Montfort Associação Cultural

28 de janeiro de 2005

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Mentiras contadas sobre a Igreja

Autor: Orlando Fedeli

  • Consulente: André
  • Idade: 20
  • Localizaçao: Rio de Janeiro – RJ – Brasil
  • Escolaridade: Superior em andamento
  • Profissão: Estudante
  • Religião: Católica

Salve Maria!
Primeiramente parabenizo os membros da Associação Montfort por manterem um site tão bom à disposição dos leitores.
Tenho algumas dúvidas principalmente históricas, de assuntos que já os vi comentando:

1) Tenho uma dúvida em relação à Idade Média. Na época moderna, o indivíduo, em tese, tem igualdade perante a lei, direito à própria vida e ao próprio corpo – o habeas corpus, diferentemente do período feudal, onde isso era decisão do nobre, do Senhor Feudal ou do Imperador. Minha dúvida é se a Igreja infalivelmente aprova (coloco o verbo no presente porque as decisões infalíveis da Igreja não mudam conforme o tempo) essa prática ou se não aprova mas era desobedecida nesse período? Caso aprovae essa prática do período medieval, quero saber se desaprova a prática do período moderno. Em suas declarações atuais sei que ela exalta esses direitos humanos comuns aos tempos modernos (quando digo comuns me refiro a defendidos nos tempos modernos, já que não são postos em prática e a Igreja é a voz que mais os defende).
2) Em algumas aulas que assisto, principalmente sobre filosofia e antropologia, a Igreja é citada em cerca de 4 aspetos :
- é um dos pilares da civilização ocidental;
- tem uma idéia de decadência em relação ao mundo, ao contrário da visão de evolução dos tempos atuais;
-dizia que os negros não tinham alma ao contrário dos índios que eram vistos como o homem puro que pode ser recuperado pois não estava no Velho Mundo mas no Novo Mundo, e que por isso os negros podiam ser escravos. Pessoalmente vejo isso como uma mentira histórica porque os escravos eram batizados, mesmo que a força, logo, a Igreja os considerava como pessoas, pois nunca batizou animais. Está correto meu raciocínio? Mas como uma mentira histórica pode se tornar senso comum, e, pior, ensinada em faculdades?
- a Igreja coibia qualquer tipo de avanço científico (não artístico ou filosófico pois estes ela até incentivava) e dentre as razões para que fizesse isso estava o fato de que considerava pesquisas científicas e seus avanços como ocultismo e bruxaria. Isso é verdade ou a Igreja é usada como bode expiatório para explicar os problemas da Idade Média?

3)A prática da tortura como condenação (inclusive para penitenciar os pecados) e como método de obter confissões era aceita no período medieval e até depois dele. Pergunto se a Igreja aceitava esses métodos devido à mentalidade da época ou se realmente defendia essa prática como legítima.

3) Pessoalmente detesto o esquerdismo (marxismo, comunismo, anarquismo, etc) e tudo que se originou dele, principalmente por seu ateísmo, mas também pelo fracasso histórico, genocídios, golpes baixos (espionagem, etc), por ser um regime utópico que nunca mostrou aplicabilidade no que defende (senão não seria utopia) mas que em nome dessa utopia aceita cometer qualquer tipo de crime, e logicamente porque a Igreja Católica já condenou essas práticas (o anarquismo não sei se condenou, mas seja como for, é uma doutrina tão fraca que só deve servir mesmo para formar gangues). Porém, a idéia de um Estado forte que garante direitos básicos para a população não me parece de todo errada, e a idéia de coletividade também não. Isso também está condenado pela Igreja? A questão de ricos cada vez mais ricos, pois “dinheiro faz dinheiro” e pobres cada vez mais pobres não é algo verdadeiro e legítimo nas reclamações dos esquerdistas?
4) A inflexibilidade das posições sociais na Idade Média não é semelhante ao regime de castas na Índia? O Direito divino dos reis pode ser considerado legítimo perante a Igreja?

E termino por colocar não uma dúvida mas uma preocupação. Nos tempos atuais (acho que depois dos anos 60) vivemos em uma crise moral sem igual pelo que sei. Não considero mais nossa sociedade e civilização como cristã. Pouquíssimas são as pessoas que se dizem católicas que realmente acreditam na doutrina da Igreja, inclusive pessoas religiosas parecem ter construído sua própria religiosidade. Aqui no site vejo que boa parte desses problemas são atribuídos ao CVII. Será que se os erros forem superados a Igreja voltaria a ocupar a posição que ocupava antes do CVII? Digo isso porque a população não é mais realmente católica e não creio que a idéia de ser obediente à Igreja possa voltar a reinar entre os católicos (73% da população brasileira) que já provaram de uma vida onde a religião é marginalizada e cada um crê no que quiser mesmo se dizendo católico. Sou muito jovem e tenho poucos conhecimentos de como era a atitude dos católicos a algumas décadas atrás. Era muito diferente? Peço perdão a Deus porque não sou ninguém pra julgar a fé dos outros, mas a atitude atual, em geral, me parece uma aberração.

Obrigado e me desculpem pelo tamanho da mensagem.
André

Muito prezado André,
salve Maria!
 
    Muito obrigado por suas palavras de elogio ao site Montfort. Peço-lhe que reze a Deus por nós, para que nos dê graças e forças para bem servi-Lo.
 
    Você diz algo errado sobre o feudalismo.
 
    O Imperador e o senhor feudal não tinham direito absoluto sobre seus vassalos. E caso ordenassem a prisão de alguém, injusta e abusivamente, estariam contrariando a lei natural, os mandamentos de Deus, e os costumes feudais, que tinham valor de lei.
 
    O feudalismo respeitava enormemente os costumes e privilégios de todos os estados sociais.
 
    O senhor jamais poderia aumentar as taxas feudais, e jamais poderia expulsar o vassalo de seu feudo, ainda que ele deixasse de pagar as taxas devidas.
 
    Os abusos sobre os súditos começaram a aparecer mais com a monarquia absoluta, de origem protestante e renascentista.
 
    Mesmo assim, os Reis absolutos tinham menos poder do que um prefeito qualquer, hoje. Luis XIV se queixava que não tinha direito nem sequer para proibir que houvesse cabriolés, em Paris. E Malesherbes, ministro de Luis XVI, no século XVIII, se queixava que a França estava tão bem armada de privilégios, que era fácil a qualquer súdito dar xeque-mate ao Rei, o que tornava a França ingovernável, segundo ele.
 
    Sobre a igualdade de direitos naturais e a desigualdade de direitos acidentais,  peço-lhe que consulte meu trabalho Desigualdade e Igualdade de Direitos, no site Montfort, onde trato longamente do mal da igualdade.
 
    Você está bem certo em seu raciocínio sobre a posição da Igreja face aos negros e índios como seres humanos, dotados de alma  imortal. Por isso a Igreja os batizava, depois de catequizá-los.
 
    De onde tiraram que a Igreja os batizava à força?
 
    Isso é falso. Pode ser que algum ignorante e bruto fizesse isso, mas isso era tido como pecado de sacrilégio. 
 
    A Igreja sempre ensinou que batizar alguém que não o queira é sacrilégio, e faz parte do rito do Batismo perguntar à pessoa que vai ser batizada: “Queres ser batizado?”.
 
    Sobre as almas dos índios, já na carta de Pero Vaz de Caminha, se diz que na terra descoberta a maior riqueza eram as almas dos índios a conquistar.
 
    Você me pergunta: “Mas como uma mentira histórica pode se tornar senso comum, e, pior, ensinada em faculdades?”.
 
    Muito simplesmente porque as Faculdades, de modo geral, caíram nas mãos dos inimigos da Igreja. E isto vale também –e dolorosamente– ainda mais para as universidades ditas Católicas, em muitas das quais se ensinam todas as doutrinas contra a Igreja.  A única coisa que normalmente nelas não se ensina é o Catolicismo.
 
    Também é falso que a Igreja coibia a Ciência, pois foi a Igreja que fundou as Universidades, e as primeiras Universidades foram as de Medicina e de Direito.
 
    Quando a Igreja coibia a feitiçaria era feitiçaria mesmo. Mas a feitiçaria só cresceu mais, na Idade Moderna, e foi em países protestantes que ela mais se alastrou, e foram os protestantes que mais coibiram as bruxas.
 
    Foi a Igreja que declarou nulas as confissões obtidas por tortura, e foi a Igreja quem colocou limites à tortura, que era um método usado por todos os governos, e que a Igreja combateu.
 
    Você me pergunta se a idéia de coletividade também é aceitável. 
    Claro que não.
 
    O direito de propriedade particular é um direito natural. Leão XIII demonstra que abolir a propriedade privada é escravizar o homem. Por isso, todos os regimes socialistas geram escravidão, totalitarismo, polícias secretas, campos de concentração, etc.
 
    Finalmente, você me pergunta sobre o Vaticano II.
 
    Sim, é verdade, a situação trágica da Igreja, hoje, vem muito do Vaticano II.
 
    Mas não só dele.
 
    Há muito tempo, os hereges estão trabalhando para destruir a Igreja, desde o interior dela.
 
    Nossa Senhora de Fátima profetizou um próximo triunfo da Igreja, e o retorno à situação anterior. O que não significa que, o Papa “subindo à montanha com a cruz, e sendo martirizado”, como mostra a visão do Terceiro Segredo de Fátima, significa que imediatamente os católicos ficarão bonzinhos.
 
    Quando se levou muito tempo indo numa direção errada, leva-se muito tempo para voltar.
 
    Na História, nada se faz de repente.
 
    Nem a Ressurreição de Cristo não causou uma mudança radical no mundo imediatamente.
 
    Para construir o apogeu da Igreja, passaram-se 1200 anos de luta e de martírios.
 
    Vai ser necessário muita luta e muito martírio, para reconduzir a sociedade a uma vida completamente católica, de novo.
 
    Em todo caso, não se luta somente para ter a vitória, ainda mais imediatamente, mas pela justiça, pela verdade, e pelo bem.
 
In Corde Jesu, semper,
Orlando Fedeli

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