Montfort Associação Cultural

23 de janeiro de 2010

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Não dêem pérolas a porcos… Nem à gripe suína: crônica de um protestante imaginário

 
A ficção de uma vida bem real num mundo irreal
 
     Acordo cedo ao domingo para ir ao culto. A cidade de Uraí já tem poucos habitantes – em torno de 11 mil – e ficou mais vazia ainda depois que duas pessoas foram flageladas com uma gripe tenebrosa. Ninguém tem coragem de sair de casa. A peste negra deve ter sido bem pior, e mesmo assim as igrejas continuaram abertas com as suas Missas. Mas como os padres de hoje tem prudência até demais com o Sobrenatural, eles confiam com um certo ar racional de desconfiança, pois Deus não merece tanto crédito assim quanto as minhas dúvidas.
     
     Avaliando bem a questão, é mais correto retirar a água benta das igrejas, pois a gripe suína parece ser mais ameaçadora do que os demônios que exorcizo quando entro numa igreja. Estes daí são fulminados do meu imaginário viciado pela cultura cristã quando leio o sempre bem informado do submundo, Padre Quevedo. Demônios não existem, e Urs von Balthasar me ensinou que nem o inferno deve existir. Mas o melhor são os Padres que me ensinaram, desde as aulas de Catecismo, que a própria Igreja não deve existir. Para quem acredita em tão pouca coisa, a água benta que não faz efeito é o de menos. Melhor, então, é retirá-la das igrejas: pelo menos sabemos que ninguém sairá contaminado com uma doença que temos certeza de existir–ao contrário da Fé católica. Por estas e outras, depois de uma certa idade, tornei-me batista. Ali, pelo menos, a Fé é mais viva, sem especulações desesperadoras destes teólogos alemães medonhos. Vivemos a Bíblia Sagrada sem precisar que algum teólogo de nome impronunciável–quase igual aos nomes cabalísticos da Divindade–tenha que me dizer que estas escrituras são fábulas, e que a arqueologia desmente tudo. Mas que surpresa tomo quando chego na igreja. Está fechada. O decreto do Prefeito proibiu Missas–os padres agradecem–e, quem diria, até os cultos. Não posso acreditar que o pastor cedeu e aceitou uma afronta destas.
 
     Estou decepcionado. Foi por causa desta frouxidão que abandonei a Igreja católica há anos, buscando gente sincera na Fé. Acabo de encontrar a mesma Fé humana e humanista estampada na porta da igreja batista de Uraí, onde um papel contendo o decreto municipal explica o porquê do fechamento da igreja.
 
     Resolvi voltar para casa e procurar me informar a respeito, ver qual foi a desculpa do pastor, que havia até nos prometido fazer uma Sessão especial de proteção espiritual contra a gripe. Pediu até que levassem os dois infectados para ele curar. Se tiver morrido, ele ressuscitava. O que houve com a sua Fé? Foi vencida pelo decreto?
 
     A essas horas eu não sabia se este era um problema da Fé incrédula do pastor ou uma submissão do poder espiritual ao poder temporal. Nos dois casos, o Modernismo que a Igreja católica abraçou nestes últimos anos explica o fenômeno. Relativismo e secularismo são filhos do Modernismo. Mas que tivessem chegado na igreja batista, isto me assusta. Mudei de Igreja fugindo do modernismo e materialismo de certos padres, e acabo de os encontrar em pastores.
 
     Em casa, liguei a televisão. Dizia-se que a igreja Batista tinha dado uma solução. É estranho, é exótico, mas é verdade. Agora, os cultos são on line. Risível. Mas não tinha alternativa. Aprendi na minha mal dada aula de Catecismo que deveríamos assistir Missa sempre aos domingos e dias de guarda, e conservei este costume mesmo tendo mudado de Religião.
Como não tenho computador em casa, resolvi ir a uma lan house, tão fáceis de se encontrar, até mesmo aonde elas são imprevisíveis..
 
     Estava lotada quando cheguei. A sorte que havia um computador vago para eu fazer o meu “culto virtual”. Surpreendentemente, encontrei ali outros irmãos da igreja Batista, fazendo o seu “culto” também.
 
     De repente, me veio um pensamento. Mal eu havia aberto o site da igreja quando percebo a situação paradoxal na qual estou. A igreja estava fechada para evitar aglomeração de pessoas–e possíveis contágios. Mas a lan house estava cheia, e com as mesmas pessoas que eu iria ver na igreja. E isto a Prefeitura chama de “medida preventiva” contra a gripe. Uma tolice destas só pode ser explicada caso o Prefeito seja um ex-padre ou um leitor incondicional de teólogos alemães de profundo e prolixo linguajar metafísico.
 
     Alguém espirra. Todos olham assustados. A pessoa se justifica, dizendo que é alergia. Alguns vão embora rapidamente, sem mesmo fechar a sessão, pagando sem esperar o troco. Eu fico. Se eu ficar contaminado e morrer, serei o primeiro mártir do “culto on line“, que resistiu às repressões do Poder Público contra a Religião.
 
     Dá-me um mal estar, e resolvo concluir o meu culto. Talvez o meu martírio esteja começando. Fecho a sessão e pego o próximo ônibus para o Posto de Saúde, a fim de me consultar e saber qual a causa desta sensação. O veículo coletivo estava lotado. Muitas pessoas voltando pra casa após ter dado com a cara na porta das igrejas, todas Elas fechadas.
 
     Desci do ônibus e caminhei mais um pouco. Na frente do Posto, vários homens de branco–pareciam ser funcionários públicos da Secretaria de Saúde–discutiam. Falavam da incoveniência de um Posto estar aberto. Tanta aglomeração de gente poderia ser um foco bastante eficaz para o contágio. Então era melhor fechar o Posto. Nem bem eu entro e me mandam embora. Ali era perigoso demais para eu ficar, aglomerado com tanta gente. Respondi que me sentia mal, e queria fazer uma consulta. O agente de Saúde olhou para e mim e respondeu que eu tinha razão. Se eu estava mal, então eles estavam certos em fechar o Posto e me mandar embora. Vai que eu contamino alguém.
 
     Tive que voltar andando para casa. Não arrisquei pegar outro ônibus, sob o risco de ser enxotado dele também. Parece que é o próximo passo da Prefeitura: acabar com o transporte público. 
 
     Sem o sistema escolar, a rede de postos de Saúde e o transporte público, a Prefeitura economizará bastante este mês. Isto explica a reforma relâmpago que o Prefeito resolveu fazer em sua casa.
 
     Cheguei em casa, hesitei. Não quis entrar. Lembrei-me de Karl Marx. O Comunismo pretendia dissolver tudo, inclusive a família. Todos são propriedade do Estado. Se eu entrar em casa agora, corro o risco de que um novo decreto me obrigue a sair, pois a aglomeração com pai, mãe e irmãos me será ocasião propícia para ficar contaminado ou poder contaminar. Então, preventivamente, é melhor seguir a cartilha comunista e dissolver as relações familiares também, a fim de salvaguardar a saúde de todos… menos a minha.

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