Montfort Associação Cultural

8 de julho de 2014

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Dúvida sobre Montfort e Fraternidade São Pio X‏

Autor: Alberto Zucchi

  • Consulente: André
  • Enviada em: 27 Nov 2013

Equipe Montfort,

Sou católico e me interesso pelos sites que publicam temas ligados a Igreja. Lendo um pouco sobre o histórico da Associação me surgiram algumas dúvidas. Se possível, gostaria de saber qual a relação da Montfort com a Fraternidade São Pio X, se existe alguma, e também qual seria a relação do falecido prof. Orlando Fedeli com essa Fraternidade?

Desde já fico grato,

André.

Data: 18 Jun 2014 

Prezado André,
Salve Maria!

A resposta para a pergunta que você nos propõe tem duas grandes dificuldades. Em primeiro lugar é importante dizer que, ao contrário do que muitas vezes se supõe, a FSSPX não é um bloco monolítico. Quase se poderia perguntar a que FSSPX você está se referindo.

Assim temos a FSSPX de Dom Fellay e de seu conselho, favoráveis ao menos a uma aproximação com o Vaticano e a Fraternidade de Dom Tissier, que considera que falar de acordo já consiste em uma traição. De um lado a Fraternidade do Padre Cacqueray, que recusa aceitar a aproximação com um bispo disposto a realizar o crisma no rito antigo e, de outro, a Fraternidade do Padre Bouchacourt, que se encontrou com o Cardeal Bergoglio em Buenos Aires e sempre foi atendido… Isto apenas para citarmos dois exemplos, e sem tratarmos daqueles que se consideram a “verdadeira” Fraternidade, representados por Dom Williamson.

A segunda dificuldade está relacionada ao fato de que nossos contatos com a FSSPX ocorrem em períodos de tempo muito variados. Também aqui por brevidade, cito apenas alguns exemplos: muitos anos atrás, Padre Schmidberger nos deu uma conferência em São Paulo, ainda quando era o superior da FSSPX, em um clima de grande cordialidade. O Professor Orlando foi convidado a proferir uma palestra em Buenos Aires, no evento organizado pela Fraternidade em comemoração aos quinhentos anos de descobrimento da América. Mas, em sentido contrário, recentemente fomos caluniados pelos representantes da FSSPX, como se fôssemos uma seita e isto mesmo tendo sido comprovado que tínhamos total razão na polêmica em questão.

Assim, para atender plenamente seu pedido, creio que seria necessário escrever um livreto. Quem sabe um dia isso acontecerá, quando for escrita a história da Montfort.

Mas, para não deixar sua pergunta sem resposta, vou naquilo que considero o essencial neste relacionamento, ou seja, uma síntese bastante simplificadora sobre as questões doutrinarias.

No que se refere à posição oficial da FSSPX, ou seja, aquela que normalmente é enunciada pelos seus dirigentes, nós estamos de acordo em relação a dois pontos fundamentais. O primeiro é a questão da Missa Nova, o segundo as críticas que devem ser feitas em relação ao Concílio Vaticano II.

Entretanto, quanto ao resto, temos sérias e importantes restrições doutrinárias. Creio que a mais conhecida delas é a questão dos tribunais da FSSPX. O Professor Orlando apresentou a Dom Tissier a este respeito um trabalho demonstrando que a existência deste tribunal era um ato cismático. O ex-padre Joel Danjou pretendeu elaborar uma resposta a este trabalho, mas muito mais do que justificar as posições doutrinárias da FSSPX ele procurou denegrir ao Professor Orlando.

Outro ponto fundamental é a amplitude do conceito de suplência. A FSSPX acabou por ampliar este conceito de forma a se permitir fazer uma verdadeira igreja paralela. Neste sentido são muito apropriadas as criticas apresentadas pelo Padre Mercury, em entrevista realizada para o nosso site.

Apesar de estes serem os dois pontos principais, eles não são os únicos, nem são os mais recentes. Apresento abaixo o texto de uma carta enviada a Dom Licínio, quando o então Padre Rifan era uma espécie de representante da FSSPX no Brasil e nos hostilizava porque não concordávamos em nos tornar um grupo com inteira submissão à Fraternidade.

Consideramos a Fraternidade uma obra altamente meritória, excelente instrumento de combate aos erros atuais. Ao lado dos nossos Padres de Campos, a Fraternidade constitui hoje a esperança de vitória da Verdade Católica contra a fumaça de satanás.

Respeitamos a memória de D. Lefebvre, em que vemos, juntamente com D. Mayer, um dos guardiães da integridade da Fé em nossos tempos de heresia. Admiramos diversos Sacerdotes exemplares da Fraternidade, que muito nos edificaram e aqui estiveram. Bastaria V. Exa. Indagar de qualquer membro do grupo o que pensa, por exemplo, a respeito do Pe. Ceriani, ou do Pe. Calderón [na época da carta, padre Ceriani estava longe das posições sede-vacantistas que hoje defende].

É exatamente por termos essa visão da Fraternidade que nos preocupamos sobremaneira com os indícios no sentido de que, ao lado de tantas luzes, existem alguns pontos de trevas nessa obra. É preciso mencionar o outro lado da moeda.

Ouvimos estarrecidos, diretamente do Pe. Beauvais, em São Paulo, a afirmação de que há padres gnósticos na Fraternidade. Não é segredo para ninguém que existe larga adoção do maurrassianismo em diversos setores da mesma.

Vossa Excelência sabe que alguns Padres dela aderem ao liberalismo, tal como apregoado no Rio de Janeiro.

(…)

Na igreja de S. Nicolas Du Chardonnet, vimos serem admitidas à Comunhão mulheres vestidas com trajes que não teriam sido tolerados pelos Padres de Campos.

É conhecido o fato de alguns membros da Fraternidade nutrirem grande simpatia pela TFP. Consta inclusive que há sacerdotes que celebram a Santa Missa em sedes da seita.

(…)

Gostaríamos imensamente de poder entregar toda a nossa confiança à Fraternidade. Seria um enorme consolo, em meio à crise que nos castiga, ter certeza de que há uma obra, da dimensão da Fraternidade, imune a quaisquer erros ou impermeável a qualquer infiltração.

Mas não podemos deixar de ver as coisas como são. E lutar, dentro de nossas estreitas limitações, para dar uma contribuição à erradicação do mal.”

(Dossiê Campos X Montfort – carta a Dom Licínio 26 de março de 1995)

Espero que, apesar de muito simplificada, esta resposta, ao menos em parte, o tenha satisfeito. Não deixe de rezar por nós

Alberto Zucchi

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