Montfort Associação Cultural

16 de janeiro de 2012

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Mulheres que nunca nasceram

A articulista do Osservatore Romano comenta um livro lançado na Itália, sem uma luz muito crua,  sobre uma das tragédias da modernidade que é a eliminação preferencial de mulheres pelo aborto. Aquilo que é um crime horrendo – o assassinato dos filhos por seus próprios pais – defendido ferozmente pelos “progressistas” ou socialmente avançados, praticado ou tolerado por muitos, causa estranheza quando se volta preferencialmente contra as meninas. Por que? Matar meninos, ou matar indiferentemente meninos e meninas indesejados, é menos mau do que trucidar apenas as não nascidas ou recém nascidas? Aprouvera a Deus que o absurdo dilema convertesse aqueles que se espantam ante o  “genericídio” atual…

Lucetta Scaraffia

Osservatore Romano de 16-17 de janeiro de 2012

Tradução Montfort

 

 

 

Nunca nascidas. Porque o mundo perdeu cem milhões de mulheres de Anna Meldolesi.

 

A autora aprofunda de vários pontos de vista – estatístico, biológico e tecno-científico – o alarme que Amartya Sem lançou em um célebre ensaio de 1990: faltavam no mundo cem milhões de mulheres, que deveriam existir mas não estão aqui porque mortas ao nascer por infanticídio ou nunca nascidas. Um número espantoso, que supera o balanço das vítimas de ambas as guerras mundiais e das grandes epidemias, como a gripe espanhola e a AIDS. Um drama gigantesco – talvez ainda maior numericamente que o denunciado por Sen –  que dificilmente encontra voz seja nos centros de pesquisa acadêmica seja na mídia. (…) A autora examina as razões culturais que possam levar à eliminação das mulheres: a patrilinearidade [de certos] sistemas patriarcais que não concedem às mulheres nenhuma garantia e portanto nenhum peso social, o papel das religiões e, naturalmente, aquilo que chama “as insídias da modernidade”, ou seja, a possibilidade de descobrir através de análises o sexo do nascituro, de modo a eliminar o indesejável com o aborto. Meldolesi sabe perfeitamente como as novas técnicas médicas estão na origem de um agravamento do genericídio, especialmente no caso das comunidades imigrantes que, aliás, utilizam a assistência médica dos países em que se abrigaram para operar a antiga seleção sexual. Pensa entretanto que a assimilação  à sociedade ocidental as fará ver as mulheres de uma nova maneira.

 

Mas a parte mais interessante do livro é aquela em que a autora – que se declara favorável ao aborto e às tecnologias – relete sobre o fato de que é muito difícil combater ao mesmo tempo a batalha pelo aborto “seguro” e aquela contra o genericídio, porque é justamente o aborto seguro e legal que contribui para aumentar o número das mulheres eliminadas antes de nascer.  E não só: também as campanhas pelo controle demográfico, com suas esterilizações e abortos de massa, terão contribuído para agravar esta realidade. “O fato de que tantas mulheres que não são ignorantes nem marginalizadas” – afirma Meldolesi – “decidam abortar outras mulheres, obviamente, é como um vírus instalado no sistema de argumentação pro-choice [proescolha ou proliberdade de matar pelo aborto] e representa um desafio para o pensamento feminista, mas também para todos os progressistas”.  

 

O direito de abortar, portanto, deve ser garantido independente da intenção de quem recorre a ele? A eliminação dos fetos femininos não é uma extensão lógica do direito dos pais de controlar o número, o tempo o espaçamento e a qualidade dos filhos, considerado atualmente indiscutível? Eis as perguntas que se coloca a autora.

 

Mas pode-se acrescentar uma reflexão. Ainda uma vez, após o caso da eugenia na primeira metade do século XX, vem à luz os perigos inseridos no “direito” de controlar os nascimentos, de intervir para decidir a quem permitir vir ao mundo e quando. Também a falta dessas meninas assinala um perigo ao qual não se quer pensar, mas que concerne, junto com elas, a toda a humanidade.

 

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