Montfort Associação Cultural

26 de agosto de 2004

Download PDF

Monarquia no Brasil

Autor: Orlando Fedeli

  • Consulente: Marcel Ozuna
  • Idade: 26
  • Localizaçao: Campo Grande – MS – Brasil
  • Escolaridade: Superior em andamento
  • Religião: Católica

Caríssimo Prof. Dr. Orlando, Salve Maria!

Para mim não foi surpresa alguma um dos leitores deste site e você terem mencionado algumas qualidades “tefepistas” dos pretensos “príncipes herdeiros” da “coroa imperial” brasileira.

Surpresa nenhuma, porque num passado recente a Coroa – tanto portuguesa quanto brasileira – prejudicaram a Igreja em muitas de suas boas obras em nossas terras.

Só para refrescar nossa memória, o último episódio mais grave foi a famosa querela entre Pedro II e o Bispo de Belém.

Este, seguindo evangélico apelo do Papa – expresso na Syllabus e outras congêneres – mandou impedir (se não instituiu processo de excomunhão ou coisa parecida) a frequência às Igrejas por “católicos” filiados a irmandades que fossem estes ao mesmo tempo maçons. Como se sabe, o “católico” brasileiro de então, por obra e graça do Imperador, podia abertamente acender uma vela a Deus e outra ao demônio, frequentando templos católicos e lojas maçônicas ao mesmo tempo, sem maiores escândalos (!).

E o que nosso bravo descendente dos apóstolos ganhou, por externar, com atos, sua convicção cristâ?

O martírio moral.

Tão logo soube do ocorrido, o Visconde do Rio Branco – também maçom – mandou prender e processar o bispo (condenado, depois, a trabalhos forçados, sendo depois anistiado por Caxias). A Igreja não podia ser fiel ao Papa se assim não entendesse a Monarquia brasileira. Coisas do “Direito Imperial de Padroado”.

Neste aspecto, a República – muito embora intinsecamente desordenada em suas influências – foi, pelo menos à época, altamente benéfica para a nossa Santa Mãe Igreja. Dinamitou-se o espúrio esquema de interferência do Estado na nomeação de Bispos. Se bem que a liberdade religiosa pregada pelos republicanos (?) desfavoreça o estabelecimento da sã doutrina.

Em princípio, devido ao acima exposto, creio que a nossa Igreja só sairia perdendo com a volta da Monarquia. A menos que uma dinastia mais fiel ao Papa e menos extravagente fosse instituída.

(Melhor, será que, por vingança “histórica”, a dinastia Bragança faria inserir na Constituição “Imperial” que, ao invés da Igreja de Cristo, fosse a TFP ou a Maçonaria a religião oficial do Brasil?)

Espero que este meu discurso “favorável à República, nas atuais condições” não te gere descontentamento, e que você entenda que o exposto visa, em primeiro, o triunfo de Cristo e de sua Igreja.

[]s,

Marcel Ozuna.

Muito prezado Marcel, salve Maria !

Como vai você ? É um prazer receber, de novo, uma carta sua.

Vejo que seu interesse intelectual é bem largo, o que me alegra.

Você alude à chamada Questão Religiosa, na qual o maçonismo do Imperador Dom Pedro II tanto prejudicou a Igreja e a própria Monarquia.

No Brasil, o Trono se apoiava em três forças: a Religião Católica, a Agricultura, isto é, ele se apoiava na influência e prestígio dos fazendeiros, e finalmente, as forças Armadas de então, isto é, no Exército e na Marinha.

Ora, nosso último — e péssimo — Imperador era republicano e inimigo da Igreja. (E não sei se você sabe, o proclamador da República, o Marechal Deodoro da Fonseca, era monarquista. Paradoxos brasileiros: um Imperador republicano e um proclamador de República monarquista. Vá se entender !).

O imperador Dom Pedro II procurou destruir o Trono, solapando seus três pontos de apoio.

Pela questão Religiosa, ele solapou a influência e o poder da Igreja e perdeu o apoio dos católicos.

Pela abolição da escravatura — coisa que era absolutamente justa e necessária — mas porque foi realizada bruscamente, ele arruinou muitos agricultores, e o Trono perdeu o apoio de muitos fazendeiros.

Finalmente, pela Questão Militar, bem inabilmente conduzida, o Trono perdeu o apoio do Exército.

Desse modo, foi o próprio Imperador quem mais sabotou a Monarquia no Brasil.

É verdade, sim, que o padroado permitia abusos herdados da extinta Monarquia Absoluta. São esses abusos que levam muitos historiadores e sacerdotes a julgar– bem erroneamente — que a separação entre Igreja e Estado foi um bem.

Ora, esse é um erro doutrinário bem grave.

Todas as coisas foram feitas por Deus, e todas as criaturas O devem homenagear como a seu Criador. Céus e terras, montanhas e colinas, nuvens e tempestades, louvam a glória de Deus. Também as obras dos homens, indiretamente, podem ser ditas criaturas de Deus, e, por isso, Dante chama as obras de arte de “netas de Deus”.

O Estado só existe, porque Deus quer a sua existência, e o Estado deve, ele também, dar glória a Deus. De onde se segue que o Estado deve reconhecer a Religião verdadeira e favorecê-la, dando-lhe todo apoio possível.

Normalmente, o Estado deve estar unido à Igreja, assim como o corpo deve estar unido à alma. Assim como a separação da alma e do corpo deteriora o corpo, pois que ele perde a sua forma metafísica, assim a separação entre Igreja e Estado faz deteriorar a vida política e social. E é o que vemos, hoje.

A necessidade de união entre Igreja e Estado foi sempre ensinada e defendida pela Igreja. Bonifácio VIII na Bula Unam Sanctam já a defendera com energia e sabedoria. Os papas posteriores à Revolução Francesa ensinaram essa mesma doutrina. No Syllabus, Pio IX condenou a separação entre Igreja e Estado.

Apresso-me a lembrar que a união entre Igreja e Estado não significa que nesse regime, todos sejam obrigados a ser católicos. Essa é uma besteira e uma mentira que a propaganda liberal e revolucionária fez espalhar contra a religião católica.

Obrigar alguém a ser católico à força é pecado. Deus quer que o amemos de coração livre, e não forçados. Ademais, forçar alguém a praticar a religião é forçar alguém a cometer sacrilégio, que é um pecado gravíssimo.

Logo, a união entre Igreja e Estado não obrigava ninguém a ser católico. O que ficava proibido pela união entre Igreja e Estado era a propaganda organizada da heresia. Particularmente, cada um seguia a religião que queria, mas o Estado devia reconhecer a Igreja Católica como verdadeira.

O padroado foi um abuso do Estado, mas esse abuso não anula a doutrina católica de que o Estado deve reconhecer a religião verdadeira como verdadeira, e favorecê-la, e honrá-la.

Uma volta da Monarquia, nas condições religiosas e morais atuais, só prejudicaria a própria Monarquia e seria inútil para a sociedade, pois que o mal do qual a sociedade está morrendo é moral e religioso, e a monarquia, sendo política, não resolveria a crise religiosa e moral. Acresce a isso, que os atuais Príncipes do Brasil, se tornaram, por voto, escravos de um pseudo profeta, e aderiram a um pensamento religioso errado, e isto prejudicaria muito o país, caso eles assumissem o Trono. Coisa, aliás, impossível de acontecer, hoje, e que, se acontecesse, seria péssimo, por causa do sectarismo tefepêico desses príncipes. Aliás, eles são incapazes de governar, destruídos que foram por um pensamento e um culto delirantes.

Por tudo isso, concordo com você sobre a inconveniência e impossibilidade da restauração da monarquia no Brasil, embora , nesta minha carta, tenha procurado ressalvar os aspectos doutrinários que a Igreja defende, nesse campo.

Espero então que essa exposição ajude a termos a mesma compreensão desse problema político social.

In Corde Jesu, semper,
Orlando Fedeli

TAGS

Publicações relacionadas

Oração e Vida Espiritual: Segunda Semana da Quaresma: para Missa diária e meditação

Cartas: Dogma - Orlando Fedeli

Notícias e Atualidades: Para futuros diplomatadas na Santa Sé: preocupem-se com a santidade, não com a carreira

Para comentar esta publicação

O site Montfort não permite a inclusão de comentarios diretamente em suas publicacões.

Para enviar comentários, sanar dúvidas, obter informações, ou entrar em debate conosco, envie-nos sua carta.

Saiba mais