minha vida na igreja local (uma diocese arraigada na Teologia da Libertação). Entrei pro convento e saí logo. Aquilo não era a vida religiosa que eu procurava. Só os mosteiros pareciam conservar o Espírito, mas não sei se eu tinha vocação monástica. Continuei na igreja. Fui catequista, preparadora de batismo de crianças, depois de adolescentes, fui ministra de eucaristia de doentes, depois ministra da Palavra e da Liturgia. Pra mim tava tudo errado o que nos ensinavam e mandavam ensinar, não só porque divergia de minhas opiniões pessoais, mas porque era incompatível com a teoria que eu tinha da Igreja e com o que eu sabia sobre suas verdades.
Quando catequista eu criei minha catequese, não seguia os subsídios moderninhos que reinterpretavam a escritura e transformavam a catequese em água morna com açucar.
Quando preparadora de batismo eu falava do pecado original e de salvação, não dava a mínima pros programas usados na paróquia para os encontros com pais e padrinhos.
Quando ministra das celebrações fazia as “homilias” seguindo a exegese que eu descobria na leiltura dos padres da Igreja, e no catecismo romano, e ilustrava com exemplos de vida de santos já completamente esquecidos ou distorcidos… Eu falava com encanto de uma Igreja que nem eu nem os ouvintes conheciam, mas eles percebiam que contrastava com a idéia corrente em nossos cursinhos de aprofundamento, cursinhos bíblicos, cursinhos de história da Igreja dados pela diocese ou paróquia.
Tudo isso não era aceito por uma igreja seguidora da TL. Entrei junto com outros leigos da diocese num curso de Teologia da PUC (curso a distância) pensando poder descobrir onde os pobrezinhos estavam errando pra talvez ajudá-los. Mas saí logo no início. Não concordava que históra sagrada partisse de Abraão e não de Adão. E vi que não havia diálogo possível quando na aula inaugural o coordenador do curso (famoso teólogo Vitório Mazzuco(?)) falou que Moisés nunca existiu e que Jesus na verdade não fez nenhum milagre.
Comprei o curso do MSB (Mater Eclesiae) e fiz outro curso a distância sozinha (de teologia tomista ) elaborado por dom Estevão Bittencourt.
Ano passado apresentei meu nome para preparar um grupo de jovens pra crisma (entre os quais estavam meus filhos). Apesar de toda minha história na comunidade (30 anos), apesar de minha experiência e minha vida pessoal condizente com a fé não me deixaram ser catequista de crisma pois perceberam que eu não baixava a cabeça pra linha doutrinária “libertadora” usada na diocese de Mauro Morelli a qual pertenço (mas que felizmente já não é mais de Mauro Morelli, tem um bom bispo agora – Dom José Francisco – mas que ainda não conseguiu botar os pingos nos iis. É muito i pra botar pingo!!!). Preferiram não crismar os jovens do que confiá-los a mim, e eles acabaram debandando por falta motivação eclesial (entre os quais meu filho).
Não gosto da RCC mas olhava pra ela com simpatia pensando ser uma janelinha um respiradouro pras novas gerações e uma resposta irritante a TL pois ganhava adeptos e esvaziava igrejas evangélicas e CEBs . Eu não gostava daqueles teatros e besteiróis deles mas talvez fosse uma saída …pros outros, a final os que não tem raízes pra onde podem correr? Seria melhor a RCC do que o protestantismo , pelo menos eles tem os sacramentos, amam N.Senhora e consideram o papa sucessor de Pedro e chefe da Igreja e não o anticristo.
Mas o senhor não aprova a RCC.
Pensei em crismar meus filhos na igreja ortodoxa., afinal seus sacramentos são válidos. Mas o senhor diz que é pecado. Até meu curso de iniciação teológica de dom Estevão, acho que o senhor achará duvidoso.
Concordo com 95% de suas opiniões, mas o senhor percebe que não deixa nenhuma brecha? Que nos resta? O site Montfort? Acho que é pouco.
Há dois ou três anos apeguei-me a Medjugorie, como um náufrago a uma tábua e ela vem me dando alento e esperança. É difícil cumprir seu programa: jejuns, rosário diário, confissões mensais, missa e eucaristia quase todos os dias… mas pensar que coopero com a santa virgem pra converter o mundo e restaurar a igreja, tem me dado forças. … Mas o senhor também critica Medjugorie. Que nos resta, professor?
Tenho muita esperança no santo papa Bento XVI, já o admirava desde que li o livro “A fé em crise”. Foi um marco na minha vida. Vi, relatado ali tudo que eu pensava e não sabia dizer, nem pra mim mesma. Foi quando percebi que não estava sozinha , que Deus pensava como eu , ou melhor, eu pensava segundo Deus. Pois até então tinha horas que achava que eu é que talvez precisasse me converter. A partir daí eu vi que o Espírito havia me preservado. “No fim dos tempos haverão inverdades capazes de seduzir SE POSSÍVEL até os escolhidos”, disse Jesus. Nesse dia eu me senti escolhida, e unicamente por graça. Preservada de acolher as mentiras que seduzem gente muito melhor do que eu , mais sábias mais boas mais generosas e com mais conhecimento que eu. Ao ler o livro tranqüilizei-me pois havia na igreja alguém além de mim que pensava segundo o Espírito, um cardeal que via e percebia e sabia dizer exatamente o que estava errado e o que precisava mudar. E agora esse cardeal é PAPA. Que esperança!!! Rezemos por ele, confiemos em Deus. “A noite vai avançada, o dia se aproxima!!!” Também valorizemos o papa João Paulo II , um grande santo que fez e disse tanta coisa que abriu caminho para a restauração da verdade e favoreceu até a eleição de Bento XVI (discordo por isso que Pio X seja o único papa santo de nosso tempo).
Hoje lendo no site da Montfort , vendo cartas de seminaristas e outros cristãos como eu , sofridos, excluídos, solitários numa Igreja tomada pelos inimigos. Já não me sinto tão só e vejo que o papa também não está só, além de Deus tem muitos do seu lado. Talvez a maioria silenciosa, os tímidos filhos da luz, “pouco arrojados”, como disse Jesus. Mas estão aí sofrendo e rezando com o coração transpassado.
Só queria lhe pedir professor, que não endureça tanto. Abra mão do que não for essencial; não cobre nem espere tudo, perfeição total segundo seu parecer, anulação total do Vaticano II, poder político a Igreja. Talvez tudo não possa ser do jeito que o senhor acha que deve. Talvez se o senhor for menos duro as pessoas acreditem mais no que o senhor defende de essencial. Não estou falando como Pedro pra que me diga “vai-te , Satanás, teus pensamentos são os do mundo”, não é a rendição diante do mal ou a fuga da hostilidade que lhe proponho, é apenas um pouco mais de doçura e paciência como Deus tem e o papa parece ter também em boa dose, senão já tinha virado a mesa e descido o chicote . É aquela paciência que visa preservar o trigo não o arrancando junto com o joio.
Muitas vezes lendo o seu site pensei em escrever-lhe, mas outras eu disse pra mim mesmo “ah, isso já é demais, até dos que defendem a mesma bandeira devemos ser inimigos por causa deste ou daquele ponto em que não somos totalmente conformes?!”(refiro-me ao Veritatis). Vejamos primeiro o essencial, depois lutemos para acertar os detalhes.
Sabe o que eu acho? Um novo Concílio seria a solução. Um Concílio que não fosse pastoral claro, que fosse dogmático , doutrinal e moral, pra que o Espírito aja livremente colocando as coisas no seu devido lugar, fazendo justiça aos verdadeiros católicos.
Quando sentei pra escrever essa carta não ia escrever nada disso. Ia comentar artigos e cartas, ia falar deste ou daquele ponto… ia elogiá-lo e enfatizar os pontos em que concordo inteiramente com o senhor, mas fica pra outra vez, hoje foi isso que saiu. Espero não tê-lo magoado.

Um grande abraço,
no coração de Jesus e da Rainha da Paz.

Teresa Cristina

Muito prezada Teresa Cristina,
Salve Maria.

    Que bela carta você me escreveu! E quantos católicos estão como você, desamparados nesse mar de heresia que nos cerca e cujos vagalhões ameação afogar o mundo. Quantos católicos náufragos nesse mar.
    Sua carta me tocou muito por sua forma e pelo seu fundo. E não pense que me zanguei por me censurar a dureza. Dureza de um velho combatente que chora com muita facilidade e cujo coração anda cada vez mais mole. Sou um duro chorão. 
    Mas que Deus me conceda a garça de ser duro contra todos os seu inimigos. E a graça de chorar com eles quando se arrependem.
    Minha cara Cristina, minhas cartas a chocaram por minha dureza. Espero que tenha lido também como me comovo, quando alguém se converte.
    Li ainda hoje no livro da Sabedoria:
 
De fato o espírito de Sabedoria é cheio de bondade, todavia não deixará sem castigo os lábios do maldizente“. (Sab, I, 6).

     E nos Salmos se lê: “Minha boca proclamará a verdade, e meus lábios detestarão o ímpio” (Prov. VIII, 7) que São Tomás comentou no primeiro capítulo da Suma Contra os gentios. Nesse capitulo I, entre outras coisas diz São Tomás que assim como o médico só faz o doente recuperar a saúde combatendo a sua doença, assim também todo mestre só pode ensinar a verdade se antes combater o erro. E foi esse o exemplo que nos deu Cristo que passou seus três anos de ensinamento combatendo os fariseus aos quais chamou de víboras, hipócritas e de filhos do demônio.
Como não trataria, Deus, os fariseus de hoje? Se há um erro pernicioso entre os católicos: é o erro liberal que enerva(que corta o nervo) da resistência das almas católicas pelo sentimentalismo. É pecado contra a caridade não combater os erros de alguém, como pecaria garvemente o médico que não cortasse radicalmente o câncer de um paciente Por isso, a nossa boca deve proclamar a verdade, mas os nossos lábios — diz Deus — devem detestar o ímpio, aquele que peca contra a Fé, ensinado heresias. Dizia São Pio X que estamos em guerra contra a maior heresia da história: o Modernismo. E completava o santo Papa, numa guerra se dão golpes. Não se trocam gentilezas e ramalhetes floridos.
Creio que a senhora — que demonstar tão bom senso e tanta compreensão da Fé — compreenderá esses exemplos.
    Permita-me ainda citar-lhe, sem pretender magoá-la pela insistência que São Paulo recomendou a seu discipulo São Tito: “
Increpa illos dure ut saqni sint in fide!” “Reprende-os duramente, para que sejam sãos na Fé” (São Paulo, Epist. a Tito, I 13).
    Exagero na repreensão dura? Pode ser. Mas num tempo em que se nega a necessidade da repreensão, é preciso corrigir tambem esse erro da ausência de repreensão. Creio que se Cristo viesse hoje, e expulssasse os vendilhões do templo de Deus, os ecumênicos que traem a Fé, Ele mesmo seria acusado de ser violento e de faltar com a caridade, Ele que é a caridade infinita. Em todo acso, agradeço-lhe sua intenção de querer me ajudar, corrigindo-me.
 

    Gostaria de convidá-la para as palestras que darei, sábado próximo, no Rio.

 

    Será uma honra tê-la entre meus ouvintes.

In Corde Jesu, semper,
Orlando Fedeli

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