Montfort Associação Cultural

28 de julho de 2009

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Meditando sobre a parábola do filho pródigo: ter ou ser?

Autor: Orlando Fedeli

  • Consulente: Anonimo

 
Prezado Prof. Orlando,
      
Gostaria de pedir ao Sr. que comentasse o texto abaixo:
 
     ”Quero mais!
 
     Nunca canso de ler a “parábola do filho pródigo” (Lc 15, 11-32), pelas inúmeras possibilidades de diferentes reflexões que ela enseja.
Recentemente, ao ler a parábola diante de um grupo de reflexão, alguém perguntou: – “mas por que o filho mais jovem, tendo consciência de que dispunha de tudo, resolveu mesmo assim sair de casa?”.
 
     E essa questão nos chamou atenção para o fato de que uma das tendências mentais mais destrutivas e persistentes é, justamente, a de enfatizarmos o que gostaríamos de ter, ao invés de o que temos
     
     Muitas vezes, não parece fazer diferença o muito que já possuímos; nós simplesmente temos a tendência a expandir nossa lista de desejos.
     
     E até parece que fazemos isso, para garantirmos que jamais poderemos ser satisfeitos! Pois, claramente, o padrão mental que impõe “serei feliz quando este desejo estiver realizado” é o mesmo que se repete, assim que o desejo é alcançado!
     
     Para ilustrar, contei ao grupo que analisava a parábola do filho pródigo, que um amigo passou os últimos três anos se dedicando à construção de sua casa nova, sendo que no mês passado, ao se mudar para lá, parecia ter conseguido o intento de sua vida! Mais recentemente, no entanto, eu o encontrei e ele passou a falar de sua próxima casa, “que seria ainda maior”! A princípio, fiquei perplexo quando ouvi aquilo, mas em seguida, refleti sobre o fato de que aquele comportamento é bastante comum, e que quase todos nós, de maneiras distintas e em escalas diferentes, muitas vezes fazemos o mesmo! Queremos uma coisa ou outra, sendo que, se não alcançamos o nosso desejo, passamos a nos fixar naquilo que não temos – e permanecemos insatisfeitos. Por outro lado, se atingimos o que queremos, imediatamente recriamos o mesmo pensamento, numa nova circunstância. Assim, mesmo obtendo o que desejamos, permanecemos sempre infelizes.
     
     Foi quando alguém, no grupo de reflexão, apropriadamente observou que, se mudarmos a ênfase dos nossos pensamentos, colocando maior prioridade ao que temos, do que àquilo que queremos, imediatamente encontraremos paz.
     
     Na parábola do filho pródigo, este demonstra enorme insatisfação, apesar de possuir imensos bens, um lar seguro e um pai que o ama infinitamente. Ele acaba abandonando tudo isso, buscando fora a felicidade que não percebia já estar bem ali, dentro do seu próprio lar, ou seja, no interior dele próprio.
     
     Mas será que nós mesmos não estamos adotando, diariamente, atitudes semelhantes e essa? Para concluir, e ajudar nessa reflexão, segue um texto de Michel Quoist:
     
     “É maravilhoso, senhor, ter braços perfeitos, quando há tantos mutilados… Meus olhos perfeitos, quando há tantos sem luz… Minha voz que canta, quando tantas emudeceram… Minhas mãos que trabalham, quando tantas mendigam… É maravilhoso voltar para casa, quando tantos não têm para onde ir… É maravilhoso: amar, viver, sorrir, sonhar, quando há tantos que choram, odeiam, resolvem-se em pesadelos, morrem antes de nascer… É maravilhoso ter um DEUS para crer, quando há tantos que não têm o consolo de uma crença… É maravilhoso Senhor, sobretudo, ter tão pouco a pedir, e tanto a agradecer…”.
 
     “A única coisa que devemos querer sempre mais é o nosso amor a DEUS””.
 
Obrigado,

Muito prezado XYZ, salve Maria.
 
Ter  ou ser?
         
Para mim, é uma alegria ter um amigo que me interroga, pedindo alguma ajuda, numa questão de tal modo interessante, e poder ajudá-lo a conhecer mais e, portanto, a amar mais a Deus Nosso Senhor.
Em primeiro lugar, gostaria de lhe recordar que, como já publiquei no site Montffort, os comentadores patrísticos e medievais distinguiam nos textos da Escritura e especialmente nas parábolas do Evangelho três sentidos principais embutidos no sentido literal, que sempre consideraram o fundamental.
No sentido literal – a própria hostória narrada na letra das Escrituras, que era preciso jamais alterar – eles distinguiam:
1 – um sentido doutrinário (profético, trópico, analógico) que nos ensina o que devemos crer;
2 – um sentido moral, que nos ensina o que devemos fazer;
3 – um sentido místico, que ensina o que devemos amar.
O sentido doutrinário é destinado particularmnete à inteligência.
O sentido moral é oferecido à nossa vontade.
O sentido místico, sempre mais difícil de captar, é para a alma toda, em sua totalidade (inteligência, vontade e sensibilidade).
Para bem refletir a respeito do que nos diz Deus na Sagrada Escritura, para meditar os textos sagrados, é preciso estar pronto, antes de tudo, a desejar firmemnete manter-se no que a Igreja sempre ensinou, combatendo todo opinionismo, dobrando nossa inteligência ao ensinamento da Igreja.
Deus nos convida, na oração mental, a refletir sobre a sua palavra.
 
Que significa refletir?
Até aqui, sublinhei sempre a palavra refletir. Claro que refletir significa raciocinar, pensar, meditar.
Ora, a palavra refletir significa também devolver por meio de uma superfície bem polida – um espelho — a luz emitida especialmente pelo sol, a luz que nos vem do alto dos céus.
Nossa inteligência deve se portar como um espelho bem polido, isto é, livre de toda poeira que o vento (pneuma, em grego, que sifinifica também espírito) lança sobre nossa inteligência para turvá-la. Porque os maus espiritos buscam sempre toldar nossa inteligência com a poeira dos nossos interesses terrenos. Estes nos fazem tender para a terra e jamais levantar o espelho de nossa alma para o céu de onde nos vem toda a luz.
Deus é Pater luminum.
Entretanto, o espelho de nosso intelecto é vivo e não simplesmente inanimado, como são os espelhos. Somos capazes de pensar por nós mesmos. Contudo, mesmo os pensamentos que nascem de nós, se pensamos retamente, vemos que eles nos são suscitados pela graça.
Sem Mim, nada podeis fazer” disse-nos o Verbo encarnado, Jesus Cristo.
Pois então até nossos próprios pensamentos não germinariam em nosso intelecto, se Deus não os sucitasse e desenvolvesse em nós pela sua graça. Assim como as ervas do campo e assim como nossas plantações não viveriam se Deus não fizesse cair o orvalho sobre elas, assim também nada pensaríamos retamente sem a graça de Deus que nos dá todo o bem.
Rorate Coeli de super…” [Rociem os céus desde o alto...].
Portanto, nossa inteligência seria incapaz de refletir a luz que vem do alto sem a graça de Deus, que faz a luz, refletida em nossa alma, brilhar convenientemente, e germinar fecundamente com nossa colaboração.
 
Um segundo ponto a considerar seria como refletir.
Nosso Senhor Jesus Cristo nos disse que, quando fôssemos rezar, nos retirássemos a nosso quarto, fechando nossa porta. Para bem refletir é preciso fechar a porta de nossa alma para bem ouvir a voz de Deus em nosso alma.  E está escrito que São João se retirou ao deserto para rezar e fazer penitência: “No deserto preparai os caminhos do Senhor…”.
No deserto, isto é, na solidão.
Por isso, lemos que, para rezar, Jesus sempre se retirava para um lugar solitário: o deserto, uma montanha, um horto. E sempre se afstava de seus discípulos para ficar só, com Deus.
Hoje, se fazem grupos de reflexão…
É o modo moderno de refletir.
Os homens, hoje, democraticamente, se sentem incapazes de refletir, pois em vez de se preocuparem em receber a luz que vem do alto, preferem os palpites que vem do mundo. E seguir a maioria que para eles é a fonte de certeza.
Tanto os homens ficaram inseguros no seu opinionismo – que Bento XVI acaba de condenar na Caritas in veritate -, que procuram sempre o apoio da maioria.
Ora, foi muito bem dito por alguém que, quando não se quer resolver um problema, coloque-se o problema em discussão numa comissão adrede montada para que cada um dê o seu palpite. E nada se resolve. Monta-se imediatamente um fórum de achismos em que, normalmente, cada um quer exibir suas capacidades “refletoras” ou em que a timidez silencia a maioria, e um  só impõe seu parecer escudado na maioria silenciosa e silenciada.
Nos grupos de reflexão, o normal é haver trevas. Mesmo havendo muitos refletores, isto é, muitos holofotes. E como há gente que gosta de holofotes nos grupos de reflexão irrefletida!
Num Grupo de  reflexão religiosa, – num grupo que pretende refletir coletivamente – o que normalmente vai acontecer é que se prestará mais atenção aos espelhos do que à luz que vem do alto.
Nos grupos de reflexão, o grande ausente é o “Sol”. A grande ausente é a luz da verdade.
E como poderá haver reflexão sem a luz?
E o exibicionismo – a grande tentação nos grupos de reflexão — muitas vezes fará o achismo vencer a verdade, o palpite ignorante se pavonear como luz puramente humana. Isto é, a treva, “brilhando” como luz. E os morcegos aplaudem essa “luz” palpiteira.
Fogos fátuos.
Fuja pois desses grupos de reflexão. Medite sozinho. Com Deus, no fundo de seu quarto. Ou no silêncio de uma capela. Então, mais do que falar, ouça. Pois que para o espelho de nossa inteligência refletir, é preciso, antes de tudo, estar disposto a receber a luz da verdade que vem do alto.
 
***
 
Passemos, agora, ao texto que você me enviou, para comentar, sobre uma reflexão feita por alguém sobre a parábola do filho pródigo. 
O primeiro passo a refletir seria sobre o que Jesus, Nosso Senhor, quis ensinar com essa parábola.   
No texto que você me enviou, não se trata disso.   
Toda a preocupação do autor do texto foi precipitar-se na questão moral. Pior, na questão do ter.
Por essa precipitação, fico desconfiado — sem querer julgar a consciência do autor, ainda mais com tão poucos indícios — que ele é pessoa que tem alguns bens e uma consciência não sossegada, mas com algum escrúpulo, por orientação mal dada.
Antes de tudo, teria sido necessário perguntar quem era esse Pai da parábola e por que tinha ele só dois filhos?
Por que dois, se, naquele tempo, o normal era ter muitos filhos?
E por que, nessa parábola, nem se fala da esposa desse Pai? Estava ela morta? Estava ela doente? 
Todos os doutores da Igreja, que comentaram essa parábola, são concordes em ver nesse Pai, dono de uma terra, a Deus nosso Criador e  nosso Senhor.
Por que dois filhos só?
Cristo mostra, pela parábola, que Deus só teve dois filhos: o judeu e o pagão. O primogênito era o judeu. O filho cadete era o pagão.
Eles se separaram por comportamentos diferentes, pois Deus desde o segundo dia separou as terras das águas, para significar que Ele ia separar os judeus dos gentios, os santos dos pecadores.
Por isso, Cristo falou primeiro aos judeus, fazendo o sermão da montanha (terra), e quando os judeus não quiseram ouvi-lo, Ele foi ao lago e falou às “ águas”, aos gentios, desde a barca de Pedro.
O filho mais velho da parábola representa, pois, o judeu, que desde o principio serviu a Deus Pai, trabalhando em sua vinha.
O filho mas novo representa o povo pagão, os gentios.
Este não quis servir ao Pai, mas pediu que lhe désse logo a sua parte da herança — os bens da terra, não os do céu – e partiu. Afastou-se do Pai para gozar dos bens terrenos, e desperdiçou toda a sua herança.
Seu desperdício na busca dos prazeres terrenos o fez perder não apenas os bens celestiais, como também os mesmos bens terrenos. Quem busca a terra perde o céu e perde também a terra. Quem busca a vida terrena perderá a vida eterna e também a terrena, pois ”aquele que quiser salvar sua vida a perderá”, disse-nos Jesus, no Evangelho.
O filho mais novo perdeu tudo e acabou servindo o principe deste mundo, num chiqueiro onde tinha que disputar, com os porcos, as bolotas com que eles se alimentavam para poder sobreviver.
E como esse chiqueiro parece com o século XXI! Como esse chiqueiro parece com os materialmente ascéticos shopings centers, tão impuros na sua limpeza! Tão terrenos em sua falsa luz material.
O filho mas novo se arrependeu, e voltou para a casa do Pai. Voltou para Deus. E quando o pagão aceitou o cristianismo, o judeu – o filho mais velho — se revoltou e, cheio de inveja, repreendeu a Deus Pai por ter sido misericordioso. Por ter perdoado o gentio arrependido.
Nessa parábola, foi isso fundamentalmente que Cristo ensinou: que a misericórdia de Deus é infinita e que Ele veio salvar a todos os homens. Veio salvar os pecadores. Porque Deus é bom e amigo dos homens que o temem.
Já no presépio de Belém, essa mesma lição fora dada.
Cristo nasceu em Belém, numa cocheira, entre um boi e um burro. Pois estava escrito em Isaias: “Conhecerá o boi o seu dono, e o burro conhecerá o presépio de seu Senhor” (Is. I. 1).
O boi representava o judeu, pois era o boi que puxava o arado trabalhando na vinha de Deus. O burrico representava o pagão que, não tendo sabedoria, vivia solto estupidamente no pasto, comendo sem jamais refletir.
Mas o Filho de Deus se encarmou para salvar o boi e o burro, o judeu e o gentio. E Cristo levou o burrico até o Templo – até o presépio de seu Senhor. E quando isso aconteceu, no Domingo de Ramos, o boi — o judeu — protestou, não gostando que Jesus levasse o burro, o pagão, até o Templo.
Esse era o significado doutrinário da parábola do filho pródigo, do pagão dispersador da herança do Pai. A parábola significava a reprovação dos judeus invejosos e a misericórdia extendida aos pecadores arrependidos.
Entretanto, repare, meu caro XYZ, que Deus, na parábola, continua a chamar o filho primogênito de filho, mesmo quando o repreende.
E por que foi assim?
Porque, um dia, os judeus hão de se converter e servirão a Cristo e a Pedro, seu vigário.
Como assim?
Vimos que na parábola não se fala da esposa desse Pai de dois filhos.
A primeira esposa de Deus foi a Sinagoga. E como ela foi infiel e abandonou a Deus, Deus desposou a Igreja.
Por isso Jacó teve duas esposas: Lia e Raquel
Explica São Paulo que Lia era símbolo da Sinagoga, porque foi a primeira esposa, e porque ela era quase cega. Como a Sinagoga que não viu Cristo. Enquanto Raquel tinha olhos perfeitos e via bem e seu nome significava “visão de Deus”, porque ela representa a Igreja.
Lia era quase cega, pois tinha uma doença nos olhos ramelentos. E isso simbolizava a cegueira da Sinagoga que não viu Cristo, e não o reconheceu o “Homem das dores” de que falou Isaías, como seu Messias e seu Salvador. Ela não viu o Sol de Justiça, enquanto a Igreja, Raquel viu claramente a Cristo como “Deus conosco”.
Por isso também, quando Jesus foi à casa de Pedro, lá  encontrou sua sogra doente e a curou, e ela então serviu a Jesus e a Pedro, a Cristo e ao Papa.
E quem era a sogra de Pedro?
A sogra de Pedro era a mãe da esposa de Pedro.
Ora, Pedro, tornou-se o esposo da Igreja da qual ele teve os filhos de Deus. Mas a mãe da Igreja era a Sinagoga. Portanto esta era a sogra de Pedro, que estava espiritualmente “doente”, quando Cristo a visitou. E Jesus a curou, porque está profetizado na segunda carta do Apocalípse que os judeus se converterão e servirão, um dia, a Cristo e ao Papa, a Deus e a sua única Igreja.
Tudo isso, e muito mais, está ensinado na parábola do filho pródigo, do ponto de vista dourinário.
Haveria que tratar, agora, do sentido moral, isto é, daquilo que  a parábola nos diz que devemos fazer.
Evidentemente, o ensinamento moral mais patente é o de confiarmos no perdão de um Pai infinitamente misericordioso, que acorre a nos abraçar, quando Lhe dizemos: “Pai, pequei contra ti e contra meu irmão”. E não só nos abraça, mas nos acolhe, nos reveste com as roupas de herdeiro e nos faz festa, matando um novilho gordo, para comemorar a recuperação de um filho que estava perdido e que foi reencontrado.
Esse ensinamento moral é bem conhecido, que não me estendo sobre ele, para lhe poupar tempo.
O comentário da parábola, que você me pediu para criticar, se detém apenas no aspecto moral. Porém, sem querer desdourar o que a pessoa escreveu, observo que ela se limita à questão do ter como fonte de felicidade.
E isso é um erro.
Jamais a felicidade vem do ter. A felicidade vem do ser.
Em Deus — felicidade infinita — distinguimos duas formas de glória: a glória intrínseca e a glória extrínseca.
A glória intrínseca de Deus provém do conheciemnto que Ele tem de Si mesmo. E esse auto conhecimento de Deus se dá no seu Verbo, que conhece o Pai perfeitissimamente. Só o Filho conhece perfeitamente a Deus Pai e só o Verbo pode dar, então, verdadeira glória ao Pai. Pois a glória de um ser provém do reconhecimento de seu valor enquanto ser. A gloria intrínseca de Deus é então perfeita no Verbo e é infinita, não sofrendo variação.
A glória extrínseca de Deus provém do reconhecimento do valor de Deus enquanto Ser absoluto e perfeitíssimo, glória dada pelas criaturas. Essa glória extrínseca varia conforme a capacidade de comprensão e, principalmente, de amor dos anjos e dos homens. Por isso, Santo Inácio tinha como lema buscar sempre a maior glória de Deus. Portanto, a glória extrínseca de Deus pode variar na História: ser maior ou menor.
O comentário que você me passou para examinar afirma que a felicidade consiste em estar contente com o que se tem e que a cobiça é insaciável. E cita Michel Quoist, autor modernistoso, que exemplifica a felicidade comparando o que temos com o que os outros não têm.
Ora, não é o ter muito ou pouco que traz a felicidade. Não é o nos comparar com o que os outros não têm que causa a nossa felicidade. Deus – felicidade infinita – é aquele que é. É no ser que está a causa da felicidade. Somos felizes pelo que somos, não pelo que temos.
Na terra, não somos plenamente felizes, porque, na terra, só estamos em um estado, não somos. Tudo o que temos pode ser perdido.  Só no céu deixaremos de estar para sermos estavelmente para sempre o que somos. Na terra, podemos sempre perder não só o que temos, mas até mesmo deixar de ser o que somos, pois que podemos pecar. Na terra, podemos perder o céu.
No céu, seremos para sempre o que somos. E nessa estabilidade, no bem perfeito, é que consistirá a suprema felicidade, que provém da posse estável da visão de Deus para sempre e de modo imperdível. Estáveis para sempre. Por isso, Dante bem definiu a felicidade celestial dizendo:
 
“Oh gioia! Oh Inefabile allegrezza!
Oh vita integra d´amore e di pace!
Oh sanza brama, sicura richezza!” ( Dante Alighieri, Divina Commedia, Paradiso, XXVII, 7-9).
 
[ O júbilo! Oh inefável alegria!
O vida íntegra de amor e de paz!
O sem desejos, segura alegria!”].
 
Somos felizes, quando somos o que Deus quer que sejamos. Quando somos o que somos, imagens de Deus. Como Deus nos quer.
Por isso, em todas as línguas, o primeiro verbo é o verbo ser. É do ser que deriva o ter. Ninguém pode ter sem antes ser.
Ademais, uma  falha grande do texto apresentado é a de não considerar, na parábola, o que cada filho era e fazia.
Ambos os filhos agiram mal.
O mais novo errou ao querer a herança dos bens materiais simplesmente para gozar dos prazeres deste mundo.
O filho mais velho errou ao considerar que o importante era o trabalhar pelo trabalhar.
O verdadeiro bem teria sido trabalhar, na vinha de Deus, para que se conhecesse a bondade do Pai e a sua glória.
Trabalhar simplesmente só por trabalhar seria transformar o meio em fim. O trabalho obediente na vinha do Pai deveria ser para glorificar o Pai e dar bem ao irmão. O filho mais velho limitou sua virtude em obedecer trabalhando, sem compreender o fins do trabalho:
1- Em vez da glorificação da bondade do Pai, ele criticou amargamente sua generosiddae e sua misericórdia.
2- Em vez de se alegrar com o arrependiemnto do irmão e com o perdão concedido pela misericordia do Pai, ele invejou a festa com que o Pai manifestou sua alegria com a recuperação do filho perdido.
O filho mais novo havia pecado, porque buscou a felicidade material. O filho mais velho, se vivesse hoje, seria do Opus, colocando o fim do homem apenas no trabalho pelo trabalho, e considerando bom apenas o que ele faz, sem nunca se alegrar com o bem que outros fazem, e até com o perdão e a misericórdia que Deus faz a outrem.
Tomara meu caro XYZ, que estes pensamentos o ajudem a bem trabalhar por Deus, o que se consegue somente tendo antes uma vida de oração, na solidão. Refletindo.
Para ajudar nosso irmão a salvar a sua alma.
Querendo cada vez mais conhecer e compreender sabiamente a verdade. Porque só amamos o que conhecemos. Saber mais, para amar mais, a fim de sermos, cada vez mais, espelhos que refletem a Deus.
In Corde Jesu, semper,
Orlando Fedeli.

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