Montfort Associação Cultural

13 de dezembro de 2008

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Monsenhor Lefebvre e a Sé Romana – Parte I

Autor: Orlando Fedeli

R. P. Juan Carlos Ceriani, FSSPX

 

Aos Leitores do Site Montfort

É uma grande alegria para nós do site Montfort publicar este extraordinário ensaio do Padre Juan Carlos Ceriani, membro da FSSPX. E por duplo motivo.

Em primeiro lugar, pela verdade da tese defendida por ele contra o chamado sede vacantismo, que tanto mal faz, hoje, aos melhores católicos. A defesa da Fé é tão bem feita por Padre Ceriani, seja pelos admiráveis textos escolhidos do heróico Dom Lefebvre, a quem tanto devem os católicos fiéis de todo o mundo, seja pelos argumentos esplendidos de Padre Ceriani, que com lógica e clareza ímpar, tão admiravelmente defende a verdade.

Em segundo lugar, alegramo-nos porque temos por Padre Ceriani não só admiração, mas também profunda estima pessoal por seu valor como sacerdote, como canonista, como pessoa. Honra-nos tê-lo conhecido pessoalmente e tê-lo recebido, no Brasil, e em nossas casas, anos atrás.

Que Deus o abençoe por este trabalho, que vem em hora tão importante, e para impedir a discórdia, fazendo um debate elevado, sereno e cheio de caridade, visando tão só o bem da Santa Igreja e a salvação das almas, tal qual Dom Lefebvre deixou tão claro nas brilhantes citações que Padre Ceriani colocou no início de seu trabalho.

Queira Deus abençoar este ensaio, confirmando os fiéis, esclarecendo os que estão em dúvida ou em tentação, fazendo voltar à posição correta os que, por um motivo qualquer, se deixaram, um momento, fascinar por uma tentação terrível nesta hora de trevas.

Que Dom Lefebvre e Dom Mayer, estes dois heróicos confessores da Fé, intercedam diante da Virgem pelo bom êxito deste ensaio, e obtenham de Deus muitas graças para o bom Padre Ceriani que tão bem defendeu a Verdade.

São Paulo, 5 de Dezembro de 2008.
Orlando Fedeli

 


 

SUMÁRIO

 


 

Monsenhor Lefebvre e a Sé Romana
R. P. João Carlos Ceriani

*Posição inalterada de Monsenhor Lefebvre durante 20 anos.
*Dificuldades que traz a opinião sede vacantista.

 

PARA QUE A DISPUTA NÃO SE TORNE DISCÓRDIA

Hoje em dia, estendeu-se a alguns círculos católicos preocupados pelo colapso pós-conciliar a opinião de que a causa dos erros dos últimos Papas, desde João XXIII até o atual Papa, a Sé Romana estaria vacante por heresia de seus ocupantes, ou melhor, que a eleição destes Papas teria sido inválida. Essa opinião reconhece uma infinidade de matizes, impossível de distinguir aqui, porém de um modo geral ela é conhecida como sede vacantismo.

A Fraternidade Sacerdotal São Pio X não sustenta tal opinião. Mais ainda, ela desaprova que seus sacerdotes preguem em tal sentido. Alguns fiéis, não obstante, inclinam-se por essa corrente de pensamento e, em alguns casos, agiram de modo conflitivo. Tampouco faltaram sacerdotes que, levados por essas idéias, deixaram nossa obra.

Temos a impressão de que muitos dos que são arrastados por essa opinião aderem a ela de modo imprudente, como uma maneira particular de expressar o sentimento comum de oposição à corrente modernista que impera em Roma, porém sem fundamentos suficientes à base de conclusões não devidamente justificadas em sólidas posições teológicas. Para alguns espíritos a idéia é atrativa, sugestiva, parece solucionar-lhes muitas coisas. Para outros, ela é um ponto no qual se entrincheirar ante uma visão quase desesperada da tremenda realidade da Igreja de hoje. Para a maioria dos fiéis, em troca, é algo impossível de destrinchar, quando não alheio a suas preocupações. Entretanto, para além desses matizes, o problema está posto e pode ser fonte de uma legítima inquietação espiritual e intelectual.

Porque é um tema muito complexo, indecifrável para muitos e alheio à maioria, a Fraternidade tem sido prudente no debate público dessa opinião. Hoje, cremos conveniente publicar este trabalho do R.P. João Carlos Ceriani no qual ele tenta uma sistematização das dificuldades que implica a hipótese sede vacantista em seus principais matizes, ainda que não trate de todos eles. Nós o publicamos porque os que se sentem legitimamente preocupados têm o direito de estar informados, e ademais porque – confundindo prudência com timidez– se nos acusou de ocultar o tema, ou de não ter argumentação sólida a respeito dele. É ou momento de desfazer essa confusão.

Este trabalho é um ensaio e como tal sujeito à controvérsia. Poder-se-á objetá-lo ou aprová-lo, porém, em nenhum desses casos, ignorá-lo; se se o desejar rebater, o mínimo que se pode pedir a um possível objetante é que recorra às mesmas fontes que o autor consultou, numa tarefa investigativa verdadeiramente louvável. De sua leitura ademais, cremos que muitos dos que foram fascinados pela idéia do sede vacantismo refletirão sobre as dificuldades que acarreta sustentar responsavelmente tal opinião e quiçá desse modo cheguem a advertir que a polêmica a respeito disso deve ser muito prudente, franca, e afastada de todo espírito sectário. Uma disputa (contradição de pensamento) marcada pelo espírito de abertura intelectual, de busca da verdade, e nunca baseada em fonte de discórdia (contradição de sentimentos).

Os fiéis que desejem consultar os sacerdotes a respeito desse tema têm, como sempre, inteira liberdade de se expressar francamente. Todos os amigos da Fraternidade sabem – e sempre souberam – qual é a posição oficial e qual ela foi desde o início. Ninguém lhes enganou nem lhes ocultou nada. Ninguém pretendeu forçar suas consciências, como se ouviu sussurrar. Simplesmente se lhes advertiu do dano que tais idéias podem causar, se são repetidas sem fundamentos ou debatidas fora de um marco mínimo exigível de seriedade. É o momento de seguir as recomendações de Dom Lefebvre a respeito disso, mantendo, mesmo na diversidade de opiniões, um espírito unânime de prudência, caridade e concórdia, isto é, agir como sempre agiu a Igreja nesses casos de questões disputadas. Se a discussão nos leva à discórdia, é porque por trás dela há um mau espírito que devemos detectar e repelir.

Pelo demais, é conveniente que cada um guarde seu lugar. Demasiados peritos conciliares entusiasmados por suas idéias pessoais foram causa, em boa medida, do desastre conciliar. Não repitamos uma versão sui generis daquela lamentável experiência. Ninguém deve arrogar-se o ofício de teólogo se não foi chamado a ele e confirmado como doutor pela Igreja; e os que se consideram chamados, devem ser capazes de sustentar com o rigor da ciência aquilo que afirmam, e não simplesmente murmurando.

Para alguns leitores o tema será novidadeiro. De sua leitura, tirarão proveito porque revisarão ou reafirmarão muitos conceitos, e poderão comprovar com quanta liberdade a Igreja tratou esses temas em todos os tempos, ao mesmo tempo que com tanta prudência e erudição por parte dos teólogos. Ser-lhes-á de grande utilidade porque uma fé ilustrada é muito mais eficiente na luta doutrinária que sustentamos.

Esperamos da parte de todos a mesma franqueza e honestidade intelectual.
Quem deve entender que entenda.

A redação.

 

PLANO DA OBRA

O presente trabalho reapresenta uma das partes da conferência dada em Buenos Aires sob o título O principio de autoridade diante de um falso dilema: obediência cega ou sede vacante. Omitimos a parte referente ao tema da obediência porque já foi convenientemente tratado em outras publicações, e dedicamos este trabalho à segunda.
Esta segunda parte está dividida em duas. Na primeira reproduzimos um conjunto de textos de Mons. Marcel Lefebvre nos quais se testemunha sua posição frente ao crucial problema da Sé Romana, ao largo dos anos em que atuou publicamente como Fundador e Superior Geral da Fraternidade São Pio X e atualmente como seu inspirador e guia espiritual. Não se trata de uma seleção exaustiva, mas apenas representativa daquilo que foi sua linha de pensamento a respeito desse problema. Em sua maioria, essas declarações foram feitas em conferências aos seminaristas e sacerdotes em Écône. Elas estão gravadas e podem ser cotejadas por quem compreende o francês. Quando se trata de outro tipo de documentação, fica explicado em cada lugar. Os parênteses são nossos em todos os casos, salvo quando aparecem em itálico, e foram incluídos para esclarecer ao leitor sobre algumas referências internas dos textos. Também se mencionam conferências cujas gravações ainda não estão em nosso poder, porém já foram pedidas a Écône. Quando se reproduzem artigos já publicados, corrigiu-se a tradução por razões de estilo em alguns casos.
Na trecho final do trabalho, (parte II da segunda parte) intenta-se uma justificação teórica dessa posição prática de Monsenhor Lefebvre, isto é, fundamentar teológica e juridicamente os princípios práticos que guiaram a atitude prudencial de nosso Fundador.

 


 

PRIMERA PARTE
POSIÇÃO INALTERADA DE MONSENHOR LEFEBVRE DURANTE 20 ANOS

 

R. P. João Carlos Ceriani
02/12/76
“Os diferentes atos que provém da Santa Sé podem nos dar motivos para ter uma atitude de reserva sobre o juízo que devemos formular sobre a Santa Sé e o Papa. Nesse período pós-conciliar é melhor seguir a Providência que precedê-la. Prefiro aguardar os acontecimentos e depois julgá-los à luz da Fé e da Tradição, antes que precedê-los. Não quero emitir juízos precipitados; não é prudente”.

18/03/77
“Se o Papa fosse apóstata, herege ou cismático, conforme a opinião provável de alguns teólogos (se fosse verdadeira), o Papa não seria Papa e, por conseguinte, estaríamos na situação de Sede Vacante. Essa é uma opinião. Não digo que não possa ter alguns argumentos a seu favor, alguma probabilidade; porém não creio que seja a solução que devamos tomar e seguir. Pode ser que no futuro se julgue este período e se diga que houve afirmações contrárias à Tradição e, por conseguinte, se declare que esses Papas não o foram Papas. Porém, por ora creio que seria um erro seguir essa hipótese”.

05/10/78
“Qual deve ser nossa atitude a respeito do Papa? Sei bem que entre os tradicionalistas há quem tenha uma tendência mais radical que a minha e a que eu procuro lhes inculcar, porém isso não quer dizer que eu esteja absolutamente certo de ter razão na posição que adoto. Assumo uma atitude prudencial. Prudência que espero seja a Sabedoria de Deus, o Dom de Conselho, prudência sobrenatural.
“É nessa ordem que me coloco, mais que na ordem puramente teológica, puramente teórica. Penso que Deus nos pede não somente ter as idéias claras desde o ponto de vista teórico e teológico, mas também na prática, quando as coisas são difíceis e delicadas de todo ponto de vista; agir conforme a uma certa Sabedoria, conforme a uma certa prudência que pode parecer um pouco em contradição com certos princípios, não ser de uma lógica absoluta.
“Entretanto, em muitos casos na vida estamos obrigados, mais que a seguir uma lógica implacável, a compreender que há outros elementos que entram em jogo além da lógica pura dos princípios. Existe a lógica da caridade, da Sabedoria, de um conjunto de circunstâncias que há que levar em conta. Se se aplicasse sempre a lógica integral, se correria o risco de ser muito duro e, em certo modo, injusto, pois não se considerariam suficientemente, nesses casos, as circunstâncias.
“Encontramo-nos numa situação real, prática. O problema se coloca assim: Como pode acontecer que, existindo as promessas que Nosso Senhor Jesus Cristo fez de assistir a seu Vigário, ao mesmo tempo, esse Vigário possa, por si mesmo ou por outros, corromper a fé dos fiéis?
“Alguns insistem sobre ou caráter da assistência ao Papa e que, por isso, ele não pode se equivocar, logo há que obedecer: logo não temos direito de discutir de nenhum modo ou que faz ou diz ou Papa. Essa é uma obediência cega, que tampouco é conforme à prudência.
“Constatamos que coisas que nos são ensinadas, não estão em conformidade com o que a Tradição nos ensina. Há uma situação de fato diante da qual nos encontramos. Que devemos fazer? Há que concluir: logo, se o Papa nos ensina algo contrário à fé que nos foi ensinada, é esse Papa eventualmente herege? É possível. Não o sei. Se é herege, é ainda Papa? Será que um Papa pode ser herege? Aí temos o trabalho de Xavier da Silveira que recolhe todas as opiniões a respeito. Caímos em hipóteses teológicas muito difíceis.
“Por outro lado, será que ou Papa cometeu verdadeiramente uma heresia formal, ou simplesmente deu a possibilidade de a heresia propagar-se? Evidentemente, aqueles que raciocinam de uma maneira muito lógica, sem considerar todos os matizes que há na realidade, a qual não é feita de uma lógica implacável, concluem precipitadamente que logo não devemos obedecer.
Questionar-se em que medida as promessas de Nosso Senhor Jesus Cristo de assistir ao Papa, deixam a este a possibilidade de realizar certos atos ou de dizer certas coisas que, por sua própria lógica, fazem perder a fé aos fiéis. Em que medida são compatíveis as promessas e a destruição da fé por negligência, omissão, atos equívocos, etc. Sendo dadas as dificuldades para resolver todas essas questões difíceis e delicadas, eu não ouso estabelecer, de uma maneira absoluta entre todas essas opiniões, uma hipótese. Não me sinto capaz visto que não conheço suficientemente as circunstâncias que rodeiam os feitos do Papa para determinar de uma maneira certa que não temos Papa.
“Na prática, isso não tem influência sobre nossa conduta, porque repelimos firmemente tudo aquilo que vai contra a fé, sem saber inclusive quem é ou culpado.
“Evidentemente, há quem diga: o senhor não é lógico, teria que condenação isto e aquilo, etc. Minha atitude é prudencial, de Sabedoria prática”.

16/01/79
“Enquanto não tenha a evidência de que o Papa não é Papa, tenho a presunção a favor dele. Não digo que não haja argumentos que possam pôr uma certa dúvida. Porém, é necessário ter a evidência: não é suficiente uma dúvida, inclusive se é válida. Se o argumento é duvidoso, não há direito de tirar conclusões que têm conseqüências imensas. Não se pode partir de um principio duvidoso. Prefiro partir do principio de que há que defender nossa fé. Esse é nosso dever. Aqui não há lugar para dúvida alguma. Conhecemos nossa fé. Se alguém ataca nossa fé, dizemos não! Porém daí dizer, em seguida, que porque alguém ataca nossa fé ele é herege, logo não é mais autoridade, logo seus atos não têm nenhum valor… Atenção, atenção, atenção… Não nos metamos em um círculo infernal do qual não saberemos como sair. Nessa atitude, existe um verdadeiro perigo de cisma.
“Não pretendo ser infalível; tento combater nas circunstâncias atuais com toda a fé possível, com a oração e com ou auxilio da graça. Porém penso que há uma linha de realismo, seguida pela Fraternidade, da qual não há que sair ou se afastar demasiado sob pena de dividir a Fraternidade”.

25/01/79
“Quisera responder às objeções que nos fazem atualmente de uma maneira mais viva e mais penosa que nunca a respeito dos dois problemas que preocupam a todos, problemas graves: o da validade do Novus Ordo e o do Papa. (Fruto dessas conferências será o artigo aparecido em Novembro de 1979. Ver mais abaixo). Não é a primeira vez que me fazem essas perguntas, nem a primeira vez que respondo: já lhes falei no dia 10/12/72, no dia 24/10/77 e em 20/01/78. (Resumos dessas conferências foram dados aos seminaristas a seu momento. Não possuímos nem as conferências nem os extratos). Estas três respostas são praticamente idênticas. Não creio poder dizer que tive de mudar de opinião e de atitude; a atitude que devemos ter face a esses problemas.
“Isto me confirma. Pode-se reformar o próprio pensamento. Se se constata que nos equivocamos, não há que duvidar em mudar; não há que teimar num ponto de vista, se se está persuadido de que se cometeu um erro. É a simples lei do bom senso e da fé. O erro deve corrigir-se, quando é advertido. Quando alguém se persuade de que cometeu um erro, deve corrigir-se. Graças a Deus, penso ter julgado de uma maneira tal que devo perseverar nessa forma de pensar, apesar das objeções que me fazem; inclusive se são penosas e provém de nossos amigos e daqueles que foram confrades e que crêem ter o dever de nos atacar pessoalmente em revistas, folhetos, etc. Essas objeções provêm daqueles que poderíamos chamar “ultras”; e crêem ser um dever nos criticar e nos chamar de liberais, porque queremos conservar essa maneira de pensar a respeito desses problemas”.

08/11/79
Posição de Monsenhor Lefebvre sobre a Nova Missa e o Papa, publicado em Roma N° 67. Na parte referente ao Papa diz assim:
“Passemos à segunda parte não menos importante: Temos realmente um Papa ou um intruso na Sé de Pedro?
“Felizes os que viveram e morreram antes de fazer se essa pergunta! Há que reconhecer que o Papa Paulo VI causou e ocasionou um sério problema para a consciência dos católicos. Sem indagar nem conhecer sua culpa na terrível demolição da Igreja sob seu Pontificado, não se pode deixar de reconhecer que acelerou as causas em todas as ordens. Uma pessoa se pergunta: como um sucessor de Pedro pôde em tão pouco tempo causar mais males à Igreja que a revolução de 1789?
“Fatos precisos como as assinaturas postas não artigo VII da Instrução concernente ao Novus Ordo Missae, como também no documento da Liberdade Religiosa são escandalosas e dão ocasião para que alguns afirmem que esse Papa era herege e que por sua heresia deixou de ser Papa.
“A conseqüência desse fato seria que a maioria dos Cardeais atuais não o seriam, sendo ademais ineptos para a eleição de outro Papa. Os Papas João Paulo I E João Paulo II não teriam sido então eleitos legitimamente.
“É então inadmissível rezar por um Papa que não o é e fazer tratativas com aquele que não tem nenhum título para sentar-se na cadeira de Pedro. Como ante o problema da invalidade da Nova Missa, aqueles que afirmam que não há Papa, simplificam demasiadamente os problemas. A realidade é mais complexa.
“Se uma pessoa se pergunta se um Papa pode ser herege, descobre que o problema não é tão simples como pode se crer. Sobre esse tema, o muito objetivo estudo de Xavier da Silveira mostra que um bom número de teólogos pensa que o Papa pode ser herege como doutor privado, porém não como doutor da Igreja Universal. É necessário, então, examinar em que medida o Papa Paulo VI quis empenhar sua infalibilidade nesses casos diversos em que ele assinou textos próximos à heresia, se não heréticos.
“Pudemos, pois, observar nesses dois casos, como em outros muitos, que o Papa Paulo VI agiu muito mais como liberal do que aderindo à heresia, já que, quando se lhe apontava o perigo que corria; entregava um texto contraditório, juntando uma fórmula contrária à que ele afirmava antes, ou redigindo uma fórmula equívoca, o que é próprio do liberal, o qual é incoerente por natureza.
“O liberalismo de Paulo VI, reconhecido por seu amigo, ou Cardeal Danielou, é suficiente para explicar os desastres de seu Pontificado. O Papa Pio IX, particularmente, falou muito sobre o católico liberal, que ele considerava como destruidor da Igreja. O católico liberal é uma pessoa de dupla face, em contínua contradição. Quer manter-se católico e, ao mesmo tempo, tem o afã de agradar ao mundo. Afirma sua fé com medo de parecer demasiado dogmático, e atua de fato como os inimigos da fé católica.
“Um Papa, pode ser liberal e permanecer Papa? A Igreja sempre admoestou severamente os católicos liberais. Não os excomungou a todos. Também aqui devemos permanecer dentro do espírito da Igreja. Devemos repelir o liberalismo, venha de onde vier, porque a Igreja sempre o condenou com severidade por ser contrário ao Reinado de Nosso Senhor e em particular ao Reinado Social.
“O afastamento dos Cardeais de mais de 80 anos e os conciliábulos que prepararam os dois últimos Conclaves não tornam inválida a eleição desses Papas: inválida é afirmar demais, porém sim, eventualmente duvidosa. Mas a aceitação unânime do fato, posteriormente à eleição por parte dos Cardeais e do clero romano, basta para validar a eleição. Esta é a opinião dos teólogos.
“A questão da visibilidade da Igreja é demasiado importante para sua existência para que Deus possa omiti-a durante décadas.
“O argumento dos que afirmam a inexistência do Papa põe a Igreja em situação confusa. Quem nos dirá onde está o futuro Papa? Como poderia ser designado um Papa onde não há mais Cardeais? Este espírito é um espírito cismático, ao menos para a maioria dos fiéis, que se filiarão a seitas verdadeiramente cismáticas como a de Palmar de Tróia, a da Igreja Latina de Toulouse, etc.
“Nossa Fraternidade repudia absolutamente compartilhar desses raciocínios. Queremos permanecer aderidos a Roma, ao sucessor de Pedro, porém repelimos seu liberalismo por fidelidade a seus Antecessores. Não temos medo de dizê-lo respeitosa, porém firmemente, como São Paulo frente a São Pedro. Por isso, longe de repudiar as orações pelo Papa, aumentamos nossas preces e suplicamos para que o Espírito Santo o ilumine e fortaleça no sustentar e defender a fé.
“Por isso jamais recusamos ir a Roma a seu chamado ou ao chamado de seus representantes. A Verdade deve esperar-se de Roma mais do que de qualquer outro lugar. Pertence a Deus, que a fará triunfar.
Em conseqüência, não se pode tolerar nos membros, sacerdotes, irmãos, irmãs, oblatas da Fraternidade Sacerdotal São Pio X que se recusem rezar pelo Papa e que afirmem que todas as Missas do Novus Ordo Missae são inválidas.
“Certamente sofremos por essa incoerência contínua, que consiste em elogiar todas as orientações liberais do Vaticano lI e, ao mesmo tempo, tratar de atenuar seus efeitos. Porém, isso nos deve incitar a rogar e a manter firmemente a Tradição, porém não por isso afirmar que o Papa não é Papa.
Para terminar, devemos ter ou espírito missionário que é ou verdadeiro espírito da Igreja, fazer tudo pelo Reino de Nosso Senhor Jesus Cristo conforme a divisa de Nosso Santo Patrono São Pio X, ‘Instaurare omnia in Christo’, “instaurar tudo em Cristo”, e sofrer como Nosso Senhor em sua Paixão para a salvação das almas, para ou triunfo da Verdade.
“In hoc natus sum, disse Nosso Senhor a Pilatos, ut testimonium perhibeam veritati”. “Eu nasci para dar testemunho da Verdade”.

Comentando esse artigo, Monsenhor Lefebvre disse:
“A partir desses fatos precisos, concluir que o Papa é herege e que, portanto, não é mais Papa, é ir um pouco rápido no raciocínio. Basta ler ou livro de da Silveira para comprovar que é uma questão discutida na Igreja entre os teólogos; que não é uma opinião clara. Penso que a realidade é mais complexa que aquilo que imaginam os que raciocinam assim. Temo que esses descuidem da teologia moral e da ética e que raciocinem de um modo puramente especulativo. A teologia moral e a ética nos ensinam a raciocinar e a julgar conforme um contexto de circunstâncias que estamos obrigados a examinar para julgar sobre a moralidade de um ato.
Não posso admitir que se recuse rezar pelo Papa, porque significaria que não há Papa e seria entrar em uma via que faria um dano considerável aos fiéis. Não posso permitir que a Fraternidade entre em uma via que desoriente completamente aos fiéis.
Quis escrever este artigo para que todos saibam, inclusive os fiéis, qual é a posição da Fraternidade. Que os fiéis saibam que se algum de nossos sacerdotes prega que não há Papa, não prega em conformidade com o que pensa a Fraternidade. Espero que este artigo faça com que cada um entre na linha que creio em consciência, diante de Deus, devo seguir. Creio necessário fazer essas precisões para permanecer dentro do espírito da Igreja”.
Este artigo é retomado por Monsenhor Lefebvre no capítulo XXI de “Carta Aberta aos Católicos Perplexos” em que desenvolve o tema em extenso.

25/10/80
“Àqueles sacerdotes que não seguem as diretivas que lhes demos, lhes disse que rompem com o espírito da Fraternidade, que conduzem os fiéis que lhes confiamos a uma posição que não é a nossa, que se há dificuldades nas comunidades, elas não provêm da atitude que nós temos, mas da atitude que eles têm e que não corresponde à da Fraternidade, mas que é em definitivo uma falta de fidelidade e de lealdade.”

29/06/82
(Publicado em Roma 76)
“(…) Vede as conseqüências daqueles que se escandalizam da realidade, da Verdade. Eu faria aqui uma comparação com a Igreja de hoje. Escandalizamo-nos sim, estamos verdadeiramente escandalizados pela situação da Igreja. Pensávamos que a Igreja era realmente divina, que nunca podia se equivocar. E que nunca podia nos enganar.
“E em verdade é assim. A Igreja é divina; a Igreja não pode perder a Verdade; a Igreja guardará sempre a Verdade eterna. Porém, também é humana, e muito mais humana que Nosso Senhor Jesus Cristo: Nosso Senhor não podia pecar, era ou Santo, o Justo por excelência.
“A Igreja é divina, verdadeiramente divina, nos proporciona todas as coisas de Deus (particularmente a Santa Eucaristia), coisas eternas que jamais poderão mudar, que farão a glória de nossas almas no Céu. Sim, a Igreja é divina, porém também é humana. Está sustentada por homens que podem ser pecadores, que são pecadores e que, embora participem em certa maneira da divindade da Igreja, -como o Papa, por exemplo, por sua infalibilidade, pelo carisma da infalibilidade, participa da divindade da Igreja, não obstante continuar sendo homem – continuam sendo pecadores. O Papa, salvo no caso em que usa seu carisma de infalibilidade, pode equivocar-se, pode pecar.
“Não temos por que nos escandalizar e dizer, como alguns, ao estilo de Ario, que o Papa não é Papa. Assim dizia Ario: ‘Não é Deus, não é verdade. Nosso Senhor não pode ser Deus’.
“Também nós nos sentimos tentados de dizer: ‘Não é Papa, não pode ser Papa, se faz o que ele faz’.
Ou senão, em troca, como outros que divinizariam a Igreja ao ponto de que tudo seria perfeito nEla, poderíamos dizer: ‘Não é questão de fazer algo que se oponha ao que vem de Roma, porque tudo é divino em Roma e devemos aceitar tudo o que venha dali’. Quem assim diz procede como aqueles que diziam que Nosso Senhor era de tal maneira Deus que não lhe era possível sofrer, mas que todo aquilo era aparência de sofrimento, que na realidade não sofria, que na realidade seu Sangue não escorria, que não eram senão aparências que impressionavam os olhos de quem o rodeavam, porém não é uma realidade. O mesmo sucede hoje em dia com alguns que continuam dizendo: ‘Não, nada pode ser humano na Igreja, nada pode ser imperfeito na Igreja’. Também esses se equivocam. Não admitem a realidade das coisas. Até onde pode chegar a imperfeição da Igreja, até onde pode chegar – diria eu – o pecado na Igreja, o pecado na inteligência, o pecado na alma, o pecado não coração e na vontade? Os fatos no-lo mostram.
“A um momento atrás lhes dizia que nunca nos teríamos atrevido a colocar em lábios de Nosso Senhor as palavras: ‘Deus meu, Deus meu, por que me abandonaste?’. Pois bem, tão pouco nunca teríamos pensado que o mal, que o erro, pudesse penetrar no seio da Igreja. Agora vivemos essa época: não podemos fechar os olhos. Os fatos nos aparecem ante os olhos e não dependem de nós. Somos testemunhos do que sucede na Igreja, de todo espantoso que aconteceu a partir do Concílio, das ruínas que se acumulam um dia depois do outro, ano após ano na Santa Igreja. À medida que passa o tempo, mais se estendem os erros e mais perdem os fiéis a fé católica. Uma pesquisa feita recentemente na França indicou que nada mais que dois milhões de franceses são ainda verdadeiramente católicos na prática.
“Estamos chegando ao fim. Todo o mundo cairá na heresia. Todo o mundo cairá no erro porque, como dizia São Pio X, há clérigos que se infiltraram no interior da Igreja e a ocuparam. Difundiram os erros graças aos postos chaves que ocupam na Igreja.
Ora, estamos obrigados a seguir o erro porque ele nos vem por via da autoridade? Assim como não devemos obedecer a pais indignos que nos exijam fazer coisas indignas, tampouco devemos obedecer aos que nos exijam renegar nossa fé e abandonar toda a Tradição. Isso está fora de discussão Certamente, é um grande mistério essa união da divindade com a humanidade.
“A Igreja é divina, e a Igreja é humana até que ponto as falhas da humanidade podem afetar, me atrevo a dizer, a divindade da Igreja, só Deus o sabe. É um grande mistério. Comprovados os fatos, devemos enfrentá-los e nunca devemos abandonar a Igreja, a Igreja Católica Romana; nunca devemos abandoná-la, nem abandonar nunca o sucessor de São Pedro, pois por seu intermédio estamos unidos a Nosso Senhor Jesus Cristo. Porém se, por desgraça, arrastado por vá lá se saber que idéia ou formação ou pressão que sofresse, ou por negligência, nos abandona e nos arrasta por caminhos que nos fazem perder a fé, então, não devemos segui-lo. Ainda que reconheçamos que é Pedro e que se fala com o carisma da infalibilidade devemos aceitá-lo; porém quando não fala com o carisma da infalibilidade bem pode equivocar-se, desgraçadamente. Não é a primeira vez que acontece uma coisa assim na história.
“Sentimo-nos profundamente perturbados, profundamente mortificados, nós que tanto amamos a Santa Igreja, que a temos venerado, que a veneramos sempre. Por isso existe este seminário, por amor à Igreja Católica Romana, e por isso existem todos os seminários. Sentimo-nos profundamente feridos por amor a nossa Mãe, ao pensar que, por desgraça, seus servidores já não a servem, e inclusive a traem. Devemos rezar, devemos sacrificar-nos, devemos permanecer como a Virgem Maria, ao pé da Cruz; não abandonar a Nosso Senhor Jesus Cristo, ainda que, como diz a Sagrada Escritura, ‘Era como leproso’ sobre a cruz. Pois bem: a Virgem Maria tinha fé e por trás dessas chagas, por trás do coração transpassado, via a Deus em seu Filho, seu Divino Filho.
“Nós também, através das chagas da Igreja, das dificuldades, da perseguição que sofremos, inclusive por parte daqueles que ostentam autoridade na Igreja, não a abandonamos, amamos a nossa Santa Madre Igreja e seguiremos servindo-a apesar das autoridades, se for necessário. Apesar dessas autoridades que, equivocadamente, nos perseguem, sigamos nosso caminho: queremos conservar a Santa Igreja Católica Romana, queremos continuá-la e a continuaremos pelo Sacerdócio, pelo Sacerdócio de Nosso Senhor Jesus Cristo, pelos verdadeiros sacramentos de Nosso Senhor Jesus Cristo, por seu verdadeiro catecismo. (…)

09/82
Atas do Capítulo Geral: Extratos dos Princípios e Diretivas de Ação Pastoral da Fraternidade Sacerdotal São Pio X, na situação atual da Igreja.
(Publicados na Revista Roma, N° 78) – Vossa resistência vos opõe ao próprio Papa, e vos põe numa grave desobediência. (…)
“A corrupção das idéias na Cúria Romana é tal, que alguns de seus membros se arrogam direitos ilegítimos, especialmente a Secretaria de Estado.
“Roma está invadida pelos modernistas. Ante esse estado de coisas, do qual dificilmente possam fazer-se uma idéia exata aqueles que não freqüentaram a Cúria Romana, os defensores da Tradição se dividem. Uns dizem: os atos de Roma, assinados ou levados a cabo pelo Papa, são tão maus que o Papa não pode ser um Papa legítimo, é um intruso. Portanto, não há Papa, a Sede está vacante.
“Outros afirmam: o Papa não pode assinar decretos destruidores da fé, portanto esses decretos são aceitáveis e há que submeter-se a eles.
A Fraternidade não aceita nem uma nem outra dessas duas soluções. Apoiada sobre a história da Igreja e sobre a doutrina dos teólogos, pensa que o Papa pode favorecer a ruína da Igreja escolhendo e deixando atuar maus colaboradores, assinando decretos que não comprometem sua infalibilidade e que causam um dano considerável à Igreja.
“Pensamos que Deus pode permitir que a Igreja seja afligida por essa desgraça. Em conseqüência, rezamos pelo Papa, porém repudiamos segui-lo em seus desvios sobre a liberdade religiosa, o ecumenismo, o socialismo e na aplicação de reformas daninhas para a Igreja.
“Nossa desobediência aparente é a verdadeira obediência à Igreja e ao Papa enquanto sucessor de Pedro e na medida que continue mantendo a Tradição”

03/86
(Festa de Páscoa)
“Encontramo-nos verdadeiramente diante de um dilema gravíssimo, que creio não se colocou jamais na Igreja: que quem está sentado na Sé de Pedro participe em cultos de falsos deuses; creio que isso não aconteceu jamais em toda a história da Igreja.
Que conclusão deveremos talvez tirar dentro de alguns meses diante desses atos repetidos de comunicação com falsos cultos? Não sei. Pergunto-me. Porém, é possível que estejamos na obrigação de crer que esse Papa não é Papa. Não quero dizê-lo ainda de uma maneira solene e formal, porém parece, sim, à primeira vista, que é impossível que um Papa seja herege pública e formalmente”.
12/88
(Conferência aos seminaristas de Flavigny, publicada por Fideliter N°- 68). “Afortunadamente a Fraternidade não está sozinha. Com os dominicanos, as dominicanas, os capuchinhos, etc., ela continua a Igreja. Não dizemos, como pretendem fazer-nos dizer, que não há mais senão a Fraternidade. Estamos com todos aqueles que querem continuar a Igreja Católica conforme ao que os Papas ensinaram sempre durante vinte séculos até o Vaticano II. A Fraternidade não é um partido, nem uma seita aferrada a um folklore. Não se trata disso. A situação é muito mais grave. Não é somente a liturgia o que queremos defender. Os problemas de fé são ainda mais importantes. Poderíamos ter adotado muitas atitudes, e especialmente aquela de uma oposição radical: o Papa admite idéias liberais e modernistas, logo ele é herege, portanto não é mais Papa. É o sede vacantismo. Terminou, não se considera mais Roma. Os cardeais eleitos pelo Papa não são cardeais; todas as decisões tomadas são nulas.
Pessoalmente sempre pensei que se tratava de uma lógica demasiado simples. A realidade não é tão simples. Não se pode tachar alguém de ser herege formal tão facilmente. É por este motivo que me pareceu que devia permanecer nessa posição, e conservar um contato com Roma, pensar que em Roma havia um sucessor de Pedro. Um mau sucessor, certamente, e ao qual não há que seguir porque têm idéias liberais e modernistas. Porém, está ali e, na medida em que possa se converter, temos o direito de opor-nos publicamente às autoridades quando proclamam e professam ditos erros”.

 


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