Montfort Associação Cultural

14 de fevereiro de 2007

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Música e espírito

Autor: Orlando Fedeli

  • Consulente: Isac Jr
  • Localizaçao: Rio de Janeiro – RJ – Brasil
  • Escolaridade: Superior em andamento
  • Profissão: Funcionário Público
  • Religião: Protestante

Dr. Fedelli,
antes de tudo gostaria de parabenizá-lo pelo trabalho de manter este site desta associação cultural, ou outro nome que corresponda melhor o que seja este grupo do qual o senhor faz parte, a MONTFORT. Não importa o que digam, não deve ser fácil manter isto tudo e menos fácil ainda responder tantas perguntas de uma lista tão vasta de assuntos. Nunca pensei que uma simples pesquisa sobre Torquemada me trouxesse tal riqueza, em vários aspectos.
Fui criado em lar evangélico ou “pagão”, como o senhor considera. Também percebi que o senhor não considera os pentecostais como protestantes. Qual seria a classificação deles então, se não são protestantes? Mas não sei se entendi errado o que o senhor disse por isso me corrija se esse for caso.
Mas há anos não mais freqüento igreja alguma e logo vou dizer o motivo. Não apenas nasci em lar evangélico, como meu pai é pastor. Mas não considere tanto isso, pois não sou um filho de pastor tradicional, não toco instrumento, nunca li a bíblia – e devo dizer que não me orgulho disso, não possuo mais ligação com o protestantismo que uma leve, mas importante, noção de cristandade e alguns conhecidos que ainda são evangélicos. No mais, não entro numa igreja faz anos, não freqüento faz quase uma década e possuo até certa, pra não dizer grandes, restrições quanto ao que ocorre nesse meio.
Passei anos dentro da igreja sem um aprofundamento no ensino da bíblia. Passei anos e nunca senti aquele “algo” que prega a igreja evangélica. Anos e anos achando que tudo era maravilhoso, restrito no meu meio que hoje chamo de “mundo paralelo”. E achei muito interessante saber pelo senhor que esse “algo” teria sido originado por influência do romantismo, afastando a igreja da liturgia como processo de aproximação com Deus. Não é à toa então, que um país emotivo como o Brasil seja o maior país evangélico protestante pentecostal do mundo.
Ocorreu que aos dezoito anos pude vislumbrar o mundo como é ao começar a ler e estudar, por conta própria, mas motivado pela vontade de ser alguém. Foi um processo maravilhoso, mas muito doloroso também. Esse choque me distanciou daquilo que procurou sempre me afastar de algo construtivo. Além do mais, tudo ali não batia, não havia concordância. No fim, todo aquele significado se resumia a crer em algo que não se poderia provar. Isso não é tão negativo quando se possui uma mente vazia e poucas expectativas de vida, mas não funciona com a classe mais aculturada da sociedade, i mean, com gente que viaja para o exterior, que ganha mais de 10 mil reais por mês, se é que você me entende.
É muito bom crer em algo de forma incondicional, mesmo que não se possa provar, quando não se tem muito nessa vida. E é muito fácil não precisar me esforçar mais e mais porque o “porvir” é maravilhoso. E mais, aqueles que bem desfrutam esta terra, diria até Aqueles önicos Que Realmente Desfrutam a Terra, não terão sua vez neste “porvir” maravilhoso onde, praticamente, apenas os mais humildes serão beneficiados.
O que me fascinou nas suas respostas, o que realmente me chamou a atenção foi que, de repente, percebi no senhor um sentimento de confiança onde tudo se “fecha”. O senhor entende? Quero dizer, embora um amigo meu diga que o senhor simplesmente diga “não aceito a bula tal, não considero o papa tal, desconsidero essa fase” e por isso sua fé seja quase que exata, eu acho incrível que não haja questões vagas ou sem respostas para o senhor. Tudo simplesmente ocorreu, ocorre e ocorrerá, há um caminho apenas, tudo converge e tudo tem apenas uma resposta. Não há muito espaço para “Neste ponto”, algo em torno da quinta ou décima pergunta de um diálogo, algum lado dizer “não há resposta. Você precisa crer”.
Claro que em alguma hora o fator “crença” tenha sua parte sim, mas até agora não se fez presente, talvez porque ninguém conseguiu ainda tirar isso do senhor por falta de profundidade. Mas é certo que, se existe mesmo esse momento, ele ainda não chegou pela complexa elaboração da sua fé. I mean, não se baseia em um “eu creio e pronto”, nem num um pouco mais forte “se está na bíblia eu creio” ou “só creio no que está na bíblia”. É baseada em fatos históricos, melhor o termo “objetos de pesquisa” históricos.
Alguém pode alegar que o senhor não consegue responder a algumas questões, não responde tudo, não seja oficial ou, até, que o senhor seja severo, direto, radical e seco demais para responder perguntas, mais ainda para um cristão. Mas o fato é que tais características não apagam o que o senhor diz de “correto”, no caso, a maioria absoluta de seu conteúdo.

Eu tenho algumas perguntas que abrangem questões variadas. Meu texto parece ter sido completamente, digamos, favorável ao senhor. Qualquer um diria que fiquei deslumbrado com suas respostas e exagerei em minhas considerações, ou coisa que o valha. Simplesmente pra mim isso é indiferente porque, se perceber, o texto em si já inclui questões para serem trabalhadas como o tratamento das igrejas quanto ao ensino, da falta de respostas, das tendências de certos grupos da sociedade em seguirem tal religião, da influência geográfica e; conseqüentemente, social nessa escolha, da falta de respostas e da exacerbação do sentimentalismo com propósito de suprir esta ausência e outras questões.
Além disso, a admiração pelas respostas não podem anular o que de verdade eu disse sobre o senhor. Mas, de um modo ou de outro, vamos deixar claro uma coisa: embora talvez não seja necessário este alerta, pelo que já é sabido sobre sua sinceridade, gostaria que tratasse minhas perguntas da mesma forma que trata as outras. Se eu disser asneira, estiver estrebuchante ou algo assim … Trate como melhor aprouver ao senhor. Tanto não há motivos para eu bajular o senhor quanto também não há para o senhor “amaciar” quanto ao meu texto, ok ? Pra mim é até melhor que seja severo, porque, ao contrário dessa gente que adora lhe enviar questões, elas querem atacar por motivos claros, simplesmente gostariam de lhe derrubar para comprovar o que elas mesmo crêem, uma vez que suas crenças no que quer que seja, não possuem muita sustentação. E como não possuem profundidade dialélica, histórica ou na própria crença que professam acabam saindo frustradas.
Como meu conhecimento, de certo modo, é limitado, assim como minha capacidade de resumo, objetividade e, principalmente, argumentação, me limito a lhe escrever com o objetivo de melhorar meu conhecimento em questões que realmente me intrigam. Sempre me intrigaram e, espero, intriguem também outras pessoas de modo a fazer essa troca uma contribuição à sociedade. Limitada mas, sim, contribuição.

MöSICA
Um dos assuntos cuja resposta provocou mais atenção em seu foi a questão da música ou, mais especificamente, sobre o Rock. Muito mais que um estilo musical, é uma cultura e possui uma gama gigantesca de ramificações e fragmentações diferentes. Desde seu início, quando uniu o country e o blues, tocado por negros e brancos, mexendo com a libido das garotas, e pela própria época em que foi cunhado, o rock possui o estigma de rebelde e realmente foi um estilo, de certa forma libertador. Nunca inspirou revoluções de estado como a ópera, mas seu alcance hoje é mais amplo
Ocorre que, a partir dos Beatles, um dos maiores pilares do rock e do próprio pop em si e seu marketing, o rock recebe contornos sombrios. Mais especificamente com o álbum Sargent Pepper Lonely Heart Club Band, de cuja capa possuía referência a supostos satanistas famosos, o rock tem aumentado a sua lista de adjetivos depreciativos com a palavra de música do demônio ou coisa que o valha.
Referencias explicitas ao diabo chegam com Black Sabbath e daí pra frente não parou mais. O Sabbath alegou, certa vez, que as referencias eram uma brincadeira e que eles achariam que muita gente gostaria, uma vez que filmes como BLACK SABBATH de Boris Karloff fizeram muito sucesso.
Esse é o motivo de hoje na ser possível identificar quem realmente faz adoração explicita, quem faz referência apenas ou apenas quer ganhar dinheiro como nome do diabo em suas músicas. Mas a questão toda é a seguinte e vou contar uma história verdadeira pra exemplificar: quando eu era cristão eu fui a casa de uma garota da igreja e eu disse que gostava de uma certa banda de rock não cristã. Apenas uma banda sem referencias satânicas nem nada disso, mas uma banda que era agressiva. A garota falou que não gostava porque achava que aquela música era maligna. E disse mais, que preferia ouvir Mariah Carey.
Refleti sobre aquilo e me perguntei da coerência daquilo. Na nossa igreja era aconselhado que não se ouvisse musica do “mundo”(não cristã). Se o que não era de Deus era contra Deus então o fato de a música fazer referência ou não ao Diabo era indiferente, pois qualquer que não fosse pra Deus era pro demônio. Assim pouco importava se era Mariah Carey, Kitaro, Tangerine Dreaming, Wagner, Legião Urbana, Black Sabbath, Ramones, Nirvana, Marilyn Manson, Carpenters, Frank Sinatra ou Jorge Aragão, falando sobre flores, velas, mar, oceano, céu azul, mulheres bonitas, angelicais, safadas, carro vermelho, encontros com o demônio, inferno, bíblia ou Jesus. Se a música não tivesse sido inspirada por Deus era música pro demônio, falando de coisas bonitas e até sobre Deus, era enganação do capeta.
Primeiro, o senhor concorda com isso? Se sim, o que é muito coerente, que tipo de malefícios provoca ouvir tais músicas? Começar a ouvir tais músicas é causa ou conseqüência na vida dos que ouvem? E não vale falar que pode ser os dois, pois acho que um dos dois acaba por ser mais importante: causa ou conseqüência. A pessoa se identifica antes, ou a pessoa começa a ouvir e é influenciada depois ?
Segundo, por ser explícito, é natural que o rock receba mais ataques. Mas se alguns artistas pop entregam suas gravações ao diabo ou algo maligno e as letras e harmonia são agradáveis e suaves, por que este tipo de música, a pop, não recebe a mesma quantidade de ataques seja sua, seja das igrejas? No caso da igreja que eu te falei que aconselhava a não ouvir qualquer musica não cristã, mesmo ela, aconselhava mas, de certa forma, seja por ignorância ou pura incoerência mesmo (já que são campeãs nisso) não ligava se a música “não cristã” fosse romântica ou suave, ignorando que, como eles mesmo sempre diziam, o Diabo se disfarça pra atrais seguidores. E pior, essas igrejas permitem tais músicas “suaves” em casamentos e outras solenidades. E se Kenny G for satanista e ninguém souber ? Mas independentemente disso, ele não fizer a música pra Deus ? Então é para o Diabo.
Terceiro, aproveitando a deixa do segundo, sabe-se que música clássica faz bem aos bebês. Também faz bem ao cérebro humano, criando novas ligações cerebrais (se não me engano, cinápticos), e ao espírito. Ajuda na concentração e é comprovadamente uma música benéfica, não servindo apenas a diversão, mas sim, diretamente ao bem estar pessoal de quem costuma ouvir freqüentemente. Se há uma música que tenha tantos benefícios, podemos considerar que ninguém fique imune ao som de qualquer música. Pode-se considerar músicas neutras, mas acho isso quase impossível. Vamos considerar que todas as músicas passam sua mensagem intelectual e sentimental. Como intelectual vamos considerar a parte analítica e mais racional do ato de ouvir a música, como sentimental a parte mais emotiva. Por exemplo, alguém lendo uma carta de teor triste (intelecto) acabaria por influenciar sua parte sentimental. Uma pessoa que sempre recebe cartas com este tipo de teor, tenderia a ser uma pessoa triste e isso poderia somatizar externamente em sua aparência. Substituindo a referencia da carta pela música temos o que quero mostrar.
Então temos os tipos de música com letras vazias como Axé e algumas vertentes da música eletrônica que se valem de seus ritmos para influenciar o sentimental. A letra (intelectual) é desimportante e repetitiva porque o sentimental é influenciado diretamente. Temos a música com letras simples, de fácil identificação e com harmonia e tons fáceis de cantar como Pagode ou Pop (o pop não é tão simples, mas vale como exemplo aqui). Temos também a música de caráter apelativo em que o intelectual, nas letras com apologia sexual, e o sentimental, com ritmo que simula o próprio ato em combinação com a letras.
A partir deste quadro apresentado por mim, que pode estar errado; uma vez que não sou neurocientista, lhe pergunto: independentemente do lado intelectual e sentimental que apresentei, há alguma outra forma de influência que a música pode ter sobre nós ? Uma influência partida diretamente do que algumas ramificações evangélicas chamam de Quarta Dimensão, o que é mais conhecido como Regiões Celestiais ? Mais especifica e explicitamente, ocorre quando ouvimos uma música algo como uma nuvem espiritual atuando diretamente em nós? Se considerarmos que sim, a música pode não ter letras ou até mesmo não ter som momentaneamente e ainda sim estar passando a influência negativa para quem ouve.
Se esse for o caso, a música pode ser clássica, sem letra, com harmonia que some ligações sinápticas e ainda sim ser demoníaca, como uma sombra que envolve quem a ouve. Seria dessa forma ? A Quarta Dimensão influenciaria diretamente no ouvinte ou influenciaria no compositor com suas harmonias e letras. Esta segunda opção não teria muita lógica, uma vez que até Charles Manson comporia uma música com harmonia bela e com letras líricas, inclusive com referências boas de Jesus Cristo. Poderia uma música de Manson ser de Deus? Não acredito. Considerando a primeira opção, tudo o que prega o senhor e a igreja, poderíamos afirmar então que a música seria como uma porta aberta de influência espiritual direta com o inferno e o diabo. O autor deixa influência espiritual, mesmo quando não quer , em sua música e talvez isso seria possível em outros tipos de arte. Se isso for verdade, estaríamos em constantes e invisíveis conflitos de interesse simplesmente ao andarmos na rua.
O senhor poderia expor referências sobre a sua resposta ??
Feliz em poder ser ouvido e ansioso pela resposta.

Isac Jr

Um abraço

OBS: Eu tenho outras questões, mas como a primeira acabou sendo muito extensa, decidi por expô-las uma, ou talvez duas, por vez.

Muito prezado  Isac,
Salve Maria.
 
    Muito lhe agrdeço a confiança depositada no site Montfort, assim como suas palavras de elogio, que têm tanto mais valor quanto provem de uma pessoa que não se diz católica e que teria mil motivos para se opor ao nosso site. Deus lhe pague.
    Deixe-me, por favor, fazer uma ressalva: pagão é aquele que não é batizado. Há seitas protestantes que ministram validamente o Batismo em nome da Santíssima Trindade e para apagar o pecado original.
    Provavelmente não me expressei bem sobre os pentecostais ou houve equívoco de sua parte. As seitas pentecostais são protestantes, sim, pois que derivaram do erro fundamental de Lutero ao se rebelar contra o papa e ao proclamar o livre exame da bíblia. Foi desse livre exame que nasceram as milhares de igrejolas protestantes, inclusive as pentecostais. Algumas delas se declararam anti luteranas, mas são protestantes também.
    Você faz uma observação correta ao relacionar o grande número de pentecostais brasileiros ao emocionalismo sentimental do brasileiro. Haveria ainda que acrescentar como causa desse número bem grande de pentecostais no Brasil, a influência da RCC e a ignorância religiosa em que o clero mantém o povo que frequenta igrejas.
    Você coloca um problema sobre a relação da racionalidade com a Fé.
    A Fé não é contra a razão. A razão é que nos mostra que Deus existe. As provas da existência de Deus são filosóficas e racionais. Não cremos na existência de deus. Prova-se que Deus existe. A razão nos mostra ainda que Deus é um só, que Ele é infinitamente bom e sábio, de modo que tudo o que Ele nos revelou é verdade.
    Claro que há pontos da revelação que estão acima da razão que são os grandes mistérios de nossa Fé: a Unidade e Trindade de Deus e a Encarnação, Paixão e Morte de Nosso Senhor Jesus Cristo. Esses dois grandes mistérios não podem ser provados pela razão. São mistérios porque estão acima de nossa capacidade de compreensão. Cremos neles porque Deus no-los revelou.

    Permita-me ainda reparar que não tenho um “sentimento de confiança”. Confiança é um ato livre da vontade determinado por uma compreensão dos motivos que levam a confiar em alguém ou em algo. A confiança não é um sentimento: é uma virtude racional.
    Quando o senhor confia nos pneus de seu carro, o senhor o faz por razões que lhe indicam que tais pneus não fazem correr riscos sérios. O senhor não confia por ter um sentimento por tal tipo de pneu, sentimento que seria absurdo.
    Um terceiro reparo a fazer é que não é verdada que tenho resposta para tudo. Meus conhecimentos são muito limitados. Por exemplo, não entendo nada de técnica musical, nem de finanças, nem de química orgânica, jamais resolvi um só problema de Física e em Matemétia meu limite foi o capítulo dos limites. Não passei deles.
    Quem tem resposta para tudo é a Igreja Católica, a quem Deus confiou o depósito da revelação. Só repito o que a Igreja ensina.
    Alguns confundem a sabedoria da Igreja com o meu falar repetitivo do que Ela ensina. É a luz que tem valor. Não a lâmpada. Não passo de lâmpada sem grande valor e já bem gasta.

    O senhor me coloca questões sobre Rock e música em geral. Repito-lhe que não sou conhecedor de técnica musical e nem sei ler uma pauta.   
    Tratarei então de lhe responder de um ponto de vista mais teórico de Filosofia da Arte do que de técnica musical. Também o advirto que não conheço esses nomes como Mariah Carey e outros que o senhor cita, e nem sei o que é Axé, apesar de desconfiar, pelo nome, que deve ser algo envolvendo africanismos.
    Inicialmente, devo dizer-lhe que o modo de colocação de uma protestante que o senhor cita é de dualismo errado; ou a música é religiosa ou é do diabo, excluindo a possibilidade de haver música profana de acordo com as leis de Deus.
    Essa exclusão é simplista demais. Essa colocação dualista levaria a dizer que só a oração é válida e não a conversa entre amigos. Ou ainda que só a alma tem valor, e jamais o corpo. Só o espírito seria ligado a Deus, e o corpo seria ligado ao diabo.
    Essa posição dualista é típica da Gnose.
    Foi Deus quem criou nosso corpo e nossa alma. O corpo não é condenável. Assim o mundo das coisas relacionadas com a matéria, o mundo civil, a arte profana não são condenáveis.
    Por isso, é possível haver uma arte profana correta, como essa arte pode ser perfeitamente de acordo com a lei de Deus. Portanto, há lugar para a música profana, não religiosa. Foi da arte popular que desabrochou a arte clássica. Uma canção popular medieval tem uma alegria, uma vida e uma louçania inteiramente de acordo com a lei de Deus.
    A música — já o dizia Platão — é a mais sutil das artes. Ela é bem pouco objetiva, permitindo uma gama de interpretações muito larga. Ela predispõe a pessoa para algo que ela não explicita claramente, introduzindo na alma humana estados de espírito vagos que podem levar ao bem ou ao mal.
    Sem dúvida, existem músicas satânicas, como existem músicas santas. E entre esses dois extremos, há toda uma gama intermediária cheia de matizes muito tênues difíceis de precisar.
    O senhor me pergunta se ouvir músicas más é causa ou consequência numa pessoa.
    Também aí não se pode dar resposta objetiva universal. Há casos em que a decadência começa com ouvir uma música má. E há casos em que a pessoa primeiro diz um não a Deus e depois começa a decair terminando por ouvir músicas satânicas explícitas. E entre esses dois casos extremos, há, de novo, a gama “infinita” dos casos intermédios. Em suma, só Deus conhece o que começou em uma alma em concreto se foi a decadência que a arrastou à musica satânica, ou se foi um gosto mau que provocou a decadência.
    Não sei o que é música pop.
    Mas, quanto ao romantismo, não tenho dúvida sobre sua deletéria e muito sutil, lenta e maligna influência. E claro que o demônio pode usar de qualquer coisa para tentar os homens. Inclusive do mau uso da música. O que não significa que toda música não religiosa seja má e condenável, como já lhe frisei.
    É natural que todo acontecimento exterior repercute em nós, e que devemos filtrar e analisar as repercussões que as coisas produzem em nós, afastando aquelas que nos trazem efeitos maus. Nisso, como em tudo, vale o princípio posto por Santo Inácio nos seus Exercícios Espirituais, conhecida como regra do tanto quanto:

“Todas as coisas foram criadas por Deuse são boas. Mas, devemos usar das coisas tanto quanto nos aproxime de Deus, e afastarmo-nos delas tanto quanto elas nos afastem de Deus”

    Isso vale para as pessoas, para a música, para o dinheiro, o prazer, a fama, o esporte, etc.

    E garanto-lhe: Não existe quarta dimensão coisa nenhuma.

    Perdoe-me não poder agora prolongar essa resposta.
    Escreva-me sempre.
    Um abraço.
   
In Corde Jesu, semper,
Orlando Fedeli

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