Montfort Associação Cultural

27 de outubro de 2004

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Maurras

Autor: Orlando Fedeli

“Quem não está comigo, está contra mim.”
(Mt. XII,30)



I – Introdução

Sem pretender escrever um trabalho exaustivo sobre Maurras – bem longe disso – desejamos fornecer apenas um breve comentário, que permita a brasileiros, desconhecedores dos meandros da História contemporânea da França, formarem uma opinião sobre Maurras em relação ao Catolicismo. Julgamos importante ter algumas informações sobre o pensador da Action Francaise (AF), porque, para certos direitistas franceses, criticar Maurras parece pecado maior do que criticar um Papa ou atacar um santo canonizado.

Não dispusemos de muitas fontes para elaborar este nosso comentário. Procuramos ler e citar, quase que só, autores insuspeitos ou favoráveis a Maurras. Uma só, das obras que consultamos, é de um autor suspeito por suas idéias favoráveis ao Movimento Litúrgico de Dom Lambert Beauduin, que tanto mal fez à Igreja. Esse autor, o Pe. Doncoeur, defende a posição de Pio XI contra a AF, mas de sua obra retiramos apenas alguns poucos posicionamentos claramente contrários ao chefe da AF, e que nos pareceram pertinentes, assim como várias citações que ele faz dos livros de M. Infelizmente, é difícil encontrar no Brasil as obras completas do autor que focalizamos, e que seria absolutamente necessário consultar, caso tivéssemos a pretensão de escrever um trabalho mais completo. Fomos, pois, obrigados, infelizmente, a fazer citações de Maurras com base nesses autores que pudemos consultar.

As obras que servirão de base para nosso comentário são:

  1. Yves Chiron, LA VIE DE MAURRAS, Perrin, Paris, 1991. O autor mostra simpatia por seu biografado. Abreviaremos sua citacão com a sigla YC e número de página.
  2. Lucien Thomas, L’ACTION FRANCAISE DEVANT L’ ÉGLISE, Nouvelles Éditions Latines, Paris, 1965. O autor pertenceu à A. F. e permaneceu fiel à Maurras. Abrev.: LT.
  3. Jean de Fabrègues, CHARLES MAURRAS, Perrin, Paris, 1966. O autor foi secretário de Maurras durante certo tempo. Abrev.: JF.
  4. Pierre Boutang, MAURRAS, LA DESTINÉE ET L’OEUVRE, Plon, Paris, 1984. Este autor foi o mais fiel discípulo de Maurras. Abrev.: PB.
  5. Charles Maurras, MES IDÉES POLITIQUES, Fayard, Paris, 1937. Abrev.: MIP.
  6. Pe. Doncoeur e outros, POURQUOI ROME A PARLÉ, Ed. Spes, Paris, 1927. Abrev.: PRP. Como já observamos, citamos este autor com reservas, visto ter sido ele favorável à revolução litúrgica desencadeada por Dom Beauduin que veio a produzir a Missa Nova de Paulo VI.

II – Dados biográficos

Charles Maurras nasceu em Martigues, na Provença, no dia 20 de abril de 1868. Ele era filho de Jean Joseph Aristide Maurras e de Marie Garnier, 25 anos mais jovem que ele. O casal teve três filhos: Romain, o primogênito, que morreu com dois anos, e Joseph, mais moço que Charles. O pai era liberal, enquanto a mãe era legitimista e católica.

Quando M. tinha dois anos, a França foi esmagada pela Prússia e, em consequência, Bismarck proclamou o Império alemão em Versailles(1870). M. dizia que seu antigermanismo radical havia começado aí.

O pai de M. morreu em 1874, quando ele tinha seis anos incompletos. O pequeno M. foi coroinha e se dizia extasiado pelo canto gregoriano. Aos oito anos, M. leu a Odisséia, iniciando sua paixão pela cultura grega. Em 1876, a mãe de M. mudou-se para Aix-en-Provence, para que ele pudesse estudar no Colégio Sacré Coeur.

Foi aí que M. conheceu o Abbé Penon, que seria seu conselheiro durante toda a sua vida. Esse padre, politicamente liberal, guiará seus primeiros estudos e continuará a manter correspondência com M., mesmo depois que ele perder a fé.

No colégio, M. foi um aluno destacado. Detestava o inglês, que considerava uma língua bárbara. Um traço revela o caráter orgulhoso do menino: ao ficar sabendo que de um ponto, numa reta, só se podia levantar uma única perpendicular e não mais que uma, ficou contrariado, porque via nisso uma violação de sua liberdade (YC,30).

Foi aos 14 anos, em 1882, que M. foi atingido pela surdês. Essa desgraça o obrigou a deixar de freqüentar a escola. O Abbé Penon se dispôs a dar-lhe aulas particulares, que M. aproveitou bem. Entretanto, a doença mergulhou o menino em profunda depressão e revolta. Praticamente, ele se defrontou com o problema do mal, que atormentá-lo-á durante toda a vida e que levá-lo-á a não compreender porque Deus permite o mal físico ou moral. Seu estado de revolta era tão grande, nesse tempo, que ele fez, por pura raiva, sua mãe cortar uma fileira de velhos e altos ciprestes que ornamentavam o jardim de sua residência de Martigues. Nenhum tratamento conseguiu vencer a sua surdês. Apelou-se para a homeopatia….que, evidentemente não teve nenhum efeito.

Em depressão, leu Pascal, o que lhe fez muito mal :

“Pascal, lu de bonne heure, avant quinze ans, déposa en moi un germe que je peux appeler pré-kantien et qui fut le principe de mes premières mises en question métaphysiques et religieuses. Je songe à des pensées comme celle-ci: “notre âme est jetée dans le corps; elle y trouve nombre, temps, dimension”. Ce n’est certes pas ce qui emporte la position: c’est ce qui ouvrit la brèche” (YC,46).

Como se vê, era um pensamento claramente tendente à Gnose: considerar que a alma é lançada na matéria, a qual está submetida ao número, ao tempo e à dimensão, e que é isto o que explica o mal, é uma idéia tipicamente gnóstica.

Era natural que um pensamento tão errado conduzisse um menino em depressão ao suicídio. M. tentou se enforcar com uma gravata, mas ela se rompeu. Não foi essa a única vez que M. tentou se matar. Adulto e líder direitista, ele preparou meticulosamente seu suicídio por causa de uma decepção amorosa adulterina.

Tratando dessa primeira tentativa de suicídio em sua adolescência, M. sexagenário escreveu: “[...] sa longue existence n’accepta jamais l’injustice de la surdité! À cause d’elle, il tenta d’en finir, mais la corde se rompit aussitôt: miraculé!”(YC,47).

Ainda cinqüenta anos após esse fato, M. escreveu dois livros em que os heróis escolhem o suicídio como “solução” última para sua situação espiritual e intelectual. É preciso notar que um desses livros (Le mont de Saturne) foi escrito no fim da vida de M., quando ele estava em pleno processo de “conversão”.

 

III – Crise moral, religiosa e metafísica

Isolado do mundo e dos outros pela surdês, o menino M. entregou-se febrilmente às leituras. Que o Abbé Penon não controlou ou não dirigiu bem. M. leu então Zola, os autores jansenistas, o ateu Saint-Beuve. A Filosofia se tornou a paixão de M.. Leu, nesse tempo, São Tomás e os filósofos idealistas alemães. Deleitava-se com a Suma Teológica , mas escreveu então :

“Saint Thomas ne satisfait pas toujours, il ne répond pas à la grandissime question, la seule qui me passionne, savoir: la réalité objective de nos idées” (YC,54).

A respeito do filósofo tão cotado pela Direita francesa – o gnóstico martinista Joseph de Maistre – M. escreveu que ele era “un farceur (…) de mauvaise foi” (YC,54-55). Maurras dixit.

Em 1885, M. com sua família, passou a residir em Paris. Nesse mesmo ano fora reprovado no seu “Baccalauréat”. Foi então que escreveu seus primeiros artigos para jornais e revistas. Assinou alguns artigos com o pseunônimo anagramático e amargo de R. Amarus, o que fazia bem transparecer seu estado psicológico. Seus primeiros artigos sobre filosofia atrairam a atenção e apoio de Mons. D’Hulst, iludido pelas simpatias tomistas expressas por M.. Na verdade, o que ele escrevia ao Abbé Penon, nesse tempo, mostrava que seu tomismo era já muito relativo:

“Cette année je lis beaucoup moins de philosophie que l’an dernier, mais j’y réfléchis peut-être davantage. Mais plus je m’y applique, plus je vois s’évanouir les formes de l’être et l’être même, et le monde en phantasmagories” (YC,61).

Leu Renan, que vai ser um de seus mestres… Manteve contactos com Blondel, cuja tese sobre “A Ação” vai influir tanto na heresia modernista quanto no pensamento político do século XX. Por volta de 1890, M. se declarou agnóstico. Ele se encaminhava diretamente ao nihilismo, e a não solução do problema do mal levou-o da paixão pela filosofia ao desprezo da Metafísica.

Entretanto, esse agnosticismo anti-metafísico, ao qual repugnava um Deus misericordioso e providencial, que permite o mal físico e moral, não impediu M. de aderir à… Quiromancia!!! Incredulidade e superstição sempre andaram juntas…

“En effet, ce n’est pas seulement la chiromancie que pratiqua le M. de ces années troubles, mais aussi la graphologie, et il s’intéressa de près des sciences occultes. En témoignent quelques livres conservés dans sa bibliothèque du Chemin de Paradis, nottamment le TRAITÉ MÉTHODIQUE DE SCIENCES OCCULTES, de Papus, de plus de mille pages” (YC,69). M. praticou a leitura das linhas das mãos e acreditava que a mão era espelho da alma.

“Le jeune Charles pratiqua lecture des lignes de la main et l’interprétation des écritures dans les salons amis frequentés par sa mère. Ce qui fut, au départ, don d’intuition et sens de la psychologie dut s’enrichir à la lecture des divers ouvrages, nottamment le gros volume Chiromancie Nouvelle d’Adolphe Desbarolles. Les configurations de la paume de la main ou l’écriture lui apparurent (et lui apparurent toujours) [frizamos nós o toujours] comme des miroirs “de l’âme et de l’esprit”. Interrogé sur ces sujets par une revue spécialisée, en 1907, M. conviendra que la chiromancie fournit des “données indiscutables sur le charactère plutot que des révelations sur l’avenir. C’est une véritable “architecture psychologique qu’est gravée dans la main: telle ligne pourra être rapportée au “coeur”. Un “mont de la lune” développé révelera aptitudes au rêve ou à l’imagination, le “mont de mars”, un esprit batailleur” (YC, 69).

Tal foi o talento quiromântico revelado por M. que um amigo se propôs comprar para ele “un cabinet de chiromancie et de graphologie” (YC,70). M. não aceitou porque se interessava mais por literatura… Yves Chiron afirma que M. se afastou logo do ocultismo. Sem abandonar, é claro, a crença que manteve – toujours – na quiromancia.

Não se diga que essa tendência para a superstição desapareceu com a maturidade do racionalista agnóstico que M. sempre foi. Nos últimos anos de sua vida, ele ainda se impressionava com as coincidências numerológicas entre os seus números de prisioneiro em Riom e em Claraval.

“Son goût ancien pour la numérologie était comblé: “[...] j’ai eu de l’avancement, écrivit-il à sa nièce, mon numéro d’écrou est aujourd’hui 8321, mais rends toi compte! La somme de ce chiffre est la même que celle de 2048, de 14 qui est 7×2 comme la somme des lettres de mon prénom et de notre nom! Et l’on dira que les existences ne sont pas réglées par les nombres des cieux! Il est vrai que l’on ne tient compte que des cas positifs, car les autres son innombrables” (YC, 471). Ironia ou superstição mantida?

A crise espiritual de M. prosseguiu. Ao Abbé Penon, ele escreveu nesse tempo, dizendo: “Ma métaphysique intérieure aboutit au pessimisme noir et gris teinté de vagues roses par l’art libérateur” (YC,83). E ainda: “Je ne crois pas aux faits. Les idées importent seules” (YC,91).

Sobre os Evangelhos, confessou então ao Abbé Penon que seu relato “n’est pas assez fort pour triompher de mon agnosticisme. Il est vrai que je suis toujours profondement catholique en sociologie” (YC,91).

Todavia, esse profundo “sociologismo católico” era também profundamente adepto de… Augusto Comte e do Positivismo!

É claro que uma tal confusão mental deveria conduzir à Gnose. O M. dessa época escreveu: “Le fait est que je ne puis croire entièrement ni au bien ni au mal. Il est au moins deux dieux, voilà ce dont je suis certain” (YC,113).

Nesses anos de juventude, M. escreveu frases ímpias e blasfemas que iriam causar-lhe muitos transtornos no futuro, quando sua política aproximá-lo-ia dos católicos. Até hoje, os partidários de M. argumentam que tais frases foram pecados de juventude e que não correpondem ao pensamento amadurecido de M.. O fato é que se ele não as escreveu mais – e algumas, até lamentou – jamais as renegou ou condenou.

Por exemplo, seu livro Chemin de Paradis, que foi posto no Index em 1926, foi considerado pelo padre Jules Pierre, em 1914, como “vitriol de Schoppenhauer et de Nietzsche versé dans l’ordure du marquis de Sade” (YC,111). Quando M. se aproximou politicamente da Igreja, ele republicou esse livro, expurgando dele algumas passagens mais chocantes para os católicos, mas sem jamais condená-las expressamente.

Costuma-se defender M. dizendo que as citações que se fazem de frases dele, escritas na juventude, não levam em conta a evolução de seu pensamento. De fato, em sua longa vida M. mudou em alguns pontos. Confessou-se apenas ao morrer, e queira Deus tenha obtido o perdão divino. Deixou também de atacar blasfemamente os Evangelhos e o Magnficat. Veremos que mudou um tanto – apenas um tanto – diante do socialismo. Mudou também algo face à Metafisica.

Vimos que a Filosofia foi a paixão juvenil de M.. Leu de tudo. Perdeu primeiro a Fé em Deus e na Igreja. Perdeu depois a confiança na Criteriologia, para, finalmente, odiar a própria Metafísica. Já não tinha certezas.

 

IV – O vôo dos goélands

 ”Ce qui attend l’homme lucide, ce n’est donc d’abord qu’une incertitude “infinie” que chantent avec force les vols des goélands qui ne font que tourner en cercles inutiles (…)” (JF,250). Essa imagem de M. sobre o vôo circular dos pássaros goélands revela bem sua crise criteriológica e de fé. A não aceitação de sua desgraça física levou-o a repudiar a Deus. Desde então, ele volteou em círculos. Homem lúcido que jamais soube elevar-se até o Sol da Verdade – Deus – M. fixou seu alvo em objetivos terrenos, naturais: a Razão, a Nação, a Política, a França, sobretudo a França. Ambigüamente ele corrigiria o que dissemos: “Sobretudo, não. Antes de tudo”. “Antes de tudo não é sobretudo”. Em concreto, ele que se declarava agnóstico, subordinou o sol da Igreja ao serviço de seus objetivos nacionalistas. Noutras palavras, ele fez, de coisas criadas, valores absolutos; a “Cidade”, a “Razão”, a “Ordem”, a “Nação”, tomaram o lugar de Deus e da Igreja.

Temos certeza de que bastam estas linhas introdutórias para causar a indignação dos “maurrassianos”, que, incontinenti, clamarão por injustiça, desonestidade intelectual ou por incompreensão. Esta reação dos fiéis de M. é característica: eles o tratam como se fosse um santo ou um profeta que fala inerrantemente em nome de Deus. Para eles, a palavra de M., sempre ambígua e fugidia, suscetível portanto de várias interpretações, esconde em suas dobras, o sentido verdadeiro das palavras de M., que, como as palavras da Revelação, não podem ser criticadas. Em conseqüência, todo juízo, ainda que levemente crítico contra M., gera polêmicas enormes que giram inútil e infinitamente – como os goélands – sobre o significado exato e objetivo dos oráculos do “profeta” e do que ele realmente tencionou dizer.

Que quis dizer M.? Como entendia ele tal termo? E os textos dando significados diferentes, e até opostos, se acumulam, jamais se chegando a uma conclusão do que o autor de Anthinéa queria fazer entender. O que é tanto mais estranho, quanto mais se reconhece que ele era um homem muito lúcido.

Partidários, discípulos e amigos de M. se queixam de que se lhe atribuem idéias que ele jamais defendeu nem sequer teve:

“On lui prête des idées qu’il n’a jamais eues. On lui fait partisan de politiques ou de régimes qu’il a combattus toute sa vie. Et quand on imprime une prétendue citation de ses oeuvres il y a gros à parier que c’est un contre sens”. (Pierre Gaxotte, secretário de M., Préface à obra de M. “Mes idées politiques, Fayard, Paris, 1937, p. 11).

M. escreveu que “un homme qui n’aurait que des idées claires serait assurément un sot” ( JF., 91). Ora, ter idéias claras e saber exprimí-las com clareza é que é próprio do homem inteligente. Ter idéias confusas ou exprimí-las sem clareza é próprio do tolo. Mas, quem é lúcido e se exprime ambigüamente, não pode ser tachado de tolo e sim de “furbo” – espertalhão – pois é claro que pretende enganar. Maurras era bem inteligente, mas bem pouco claro. E enganou – e continua a enganar – a muitos.

Cremos que tantas discussões surgidas a respeito do real significado do pensamento de M. nascem:

  1. De sua recusa em admitir que tinha uma doutrina;
  2. da ambigüidade de seus textos e expressões;
  3. de seu desprezo pela metafísica;
  4. de seu desejo de – antes de tudo – fazer política: “politique d’abord”.

 

V – A ambigüidade de Maurras

 Não somos nós que constatamos a ambigüidade de M.. Ela é reconhecida até por seus maiores defensores.

“Avant d’accuser M. de faire de la Cité un absolu, il faudrait donc mesurer ce qu’il a expressément voulu signifier. Mais les formules les plus significatives du CATHÉCHISME d’ACTION FRANÇAISE portent la marque paradoxale d’une ambiguité continue. La devise “Politique d’abord”, cent fois expliquée, et dont Maritain a encore montré dans son premier texte sur M. qu’elle avait un sens recévable dans l’ordre des moyens, elle a son sens, mais l’équivoque y subsiste. Et plus encore les formules de la Déclaration de la Ligue d`Action Française: “Un vrai nationaliste place la patrie avant tout” et il la défend “par tous les moyens” (JF,336). E note-se que, nesse tempo, Maritain era amigo de M. e simpático à Action Française.

A pátria acima de tudo? M. protestaria que não disse “acima de tudo”. Disse “antes de tudo”. Antes de Deus? Antes da Igreja? Antes da verdade, da lei e da justiça?

E será lícito defender a pátria por todos os meios? Por acaso também na defesa da pátria, não estão os meios subordinados à Moral ? Ou o fim – defesa da pátria – está acima, ou deve ser anteposto ao Bem e à Justiça?

Vê-se bem, por essas afirmações citadas, como o nacionalismo de M. pode facilmente ser confundido com o nacionalismo fascista ou nazista, e porque alguns maurrassianos acabaram por se tornar colaboracionistas dos “boches” de Hitler, ocupadores da França.

“Mais si l’équivoque a toujours habité ces formules, plus encore va-t-elle éclater dans un temps où c’est du mot de nationalisme que se parent les systèmes du type fasciste et plus encore l’hitlerisme lui-même” (JF, 336). Todo o pensamento de M. sofreu dessa ambiguidade. E, para defender-se dela, ele recorreu ao sofisma. Argumentando contra os que o acusavam de imoralismo ao querer que a pátria fosse defendida “por todos os meios”, ele respondeu, citando vários documentos pontifícios, nos quais os Papas recomendam aos católicos que usem “todos os meios” para difundir o catolicismo… Cremos que não é preciso mostrar que defender a pátria por todos os meios, e difundir a fé católica por todos os meios, não são coisas iguais.

Qual a doutrina de M.? Que pensava ele? Qual era o seu sistema? Poucos poderão responder claramente essas questões, porque o próprio M. não as respondia clara e sistematicamente. Durante longo tempo, ele se recusou a admitir que tinha uma doutrina.

“Mais toujours il s’est refusé à donner de ce qu’on a appelé sa “doctrine” (lui même proscrivait le mot qui lui semblait impliquer quelque chose de scolaire, de formel, de figé) un exposé méthodique, sa méthode était de partir de faits de l’évenement quotidien de le commenter à la lumière de la raison, de s’éléver alors à des vérités générales. Rien de moins dogmatique” (Pierre Gaxotte, prefácio citado, p. 13).

Nada menos dogmático. Nada mais vago ou fluido. É claro que essa recusa de apresentar uma doutrina de modo sistemático, permitiu a M. um largo espaço para manobrar politicamente, agradando desde os anarquistas e socialistas até os monarquistas legitimistas. O difícil é compreender como essa fluidez dogmática pôde conciliar-se com o dogmatismo católico. Como os católicos – homens das certezas e dos dogmas explícitos e claros – puderam seguir a reboque de um pensador que recusava dizer qual era sua doutrina?

Ele é tido como o chefe de um dos mais ardorosos movimentos apoiados pelos católicos no século XX, e pessoalmente foi incrédulo até a soleira da morte. Punha-se como defensor da Igreja, e estadeava sua admiração pelo paganismo. Proclamava-se romano, porque era humano… Admirava a Igreja , mas blasfemara contra o Cristo hebreu – e não se retratou dessa e de outras expressões blasfemas, do modo que seria necessário – e quis subverter o Magnificat (adiante veremos os textos).

Atacava o Hitlerismo, mas era profundamente anti-semita. De um anti-semitismo de Estado e não de pele ou de raça, como fazia questão de distinguir. Era anti-judeu, nacionalista e defensor de um socialismo nacional. E até hoje se discute: foi M. um colaboracionista do ocupante nazista da França, ou não? Seu anti-germanismo superou seu anti-democratismo, impedindo-o de aderir totalmente ao nazismo, ou não?

Condenou e elogiou o fascismo e Mussolini, cujos métodos de violência utilizou. Opunha-se à barbarie comunista, mas considerava que o pior mal do século XX não era o comunismo e sim a Democracia, a ponto de afirmar que um comunismo não democrático seria mais aceitável que a Democracia.

Afirmava-se profundamente monarquista, e defendeu a restauração do trono como a única solução política para a França, mas… chegou a preconizar para ela uma monarquia socialista. Ele foi monarquista, sim, mas… sindicalista… Foi monarquista sim, mas… anti-aristocrático.

Defendia a supremacia da razão, mas admitia a Quiromancia e a Numerologia, a paixão, e a tomada do poder pela força. Pretendia defender a lógica, a coerência e a supremacia do pensamento, mas tinha fobia da Metafísica e da teoria pura.

Criticou duramente o Romantismo, mas admirava e decorava Lamartine, Musset e Hugo. Era contrário ao amor romântico, mas ficava, à noite, na calçada, em frente da casa de uma mulher, mãe de três filhos, pela qual estava apaixonado e fez uma poesia sobre esse tema. Aliás, essa não foi o único amor adulterino de M., o “anti-romântico”.

Foi essa ambigüidade do positivista M. que permitiu reunir na ACTION FRANCAISE (AF) católicos e ateus, monarquistas e socialistas, aristocratas e anarquistas, nobres e proletários, tradicionalistas e sillonistas, positivistas, tomistas e bergsonianos, etc. “Politique d’abord…” E a panela política de M. teve boca tão larga que por ela passaram ingredientes de todos os tamanhos e de todas as naturezas…Com isto, a AF tornou-se uma “bouillabesse” heterogênea e envenenada. É devido a essa ambigüidade doutrinária que é possível acusar M. de muitos erros e, ao mesmo tempo, defendê-lo como paladino de verdades opostas a esses mesmos erros. É desta ambigüidade que nasce a perplexidade do leitor não apaixonado por M. Ele era tão ambíguo que o acusaram de sistematicamente empregar uma linguagem cifrada. M. utilizava terminologia católica, mas dando-lhe um sentido diferente do normal.

Escreveu o Pe. Doncoeur que M. e os positivistas ateus da AF “ne donnent pas aux mots le même sens [que os católicos] et qu’ils évoluent dans des ordres différents. Les mots, les formulessont les mêmes. Le positivisme emprunte au catholique tout son discours et reproduit à s’y méprendre les gestes du fidèle. La concordance sera poussée scrupuleusement jusquáu moindre détail, et cependant l’incroyance demeurera rigoureuse. Inconséquence? Incohérence? Pure feinte?

Nullement. Mais l’équivoque au sens technique du mot. L’on emploiera bien les mêmes mots, mais il est impossible qu’on leur “supose” le même sens; cet usage du discours a deux clés idéologiques constitue un véritable système de double écriture” (PRP,35).

Terá sido esta uma acusação exagerada de um Padre inimigo de M., cujas idéias liturgicistas o tornam suspeito? Clamarão os atuais defensores de M. por sacrilégio?

Considerem eles, porém, antes, o que o próprio M. escreveu. Ao republicar Anthinéa, em 1912, M. expurgou dela algumas frases, e explicou que o fazia porque “le sens caché [do texto] dans un trop subtil filigrane devenait susceptible de scandaliser sans raison le public…la nouvelle édition substituant (quand ce fut utile) au langage chiffré la rédation en clair… Le livre ne pouvait devenir orthodoxe mais était dégagé de l’aspect de volonté agressive qu’il pouvait revêtir antérieurement pour les yeux inhabiles” (CM., L’AF et la réligion catholique, pp 136-137, apud PRP,36).

É a ambigüidade de M. levada até à criptografia que causa tantas polêmicas. Após ler seus capítulos, o leitor é obrigado a relê-los, e se pergunta: “Afinal, qual é a posição do autor? Que quis dizer ele realmente? Afinal, o que defendeu realmente M.? Até hoje ele causa perplexidade e polêmicas envenenadas. Não queremos nem o equívoco, nem a linguagem cifrada. Nem o veneno.

VI – Desprezo pela Metafísica

“Tout est relatif, voilà le seul principe absolu”

(C. Maurras)

Esta é uma das causas mais importantes dos erros de M., assim como da confusão a respeito de seu real pensamento:

“Nous ne sommes pas métaphysiciens, proclame-t-il” (JF, 129).

M., discípulo de Augusto Comte, tinha desprezo pela Metafísica. “Et pourtant ce mot de métaphysique, il apparait dans le vocabulaire de Maurras, ainsi que celui de moral comme synonime de mauvais, imprécis, irrationnel, non soumis à l’ordre qui est celui des vies humaines, étranger au réal connaissable” (JF,165).

“Alors, comment établir une doctrine de la société, si la société est liée à l’essence de l’homme, et si l’on professe ne rien savoir de cette essence? Aussi Maurras répond-t-il qu’il ne propose point une doctrine, mais des leçons de l’expérience, d’une expérience faite de longtemps, de toujours” (JF, 129).

Ora, essa substituição da Metafísica pela experiência social é, de fato, a aplicação da lição do Positivismo de Comte, que colocou a Sociologia no lugar da Metafísica. É de se estranhar, então, que M., grande admirador e seguidor do fundador do Positivismo, afirmasse uma igualdade de valor entre Augusto Comte e Aristóteles? O leitor crê que exageramos e que M. não chegou a esse absurdo ?

“En philosophie, Comte, est aux yeux de Maurras ce qui fut Aristote” (JF,75). O positivismo de M. vai tão longe que considera que não só o ser do homem é inatingível pela razão, mas Deus e o próprio ser também não podem ser objeto do conhecimento real humano. M. é – até certo ponto, pode-se dizê-lo – um nihilista.

Em um texto inédito – La merveille du monde – analisado pelo principal discípulo de M. , Pierre Boutang, este pergunta:

“Pourquoi? Pourquoi rien? Les six premières [conclusões] affirment l’impossibilité (il a d’abord été écrit difficulté) du Dieu unique comme de la dualité divine des manichéens; l’aboutissement est “qu’il faut être nihiliste en métaphysique” L’intéret de Maurras pour le nihilisme n’a jamais faibli” (PB,117). E esse mesmo insuspeito autor comenta que “Nihil est égale à ne hilum, même pas le hile, le point noir au haut de la fêve, par où celle-ci reçoit les sucs de la terre… Autant dire que ce “rien” est tout, promesse ou condition de tout, et que le nihilisme a des chances de contenir non une simple désespérance, mais un désir forcené qu’il y ait de l’être. Ce serait une analogie entre Maurras et Heidegger qu’il n’a pas connu: le philosophe allemand a noté que lorsqu’il parlait de néant, celà voulait dire être, et que cette singularité, méconnue lors de ses premières traductions en français n’avait été devinée qu’au Japon. Nous allons prendre conscience, avec La merveille que le nihilisme y est terriblement fécond, et que son adoption philosophique mène au “réisme” le plus décidé pour tout le reste” (PB,118). E pouco adiante PB confirma a objetividade de sua análise do nihilismo de M., citando uma frase dele: “le néant signifie peut-être le Tout” et cela confirme notre analyse de nihil” (PB,118).

Bem curiosa análise que, a pretexto de inocentar o nihilismo maurrassiano o liga ao do existencialista – e portanto gnóstico – Heidegger. E, para os que considerarem errada a classificação de Heidegger como gnóstico, recomendamos a leitura da obra de Hans Jonas (Cfr. Hans Jonas, Gnosticisme, existencialisme et Nihilisme, epílogo da obra do mesmo autor La Religion Gnostique, Flammarion, Paris, 1978, pp. 417-442). E esta aproximação analógica entre o nihilismo gnóstico-existencialista de Heidegger e o de M. nos permite sublinhar os traços gnósticos – porque não dialéticos – entre nada e tudo feito por Maurras, assim como a repulsa pela Metafísica e pelo ser, elementos típicos de uma estrutura de pensamento gnóstico. Note-se que não estamos afirmando que todo o sistema de M. é gnóstico. Sublinhamos apenas que algumas de suas teses são gnósticas.

É de se estranhar, então, que M. conclua que se é preciso ser nihlista na ordem Metafísica, é preciso também ser maniqueu em arte? É o que constata PB, o fiel discípulo de M.: “Seulement, comme il assurait au départ qu’il faut être nihiliste en métaphysique, et malgré l’unité de la Beauté et de sa Loi, il pose qu’il faut être “manichéen” en Art, l’art étant “incliné “sur le mal et radieux dans le Bien” (PB,124). E as aspas da palavra “manichéen” pouco salvam a afirmação.

A ambiguidade de M. exige que citemos outro texto: “Et quand Barrès se dit “nihiliste”, Maurras répond tout au contraire: “J’ai le sentiment [e note-se a palavra "sentimento" num autor que pretendia combater o Romantismo, acusando-o de colocar o sentimento, como guia, acima da razão] qu’il y a, peu de chose, mais enfin quelque chose”. Que de profondeur, métaphysique, ontologique, dans cet il y a, dans cette affirmation de l’être comme senti” (JF, 169). (Obs.: o sublinhamento é de JF). Que Romantismo! Que cheiro de Gnose Modernista neste “être comme senti”, dizemos nós!

Esta recusa da Metafísica e o nihlismo de M. – em que pese o seu sentimento de que, no fundo, alguma coisa, embora “peu de chose” – explicam algumas de suas afirmações surpreendentemente bergsonianas, e, portanto, claramente gnósticas, por serem negadoras do ser.

“Et Maurras a – en 1901 – cette remarque qui nous étonnera beaucoup sous sa plume: “Nous ne savons jamais avec exactitude où nous en sommes, et cela pour une raison assez fine: nous ne sommes pas” ( JF, 119).

“Nous ne sommes pas”!!! Isto é, não somos, não existimos!!! Para um líder de católicos direitistas, é realmente demais, ainda que isto tenha sido escrito em 1901!

E JF comenta assim esta declaração anti-ontológica:

“Et quoi! Cette note bergsonienne, cet “éléatisme”, cet “évolutionosme chez Maurras? Oui. Et il [M.] insiste: “Non, nous ne sommes pas. Du mois cette partie de nous-mêmes dont nous notons les variations et les aventures manque tout à fait de stabilité et de permanence. Elle échappe aussi, comme tout ce qui manque d`être, à de fermes définitions. Nous sommes non des êtres mésurables, définissables, mais des forces en continuelle transformation”. Ainsi parle ce Maurras qu’on tient pour l’homme du “tout fait”, l’apologiste d’une notion de l’homme purement statique et fermée sur elle même. Le vocabulaire même nous enseigne: “comme tout ce qui manque d’être”. Le philosophe catholique, tomiste, entend bien ce que cela signifie: Dieu seul est, et toute sa création n’est que participation à cet être. Sur cela, on le sait, Maurras ne se prononce pas, mais ce qu’il constate est dans cet axe: nous manquons d’être et sommes “en continuelle transformation” (JF,119).

A tentativa de tornar tomista a afirmação de que “nós não somos” nos parece mais do que forçada. Ela não salva o “nihilismo” de M., nem sua tese de que estamos “em contínua transformação”, que é claramente heraclitana e bergsoniana. Portanto, gnóstica. Não temos dúvida, porém, que os atuais defensores de M. procurarão defendê-lo dizendo que estas frases de M. são de 1901. Quereríamos saber quando, depois de 1901, ele as renegou…

De onde provinha o nihilismo e o gnosticismo dessas teses do jovem M.?

“Le desespoir métaphysique qui n’avait pas cessé d’habiter la grande âme solitaire (…) de Maurras” (JF,348) provinha de sua incompreensão e revolta diante do problema do mal. Exatamente o problema que está na origem de toda Gnose.

O problema do por quê do mal no mundo – do mal físico ou moral – tornou-se agudo para o espírito de M. devido à surdez que o acometeu na adolescência.

“(…) le jeune Charles Maurras ruminait à longueur des journées certains problèmes philosophiques qui l’obsédaient et le faisaient retomber dans les tenèbres. Ces problèmes, c’étaient le problème du mal, le problème de la Providence, ceux-là mêmes qui l’écharde dans sa chair, le mal physique, sa privation mystérieuse, posaient à son esprit et dont il se sentait accablé” (JF,394).

Com a questão do mal punha-se a M. a pergunta: “comment y trouver la marque du Dieu bon?” (JF,394). “Alors, comment accepter l’idée que le mal est au coeur même des choses belles, que le péché s’y enracine, et surtout qu’un Dieu que ne saurait être que Bon et Bien y a soumis ses créatures, plus: les tente avec lui?” (JF,395). Ainda no final de sua vida M. dizia: “je n’arrivait à comprendre comment Dieu qui est le Souverain Bien peut tolérer le mal” (JF,410-411). Por isso, M. até às vésperas de sua morte não rezava o Pai-nosso, porque não compreendia e não aceitava a petição “ne nos inducas in tentationem” (JF,395).

“Aussi le dernier mot du Pater sera-t-il presque jusqu’à la fin le scandale de Maurras: “Ne nous induit pas en tentation” Il se demandait si ces mots n’étaient pas “un vestige du premier jansénisme, ou Paulinien, ou augustinien”. Ce qu’il nommait “la lèpre semite”, c’était cela: l’idée d’une salissure du monde, d’une souillure de sa beauté.” (JF,395).

Nessas frases de M. citadas por JF – e frases ditas pouco antes de morrer – se revela uma recusa orgulhosa de que o homem possa ser tentado, e de que no mundo haja males. Revela-se ainda uma crença soberba e pagã na perfeição absoluta do homem e do mundo. Há em M. uma repulsa orgulhosa das imperfeições. Sua repulsa pela “salissure” da natureza cheira fortemente a Gnose. Na realidade, M. recusa aceitar duas coisas: o pecado original e a própria contingência do ser criado.

Vistas estas coisas, compreende-se que M. tenha constatado que no homem há “la melancolie de ne pas être Dieu” (JF,35). “Au désir d’être Dieu qui habite les hommes, voici donc la première réponse: nous ne sommes pas des dieux. C’est déchirant, mais c’est vérité” (JF,36).

Curioso é encontrar em M. a idéia de que o homem lamenta não ser Deus, idéia que Lutero exprimiu nas teses que apresentou em 4-IX-1517: “De maneira nenhuma é válida a sentença: o homem pode querer, por sua natureza, que Deus seja Deus. Na realidade, preferiria que ele próprio fosse Deus, e que Deus não o fosse” (Lutero, tese 17 das 98 remetidas a Erfurt e Nuremberg, por ocasião da formatura de Franz Gunther de Nordhausen, apud Gottfried Fitzer, O que Lutero realmente disse, Civilização Brasileira, Rio de Janeiro, 1971, p.26).

O nihilismo de M. e seu espírito anti-metafísico, seu orgulho, sua recusa em aceitar o mal relativo, sua revolta contra Deus que permite a tentação, o sofrimento e mesmo o pecado, sua melancolia de não ser Deus, provocaram o desejo da morte. Já que o homem não é Deus, é melhor não viver. É melhor não ser. É o que ele escreveu em seu livro Chemin de Paradis, que a Igreja colocou no Index: “Il y a, dans tout le Chemin de Paradis, une obsession et comme un véritable appel de la mort: “Je n’eus d’attachement véritable qu’aux lieux où l’on songe en paix à la mort, les églises, les sépultures, les lits de sommeil et d’amour. Ma joie essentielle fut de me sentir qui mourrais” (JF,382).

E, para ele, pelo menos durante parte de sua vida, além da morte, não havia mais nada.

“Ce qui importe au jeune Maurras c’est de “marquer son nom avant que de mourir”, car “espérer l’immortalité ne convient pas au genre humain. Il nous suffit de vivre avec quelque beauté, c’est-à-dire, de prendre une conscience profonde de nos forces et de les montrer” (JF,382).

É de estranhar então que ele concluisse: “Les problèmes métaphysiques ne sont résolubles que par la méthode expérimentale qui consiste dans le suicide” (JF,383).

Mais tarde, M. mudou um tanto essa posição nihilista e suicida, mas sem chegar à solução de seu problema fundamental. Falando de seus amigos e discípulos da Action Française que haviam morrido, “Maurras court au devant de ces poursuivances funèbres”: “je leur parlais, les priais, et les questionnais sur leur sort, sur le mien, ou plutot sur le lien que la mort n’avait pas pu rompre entre elles et moi. Je mentirais en présentant cet interrogatoire des Ombres comme dérivé ou de curiosité, ou de l’angoisse du problème philosophique et religieux. Il ne s’agissait pas, au reste, de sonder notre avenir d’outre-tombe. Je ne tentais pas d’éclaircir quelle navigation lointaine entreprend le principe secret, l’impalpable soufle de vie (personnel? ou impersonnel?) qui ne me semble pas pouvoir ne pas survivre à notre cendre” (JF,384).

Eis aí um texto de M. em que ele admite “O impalpável sopro de vida” que existe em nós. Admite ainda que “o princípio secreto”que nos anima sobreviverá. Mas, ele manifesta dúvida se esse princípio secreto é pessoal ou impessoal. Nem M. dá maior importância a qual seja o futuro desse “princípio secreto”. Ele apenas admite: “Sûrement, nous ne disparaissons pas tout entier. Quelque chose d’immortel est en nous” (JF, 389-390). Até o fim da vida sua crença permaneceu ambígua: “Je n’ai jamais nié le surnaturel – écri-t-il à Xavier Valat em 10-IX-1952. La dificulté est de savoir où il commence” ( JF,411).

Agnóstico e descrente do Bem infinito que permite o mal neste mundo, o jovem M. dizia ter horror do infinito (JF,38). Para ele, só vale o finito, o definido. Só há luz – luz da verdade – no que é definido. Ele recusava entregar-se ao “sentiment de l’infini”: tout est nombré et terminé… définitions certaines et justes confins hors lesquels s’étend un obscène chaos” (JF,34).

“L’infini! Le sentiment de l’infini! Rien que ces mots absurdes et ces formes honteuses devraient induire à retablir la belle notion du fini. Elle est bien la seule sensée. Quel Grec là dit? La divinité est un nombre, tout nombre est terminé” (JF,235).

Quando se acusava M. de que esses conceitos eram inconciliáveis com a noção cristã de Deus, ele se defendia dizendo que por infinito entendia o indefinido.

M. queria atacar a noção de infinito dos românticos alemães, mas sua confusão entre infinito e indefinido é inaceitável. Como é inaceitável sua escusa, pois ele foi um autor que defendia exatamente os conceitos claros e definições precisas.

Pelas mesmas razões que não aceitava o infinito, M. não aceitava também a eternidade. “Avoir raison, c’est encore une des manières dont l`homme s’éternise”, dizia M. (JF,113).

“Faute d’avoir trouvé une éternité personelle, c’est dans la victoire de la raison que M. cherche la durée de quelque chose d’humain; amener la Cité à une vie raisonable, c’est assurer cette durée”.

“S’il est vrai, comme l’écrivait M, que les idées ont leur visage, leur plein sens et leur pure beauté à l’heure où elles naissent, nous tenons là l’idée maurrassienne a l’état pur. Elle a quelque chose de religieux puis qu’elle se propose une éternisation de l’homme (…) (JF, 113).

No lugar da eternidade e da imortalidade, M. coloca então a duração, a permanência. “Telle est… la première situation intérieure de M. devant la mort et qui va créer en lui l`obsession de ce qui peut susciter la durée” (JF,383).”Le monde peut durer, il y a une permanence, celle des lois de l’univers, de l’ordre du monde. Pour la Grèce, “la Mort doit elle être elle-même avertie que le monde s’est enfin senti et connu sous la forme d’éternité, dans ses rapports invariables, dans ce lois qui ne branlent point” (M. apud JF,381).

Para M. então, não foi Cristo que venceu a Morte (com M maiúsculo) e nos deu a vida eterna. Foi a Grécia que nos deu a “eternidade” humana, que é mera permanência, simples duração.

“Qui entre dans l’ordre de l’être, échappe à la mort. C’est en ce sens que le fini est précisement ce qui est refusé à la destruction” (JF,389). “Ce qui dure n’est pas seulement participation à la vie mais participation à l’essence de l’univers” (JF,381).

“Mais entre cette permanence de l’être ou des êtres et l’amoureuse puissance d’un Dieu créateur quel abîme encore! comment ne pas voir que tout se distingue à peine d’un panthéisme que pourtant, Maurras refuse” (JF,391).

M. podia dizer que recusava o panteísmo, e mesmo afirmar que admirava o valor de São Tomás, de Santo Agostinho e de Bossuet, enquanto defensores de verdades duradouras. Isto não era suficiente para impedir que seus leitores ou seguidores tirassem conclusões panteístas do que ele escrevia.

Em vez do Infinito, o definido; em lugar da Eternidade, a permanência, em lugar da Metafísica, a Física Social construtora da Cidade. “Ce que la métaphysique, ce que l’ontologie ne lui donnaient pas, il l’a cherché dans la transmission sociale, dans la tradition des richesses de l’esprit. De là que la vie sociale est, pour lui, devenue majeure: elle lui a, en quelque sorte, tenu lieu d’ontologie, de métaphysique” (JF,118). “Faute d’avoir trouvé la source métaphysique, Maurras en a cherché les conditions dans la vie des hommes en groupe, dans la cité” (JF,389).

A cidade aspirada por M. seria construída pela aplicação da experiência social consubstanciada na tradição. Vê-se então que o próprio conceito de tradição maurrassiano é mais próximo do positivismo de Comte do que do catolicismo.

Assim como M. não conseguia compreender o problema do mal, nem aceitar o Deus que permite a tentação, assim também sua noção de Cidade era utópica, no sentido em que a Utopia é eliminação de todo o mal social.

“Il a desiré un monde où le beau ne serait pas marqué de péché, où le temps s’outrepasserait lui-même par des créations perdurables, où le beau, le vrai, le bien comporteraient des cités harmonieuses dans lesquelles “les meilleurs” communiqueraient leurs biens à tous parce que ce Beau, ce Vrai, ce Bien seraient la Loi totalement connue. Oui, c’est de cet univers humain et social sans péché qu’à rêvé Maurras” (JF,396).

Esta busca da Cidade Ideal acabaria por ser um absoluto para M.: “Est-ce donc que, comme son maître Comte, Maurras pense que la société est la fin dernière, l’absolu, puisqu`il n’en est plus d’autre? C’est bien que paraît dire la Déclaration de la Ligue d’Action Française quand elle demande qu’un “vrai nationaliste place la patrie avant tout” (JF,401).

É de espantar, então, que esse anti-metafísico tivesse afirmado que:

“TOUT EST RELATIF, VOILÀ LE SEUL PRINCIPE ABSOLU” (C. Maurras, Romantisme et révolution, pp 92-93, apud PRP, 68).

Não, esse relativismo radical e contraditório, por mais absurdo que seja, não é de causar espanto em quem recusava a Metafísica. O que é de espantar, o que é incompreensível, isto sim, é que esse homem , até hoje, engane tantos católicos franceses e até alguns sacerdotes.

 

VII – Maurras e Deus

Nascido de família católica, M. muito cedo perdeu a fé. Depois, a admiração pelo mundo grego levou-o ao paganismo e ao agnosticismo. Frutos dessa decadência espiritual foram suas frases laudatórias do “Pater-Chaos” assim como suas blasfêmias contra o Cristo hebreu.Vimos já que sua posição anti-metafísica o levou a exprimir pensamentos de nítida inclinação gnóstica, como, por exemplo, a identificação do ser com o nada, e do nada com o tudo.

“Le néant signifie peut-être le tout” (PB,118). E o “peut-être” inserido na frase é típico do espírito ambiguamente resvaladio de M.. Mais tarde, ele se aproximou politicamente do catolicismo, o que não trouxe mudanças em sua posição diante do problema da existência de Deus.

“Mon amour du catholicisme n’est point aussi extérieur que vous le définissiez. J`en aime l’ordre intellectuel et moral. Mais, dans la sphère du vrai, nulle considération ne peut diminuer dans mon esprit le repos, la satisfaction que me donne l’image du Pater – Chaos d’où s’élancent les hommes et les dieux. Le Beau, la vertu, la grâce, l’ordre me semblent des effets accidentels (et d’autant plus précieux) plutôt que des causes ou des fins” (PB, 322).

“Dès les premiers mots de la Merveille du Monde, le Dieu unique est rejeté” (PB,124). Apesar desta afirmação, Pierre Boutang garante que M. “ne fut jamais déiste, c’est-à-dire, athée sans franchise” (PB,124). Entretanto, sua posição face ao problema da existência de Deus era, quando muito pragmática, pois, no máximo, interessava-lhe saber se a idéia de Deus era ou não benfazeja do ponto de vista político-social. “En dépit du grand préjugé que l’autorité de Voltaire a fait régner en France, c’est une question de savoir si l’idée de Dieu, du Dieu unique et présent à la conscience, est toujours une idée bienfaisante et politique” (C. Maurras. Romantisme et Révolution, p.273, apud PRP, 122). M. não era deísta, isto é, ateu sem franqueza, nos diz Boutang. Quererá ele nos dizer que M. foi francamente ateu? Isto explicaria porque ele discutia ou duvidava de que a idéia de Deus fosse realmente benfazeja e política… Ateísmo ou monoteísmo, para M. não era então um problema teológico e sim político…”Politique d’abord!”

Nem teísta, nem deísta. Recusando tanto o Deus único quanto o Deus, Sumo Bem, que permite o mal e a tentação, M. simpatizava com a idéia do Pater-Chaos, tudo-nada, tão parecido com o conceito gnóstico da divindade sem nome. Tendo em mente esses pressupostos, tornam-se muito curiosas as seguintes afirmações do maior discípulo de M. a respeito das idéias de seu mestre sobre Deus:

“Encore au-delà, et cette fois du dehors, en transcendance absolue, il ne peut plus y avoir, comme paradigme de tous les sacrifices, que la Kénose de Dieu, le vide que Dieu fait en lui-même dans l’Incarnation et la passion Fils” (PB,129).

Que vazio fez Deus em si mesmo na Encarnação e na Paixão? Pode o ser divino estabelecer em si mesmo o vazio, isto é, o não-ser? Se o ser é o bem, este vazio é o mal? Haveria então o mal no próprio ser de Deus? Que estranho e conhecido cheiro de Gnose há nestas frases. Com efeito, é na doutrina cabalista de Isaac Lúria de Safed que se fala de um vazio que a divindade teria feito em si mesma, a fim de poder aí criar o universo (Cfr. G.G.Scholem, A mística judaica,- Major trends in Jewish mysticism – Perspectiva, São Paulo, 1972, 263 e s.). Não queremos afirmar que Pierre Boutang aceitava a doutrina luriânica. Apenas constatamos, em seu pensamento, um ponto de semelhança com a doutrina cabalista de Isaac Luria de Safed.

As frases blasfemas de M. sobre o Cristo hebreu foram dos tempos de sua juventude agnóstica e pagã.

“Il paraît bien que là soit [a defesa das hierarquias sociais que permanecem] la sagesse dernière de Maurras du Chemin de Paradis. Le sage Criton s’insurge d’apprendre qu’un Christ hébreu viendra au monde, rachetera l’esclave, et, déposant le fort du thrône, placera les premiers plus bas que les derniers, pour que sa gloire soit chantée dans la vie éternelle” (JF,38).

Esta citação de JF nos parece benévola demais se for comparada com o texto completo da passagem da qual foi tirada: o sábio Criton leu consternado, nas portas do inferno, as letras prenunciando que:

“Un Christ hébreu viendra au monde, rachêtera l’esclave et déposant le fort du trône, placera les premiers plus bas que les derniers pour que sa gloire soit chantée dans la vie éternelle”.

Criton interroga então o deus Mercúrio:

— “Ce Christ hébreu… est-il venu?”

— “Il est venu, Criton”.

— “A-t-il chassé les forts du trône, ainsi qu’il le promettait?”

—”Il l’a fait”, dit Mercure.

Mais les échos élyséens répetèrent en gémissant:

— “Il l’a fait, il l’a fait !”

— “Il a mis les premiers au-dessous des derniers? Il a rendu Cléon l’égal du fils de Sophronisque?”

— “Mon Criton, ces rêveries s’accomplissent.”

—”Et cela a réussit?”

— “Tout arrive, Criton.”

Le sage Criton soupira. Il comprennait peu que l’absurde eût ainsi triomphé.

— “Hélas! Mercure, reprit-il, je sais aussi que les esclaves au nom du même Christ doivent un jour être affranchis. Est-il temps de s’y opposer?”

—”Voilà près de trois cents soixante-treize olympiades que l’Hébreu criait sur sa croix : “Cela est consommé”.

Oui, depuis ce moment, les esclaves ont reçu le gouvernement de leur âme. Ils ne sentent plus d’autres jougs que ceux de vivre et de mourir. Ils disposent de tout leur coeur. La servitude est abolie, chères ombres!” (C. Maurras, Chemin de Paradis, p. 202-203, apud PRP, 85-86)

Ao lado da blasfêmia, o absurdo: M. despreza a Cristo e lamenta que o Cristianismo tenha abolido a escravatura. Os atuais admiradores de M. defenderão também essa blasfêmia e esse absurdo de seu mestre intocável?

Para o jovem M., a vida de Jesus foi contada nos “évangiles de quatre juifs obscurs” (JF,392). “Le catholicisme traditionel (…) soumetant les visions juives et le sentiment chrétien à la discipline reçue du monde hellénique et romain, porte avec soi l’ordre naturel de l’humanité” (JF,67). “Le mérite et l’honneur du catholicisme furent d’organiser l’idée de Dieu – écrit Maurras – et de lui ôter ce venin” (du déisme sans dogme et sans Église (JF , 393).

No final de sua vida, M. mudou um tanto sua posição nessa questão. Mas, até mesmo Pierre Boutang, seu mais fiel discípulo, reconheceu que “(…) l’idée d’un catholicisme sauvant le monde du “Christ hébreu” est la pire, la moins défendable, qu’ait connu Maurras. Pourquoi nier qu’il l’ait effectivement conçue? Le Christ dans la nature humaine était hébreu, et même un patriote juif” (PB,328). Só que, quando M. faz o deus Mercúrio chamar Cristo de “hébreu” , ele não estava constatando apenas sua origem nacional. Era em tom anti-semita e depreciativo que o adjetivo era colocado. Entretanto, não é apenas a blasfêmia que se deve condenar nesse texto de M. citado acima. Deve-se condenar também a defesa da escravidão.

Em carta a Maurice Barrès, em junho de 1891, o jovem M. afirmou que era preciso inverter o Magnificat para que houvesse verdadeira ordem social:

“Le premier postulat de la Vie, c’est l’organisation et l’organisation suppose un ordre, et l’ordre suppose le mépris des inférieurs, l’exaltation des supérieurs, ceci systématisé, cristalisé par la Tradition, la Coutume, l’Hérédité. Le Magnificat retourné, voilà, à mon gout, la véritable doctrine sociale, je l’ait dit à la Réforme Sociale” (JF,66).

Evidentemente, essa interpretação do Magnificat é falsa. Repare-se que M. pede, além da defesa da ordem – o que é legítimo – a exaltação dos superiores e o desprezo dos inferiores, tal como o fará o Nazismo com sua idéia de raça superior. E esta exaltação dos superiores, e este desprezo dos inferiores não são católicos. Considerar que a ordem, selo da Sabedoria de Deus no universo, implica no desprezo dos inferiores, é anticristianismo. Esse erro de M. era a conseqüência natural de sua incompreensão do problema do mal, que logicamente, devê-lo-ia conduzir ao culto da força, a uma sociedade cristalizada em castas e até à admissão da escravidão.

M. faz o escravo Andrócles dizer palavras absurdas a seu amo, em defesa da escravidão, considerando-a de acordo com a lei natural, ao ponto de justificar como um bem até as injúrias e as pancadas dadas pelo senhor a seu escravo.

“Mais, ô cher maître, le visage de la fortune sourit dans ta venue. Dis, ne nous quitte plus, car nous avons besoin d’un père, d’une mère et d’un ami fidèle. Tout de toi nous sera léger, les injures, les coups. Car cela fait partie de notre condition, et les pires maux appliqués aux places convenables deviennent les présents du ciel. Il n’est point de bonheur pareil à celui de remplir le message que Jupiter inscrivit en lettres divines, sur les épaules de chacun” (C. Maurras, Chemin de Paradis, p. 215, apud PRP, 94).

“Combien d’esclaves nés de notre connaissance retrouveraient la paix au fond des ergastules d’où l’histoire moderne les a follement exilés” (C. Maurras, Chemin de Paradis, LXXXVII, apud PRP, 97).

Esta absurda e louca defesa dos ergástulos como causadores da paz para os escravos, feita por M., explica porque – nós o veremos mais adiante – ele acabou por não repudiar a colaboração com o Nazismo, instaurador dos modernos ergástulos genocidas, tais como Auschwitz e Treblinka.

Como o reconhece JF, M. tinha uma concepção do universo oposta a do Cristianismo (Cfr. JF, 382).

“L’apologie du Magnificat retourné, la colère contre le Christ exaltant les derniers ont pu s’effacer ou disparaître, il n’en reste pas moins qu’elles avaient nourri les premières passions du jeune Maurras” (JF,402).

De novo, a citação de M. feita por JF esconde o que há de pior no texto original.

“Ce fut un des honneurs philosophiques de l’Église, comme aussi d’avoir mis aux versets du Magnificat une musique qui en atténue le venin” (C. Maurras, Chemin de Paradis, XXVIII-XXIX, 2a. ed., apud PRP, 81).

Mérito e honra da Igreja teria sido então o de “atenuar o veneno” do hino composto por Nossa Senhora, por meio da música gregoriana. E ainda se quer defender M. como pensador, cuja doutrina deveria ser estudada e seguida – e seguida! – pelos católicos, sem nenhuma crítica! Pois, qualquer crítica a M.é tida, por certos católicos franceses, como indício de heterodoxia!

Nem mesmo o “elogio” muito relativo e muito humano – e falso – de ter o Catolicismo submetido as visões judaicas à ordem racional grega é feito sem ressalvas por Maurras.

“On ne peut douter qu’il y eût un temps – et peut être un longtemps – où la venue “du Nazaréen” signifia pour Maurras l’avènement d’une ère où, à cause du Christ, “tout l’ancien monde s’écroula”, qui était celui de l’harmonie des choses parce qu’il avait ordonné la pensée dans la saisie du monde “fini” (Anthinéa). [Texto supresso por M. nas edições posteriores] (JF,403).

Um dia, M. escreveu uma poesia, na forma bem bela, bem enganadora por sua ambiguidade, bem reveladora em seu conteúdo.

AU DIEU INCONNU


(“Mentre che la speranza ha fior del verde”- Dante, Purgatorio)

“Seigneur, endormez – moi dans vôtre paix certaine
Entre les bras de l’Espérance et de l’Amour
Ce vieux coeur de soldat n’a point connu la haine
Et pour vos seuls vrais biens a battu sans retour.

Le combat qu’il soutint fut pour une Patrie,
pour un Roi, les plus beaux qu’on ait vus sous le ciel
La France des Bourbons, des Mesdames Marie,
Jeanne d’Arc et Therèse et Monsieur Saint Michel.

Notre Paris jamais ne rompit avec Rome.
Rome d’Athène en fleur a recolté le fruit,
Beauté, raison, vertu, tous les honneurs de l’homme
Les visages divins qui sortent de ma nuit:

Car, Seigneur, je ne sais qui vous êtes. J’ignore
Quel est cet artisan du vivre et du mourir,
Au coeur appellé mien quelles ondes sonores
Ont dit ou contredit son éternel désir.

Et je ne comprens rien à l’être de mon être,
tant de Dieux ennemis se le sont disputé!
Mes os vont soulever la dalle des ancêtres,
Je cherche en y tombant la même vérité.

Écoutez ce besoin de comprendre pour croire!
Est-il un sens aux mots que je profère? Est-il
Outre le labyrinthe, une porte de gloire?
Ariane me manque et je n’ai pas son fil.

Comment croire, Seigneur, pour une âme qui traîne
son obscur apétit des lumières du jour?
Seigneur, endormez-la dans votre paix certaine
Entre les bras de l’Espérance et de l’Amour.

(C. Maurras, Clairvaux, Juin 1950, apud PB,709-710)

JF diz que essa derradeira poesia do último livro de poemas de M. – LA BALANCE INTÉRIEURE – foi sublinhada, no exemplar que ele entregou ao cônego Cormier, e que seu título original, “Au Dieu Inconnu”, foi riscado pelo autor. E comenta Fabrègues: “En rayant ce titre, Maurras avait nommé son Dieu” (JF,413). É realmente ter muita boa vontade e contentar-se com bem pouco. Desde quando, um simples riscar de um título ambíguo, se torna uma confissão de fé?

Só que M. não denominou qual era o seu Deus. Na poesia – “d’ailleurs si belle” – a ambigüidade permaneceu. Até a morte, M. foi a permanência da ambigüidade. Ter riscado o título original é absolutamente insuficiente para se concluir que desse modo M. designou seu Deus. Só se seu Deus se chamava “Talvez”. Supor que esse Deus fosse Cristo é pura suposição – para não dizer imaginação – de JF. Limitar-se a riscar o título é absolutamente insuficiente, especialmente para um autor como M. que foi agnóstico confesso e que havia publicamente blasfemado contra “o Cristo hebreu”. Quem foi publicamente contra Cristo até a blasfêmia, convertendo-se, teria que manifestar-se pública e claramente a favor de Cristo até a proclamação de sua divindade. Como Tomé, M. deveria ter exclamado: “Meu Senhor e meu Deus” e não ter se limitado a riscar um título ambíguo sem por nada em seu lugar.

M. afirma, na poesia, que só lutou pelos verdadeiros bens deste Deus desconhecido. Como primeiro desses bens, ele não coloca nem a Redenção, nem a Revelação, nem a Igreja, nem os Sacramentos, mas apenas bens naturais: a “Pátria”, a França, seus Reis e heróis, dando um lugar para “Tereza” e para “Monsieur” Saint Michel – quase uma figura folclórica francesa, e não o Arcanjo da teologia católica.

Ele se orgulha por Paris jamais ter rompido com Roma. Mas não com a Roma de Pedro. A Roma a que ele se refere é a Roma pagã, herdeira da cultura grega. Beleza, razão, virtude, as honras do homem, que M. chama de “os rostos divinos” de sua noite.

Na estrofe seguinte, M., o “chétien du dehors” – expressão muito parecida com a dos cristãos anônimos do progressismo e da Teologia da Libertação – confessa que ignora o nome e o que é o Deus que dá o viver e o morrer. É uma estrofe claramente deísta, impossível de ser aplicada a Cristo.

Aquele que fôra louvado por não ser deísta, isto é, ateu sem franqueza, escreveu, quando já envelhecido e quase na hora da morte e próximo de confessar-se, uma poesia deísta que se deseja apresentar como uma confissão de fé em Jesus Cristo. Francamente, isto é ter muita vontade de desculpar M..

Nessa poesia M. confessa ainda que “nada compreende ao ser de seu ser” e que, para crer, ele tem necessidade de compreender. O que é o oposto ao ato de fé. Ele mostra duvidar até mesmo de suas próprias palavras, e, como os antigos pagãos, ele se vê no labirinto do mundo e dos conceitos sem fio condutor, sem guia e sem caminho. Como pode então ser chamado de “cristão” mesmo “du dehors”, aquele que não aceita que Cristo é o caminho, e que a Igreja é a Guia segura e a Mestra infalível dos homens? Como pode se sentir perdido no labirinto do mundo e dos conceitos quem aceitou a Fé Católica, confessando-se na hora da morte?

Não! Esta poesia – aliás, literariamente bela – não prova que M. se converteu. Deixa suspeitar o contrário. Em que pese ele ter riscado o título “Ao Deus desconhecido”.

A maneira de M. referir-se ao “Cristo hebreu”, ao “Nazareno”, tinha sido depreciativa. Até mesmo o maior apologista e discípulo de M., Pierre Boutang, foi obrigado a reconhecê-lo:

“Or, l’idée d’un catholicisme sauvant le monde du “Christ hébreu”est la pire, la moins défendable, qu’ait conçue Maurras. Pourquoi nier qu’il l’ait effectivement conçue? Le Christ dans sa nature humaine était hébreu, et même un patriote juif” (PB,328).

Dir-se-nos-á que, entre todas as concepções de Deus, M. preferia a católica. Triste consolação para nós. Veja-se, porém, nesta última citação que faremos sobre este tema, que posição tomava M. face à noção católica de Deus:

En conclusion, le catholicisme propose la seule idée de Dieu tólérable aujourd’hui dans un État bien policé” (C. Maurras, Romantisme et Révolution , apud PRP,124).

Considerem, pois, os atuais admiradores de M., que a idéia de Deus da Igreja Católica era, para ele, apenas “tolérable”, num Estado bem organizado.

E como podem tolerar tal absurdo os que rezam com fé o “Credo in unum Deum”?

VIII – Idéias políticas de Maurras: nacionalismo e socialismo

Quanto às posições políticas de M., Lucien Thomas nota que “le lecteur voudra bien méditer ces diverses définitions qui fixent la position de l’Action Française à l’égard du problème politique. Il n’y aura des modifications que dans le vocabulaire (…) (LT,32).

Ora, poucas páginas antes, Lucien Thomas havia escrito:

“Quand on parle des publications de l ‘Action Française, il faut distinguer l’Action Française qui se cherchait da l’Action Française qui s’est définie. Faute de quoi, on pourra, au bas du texte, écrire la référence “Action Française “, tome I ou II, telle page “et, sans commetttre un faux matériel, on se rendra coupable d’un véritable abus de confiance intellectuelle” (LT,28).

Sem dúvida, é preciso levar em conta as mudanças do pensamento de M., ao correr de sua longa vida. Mas é preciso também notar a “posição imutável” da AF com relação ao problema político. Nela haverá apenas modificações de vocabulário”, como nos advertiu Lucien Thomas. Portanto, há de se concluir que a posição de M. quanto ao socialismo nacionalista, por exemplo, jamais mudou.

Em 1898, M. foi enviado para fazer a cobertura jornalística da primeira Olimpíada moderna, em Atenas. Ele aproveitou a viagem para fazer uma verdadeira peregrinação à Acrópole e a outros locais famosos do paganismo grego. Foi por esse tempo, que ele acusou o Cristianismo de ter trazido a noite sobre o mundo.

“… sous la croix de ce dieu souffrant [Cristo] était arrivée la nuit sur l’âge moderne” (YC, 132). [A partir de 1919, M. retirou essa frase de seu livro, por respeito, disse, por São Pio X.... "Politique d'abord..."].

Foi o “affaire Dreyfus” que abriu as portas da vida política a M.. Ele tomou posição apaixonada contra Dreyfus e a favor do exército francês. Chegou a denominar de mártir o Coronel Henri, autor da famosa falsificação de um documento, para incriminar Dreyfus e salvar o exército, e que se matou ao ser descoberta a fraude.

Nessa época M. não era conhecido nem como jornalista defensor da Igreja, nem como monarquista, mas apenas como escritor anti-semita (cfr. YC,153).

Foi em 20 de junho de 1899, que nasceu a Action Française, cujo primeiro presidente foi Henri Vaugeois, um professor de filosofia, ligado, nesse tempo, ao partido radical. Entre os quatro pontos fundamentais do documento de lançamento da AF, destacamos o segundo, que diz :

“De toutes les formes sociales usitées dans le genre humain, la seule complète, la plus solide et la plus étendue, est évidemment la nationalité. Depuis que se trouve dissoute l’ancienne association connue sous le nom de Chrétienté et qui continuait, à quelques égards, l’unité du monde romain, la nationalité reste la condition rigoureuse, absolue, de toute humanité (LT,31). “Le nationalisme n’est donc pas seulement un fait de sentiment: c’est une obligation rationelle et mathématique” (YC,165).

É interessante notar que, três anos após a AF ter proclamado este princípio nacionalista, Leão XIII tenha ensinado exatamente o contrário numa encíclica:

“Repudiados os princípios cristãos nos quais reside a virtude de irmanar os homens e uni-los como em uma grande família, prevalece, pouco a pouco, na ordem internacional, um sistema de egoísmo e de inveja pelo qual as nações se observam reciprocamente, senão com rancor, certamente com desconfianças e competições” (Leão XIII, Parvenu, n.18).

Como estas palavras do Papa descrevem bem o nacionalismo de M. que proclamava a “deusa França” como sinônimo de civilização e de humanidade, enquanto negava, absurdamente – cego pela inveja e pelo rancor – qualquer valor a outros povos, especialmemnte se eram rivais da França, como era o caso da Alemanha.

“Les Allemands sont des barbares et les meilleurs d’entre eux le savent. Je ne parle ni des moscovites, ni des tartares. Le genre humain, c’est notre France, non seulement pour nous, mais pour le genre humain” (C. Maurras, MIP, 146).

O nacionalismo maurrassiano ia a extremos. Seu primeiro artigo no Figaro foi consagrado à “deusa França” (YC,184).

Esse nacionalismo radical exigia que os membros da “Ligue d’Action Française” se comprometessem a defender a monarquia francesa, par tous les moyens“. “Ce dernier engagement donna lieu à bien des controverses de la part du mouvement, la violence, le coup de force devaient-ils être envisagés comme des moyens pour restaurer la monarchie? L’AF n’écartait aucune possibilité. Bientôt elle précisera par une formule restée celèbre: “par tous les moyens, même légaux” [eleições] ( YC,208).

Evidentemente, essa confissão de utilizar todos os meios – mesmo os legais! – deixava bem claro que a AF utilizaria até os meios violentos, o que levantava um problema moral. Ora, já nesse tempo o Abbé Brémond escrevera a Blondel: “Ce diable de Maurras est le plus merveilleux des entraîneurs intellectuels (…) c’est un Socrate intellectuel, sans ombre de préoccupation morale, mais d’une logique extraordinaire” (YC,185).

Sem sombra de preocupação moral… Era lógico então que, “desde a fundação do jornal AF até às vésperas da primeira guerra mundial, não se passará um ano sem que um ou vários livros denunciassem a incompatibilidade da doutrina cristã com a obra de M. e a AF (YC,218).

Em Romantisme et Révolution, M. declarou:

“La Politique n’est pas la Morale. La science et l’art de la conduite de l’État n’est pas la science et l’art de la conduite de l’Homme” (C. Maurras, Romantisme et Révolution, p.20, apud PRP, 130).

Se M. subtraía a ação do Estado do domínio da Moral, como poderia ele aceitar sinceramente a atuação da Igreja Católica na sociedade?

Era só em razão de seu nacionalismo radical que M. se propunha defender o Catolicismo. Ele o dirá cem vezes e jamais o ocultou. Sua defesa da Igreja Católica nunca foi motivada pela fé, que ele nem tinha, nem aceitava. Ele defendeu a Igreja enquanto componente da Nação francesa. E só por isso.

“En tant que nationaliste, je sais que l’intéret français et l’intéret catholique s’identifient. Je reconnais donc des droits politiques au catholicisme français, je me reconnais des devoirs envers le catholicisme” (YC, 201).

Se tivesse sido o budismo um dos fatores da formação histórica da “Nação Francesa”, M. teria defendido o budismo. Não era por razões religiosas que ele defendia o Catolicismo, nem M. reconhecia-lhe direitos religiosos, mas apenas direitos políticos.

No item terceiro dos pontos fundamentais do documento de lançamento da AF, era adotada uma posição interconfessional:

“Par dessus leurs diversités politiques, religieuses et économiques, ils [os franceses] doivent se classer suivant le plus ou moins d’intensité et de profondeur de leur foi française” (LT,31).

Nesse item, pois, passa-se por cima sobre o problema de haver uma só religião verdadeira e que as demais são falsas, assim como se afirma o dever de classificar os franceses conforme sua “fé francesa”! Sua fé na “deusa França”.

M. confessou que foram suas convicções filosóficas – como poderia ser de outro modo? – que o levaram à defesa da monarquia: o monismo metafísico conduzia à aceitação da realeza (Cfr. YC,80). Nos últimos anos do século XIX e primeiros do XX, M. se aproximou de Maurice Barrès, ardoroso nacionalista. Escreveu no jornal “La Cocarde“, nacionalista e socialista, mas contra o socialismo estatista (???). “Bien d’autres campagnes allaient y être menées, nottamment contre le socialisme étatiste. “La Cocarde se voulait socialiste, mais d’un socialisme “féderaliste” où les droits de l’individu et les considérations nationales ne soient pas sacrifiés au coletivisme et à l’internationalisme” (YC,114).

“À la COCARDE il n’y a point d’unité de doctrine: on y trouve des anarchistes, des socialistes, des légitimistes” (JF,55).

Desde a juventude, M. teve tendências para o socialismo e para o anarquismo. “De fait, nous l’avons vu, ce qui domine d’abord chez lui, après les brèves périodes d’un vague socialisme chrétien lamennaisien, puis d’un anarchisme expression d’une révolte intérieure, c’est le souci d’un ordre social qui défende, poste et élève l’homme” (JF,109).

No LA COCARDE, M. não só convivia com os socialistas, mas aceitava suas idéias. “Et de ce socialisme, Maurras se réclame comme Barrès: “un socialisme bienfaisant et humanitaire qui avait toujours attiré la générosité naturelle (de Barrès) et celle de beaucoup de français réfléchis” (JF,56).

Conforme JF, o próprio M. aproximava o seu socialismo e o de seu amigo Maurice Barrès do socialismo “cristão” de La Tour du Pin. “Barrès s’était appliqué à la doctrine de l’esprit national et provincial uni à l’esprit socialiste, celle qui avait été mélée au boulangisme, celle dont s’étaient inspirés au fond La Tour du Pin et son groupe” (JF,56). “La Tour du Pin qui viendra bien vite effectivement du côté de Maurras, “rendre au monde ouvrier une juste place dans la cité”, et, pour cela, de lier étroitement socialisme et patriotisme” (JF,88). “C’est un souci premier de ces esprits” (JF,57).

Nesse tempo, M. já se proclamava anti-capitalista e preconizava a expulsão dos judeus e estrangeiros da França. No fim do século passado e princípios do século XX, M. esperava que os monarquistas mais conscientes se aliassem “à un socialisme anticapitaliste” (JF62). É por isso que ele se aproximou de La Tour du Pin “qui, lui non plus, ne craint pas les contacts avec le socialisme et même les recherches” (JF,62).

O próprio M. escreveu estas linhas: “Bien avant tant d’autres, Barrès et ses amis ont vu la nécessité de rendre à l’ ouvrier une juste place dans la cité, et, pour cela, de lier étroitement socialisme et patriotisme” (JF,88). E continua o próprio M.: “Si la protection des produits s’appelle protectionisme, la protection des producteurs n’a qu’un nom: socialisme. C’est une idée française et Maurras de rappeler qu’elle a été “enseigné dès 1865 par le Comte de Chambord dans une Lettre aux ouvriers, reprise après 1871 par La Tour du Pin et Albert de Mun: “tous les coeurs bien placés s’appliquaient ainsi à rallier les travailleurs, leur classe” (JF,89).

Quando, em 1926, a AF foi condenada pelo Cardeal Andrieu de Bordeaux, os católicos da AF escreveram ao Cardeal que a doutrina social da AF “était celle de l’école catholique de La Tour du Pin et Mun ” (JF,312). Isto é, a dos católicos de cariz socialista.

A respeito disto, convém lembrar que o melhor comentador de La Tour du Pin, Robert Talmy, notou que “le maître de l’ OEuvre des Cercles catholiques d’Ouvriers voulait travailler à reconstituer des institutions que ne fussent pas confessionelles. Cela est vrai, et c’est bien pourquoi l’accord entre Maurras et La Tour du Pin pourra être si constant” (JF, 215).

“Non, ce n’est pas une construction confessionelle qu íl veut faire, et c’est encore moins une simple reconstitution historique ( … ) La Tour du Pin écrit à Gaillart-Bancell qu’il y faut convier des protestants et des socialistes” (JF,215).

Como se vê, a AF tinha um caráter e um objetivo interconfessional. Ora, o interconfessionalismo da AF a fazia tão condenável, sob esse ponto de vista, quanto o intercofessional Sillon de Marc Sangnier.

Então, o direitista M., o “cristão” agnóstico M., o mestre e líder de muitos direitistas e tradicionalistas que punha a França antes de tudo, era defensor do socialismo! Como podem os tradicionalistas condenar hoje o socialismo-”cristão” de João XXIII e de Frei Boff, se defendem o socialista-”cristão” M.?

M., porém, não aceitava Marx. Marx era judeu e era alemão, e queria um socialismo internacional. M. queria um socialismo nacionalista. Um socialismo francês. Era de espantar então que, defendendo M. um socialismo nacional, alguns de seus discípulos tenham, mais tarde, aderido e colaborado com o nacional-socialismo de Hitler, apesar de ser este alemão? Os princípios trazem conseqüências.

Dos dirigentes da AF, da qual M. era o secretário, quase nenhum era então monarquista. M. o era. Para ele, o nacionalismo, na França, exigia ser monarquista: “Plus on se sent nationaliste, plus on se sent orienté et acheminé vers le monarchisme. L’idée royaliste n’est que le maximum de l’idée de patriotisme” (YC,165).

A concepção monárquica de M. confundia a idéia de rei com a de ditador. Dizia ele que o rei tinha que ser um ditador, o que não se coadunava com a idéia tradicional de rei. É claro que hoje, essa tese choca, e Yves Chiron se apressa em defender seu biografado: “Par cette image du Roi-dictateur M. sacrifiait un peu à la mode du temps, et il ne faut pas l’interpréter selon nos catégories politiques actuelles” (YC,170). De acordo com as categorias atuais e de todos os tempos, a idéia de Rei católico e a de Ditador moderno são inconciliáveis.

Para ter êxito em sua pregação monarquista, M. se mostrava oportunista de modo escancarado: “(…) n’y a-t-il pas de grands avantages politiques à paraître, dans le pays des antisémites tout à fait radicaux? L’antisémitisme est une force naturelle à utiliser: si nous n’usons pas de ce grand courant, quelles forces emploierons-nous” (YC,174).

Além desse oportunismo, M. se revelava um monarquista anti-aristocrático e igualitário na medida em que, como Napoleão, admitia uma nobreza de talentos. Ora, o talento é democraticamente encontrado em qualquer classe.

Quando, hoje, fala-se de AF, tem-se a impressão de um movimento monarquista e católico. Entretanto, “Maurras lui-même, présentant à Barrès le premier groupe de l`Action Française, y note une marque socialiste” (JF,148).

Em Economia, M. se dizia contrário ao socialismo internacional – mas favorável a um socialismo nacionalista – e anti-capitalista. Ele recusava aceitar a tese de que as leis do mercado, por si só, seriam capazes de produzir o equilíbrio social. Dizia ele: “Non, non, le jeu spontané des lois naturelles ne suffit pas pour établir l’équilibre économique” (YC,182).

Aliás, não era só M. que nesse tempo demonstrava inclinações para o socialismo. Também o presidente da AF, H. Vaugeois, se dizia simpático ao socialismo: “Je ne me sens d’estime, quant à moi, que pour deux partis: le parti socialiste et la droite, parce que tous les deux répresentent une vérité pure, radicale. J’ai horreur de l’eau tiède qui est l’élément du parti bourgeois opportuniste. Mon désir serait de raviver, en les mettant en présence, ces deux vérités pures, celle du passé et celle de l’avenir, celle du parti réactionnaire et celle du parti socialiste, de faire voir leur égale noblesse et de préparer, non pas le mélange, mais la paix entre elles par une série de discussions sincères sur les questions vitales de la politique actuelle” (LT,26).

Como se vê, o que o presidente da AF propunha no pricípio do século era já “appertura a sinistra” e o “diálogo” que a Democracia cristã e a Teologia da Libertação fizeram mais tarde com os socialistas de todos os matizes de vermelho. É então muito natural que Lucien Thomas, ex-membro da AF, discípulo e apologista de M., se apresse a acalmar seus leitores direitistas de 1960-70, pondo em nota de pé de página a seguinte pudica e preocupada advertência: “Le lecteur est prié de ne pas oublier que ce propos date de l’an 1899″ (LT, 26, nota 12). Nós, de nosso lado, rogamos ao leitor de não esquecer que o partido socialista de 1899 era condenado pela Igreja tanto quanto o de 1960.

Não era só o agnosticismo de M. que chocava. Era também o interconfessionalismo da AF e suas simpatias pelo socialismo, e mesmo pelo anarquismo manifestadas em contactos com a CGT e em artigos favoráveis às greves socialistas. Isto chegou ao ponto de o jornal da AF publicar artigos do pensador socialista Georges Sorel. “Ces articles étonnèrent et firent croire à certains pendant quelque temps, qu’une alliance était en train de se nouer entre socialistes et monarchie, entre syndicalistes révolutionnaires et royalistes” (YC,233). Até na primeira edição do famoso livro de M. “Enquête sur la monarchie”, há um elogio de M. a Georges Sorel (YC,234).

Na sua entrevista com o Duque de Orléans, pretendente ao trono francês, “Maurras ne manque point de glisser à son interlocteur que la politique royale est un commencement de socialisme” (JF,116). O movimento monárquico relançado por M. declarava que “la royauté n’est pas la garde d’un coffre-fort”, elle appliquera le mot du Comte de Chambord: “Ensemble, nous reprendrons le grand mouvement de 1789″, enfin vint la trilogie autorité-liberté-responsabilité” (JF,117).

Poderia haver coisa pior do que a própria Monarquia introduzir o socialismo? Poderia haver traição pior do que o Rei retomar o movimento de 1789? Se o Conde de Chambord pensava fazer isso, ainda bem que a Providência divina não permitiu que ele subisse ao trono. Se M. pretendia unir Monarquia e socialismo e recomeçar o que a Revolução iniciara em 1789, não se compreende como os direitistas e monarquistas podiam apoiá-lo. Menos ainda se compreende que até hoje os tradicionalistas o defendam e, ao mesmo tempo, sejam contrários à revolução de 1789.

E não se nos venha dizer que M. só quis isso nos primeiros anos de sua vida. Se assim fosse, já seria razão para não seguí-lo. Acontece porém que essas idéias absurdas expostas na Enquête sur la Monarchie de M. foram reproduzidas num volume de 600 páginas, o “compendium du catéchisme que Maurras enseignera cinquante années durant” (JF,117).

Em sua entrevista com o pretendente à coroa da França, “Maurras ne manqua point de glisser à son interlocuteur que la politique Royale est un commencement de socialisme” (JF,116). Em concordância com isso, o movimento monárquico relançado por M. declarava que “La Royauté n’est pas la garde d’un coffre-fort”, elle appliquera le mot du Comte de Chambord : “Ensemble, nous reprendrons le grand mouvement de 1789″ (JF,117).

M. considerava que entre os belgas e ingleses “qui sont aussi les peuples chez lesquels le socialisme municipal et les grandes cooperatives fédérées ont apporté un élément de vraie nouveauté à l’économie générale”, il y a euaccroissement – “considérable’ – du pouvoir monarchique” (JF,155).

Para M., a democracia, e não o comunismo, era o pior mal. Ele não considerava que na democracia ainda se permite o direito de propriedade, e que nela ainda há possibilidade de propagar e defender a religião. Para M., a democracia era tão má, que se o comunismo fosse democrático, por isso ele se tornaria pior. Um comunismo ditatorial era mais aceitável que a democracia, na opinião de M.. Ele preferiria o stalinismo à democracia.

“C’est que le grand mal ne vient pas du Communisme, ni du Socialisme, ni de l`Étatisme radical, mais de la démocratie. Otez la démocratie, un communisme non égalitaire peut prendre des développements utiles, à la lueur d’expériences passées: les biens communaux ont été plus fréquents dans la vieille France que dans la nouvelle: de même, les communautés possédantes; le cénobitisme des congrégations religieuses a poussé à l’extrême divers modes de possessions non appropriées, mais que dominait le détachement des biens matériels et non la fureur de l`égalité dans la répartition ou la jouissance. Par la même raison, un socialisme non égalitaire conformerait son système de proprietés syndicales et corporatives à la nature des choses non à des utopismes artificieux” (C.Maurras, Mes idées politiques, Fayard, Paris,1937, pp. 61-62).

[A respeito deste problema, permita-se-nos narrar uma experiência pessoal. Quando, certa vez, mostramos esse texto a um monge tradicionalista, ele sem titubear declarou: "Eu assino isso em baixo". E, quando outro monge tradicionalista mostrou esse texto a um padre tradicionalista francês, este escapou da questão dizendo que essas frases de M. deviam ser examinadas em seu contexto. Ora, o livro com o texto e o contexto estava em suas mãos... Mas M. não podia ser condenado, nem sequer por defender o socialismo].

Essa defesa do Comunismo, do Socialismo e do Estatismo radical, e evidentemente nacionalista, mas não igualitários [???] com propriedades sindicais e corporativas, feita por M., cheira enormemente a fascismo. E M. não recuou: defendeu o fascismo, por impor uma ditadura socialista, corporativista e nacionalista à Itália.

“Qu’est-ce, en effet, que le FASCISME? Un socialisme affranchi de la démocratie. Un syndicalisme libéré des entraves auxquelles la lutte des classes avait soumise le travail italien. Une volonté méthodique et heureuse de serrer en un même “faisceau”toutes les facteurs humains de la production nationale: patrons, employés, techniciens, ouvriers. Un parti pris d’aborder, de traiter, de résoudre la question ouvrière en elle même, toute chymère mise à part, et d’unir les syndicats en corporations, de les coordonner, d’incorporer le prolétaire aux activités héréditaires et traditionnelles de l’État historique de la Patrie, de detruire ainsi le scandale social du prolétariat. Ce FASCISME unit les hommes pour l’accord” (Charles Maurras, Mes idées politiques, pp.62-63).

Não contente com essa posição tão claramente socialista e fascista, M. elogiou diretamente o “Duce”: “Il a fallu en Italie une dictature. Le génie de la dictature et du dictateur a calmé, pacifié, ranimé un pays qui hésitait entre les fièvres et les langueurs. Il a rendu à son destin une race ardente, intelligente, patiente, courageuse” (C. Maurras, Mes idées politiques, p.63).

IX – A Ação Francesa e o Sillon

É muito comum que os atuais defensores de M. o oponham a Marc Sangnier, o líder do SILLON. De fato, entre a AF e o Sillon havia muitos pontos divergentes, especialmente face à Democracia e à igualdade. Maurras era monarquista. Sangnier era fanaticamente democrático. M. defendia uma desigualdade, que chegava ao ponto de desprezar os inferiores. Sangnier sonhava com o estabelecimento de uma igualdade total entre os homens. Esta oposição política era tão profunda que acabou por provocar choques de rua entre os Sillonistas e os Camelots du Roi da AF.

Estas divergências em pontos tão fundamentais levaram o chefe do Sillon a declarar que os católicos franceses deveriam escolher entre o Sillon e a AF. “Le 25 mai 1904, Sangnier écrivait dans Le Sillon: “Un impérieux dilemme doit, tôt ou tard, se poser: ou le positivisme monarchique de l`Action Française, ou le christianisme social du Sillon“.

“À leurs débuts cependant, le jeune Sillon et la non moins jeune Action Française n’entretinrent pas de mauvaises relations. Maurras éprouvait une certaine sympathie à l’endroit de Marc Sangnier, et, lorsqu’il dut polémiquer, il reconnut ce qu’il y avait de noble dans les campagnes du chef du Sillon et de généreux dans son action personnelle.” (LT,48).

E, quando Marc Sangnier propôs o “dilema”: ou o cristianismo social do Sillon, ou o positivismo monárquico da AF, M. respondeu que líderes cristãos sociais jamais recusaram o positivismo monárquico da AF, que, por sua vez, não recusara nunca as doutrinas cristãs sociais de La tour du Pin, por exemplo (Cfr. LT,49).

E M. concluía: “L’Action Française se déclare amie du Sillon”. Si le Sillon a le droit de se déclarer hostile à l’Action Française ce peut être en tant que Sillon, mais ce ne peut pas être en tant que chrétien social.” “Toutes nos idées favorites, ordre, tradition, discipline, hiérarchie, autorité, continuité, unité, travail, famille, corporation, décentralisation, autonomie, organisation ouvrière, ont été conservées et perfectionnées par le catholicisme. Comme le catholicisme du Moyen-Âge s’en complu dans la philosophie d’Aristote, notre naturalisme social prennait dans le catholicisme un de ses points d’appui les plus solides et les plus chers”. Notons la distinction d’importance: les idées ont été conservées et perfectionnées par le catholicisme, elles n’en sont pas nées” (JF,218-219).

No prosseguimento da polêmica, M. mostrou que o cristianismo social, tal qual Sangnier o entendia, “conduisait tout droit au socialisme marxiste, à l’internacionalisme, au démantèlement de la France pour la négation du devoir patriotique” (LT,51). De novo, M. só era contra o socialismo enquanto internacionalista.

Também Marc Sangnier, “Le chef du Sillon constate lui aussi “qu’il y a entre le Sillon et l’Action Française plus d’une idée commune” (JF,222).

Qual era a raiz de onde provinham esses pontos de contacto entre dois movimentos simpaticamente inimigos? Há quem tenha mostrado que as afinidades entre o Sillon liberal e a AF ditatorialmente autoritária provinham, ainda que longinquamente, do Modernismo: “Só de muito longe podemos relacionar com o Modernismo duas formas de pensamento que se manifestaram em sentidos completamente opostos na França: o Sillon (o sulco) de Marc Sangnier e a Action Française (Ação francesa) de Charles Maurras. Em ambos os casos se trata de limitar a Igreja a uma concepção política: à democracia, no Sillon; e à monarquia tradicional, na Action Française. Ambos os movimentos foram sucessivamente condenados em nome do caráter supra-político da Igreja. Não podemos negar que Charles Maurras muitas vezes tenha apresentado sua adesão externa ao catolicismo em forma profundamente anti-evangélica, e, conseqüentemente, anti-cristã. Mas, eram apenas erros passageiros. Urgia uma retificação. A retificação foi feita e parece que tudo ficou em ordem” (Cônego Léon Cristiani, Breve História das heresias, Coleção Sei e Creio -S.J.- Flamboyant, São Paulo, 1962). De passagem, note-se o otimismo e para onde vai a simpatia desse autor: Maurras foi anti-cristão, mas “foi um erro passageiro” dele, e, feita a retificação, “tudo ficou em ordem”.

Assim como sempre houve uma passarela política comunicando o nazismo ao comunismo, assim também se deu entre o Sillon e a AF, esses dois movimentos gêmeos xipófagos inimigos.

“Assim é que “un Henry du Roure [do Sillon] se sentira appellé à une sorte de “ralliement” national et le plus grand esprit de chez Sangnier, Léonard Constant le compremdra et l’approuvera” (JF,249).

Dois fatos são arguidos em favor da AF por seus apologistas atuais:

  1. Enquanto a AF defendia a Igreja das perseguições cinicamente democráticas promovidas pelo governo maçônico e republicano da França, no início do século, o Sillon jamais se opôs a essa democracia inimiga da Fé;
  2. o Sillon foi condenado pela Igreja durante sua polêmica com a AF, e foi condenado pelo único Papa santo do século XX”, São Pio X, pela Carta Apostólica “Notre Charge Apostolique”. Isto e os alegados elogios de São Pio X a M. são dados como provas de que São Pio X era favorável a ele, e que a condenação dele por Pio XI, em 1926, foi uma vingança dos modernistas contra M., um “belo defensor da fé”, como o teria denominado o Papa Santo.

Portanto, criticar M., hoje, seria dar razão a seus inimigos liberais e modernistas.

Tudo isto nos conduz ao tema das relações entre a AF e a Igreja.

 

X – Maurras, a AF e a Igreja Católica

Até hoje M. é defendido com ardor e seguido com simpatia fiel por muitos católicos direitistas franceses que não toleram que se o critique. Admitem eles que M., em sua juventude, foi pagão e agnóstico. Mas alegam que ele se portou sempre como um “Catholique du dehors” e que ele foi um “belo defensor da fé”. Sobretudo, alegam que São Pio X recusou-se a condená-lo e que lhe fez grandes elogios. Sublinham que as irmãs de Santa Terezinha sempre rezaram e trabalharam pela sua conversão e pelo levantamento de sua condenação pela Igreja. Ambas estas coisas teriam sido conseguidas, pois a AF teve levantada a sua condenação por Pio XII, e M. teria se convertido e se confessado na hora de sua morte.

Sem querer julgar os segredos de Deus e das almas, e mesmo desejando que M. tenha se salvado, ao fazer uma análise da obra de M. e da AF, cremos que não se deve deixar de lado nem o que ele escreveu contra a Fé Católica, nem o fato de que ele jamais fez uma retratação explícita e clara de seus erros.

Em primeiro lugar, devemos recordar que o próprio M. jamais negou que tinha uma concepção do mundo oposta à católica. O que M. recusava aceitar é que atribuissem suas opiniões religiosas e anti-cristãs à AF.

Respondendo aos ataques do jornal Correspondant, M. protestou contra dois artifícios que teriam sido utilizados por esse jornal:

“Par le premier, il mettait sur le dos de l’Action Française tout entière l’ensemble de mes opinions privées en matière de religion, de philosophie ou d’histoire.

Par le second, il dérivait le corps de mes idées politiques et sociales uniquement d’un formulaire irréligieux plus ou moins bien lu et interpreté qu’il avait pu glaner à travers mes écrits.” (LT,57).

Seus próprios amigos e apologistas reconhecem que M tinha idéias heréticas.

O antigo professor de M, o abbé Penon, já como Bispo de Moulins, escreveu a M., em 1912, após reler Anthinéa e Politique religieuse, que, apesar de tantas belas páginas, seu relativismo e agnosticismo eram graves lacunas, e dizia a M.: “Vous ne tirez pas la conclusion, mais je crains bien que vos adversaires acharnés n’abusent de certaines phrases qui la contiennent. J’avoue d’ailleurs qu’il vous est difficile, tant que vous n’admettrez pas de vérité absolue, de sortir de cette difficulté” (LT,73).

Lucien Thomas cita ainda, em defesa de M., o Pe. Descoqs: “l’impiété de M. Maurras, son manque complet, sur certains points fondamentaux, de sens chrétien sont évidents (…) “La justice toutefois oblige à reconnaître que nombre des textes allégués contre lui ou ses amis ont été détournés de leur vraie signification et poussés au pire, ce qui est d`une méthode déloyale, et que, si les opinions de M. Maurras n’ont pas varié sur les matières qui touchent à la métaphysique et à la foi, si l’ordre surnaturel lui reste toujours fermé, une évolution indéniable dans ses sentiments et son attitude à l’égard de ces mêmes matières s’est produite sous l’influence des circonstances, des réalités de la vie, des rapports surtout avec les catholiques dans l’intimité desquels il a été à même de pénétrer” (LT,73-74).

Registremos a afirmação que M. “não variou” em Metafísica e em questões de fé, mas “inegavelmente evoluiu” em seus sentimentos nestas matérias. E ressaltemos que são as idéias que valem e não os sentimentos.

Enfim, o próprio LT diz: “Certes, chacun sait que Maurras avait perdu la foi. Il n’est donc pas étonnant que l’expression de sa pensée en matière philosophique ou religieuse ait pris parfois un tour dont une conscience catholique ne pouvait pas ne pas se choquer” (LT,75). Mas, LT se apressa a dizer que esses “propos condamnables ne représentent qu’une infime partie de l’oeuvre de Maurras qui a surtout traité de politique vue dans les principes et dans la pratique” (LT,76).

O próprio M. confessou que: “On peut extraire de mes livres d’autrefois des paroles exprimant des sentiments inacceptables par l’Église et qui lui sont même en horreur” (LT,77). Ele lembra que retirou essas frases nas edições posteriores e que “J’avais saluée cette Eglise comme la plus vénérable, la plus féconde des choses visibles et comme la plus noble et la plus sainte idée de l’univers; ainsi se montra le sentiment que m’inspire l’Église de l’Ordre” (LT,77). Será preciso mostrar que considerar a Igreja Católica como a mais santa, a mais nobre, a mais fecunda, etc, é absolutamente contra o Credo que proclama a Igreja “unam, sanctam”?

Se foram os liberais e modernistas que se aproveitaram desses erros de M. para o acusarem ante a Santa Sé, isto não torna nem ortodoxos os seus textos, nem justifica sua defesa pelos católicos.

Conforme JF, “Elle [o pensamento de M.] n’en reste pas moins étrangère à la perspective chrétienne, et cela il ne l’a jamais caché” (JF, 235). Apesar de nunca ter ocultado que não era cristão, M. se exprimia com tal ambigüidade que sua linguagem enganava a muitos católicos, ainda que sua intenção não fosse essa. O que só Deus sabe. Não cabe a nós dar-lhe um atestado de condenação de suas intenções. Mas também seus amigos não podem dar diploma de sua boa intenção.

Os textos mais belos de M. em defesa da Igreja são sempre ambíguos. Exemplo típico disso é seu famoso canto em homenagem a Roma:

“Je suis Romain, parce que Rome, dès le Consul Mrius et le divin Jules, jusqu’à Théodore, ébaucha la première configuration de ma France. ( … ) Je suis Romain, parce que, si je ne l’étais pas, je n’aurais à peu près plus rien de français. (… ) Je suis Romain dans la mesure où je me sens homme (…) (C. Maurras, La démocratie religieuse, p. 26, apud PRP, 116).

“Je suis Romain dans la mesure où je me sens homme: animal qui construit des villes et des Etats … animal social … qui excelle à déduire une loi rationelle … Rome dit: oui, l’Homme dit oui. Je suis Romain, je suis humain, deux propositions identiques”(JF,337). Se Paulo VI tivesse talento, ele teria escrito essas frases em seu discurso de encerramento do Vaticano II, esse Concílio Pastoral que colocou a Igreja a serviço do Homem.

Jean de Fabrègues comentando estas últimas frases de M. diz: “C’est une vérité humaine qu’il salue dans le catholicisme” (JF,330). “Dire: ‘Je suis romain dès que j’abonde en mon être historique, intellectuel et moral’, c’est restreindre la catholicité à une aire du monde” (JF,330). Esta observação de JF é tão verdadeira que PB afirma que M. declarou sua “conviction forte et fidèle de la nécessité humaine du catholicisme universel” (PB,565). Tornamos a dizer: Paulo VI não pensava diversamente, quanto a esse ponto.

O que M. considerava positivo no Cristianismo era o de ter conservado uma certa ordem na humanidade, contradizendo o que ele havia escrito a respeito do Magnificat :

“Le catholicisme traditionnel, pour lui, c’est ce qui “soumettant les visions juives et le sentiment chrétien à la discipline reçue du monde hellénique et romain, porte avec soi l’ordre naturel de l’humanité” (JF,61).

Note-se bem que M. considera que :

  1. no Cristianismo, a disciplina grega submeteu as “visões judaicas”;
  2. que o bem do Cristianismo foi principalmente humano.

Que se nos permita ainda outra citação de alguém diretamente contrário a M., para que se tenha uma noção mais equilibrada do papel que ele atribuía, de fato, à Igreja Católica na história. Se ele certamente afirmou que o catolicismo conservou a ordem na humanidade – note-se: conservou, e não, estabeleceu – ordem que teria herdado da civilização gerco-romana e não do “Cristo hebreu”, como dizia M. de modo blafemo, é muito conveniente acrescentar que, segundo declarou Louis Dimier, antigo colaborador e amigo de M, que depois se afastou dele, o chefe da AF lhe disse um dia :

“Avec votre Religion, me dit-il un jour, il faut que l’on vous dise, que depuis dix-huit cents ans, vous avez étrangement sali le monde” (L. Dimier, Vingt ans d’Action Française, p. 30, apud PRP, 82).

Se são citadas frases que São Pio X teria dito, particularmente a alguém, a favor de M., por que não se deveria aceitar a citação de frases ditas por ele, e que iriam contra ele? A fonte é tida por suspeita por ser de alguém que se tornou inimigo de M.? Examine-se, pelo menos, se o que é testemunhado é coerente com o que M. escreveu, com alguns véus, mais ou menos diáfanos, ou não. Se é coerente, por que recusá-la?

Na década de 30, quando se desenvolviam as negociações com a Santa Sé para que fosse levantada a excomunhão da AF, M. escrevia que tinha “la conviction forte et fidèle de la nécéssité humaine du catholicisme universel” (PB,565).

Quando M. via algum valor no Cristianismo, era apenas um valor humano e naturalista, e, mesmo assim, manchado por um anti-semitismo que ele jamais escondeu.

Para M., o valor do catolicismo era considerado apenas enquanto coincidente com o bem da nação francesa – “da deusa França” – como ele dizia.

“Ce n’est pas seulement cent fois, mille fois, Maurras y est revenu, c’est pour des raisons politiques qu’ìl loue et écoute l’Église de Rome: “les intérets du catholicisme romain et ceux de la France se confondent presque toujours, ne se contredisent nulle part” (JF,330).

O próprio Perre Boutang – discípulo preferido de M. – confirma que a AF fez “Une défense politique des intérêts religieux” (PB, 324).

Na França, o catolicismo foi um dos fatores componentes – não o único – da mentalidade nacional. É sob este aspecto que M. se põe como defensor da Igreja contra as perseguições do governo republicano e maçon, e não por causa da Fé. Considerava M. que, atacar a Igreja, era solapar um dos pilares naturais em que se fundava a nacionalidade francesa:

“C’est d’abord que l’Église en France étant un des composantes traditionnelles de la vie nationale, étant génératrice d’ordre social et de dévouement national, elle a droit dans la guerre comme dans la paix au libre développement de son action” (JF, 268)

A AF “condamnait l’action de Combes, non pas du point de vue religieux, mais au nom de l’unité nationale, du fait que la religion catholique était, et la représentation de l’ordre de l’esprit et de l’ordre humain, et la composante majeure de l’esprit français et de la vie nationale” (JF,189).

O amigo e companheiro de M. – aliás, dirigente principal da AF -, o ex-radical e socialista Vaugeois, disse abertamente o que M. pensava e praticava: “On peut être métaphysiquement athée, si l’on professe le respect du Catholicisme comme religion de la France” (JF,194). E “Maurras affirme que sa pensée “est suffisamment païenne et chrétienne pour mériter le beau titre de catholique”, mais refuse “le bizarre Jésus romantique et Saint simonien de 1840″ (JF, 35 ).

E, entre os católicos, qual era a posição que M. preferia? Os “integristas” ele não suportava a não ser com dificuldade:

“Enfin, et l’auteur de ce livre peut apporter un témoignage personnel, Maurras lui même ne souffre les millieux “intégristes” du moment qu’avec peine, il les juge (à juste titre) intellectuellement très médiocres, plus profondément il se sépare d’eux sur deux points majeurs, sa pensée refuse cette sorte “d’internationale blanche” (c’est ainsi qu’il la désigne) où les problèmes religieux sont jugés sans rapport avec le contexte national ou social auquel ils s’appliquent, on pourrait dire qu’il répugne à ce que les millieux d’Action catholique nommeraient bientôt un blocage sans nuance du politique et du spirituel. Il se refuse aussi – et ceci le concerne très personnellement – à une perspective où le principe religieux commande à toute la politique: comment lui agnostique, pourrait-il y entrer?” (JF, 299-300).

Portanto, M. não podia aceitar duas coisas no catolicismo chamado “integrista”:

  1. a submissão dos interesse nacionais à religião católica;
  2. a submissão da política à religião.

Era lógico que M., não aceitando a existência de uma ordem sobrenatural, à qual todos os valores naturais devem estar subordinados, recusava-se a subordinar o interesse da França ao da Igreja, a política à religião. O que é ilógico e inconcebível é que os católicos – e especialmente os tradicionalistas – o aceitassem como mestre e como líder. O que é incompreensível é que até hoje eles não admitam criticá-lo e o tenham como mestre intocável e indiscutível.

Enquanto os integristas queriam a restauração da antiga ordem cristã, M. certamente nem pensava nisso. Relembremos esta citação já feita:

“Non, ce n’est pas une construction confessionnelle qu’il veut faire, et c’est encore moins une simple reconstituition historique. Ce qu’il veut, c’est que naisse une société conforme à la nature, et tous doivent y trouver leur place” (JF,215). E o “tous” englobava os protestantes e os socialistas.

Às vésperas da primeira guerra mundial, não se passou ano sem que M. não fosse atacado por eclesiásticos que o denunciavam como autor não católico. Não conhecemos a posição política de cada um desses autores que vamos citar. Mas, ainda que fossem liberais ou modernistas, convém examinar se suas acusações contra M. e a AF eram pertinentes.

Assim, Mons. Chapon, Bispo de Nice, em carta pastoral datada de 1913, escreveu: “(…) d’écrivains aveugles ou perfides, qui s’efforcent d’ériger, sur les plus purs principes de l’athéisme et du positivisme à peine dissimulés, toute une morale sociale et politique; et ce qu’on n’aurait jamais imaginé, c’est sous prétexte et avec la prétention de servir l’Église qu’ils s’efforcent de discréditer Jésus-Christ, sa morale et sa doctrine” (YC,260-261).

Repetimos: não importa afirmar que a intenção de Mons. Chapon, ao atacar a AF, era de defender o liberalismo. Importa, isto sim, verificar se sua acusação contra M. era ou não procedente.

Por sua vez, o Padre Jules Pierre acusava a AF de apoiar e elogiar os ateus e maçons Stendhal e Proudhom, e de querer organizar uma festa nacional para o ateu Saint-Beuve (Cfr. YC,261).

Mons Sévin, Arcebispo de Lyon, embora considerasse inoportuna uma condenação de M., reconhecia que ele era condenável: “Dans l’oeuvre littéraire ou philosophique de M. Charles Maurras, il y a cent propositions contraires à la foi et aux moeurs. M. Maurras est digne d’être condamné, nul n’en doute”. Mais il estimait aussi qu’une condamnation serait très inopportune dans les circonstances actuelles, car “M. Maurras n’a pas écrit ou enseigné que des erreurs agnostiques, il a aussi porté des coups très rudes au Sillonisme, au Liberalisme, au Démocratisme”. Condamner certaines oeuvres de Maurras fournirait à ses adversaires un pretexte “por conclure que tout ce cet écrivain a publié, spécialement ce qu’il a très justement contre eux, est repoussé” (YC,261).

Eis aí uma opinião que nos parece equilibrada: M. era condenável, mas, naquelas circunstâncias era inoportuno condená-lo. Só que hoje aquelas circunstâncias já não existem. Portanto, não há mais nenhuma razão para defendê-lo.

Em 17 de dezembro de 1913, Mons. Guillebert, Bispo de Fréjus e antigo professor de M. escreveu ao Vaticano, atacando os erros de Maurras.

No Natal de 1913, foi o abbé Gaudeau que em sua revista anti-liberal La Foi Catholique, dénonçait “les dangers d’un groupement catholique dans sa masse et dont le chef intellectuel professe l’athéisme”. Le zèle de l’abbé Gaudeau était d’autant plus malvenu qu’il avait lui-même participé quelque temps aux activités du mouvement royaliste en donnant des cours à l’Institut d’Action Française” (YC,264).

Verifica-se então que autores de todas as tendências, inclusive anti-liberais ou simpáticos a M., todos reconheciam que ele era condenável.

M. levara a AF a empreender lutas de rua contra seus oponentes. Maurice Pujo, um dos primeiros que aderira à pregação de M, organizara os pelotões de jovens monarquistas para o combate direto contra os comunistas e liberais. Essa tropa de choque maurassiana começara a agir vendendo o jornal da AF nas portas das igrejas. Por isso, seus membros começaram a ser chamados de os “Camelots du Roi”. Logo, dessa ação de propaganda pacífica se passou para a ação física direta. Os “Camelots du Roi ” começaram a utilizar métodos que se tornariam tipicamente fascistas: pintavam os adversários de pixe, obrigavam-nos a tomar óleo de rícino, dissolviam reuniões dos seus inimigos a socos. Nessas lutas de rua e nos corredores da Sorbonne, os “Camelots du Roi” adquiriram grande experiência . O “Quartier Latin” tornou-se seu feudo.

Quando os católicos perseguidos iniciaram suas próprias manifestações de rua contra o governo perseguidor da Igreja, os “Camelots du Roi” se apressaram a fazer causa comum com eles, o que foi tanto mais fácil quanto muitos dos dirigentes dos “Camelots” e da AF eram católicos praticantes. Naturalmente, como os “Camelots du Roi” tinham larga experiência de lutas de rua, eles organizavam e defendiam as manifestações dos católicos. Era natural então que a AF ganhasse as simpatias dos católicos menos avisados. Não defendia a AF a monarquia católica? Não queria ela restaurar a ordem contra o liberalismo dissolvente? Para esses católicos ingênuos, as idéias agnósticas e socialistas de M. eram desconhecidas, ou de somenos importância.

Desse modo, desde 1910, mais ou menos, “l’incroyant Maurras était le maître à penser d’un immense horizon de la jeunesse catholique, c’étaient ses troupes qui encadraient et souvent conduisaient la bataille catholique quand il fallait organiser l’action dont l’épiscopat avait confié la responsabilité aux équipes du général de Castelnau” (JF,292).

Em 1920, quando Joana d’Arc foi canonizada pela Igreja, M. desenvolveu grande campanha nacionalista a favor dessa canonização, tendo em vista utilizar o nome desta santa como fator de incentivo ao patriotismo nacionalista francês. Para se compreender o caráter equívoco da ação de M. com relação à Santa Joana d’Arc, basta lembrar que o desfile da AF em Paris, em 1920, em homenagem à Santa da Lorena, foi descrito por Maurice Barrès a Léon Daudet nos seguites termos: “Mon cher Léon, je vais vous dire une folie qui m’a prodigiesement frappé hier, quand je rentrais chez moi, après le défilé (de Jeanne d’Arc) et que je vous croisais. C’était le cortège du jeune Dionysios” (JF,279). Como se poderia comparar Santa Joana d’Arc e Dionísio, isto é, Baco?

A primeira vez que se levantou, em Roma, a possibilidade da condenação de M., foi em 1914. Nessa data submeteram-se a exame do Santo Ofício várias obras de M.. Ele foi advertido da possibilidade de uma condenação e mandou emissários a Roma sondar o que estava ocorrendo, e atuar, se possível, em sua defesa. Nesse tempo, reinava em Roma São Pio X. Os partidários de M. afirmam que M. só não foi então condenado por causa da proteção do Papa Santo. Como prova da atitude de São Pio X a favor de M., eles citam testemunhos de pessoas que teriam ouvido desse Papa palavras de elogio para o chefe da AF. Assim, o padre Pègues teria falado com o Papa sobre M. e sobre a possibilidede de ele ser condenado pelo Santo Ofício e o Pontífice ter-lhe-ia respondido: “Ah! Cette affaire, tant poursuivie en ce moment. Aujourd’hui même, maintenant ils sont réunis contre elle [...] Maurras! Maurras! ajouta le Saint-Père, comme ils lui en veulent! “Et le Pape d’ajouter: “Faranno niente !” “Non è opportuno! Non è opportuno! “, en concluant : “Maurras se convertira!” (YC, 265). E, depois que o Padre Pègues leu ao Papa um trecho de carta de M. ao pontífice, São Pio X teria dito: “Il poveretto! Le cher enfant (…) Écrivez-lui et dites-lui que je le bénis” (PB,361).

Que dizer desse testemunho? Ainda que ele fosse verdadeiro, – e não é crime duvidar dele – das palavras atribuidas ao Papa se conclui apenas que M. era condenável, embora não fosse conveniente sua condenação naquela época. Entretanto, consideramos estranho que São Pio X criticasse desse modo a Congregação do Index de seu tempo da qual participavam eclesiásticos de sua confiança. Ademais, São Pio X criticou os que citavam palavras do Papa em audiências particulares, pois isto pode levar a grandes abusos e confusões. Por fim, convém lembrar que o próprio São Pio X, no documento em que condenou o Sillon, lembra que ele enviara elogios e incentivos ao Sillon anteriormente, em documento público:

“Il Cardinale Merry del Val, Segretario di Stato di Pio X, cosí in data 4 Gennaio 1905 scriveva al Cardinale Richard, Arcivescovo di Parigi:

“Sua Santità loda Vostra Emminenza per la protezione concessa ai giovani del “Sillon”, desiderando che Ella prosegua nell’incoraggiarli nel prosseguimento della loro opera, per il suo progresso e per il suo maggiore profitto. L’augusto pontefice è certo che anche tutto l’Episcopato di Francia accorderà la propria benevolenza e la propria protezione alla Società del “Sillon” (Cfr. Acta S. Sedis ann. III (1905) pp. 15-16. Cfr. anche: “L’Univers di Parigi del 13 marzo 1905. Apud P. Girolamo dal Gal, Il Papa Santo, Pio X, Ed. Messaggero di S. Antonio di Padova, 1954, p. 270, nota 1).

Ora, se São Pio X confessou ter se enganado no caso do Sillon, poderia também ter se enganado com a AF e M..

Outro depoimento pessoal citado por PB conta que, em 1911, ao receber a mãe de M., São Pio X lhe teria dito: “Ne parlez pas à votre fils de ce que je vais vous dire (…) Ne lui en dites jamais rien, mais je bénis son oeuvre. Elle aboutira” (PB,362).

Ora, a obra de M. “n’aboutit pas”. Se o depoimento é verdadeiro, dever-se-ia explicar como a profecia de um santo falhou…

Sobre o resultado do julgamento da Congregação do Index, em 1914, registrou-se uma grande polêmica. Consta que M. foi condenado, mas que São Pio X recusou assinar a condenação. Os inimigos de M., por sua vez, afirmam que o decreto de condenação de M. de Pio XI foi o mesmo que São Pio X fizera em 1914, deixando sua publicação para ocasião mais oportuna. Exigindo porém que, quando publicado, o fosse com a data de 1914. Os defensores de M. negam essa versão, garantindo que São Pio X jamais permitiu a condenação do líder da AF.

É muito difícil provar uma ou a outra versão. O que importa é saber se M. era condenável ou não, e, se agora, – passadas já muitas décadas – é ainda oportuno e necessário continuar a defendê-lo.

Yves Chiron, em seu livro, diz que, na reunião da Congregação do Index, realizada em 15 de janeiro de 1914: “Tous les consulteurs furent unanimement d’avis que les quatre oeuvres de Charles Maurras: le Chemin de Paradis, Anthinéa, Les amants de Venise et Trois idées politiques, étaient vraiement mauvaises et donc méritaient d’être prohibées; à ces oeuvres, ils déclarèrent qu’ils faisaient ajouter l’oeuvre intitulée L’avenir de l’intelligence. Plusieurs consulteurs voulurent qu’on y ajoutât aussi les livres intitulés La Politique Religieuse et Si le coup de force est possible” (YC,266).

No dia 26 de janeiro de 1914, a Congregação do Index decidiu por unanimidade colocar no Index essas sete obras de M. e também a revista Action Française, “deixando à sabedoria do Pontífice a decisão da publicação do decreto”.

O insuspeito Yves Chiron diz a esse propósito : “Maurras et l’AF étaient-ils fondés à dire et à écrire, comme ils le firent à plusieurs reprises quand le texte de la condamnation fut reconnu en 1927, que le décret exhumé était un faux et que le document d’origine avait été déchiré et brulé, après que Pie X eut refusé de le promulguer? En l’absence d’une consultation des documents dans les archives vaticanes, impossible pour le moment, on ne peut répondre en toute certitude à cette question.

“Il est certain, en revanche, que le pape ne pouvait pas ne pas trouver répréhensibles des ouvrages et une revue où avaient été publiées des pages injurieuses pour la religion chrétienne. C’était son devoir de gardien de la foi.” (YC, 267).

Conforme outro testemunho pessoal, São Pio X teria dito, em 1914, a Camille Bellaigue, que agradecia ao Papa não ter condenado M.: “Elle est là [a condenação] répondit le pape en montrant son bureau, et elle n’en sortira pas”.

“Puis il ajouta: “Ils venaient, en colère, comme des chiens, me dire: “Condamnez-le, très Saint Père, condamnez-le”.

“Je leur répondais: “Allez-vous en, allez lire votre bréviaiare, allez prier pour lui”. (LT,81)

E quando Camille Bellaigue pediu ao Papa uma benção para M., o Papa teria contestado: “Notre bénédiction! Mais toutes nos bénédictions. Et dites-lui qu’il est un beau défenseur de la Foi”.(LT,81) Até M. duvidou da objetividade deste relato, indagando se o Papa não teria dito “um belo defensor da Igreja” e não da Fé. (Cfr. YC,268)

Um outro depoimento pessoal sobre o caso M. e São Pio X foi dado por Mons. Charost, Bispo de Lille. Contou ele que, em visita ao papa, este, indicando uma gaveta, lhe disse: “Nous avons là, mon cher fils, tout ce qu’il faut pour condamner Maurras. Mais nous croyons fort que les personnes qui nous ont si bien documenté ont agi beaucoup moins par amour et par zèle de la sainte religion que par haine des doctrines politiques soutenues par l’Action Française.”

“Puis, refermant d’un geste sec le tiroir de son bureau, Pie X ajouta: “Aussi, moi vivant, l’Action Française ne sera jamais condamnée. Elle fait trop de bien. Elle défend le principe d’autorité. Elle défend l’ordre”. (LT, 83)

Conforme esse depoimento, São Pio X reconhecia, portanto, que M. era condenável, e só se opunha então à sua condenação por razões de oportunidade. Como então se defende hoje a ortodoxia de M? Aliás, o próprio LT reconhece que se o Papa Pio X não condenou M., não era porque este não merecesse condenação, mas para não prejudicar a obra da AF, naquele tempo, na França.(Cfr. LT,84)

Esse mesmo autor, Lucien Thomas, que foi da AF, mostra bem a mentalidade com que se defende hoje M., ao dizer: “Qu’on n’oublie pas que le secrétaire de la Congrégation de l’Index était un prélat allemand, Mgr. Esser” (LT,84), insinuando que a Alemanha tinha interesse em condenar M., para solapar a resistência patriótica francesa, às vésperas da primeira guerra mundial. A que absurdos leva o nacionalismo! (Cfr. LT,84-85)

Pierre Boutang conta que, nesses primeiros dias de 1914, M. “s’attend donc au pire, comme le prouve ce passage étrange: “J’étudie même un nouveau procedé destiné à fournir à l’Église une nouvelle marque de respect, et cela en toute hypothèse, que la condamnation soit rendue ou non, publiée ou non”. (PB,360)

Nem todos porém se deixavam enganar. Um antigo condisdípulo de M., o abbé Brémond, escreveu-lhe pouco depois, dizendo que ele, M., era “incapable de voir les réalités, soit du présent, soit du passé, telles quelles sont [...] je me suis persuadé que votre philosophie – catholique – est foncièrement antichrétienne. Vous ne pouvez pas le sentir. Tact infini, décence parfaite, rien n’y fera”. (YC,292)

XI – Entre São Pio X (1914) e Pio XI (1926)

Para enfrentar a Alemanha, o nacionalista M. pedia a união de todos os franceses, mesmo que fossem socialistas. Pouco antes da guerra ele elogiou, no AF, o socialista Jules Guesdes: “un socialiste du parti de la France”. E, quando Guesdes ficou ministro, M. escreveu que, com um socialista como ele, o “diálogo” era possível.

Se M. odiou alguma coisa, esta foi a Alemanha, a inimiga e rival da sua “deusa França”. Em seu nacionalismo extremado, M. chegou a escrever o que se segue:

“Race allemande qu’enfle et grise
L’impunité de la traîtrise
Et l’ignorance de l’honneur”

(C. Maurras, Ode à la bataille de la Marne, apud YC,293).

Seria exagerado dizer que esse texto é o de um fanático?

Se era para prejudicar a Alemanha, M. aceitava que nela se proclamasse a República, o que demonstra que ele não era favorável à Monarquia por princípio, e sim por conveniência.

Ainda mais surpeendente que desejar a democracia para os inimigos, foi a atitude de M. face à Revolução bolchevista de Lenin, na Rússia tzarista.

“Faisant preuve d’un étonant pragmatisme, Maurras salua d’abord ceux qui vennaient de renverser la monarchie en Russie [...]: “sans doute je ne crois pas que le régime qu’ils ont choisi puisse convenir à la France. Mais ils sont chez eux. La monarchie de France n’aurait aucune raison de se séparer d’une république en Russie”.(YC,298) Para um líder apresentado como direitista, é uma frase escandalosa.

Após 1918, M. cresceu em popularidade e em influência. Autores famosos, ou em busca de fama, dedicavam-lhe suas obras. Foi o caso de Drieu de la Rochelle e de uma autora que viria a ser escandalosamente famosa por seu lesbianismo confesso, Margueritte Yourcemar. (Cfr.YC,300)

No exterior, o nacionalismo português de Salazar inspirou-se no pensamento de Maurras. Salazar “ne cesse de désigner [M] comme un de ses maîtres.(JF,355) E a vitória do fascismo de Mussolini, cujos métodos de ação eram semelhantes aos de M. veio despertar nos membros da AF a esperança de também terem um dia a possibilidade de tomarem o poder na França por meio de um golpe de Estado. Essa esperança há tanto tempo acalentada e jamais realizada, foi, pouco a pouco, minando a confiança dos membros da AF em seu líder, que não realizava na França o que Mussolini e Salazar tinham conseguido em seus países.

Já em 1920, Bernanos rompera com a Liga da AF por discordar dos métodos maurrassianos. O autor do “Diálogo das Carmelitas”, em sua carta de ruptura, criticava a obediência incondicional dos membros da AF a seu líder M.: “À force de prétendre obéir sans comprendre, on risque de ne plus comprendre pourquoi on obéit, par se détacher de l’obéissance comme du reste. Ne pas chercher à comprendre supprime aussi toute chance d’aimer et d’admirer (…)”. (YC,305)

Obedecer sem compreender, acaba por levar a não mais compreender o porquê de obedecer. Palavras sábias que explicam o porquê, hoje, tantos padres que obedeceram sem compreender, acabaram por fazer o próprio capricho, pois já não mais compreendiam o que era a obediência.

A consequência disso foi que “entre les deux guerres, les ligueurs, des cadres de l’AF quitteront par vagues régulières Maurras, estimant que le mouvement royaliste était sclérosé, qu’il ne ferait jamais le coup promis et que d’autres aventures devraient être tentées”.(YC,307) Isto também era consequência da ambigüidade do pensamento maurrassiano que, entre vários rumos, não se decidia claramente por nenhum.

Esta indecisão, com relação ao objetivo final, não impedia que M. fosse audacioso até à brutalidade, e sem escrúpulos morais na consecução de seus objetivos intermédios. Exemplo de audácia afrontosa e que não titubeava na escolha de meios, mesmo ilegais e imorais, está na famosa carta que ele publicou contra o ministro do Interior, Abraham Schrameck, após a sétima vítima mortal de membros da AF por atentados dos esquerdistas. Apesar disso, é difícil imaginar maior prepotência no exercício da auto-defesa levada além dos limites legítimos, utilizando a injúria e a ameaça contra a autoridade, como se M. fosse senhor absoluto da justiça e do Estado.

“[...] votre personage est eminemment répresentatif [...] vous êtes le Juif. Vous êtes l’Étranger. Vous êtes le produit du régime et de ses mystères. Vous venez des bas-fonds de police, des loges, et, votre nom semble indiquer, des ghéttos rhénains. [...] Votre race, une race juive dégénérée (car il y a des juifs bien nés qui en éprouvent de la honte), la race des Trotsky, des Krassine, des Kurt Eisner et des Bela Kuhn, vous en charge maintenent d’organiser la révolution dans notre patrie (…)

(…) Monsieur Abraham Schrameck, comme vous vous préparez à livrer un grand peuple au couteau et aux balles de vos complices, voici les réponses promises. Nous répondons que nous vous tuerons comme un chien [...]. Pour qu’il n’y ait pas de malentendu anthume ou posthume, j’en donne l’ordre formel à ceux qui veulent bien accepter mon commandement. Jusqu’à l’attentat que vous préparez, j’ordonnais la patience et j’interdisait de risposter sur vous.Les ordres qui partent de cette maison sont obéis, vous le savez. (…) Seul l’intéret public vous jugera et frappera par ma voix [...] Il ne m’est pas possible de vous saluer, Monsieur Abraham Schrameck, mais je vous avertis. Remercier m’en”.(YC,327)

Uma insolência que chega às raias da rebelião declarada, substituindo-se pessoalmente ao poder legítimo, tendia a atrair de volta às fileiras da AF aqueles que dela se afastavam acusando M. de indecisão. Quando o golpe não veio, esses elementos se voltaram para o nazismo e para o fascismo, que efetivavam suas ameaças de morte.

Por essa carta criminosa e racista, M. foi condenado a um ano de prisão, com sursis, e a 1.000 francos de multa. A condenação aumentou seu prestígio entre os ardorosos Camelots du Roi e Ligueurs da AF. Exemplo desse aumento de prestígio está na carta que M. recebeu do abbé Van den Hout: “Dans la nuit obscure où se débattent peuples et gouvernements, deux phares brillent seuls, mais brillent inégalement: ROME et MAURRAS!”

Um dos seguidores de M., que dele se afastou porque desejava uma ação mais direta, foi Georges Valois. Fascinado pelo êxito de Mussolini – que fora líder anarquista e socialista radical antes de se tornar “direitista” – Valois se aproximou dos comunistas e, em 1925, fundou o Faisceau – o Feixe – inspirando-se no nome e no estilo do fascismo. Logo houve choques entre os membros da AF e os do Faisceau. Em novembro de 1926, a sede da AF foi atacada pelos militantes do Faisceau. Na defesa da redação do jornal AF ficaram feridos dois seguidores de M.: Georges Calzant e Maurice Tissier de Mallerais.

Por esse tempo, M. visitou a Itália fascista, e só teceu loas à obra de Mussolini: “Ni anarchie, ni décadence: la regéneration et le renouveau.”(YC,337) Embora M., mais tarde, criticasse o estatismo de Mussolini, por essa época ele tinha admiração “pour l’Enchanteur”.(YC,337)

 

XII – A condenação de M. por Pio XI

A condenação da AF começou pela publicação de uma carta do Cardeal Andrieu, de Bordeaux, que fora um admirador de M., fazendo sérias críticas ao movimento maurrassiano. A carta foi publicada no jornal Aquitaine, em resposta a uma consulta feita por jovens católicos da AF.

Ao que consta, teriam sido os dirigentes da Ação Católica – outra Ação! – que pediram a Roma para tomar medidas contra M. e a AF. Pio XI teria então pedido que um Cardeal lançasse uma carta de condenação contra a AF., o que foi executado pelo Cardeal Andrieu, de Bordeaux.

Em sua carta, o Cardeal acusava a AF de não tratar apenas de política, mas também de religião e de moral, sem licença da autoridade eclesiática, e de ensinar graves erros nessas matérias. Dizia o Cardeal:

“Les dirigeants de l’AF se sont occupés de Dieu. Quelle idée en ont-ils? Ils le regardent comme inexistant ou inconnaissable, et ils se déclarent, de ce chef, athées ou agnostiques. L’oracle des dirigeants de l’AF publia, dans sa jeunesse, un ouvrage intitulé Le Chemin du Paradis qu’il a fait rééditer en 1920, après quelques corrections et supressions de pure forme. Or, Le chemin du Paradis est un reccueil de contes licencieux dont l’athéisme rivalise avec celui de nos contemporains les plus réfractaires à l’idée religieuse.

“Les dirigeants de l’Action Française se sont occupés du Verbe de Dieu incarné dans le sein d’une Vierge. Quelle idée en ont-ils? On peut s’en rendre compte en parcourant un autre ouvrage du même chef de l’Action Française: Anthinéa, dont le premier titre fut Promenades paíennes. Dans l’édition de 1923, l’auteur a supprimé, pour raison de convenance, quatre pages blasphématoires sur le Nazaréen et la Nuit du christianisme, mais il n’y a aucune rétractation et bien d’autres impiétés ont été maintenues.

“Les dirigeants de l’Action Française se sont occupés de l ‘Église. Quelle idée en ont-ils? Ils repoussent tous les dogmes qu’elle enseigne. Elle enseigne l’existence de Dieu et ils l’a nient, car ils sont des athées. Elle enseigne la divinité de Jésus-Christ, et ils l’a nient, car ils sont antichrétiens. Elle enseigne qu’elle a été fondée elle-même par le Christ, Dieu et Homme, et ils nient son instituition divine, car ils sont anticatholiques malgré les éloges parfois très éloquents qu’ils décernent à l’Église, dans un but qui n’est peut-être pas tout à fait désintéressé. Selon le mot d’un célèbre théologien placé naguère sur les autels, l’Église est “une monarchie tempérée d’aristocracie”, et cette organisation dans l’ordre religieux peut attirer des partisans à l’organisation de même nature que les dirigeants de l’Action Française cherchent à établir dans l’ordre politique. Catholiques par calcul et non par conviction, les dirigeants de l’Action Française se servent de l’Église, ou du moins ils espèrent s’en servir, mais ils ne l’a servent pas, puisqu’ils repoussent l’enseignement divin, qu’elle a mission de propager.

“Quand on renie Dieu, son Christ et son Église, il est difficile, pour ne pas dire impossible, de construire une morale vraie, la morale traditionelle, la morale à base religieuse, la morale du devoir, expression d’une volonté divine. Aussi, les dirigeants de l’Action Française, en particulier leur chef, celui qu’ils appellent le Maître, ont dû se réfugier dans l’amoralisme. Ils ont fait table rase de la distinction du bien et du mal, et ils ont remplacé la recherche de la vertu par l’esthétisme, ou le culte de la beauté, et par l’épicurisme, ou l’amour du plaisir. Le chef de l’Action française réprouve tout système qui, comme le christianisme, fait de l’effort à la vertu la règle des actes volontaires, la base des institutions sociales et le principe du progrès social de l’humanité. Faut-il s’étonner qu’il se montre si prodigue de mépris et de sarcasmes contre ce qu’il appelle les doctrines “vertuistes”?

“D’après les dirigeants de l’Action Française, la société est affranchie comme l’individu de toutes les prescriptions de la loi morale et ils essaient de justifier cette indépendance à l’aide de deux sophismes: la stabilité du type de l’homme et l’immutabilité foncière de la société régie comme l’homme par des lois physiques qui excluent la moralité, puisqu’elles empêchent l’exercice de la liberté.

“Les dirigeants de l’Action Française invoquent à l’appui de leur thèse cet autre argument fantaisiste: l’humanité est divisée en deux classes ou plutôt deux règnes: l’homme non lettré, que le maître de cette école appelle l’imbécile dégénéré, et l’élite des hommes instruits. Or, l’humanité doit se conserver telle que la nature l’organise. Elle s’est donc finalement condamnée à n’avoir d’autre règle de conduite que l’immobilisme.

“Et pour combler le vide causé par l’absence complète de la loi morale, les dirigeants de l’Action Française nous présentent une organisation sociale toute païenne où l’État, formé par quelques privilégiés, est tout, et le reste du monde rien.

“Aussi osent-ils nous proposer de rétablir l’esclavage! Et qu’on ne leur parle pas d’une revendication quelconque de l’individu à l’encontre du pouvoir. La raison d’État sera supériure à toute considération de justice et de moralité; car, dit le chef de l’Action Française, la “morale naturelle prêche la seule vertu qui est la force”, et selon le mot d’un autre maitre de la même école, ‘toute force est bonne, en tant qu’elle est belle et qu’elle triomphe”. (LT,111-112)

O próprio Cardeal Andrieu contou mais tarde que fora o Núncio que lhe pedira para condenar a AF, e que, quando ele o fizesse, o Papa, em oito dias, confirmaria o que ele teria dito. Sabe-se hoje que a carta do Cardeal Andrieu, publicada no Aquitaine, fora mandada antes a Roma, que aprovou sua publicação, sem nenhuma correção.(YC,341)

Publicada a carta do Cardeal Andrieu, a AF respondeu imediatamente, afirmando que as acusações eram injustificadas, e que M. jamais havia propagado sua incredulidade pessoal. Além disso, afirmava que as frases atribuidas a M. eram truncadas e retiradas do texto do belga Passalecq, contra a AF. Alegava-se ainda que a AF provocara a conversão de vários de seus dirigentes, como Henri de Vaugeois.

M. considerou que o ataque arquitetado por Pio XI e executado pelo Cardeal de Bordeaux, fora, de fato, maquinado pelos democratas-cristãos franceses, por Aristide Briand, e pelos alemães, para golpear o centro da resistência patriótica francesa contra a Alemanha. Era pois uma larga conspiração.

Maurras respondeu pessoalmente ao Cardeal em 2 de setembro de 1926. Protestava que ele, e só ele, era responsável pelas idéias expostas em seus livros, e não os dirigentes da AF. Declarava que suas idéias haviam sido explicadas em 1914, e que, nessa ocasião, o Papa se recusara a condená-lo.

Em 8 de setembro, o jornal La Croix publicou uma carta do Papa Pio XI ao Cardeal Andrieu dando-lhe inteiro apoio. Entre outras coisas, dizia o Papa: “Votre Emminence enumère et condamne avec raison (dans les publications non seulement d’ancienne date) des manifestations d’un nouveau système religieux, moral et social, par exemple au sujet de Dieu, de l’Incarnation, de l’Église et généralement du dogme et de la morale catholiques principalement dans leurs rapports avec la politique, laquelle est logiquement subordonnée à la morale. En substance, il y a dans ces manifestations des traces d’une rennaissance du paganisme à laquelle se rattache le naturalisme que ces auteurs ont puisé (inconsciemment, croyons-nous) comme tant de leurs contemporains, dans l’enseignement public de cette école moderne et laique de la jeunesse, qu’eux mêmes combattent si souvent et si ardemment.”(LT,125-12)

A 9 de setembro de 1926, os dirigentes da AF publicaram uma carta ao Cardeal Andrieu, em que protestavam contra as acusações de agnosticismo, de anti-cristianismo, de anti-catolicismo, de amoralismo e paganismo. Afirmavam sua crença em tudo quanto ensinava a Igreja Católica, estando prontos a assinar a profissão de fé de São Pio X. Concordavam que, no terreno político, tinham se unido a incrédulos, mas a incrédulos que respeitavam a Igreja, vendo nela, senão uma instituição divina, “a mais alta, a mais pura, a mais eficaz das forças morais agindo no mundo”.(LT,119) Afirmavam ainda que sua doutrina era exclusivamente política, e que era facilmente subordinável à “metafísica de São Tomás ou ao Credo católico”.(LT,129) Declaravam que a ação social da AF era baseada no livro Vers un ordre social chrétien de La Tour du Pin.

Ora, o melhor comentador de La Tour du Pin – Robert Talmy – notou que “le maître de l’Oeuvre des Cercles Catholiques d’Ouvriers voulait travailler à reconstituer des instituitions qui ne fussent pas confessionelles. Cela est vrai, et c’est bien pourquoi l’accord entre Maurras et La Tour du Pin pourra être si constant”.(JF,225) “Non, ce n’est pas une construction confessionelle qu’il veut faire, et c’est encore moins une simple reconstruction historique (…) La Tour du Pin écrit à Gaillart- Bancel qu’il y faut convier des protestants et des socialistes”.(JF,215)

Jacques Maritain, nesse tempo admirador de M., foi vê-lo, e, para defendê-lo, publicou “Une opinion sur Charles Maurras et le devoir des catholiques”, no qual procurava evitar uma ruptura formal da AF com Roma.

Lucien Thomas lembra que Maurras “n’a jamais caché que certaines lignes qu’il a écrites dans sa jeunesse expriment des pensées et des sentiments inacceptables par l’Église”.(LT,127) Mas pondera que é preciso distinguir – o que nem o Cardeal nem o Papa haviam feito – entre as idéias filosóficas de M. e as doutrinas políticas da AF.

A nosso ver essa distinção não procede porque:

    1. São os princípios filosóficos de M. que determinaram sua posição política, especialmente seu lema tão ambíguo “politique d’abord”;
    2. seria incrível que M. aceitasse uma política em contradição com sua filosofia.

Ademais, os dirigentes da AF objetavam que o Cardeal errara até o título da da obra Chemin de Paradis, que chamara Chemin du Paradis; que a obra Anthinéa de M. nunca foi chamada de Promenades païennes, mas que M. pensou chamá-la assim. Como se vê, eram objeções bem pouco sérias. Por fim, os dirigentes da AF publicavam a carta elogiosa que o Cardeal Andrieu enviara à AF, em 1915.(Cfr. LT,128-130)

Em 17 de setembro de 1926, M. escreveu ao Cardeal de Bordeaux, indagando a causa de sua mudança de opinião sobre a AF .

Lucien Thomas dá seu testemunho pessoal de que M. não incutia suas idéias filosóficas e religiosas entre os membros da AF, dizendo que ele nem sabia que M. era incrédulo, e que não lera nem Anthinéa, nem Chemin de Paradis: “l’immense majorité des militants d’Action Française ignoraient complètement les ouvrages de Maurras mis en cause par la lettre du Cardinal Andrieu. Certains mêmes – et nous fûmes, un certain temps, du nombre – n’étaient pas informés de l’incroyance de Maurras”(LT,136). O que comprova a imprudência desses militantes e a astúcia de M. em passar-lhes uma doutrina política, sem que eles se dessem conta das doutrinas filosóficas e religiosas subjacentes à ela.

A 16 de setembro de 1926, os estudantes da AF, os “Camelots du Roi” e os comissários de AF escreveram ao Papa dizendo que “ils ont conscience des dangers que cela [o contacto com incrédulos] peut présenter”.(LT,139) “Ils s’engagent à n’oublier jamais que la tradition chrétienne figure au premier plan des traditions françaises”.(JF,313)

Ora, isto contraria o que o próprio Lucien Thomas disse acima, isto é, que a imensa maioria dos militantes da AF ignorava a incredulidade de M. Se a ignoravam, como diziam eles ter consciência dos perigos que corriam ao ter contacto com ela? Ademais, ao afirmar que não se esqueciam de que a tradição católica figurava no primeiro plano das tradições francesas, eles subordinavam a tradição católica às da França.

No dia 25 desse mesmo mês, o jornal da AF reproduziu o texto publicado no La Croix e traduzido do Osservatore Romano, das declarações do Papa aos peregrinos franceses em Roma. O Papa confirmava sua decisão de condenar os erros da AF, e que o fizera sem motivações políticas ou diplomáticas. Era uma resposta à acusação da AF de que o Papa fora movido pelos alemães da Cúria, para tomar uma posição que enfraquecia a resistência política do nacionalismo francês em sua luta contra a Alemanha…

Os membros comuns da AF julgavam-se injustiçados pelo Papa, porque diziam que jamais o jornal AF havia tratado de religião, da existência de Deus, da Encarnação do Verbo ou de qualquer outro dogma.

Essa indignação cresceu ainda mais com a publicação no La Croix de uma nova carta do Cardeal Andrieu ao Papa, tratando da AF. Nessa carta, o Cardeal afirmava: “L’AF n’est pas seulement une ligne politique, elle est encore une école, ses fondateurs l’ont affirmé à plusieurs reprises; et cette école a une doctrine dont ils ont eu soin de préciser le caractère. On peut lire notamment dans l’AF du 9 décembre 1912: “Voilà ce qui distingue l’Action Française des mouvements patriotiques antérieurs; voilà ce qui fait sa force, ce qui est la cause de ses succès, c’est que l’Action Française a une doctrine. Quelqu’un lui a donné. Ce quelqu’un est Charles Maurras”. (LT,143)

Este documento do Cardeal Andrieu é muito importante. Vimos que M, se recusava admitir que tinha uma doutrina. O jornal AF o desmentiu.

O Cardeal mostrava ainda que M. exercia sobre os militantes da AF “une véritable fascination. N’a-t-on pas écrit dans le feu de l’enthousiame: “Il y a deux phares dans le monde: le Pape et le “Maître” de l’Action française.” (LT,143)

Lucien Thomas comenta indignado essa carta do Cardeal. Reconhece que a AF tinha uma doutrina, e que ela lhe fora dada por M., mas lembra que essa doutrina era estritamente política.

A 28 de setembro, M. respondeu ao texto publicado no La Croix:

“L’Action Française est une école. C’est encore vrai. Mais elle n’est pas une école de philosophie, de morale ou de religion. Elle est une école de politique nationale française.

“L’Action française a une doctrine. Cela est vrai aussi. Une doctrine politique et pas autre chose. Des hommes de doctrine politique ou religieuse différente, très différente, des hommes de doctrine philosophique très opposée sont venus à l’Action Française, et y vivent, y travaiellent et y agissent en choeur. Ils se sont unis avec elle et en elle. Sur quoi? Non sur la philosophie, non sur la morale, non sur la religion: sur une doctrine politique”.

“(…) En entrant à l’Action Française, en adhérant à sa doctrine politique, personne ne peut être prié de modifier les idées qu’il professe en matière de philosophie, de morale ou de religion. Chacun y reste libre par consequent de donner à sa doctrine politique les principes philosophiques, moraux et religieux qu’il estime les vrais”. (LT,145)

Nesses parágrafos, M. confessa que a AF era pois uma instituição interconfessional, uma das razões mais importantes para a condenação do Sillon. M. descreve a AF como entidade tão liberal quanto a Maçonaria.

Mais adiante, M. escreveu que o que unia pessoas de idéias tão divergentes na AF, não era a bondade ou utilidade da Igreja Católica:

“Non, Monsieur, ce n’est pas cela qui nous rassemble. Nous sommes rassemblés par le devoir politique. Notre point d’union, c’est la France(…). (LT,147) Portanto, não era o catolicismo o que unia os membros da AF. Está confessado.

Foi então que se tornou conhecida a carta que o Cardeal Billot escreveu a Léon Daudet, em 16 de setembro, dando seu apoio à AF.

“Le cardinal Billot

“présente à M. Léon Daudet, ainsi qu’à tous les co-signataires de l’adresse à S.E. le Cardinal Andrieu, l’hommage de son profond respect, en même temps que ses plus chaudes félicitations pour la superbe réponse si digne et si fortement appuyée par la courageuse profession de foi catholique intégrale qui, nous l’espérons, fera que, avec l’aide de Dieu, l’Action Française sortira de la crise actuelle, plus que jamais admirée des bons et redoutée des méchants”. (LT,148)

Era uma carta-bomba, não só por ser de um Cardeal, mas por ser do Cardeal Billot, considerado então o “príncipe dos teólogos”. Era uma bomba especialmente porque, por ela, o Cardeal Billot se manifestava direta e claramente contra o que dissera Pio XI.

Também o Cardeal Charost defendeu a AF, não porém sem restrições. Depois de defender o que M. e a AF haviam feito de bom, o Cardeal Charost não deixou de alertar que “la politique était subordonnée à la religion et que le devoir patriotique ne devait, en aucun cas, faire oublier les devoirs religieux. Il a en outre, – tel comme l’avait fait le Père Descoqs – souligné les lacunes que présentait l’oeuvre de Maurras du fait de l’incroyance de son auteur, et invité les jeunes gens à la prudence afin de sauvegarder la pureté de leur foi”. (LT,153)

Para contornar a crise, a AF se dirigiu às autoridades eclesiáticas na França pedindo a nomeação de capelães para assistirem os católicos filiados a ela. Por ordem do Vaticano, tal pedido não foi atendido.

A 12 de outubro de 1926, M. escreveu ao Papa. Na carta, ele reafirmava que sua defesa da Igreja fora feita por razões humanas; afirmava que seus livros mais criticados visavam atacar o idealismo, o romantismo e o panteísmo alemão, e eram para fazer bem a não-católicos; mostrava como a AF sofrera perseguição dos inimigos da Igreja.(Cfr. LT,345-349) M. dizia nessa carta ao Papa que os “incroyants” que haviam fundado a AF haviam constatado que os inimigos da pátria eram também os inimigos da Igreja, e que os defensores da pátria eram também os defensores da Igreja, embora permanecendo exteriores a ela. Eles ensinavam que bem universal representava a Igreja para a Pátria e para a humanidade, vendo na Igreja a mãe da França e da civilização. Como se vê, eram razões puramente humanas as que moviam a AF na defesa da Igreja.

Em novembro de 1926, no Congresso anual da AF, Maurice Pujo, um dos principais líderes da AF, defendeu a tese de que a AF só preservou os jovens franceses dos “Maîtres d’erreur”. A seguir, o Presidente de honra do Congresso, o Almirante Schwerer, declarou que “les croyants de l’AF, prêts à tous les sacrifices pour la défense de leur religion (…) parfaitement soumis à l’autorité religieuse du Souverain Pontife (…) à tous les ordres qu’il leur donnera en ce qui concerne la religion, prennent leurs directives politiques en dehors du Vatican”.(JF,314) E anunciava: “Si les hommes qui nous poursuivent de leur haine et ne cessent de propager contre nous près du Saint Père leurs abominables calomnies réussissaient dans leur criminelle entreprise (…) il annonçait que “plus fidèle à l ‘Église parce que ce serait un coup qui la frapperait”, il resterait aussi “plus attaché encore si possible à l’Action Française”.(JF315)

O Ossevatore Romano mostrou como esse discurso era ofensivo ao Papa e como era pouco filial para com a Igreja.

A 9 de dezembro de 1926, M. respondeu no AF às críticas do Osservatore Romano. M. lembrava que os inimigos da AF no jornal oficioso da Santa Sé visavam atingir a França, quando atacavam a AF.

No dia 15 do mesmo mês, a AF publicou o documento intitulado Rome ou la France. Nele se atacavam os jornalistas do Osservatore e se protestava fidelidade ao Papa, mas, junto com a submissão e o respeito, pedia-se o direito de justa liberdade nas questões mistas. Entre outras coisas, diziam os membros da AF: “Nous ne sommes pas disposés à rien céder de nos libertés. Nous n’avons pas envie de devenir des ilotes, ni de laisser reduire les Français à l’état des catholiques mexicains. Nous réclamons le droit de trouver bons les arguments politiques de Maurras, comme les démonstrations astronomiques de Galilée. Ces vérités d’ordre naturel, expérimental, s’imposent à nous, et personne ne peut rien contre elles. L’Église, du reste, n’a pas d’intéret, pensons-nous, à ce que ces fidèles fassent figure de citoyens diminués, ligotés dans leur activité nationale, réduits à recevoir du dehors leurs consignes politiques”.(LT, 161)

A alusão a Galileu era picante e, para defender sua autonomia em política, a AF lembrava O’Connel, citando seu lema: “Our faith from Rome, our policy from home”. Daí, concluíam: “Nous n’admettrons point, par exemple, qu’un Nonce du Pape se mêle de nos affaires intérieurs et intervienne dans les questions électorales.” (LT,161)

“Pour les choses qui regardent la foi et la morale, l’Église n’aura jamais des fils plus soumis que nous. Dans cet ordre, la moindre indication de nos pasteurs sera acceptée par nous avec une discipline et une docilité absolues. À cet égard, conformément aux recommandations données par Rome à nos étudiants, nous fuirons “le plus possible” toute contagion, même provenant de nos amis les plus chers, de nos chefs les plus justement aimés. Nous ne les quitterons pas pour cela.”(LT,163)

Era uma recusa formal de abandonar a liderança de M.

No final do documento vinha a decisão de não aceitar as determinações do Papa: “on veut imposer à l’Action Française d’arrêter sa besogne patriotique et de briser son entreprise de relèvement national. L’Action Française ne croit pas que ses devoirs impérieux envers la Patrie en danger puissent être désobéis ni éludés comme les souhaitent passionnément les ennemis intérieus et extérieurs de la France. Personne n’a le droit de lui demander cette trahison”.(LT,164)

A AF acusava, não tão veladamente, o Papa de pedir que os católicos franceses traíssem a França. Entre a obediência ao Papa e a fidelidade nacionalista à França, os católicos da AF escolhiam a Franca, “la Patrie en danger”. O lema “Politique d’abord” trazia as conseqüências de seu veneno.

O Papa Pio XI respondeu a essas teses de rebeldes no dia 20 de dezembro, numa Alocução Consistorial, na qual declarou: ” (…) il n’est pas permis aux catholiques, en aucune manière, d’adhérer aux entreprises et en quelque sorte à l’école qui mettent les intérêts des partis au-dessus de la religion et font servir celle-ci à ceux-là; qu’il ne leur est pas permis de s’exposer ou d’exposer autrui, les jeunes gens surtout, à des influences ou doctrines dangereuses tant pour la foi et la morale que pour la formation catholique de la jeunesse. Ainsi, (pour n’omettre nulle des questions ou demandes qui Nous ont été adressées) il n’est pas permis aux catholiques de soutenir, d’encourager et de lire des journaux publiés par des hommes dont les écrits, s’écartant de notre dogme et de notre morale, ne peuvent pas échapper à la désaprovation, et qui même, souvent, dans les articles, comptes rendus, annonces, proposent à leurs lecteurs, surtout adolescents ou jeunes gens, des choses où ils trouveraient plus d’une cause de détriment spirituel”.(LT,165-166)

Pio XI fora claríssimo. A AF ia ser contundente em sua resposta ao Papa, significativamente intitulada “Non possumus”.

Inicialmente, a AF se dizia não incluída entre os partidos “qui mettent la politique au-dessus de la religion et font servir celle-ci aux intérêts de celle-là“.(LT,166) A AF dirá que seu lema era “Politique d’abord” e não “Politique au-dessus”… E garantia: “Jamais l’Action Française n’a placé la politique avant la religion, sinon pour dire qu’un moyen est employé avant le but et pour toucher le but. (…) Maurras a toujours professé la subordination de la sociologie et de la politique à la morale: cela est visible jusque dans les analyses de la philosophie de son maitre Auguste Comte.”(LT,167)

“Ce qu’on veut (…) nous le savons maintenant: décapiter l’AF, et, en même temps, engager les catholiques à s’unir sur le terrain republicain; c’est très clair. Il ne s’agit plus de morale, ni de foi, il s’agit de politique.(…) L’autorité écclésiastique veut supprimer notre mouvement politique. Elle demande notre mort”. (LT,169)

A AF lembrava, então, que o jornal AF não era oficialmente católico, nem fora fundado por autoridades eclesiásticas. Lembrava ainda que “le pape régnant n’est pas à l’abri de l’erreur humaine dans les questions politiques (…), “que les hommes de l’Église – l’Histoire entière le prouve – peuvent être mal renseignés, se laisser circonvenir par des influences malhonnêtes(…)”, e que, assim sendo, os católicos fiéis não eram obrigados a abdicar de sua justa liberdade, no terreno político.

“Le devoir d’obéissance cesse où commence le mal, qui s’appelle, pour nous catholiques, le péché. Le principe est vrai pour tous les honnêtes gens, croyants ou incroyants, et nul théologien ni moraliste ne peut le contester.”(LT,170-171)

Para a AF uma coisa era certa: ela era a única força capaz de salvar a França. “Parlant de sa patrie, le Pape a digné dire, au sujet du chef du gouvernement fasciste, que le salut du pays semble vraiment en danger chaque fois qu’un péril le menace, et qu’il estime sa préservation d’une importance extrême pour le pays et digne d’être considérée comme un bienfait public”(LT,171) [Entre parênteses, que lamentável pensamento o de Pio XI, defendendo o fascista Mussolini, nesses termos. O que Montini fez pelo comunismo, teve precedente no que Pio XI disse de Mussolini, embora depois tenha condenado o fascismo e Montini não tenha condenado nem o comunismo nem o marxismo.]

Concluindo, visto que a AF era a única força capaz de salvar a França, e considerada a exigência do Papa de que os católicos deviam abandonar Maurras e a AF, estes se viam acuados entre dois deveres: obedecer ao Papa, traindo a França, ou salvar a França, desobedecendo ao Papa em uma questão política.

“Si dur que soit le devoir qui en résulte pour nous, c’est le devoir. Nous le remplissons. Le coeur meurtri, mais sans faiblesse, nous l’accomplirons jusqu’au bout. Nous ne trahirons pas notre patrie. “Non possumus”. (LT,173)

A 9 de janeiro de 1927, M. publicou, ele mesmo, no AF o decreto do Santo Ofício condenando sete de seus livros: Le chemin de Paradis, Anthinéa, Les amants de Venise, Trois idées politiques, L’avenir de l’intelligence, La politique religieuse et Si le coup de force est possible.

Afirmava-se que esse era o mesmo decreto que fora redigido no tempo de São Pio X e que não fora publicado por inoportunidade. Por isso, ele levava a data original de 1914. No final do decreto lia-se a seguinte determinação: “De plus, en raison des articles écrits et publiés, ces jours derniers surtout, par le journal du même nom, Action Française, et nommément par Charles Maurras et Léon Daudet, articles que tout homme sensé est obligé de reconnaître écrits contre le Siège Apostolique et le Pontife Romain lui-même, Sa Sainteté a confirmé la condamnation prononcée par son prédécesseur et la étendue au susdit quotidien, l’Action Française, tel qu’il est publié aujourd’hui, de telle sorte que ce journal doit être tenu pour prohibé et condamné et doit être inscrit à l’Index des livres prohibés, sans préjudice, à l’avenir, d’enquêtes et de condamnations pour les ouvrages de l’un et de l’autre écrivains”. (LT,175-176)

Em carta ao Cardeal Andrieu, Pio XI declarou que condenara o que Pio X não poderia deixar de condenar: “une espèce particulière de modernisme politique, doctrinaire et pratique”.(JF321 – LT, 342)

Para explicar um golpe tão duro, a AF e M. alegaram que teria havido uma verdadeira conspiração no Vaticano, para vingar o Sillon. Até hoje – e nós ouvimos alguém dizer isso – se afirma o que M. difundiu: que Pio XI teve em mãos falsos números do jornal AF, que tratavam de modo heterodoxo do dogma da Encarnação. (Cfr. LT,182)

M. vai insistir na acusação de que “la germanophilie devenue maîtresse de quelques avenues et antichambres du Vatican” (LT,202) era a responsável pela condenação da AF. Várias vezes o jornal AF mencionou que considerava Pio XI “le Pape le plus allemand de l’histoire”.(LT,202)

Armou-se também um romance com relação à existência ou não do decreto de São Pio X. O próprio LT diz que “Benoit XV, mort en janvier 1922, détenait encore dans son bureau la condamnation de Maurras préparée par la Congrégation de l’Index en 1914. De son côté, le Cardinal Billot a confié à Robert Havard de la Montagnne que, à plusieurs reprises, ce Pontife l’avait taquiné en disant qu’il possédait des documents capables de causer quelque désagrément à sa “chère Action Française”… mais qu’il ne ferait rien”.(LT,205)

Entretanto LT declara: “Jamais on ne nous fera croire que Pie X ait condamné Maurras et l’Action Française moins encore”.(LT,211)

Em março de 1927, os Cardeais, Arcebispos e Bispos da França lançaram um “Commentaire des décisions pontificales” apelando à obediência. Nesse mesmo mês, uma decisão da Sagrada Penitenciária do Vaticano foi publicada, determinando aos padres que recusassem a absolvição aos “lecteurs, ligueurs, propagandistes de l’Action française notoirement connus comme tels” qui ne se seraient pas amendés et des les traiter “comme des pécheurs publics”.(JF, 321-322) Era uma medida rigorosíssima. Evidentemente, hoje, os tempos mudaram. E não só os tempos, mas também as sanções vaticanas.

 

XIII – A AF após a condenação

Os efeitos da condenação da AF foram imediatos. A tiragem do jornal AF caiu de 90.000 exemplares, em agosto de 1926, para 40.000, em dezembro de 1933.

A década de 30 viu a ascenção do nazismo na Alemanha, o que ameaçava diretamente a França. Apesar de simpatizar com muitos pontos do programa nazista, M. não podia aceitar nada que viesse da Alemanha. Por isso, ele propôs uma aliança da “latinidade” – leia-se: com o fascismo de Mussolini – contra os bárbaros, isto é, os nazistas alemães e os comunistas russos. “Maurras résumait ces principes en un therme, la “catholicité” qu’il définissait ainsi; “Il ne s’agit uniquement des dogmes religieux, vous connaissez ma position sur ce point: il s’agit des hauts principes d’ordre, d’autorité, d’administration intérieure et extérieure, d’affinités dans la manière de sentir, dans la vie sociale, héritées de l’Antiquité classique et dont l’Église Romaine s’est faite l’unique et incomparable gardienne. Il s’agit de moeurs, de façons d’être et de juger”.(YC,300) Como se vê, sempre o mesmo ponto de vista naturalista sobre o papel da Igreja, rejeitando seus dogmas e sua sobrenaturalidade, e fazendo-a mera herdeira da Antigüidade clássica pagã.

Essa defesa da “latinidade” cheira, evidentemente, a fascismo. É o que confirma, com ressalvas necessárias após 1945, o texto de YC: “Mussolini partagea longtemps cette idée d’une civilisation latine à défendre. Aussi M. ne manquait pas de relever cet accord entre l’AF et le Duce. Cette communauté de vues sur la civilisation latine, l’essor économique et social que Mussolini sut donner à son pays dans les premières années du régime fasciste; les accords du Latran signés entre le Vatican et l’État italien, furent pour M. autant de sujets d’admiration. Pour autant il n’eut jamais de rapport personel avec Mussolini et ne se considéra pas en communion d’idées avec la doctrine fasciste. Le fascisme donnant un rôle trop grand à l’État et gouvernant selon une théorie du parti unique trop étrangère à la monarchie décentralisée et antiparlemmentaire de M.. Le chef de l’AF ne fut jamais taire ses critiques à l’égard du régime fasciste sur ces deux points. Il lui semblait que le fascisme abusait “gravement des interventions de l’État jusque dans son régime corporatif”.(YC,361) Em suma, M. admitia certos pontos comuns entre o fascismo e a AF, criticando apenas outros pontos de desacordo. É de se perguntar qual teria sido a relação entre M. e Mussolini, caso os totalitários tivessem vencido a guerra.

Uma frase de M. vai nos elucidar sobre o que entendia ele por “Latinidade”: “Les latins sont ceux où la Renaissance a réussi, où la Reforme a échoué, avait dit Maurras. (M., Préface à Marius André, La fin de l’Empire espagnol d’Amérique, Nouv. Lib. nation., 1922). Será preciso dizer que essa latinidade renascentista nada tem a ver com a Cristandade, que o Renascimento desejou destruir?

Em fevereiro de 1934, a AF estava em seu nível mais baixo, segundo YC (p.365). Foi nessa mesma data que se deu o famoso “Coup de force” da AF contra o governo francês.

Em 1934, a França atravessava uma grave crise econômica, política e moral. O crack da bolsa de Nova York repercutira também na França, desgovernada por cinco ministérios radicais-socialistas, em um ano. Casos de corrupção política levavam a República, como sempre, ao descrédito. Em janeiro de 1934, o caso Stavisky provocou manifestações de rua da AF contra o governo. Stavisky apareceu morto em Chamonix, e dizia-se que ele fora assassinado para não fazer revelações.

Num encontro com o Conde de Paris, pretendente ao trono de França, ainda em janeiro de 1934, este pediu que M. com a AF fosse às últimas conseqüências de sua ação, na tentativa de derrubar o regime republicano.

As manifestações se multiplicaram, levando à demissão o governo de Chautemps. Um novo ministério deveria tomar posse a 6 de fevereiro. O jornal da AF desse dia tinha uma manchete enorme convocando todos contra o governo: “CONTRE LES VOLEURS, CONTRE LE RÉGIME ABJECT. TOUS, CE SOIR, DEVANT LA CHAMBRE”.

A manifestação começou às 18 horas. 100.000 pessoas exigiam mudança de regime. Houve choques violentos com a polícia, de que resultaram 15 mortos e 655 feridos, muitos dos quais vieram a falecer.

Na Prefeitura de Paris, dominada pelos manifestantes, se discutia o que fazer. M. não aparecia. Dizia-se que ele estava na redação do AF fazendo um soneto… E era verdade.

No auge da luta, quando Daudet quis partir para o assalto ao palácio do governo, M. decidiu que ainda não era a hora, e que se partia para um inútil massacre.

O poder estava lá, para ser tomado. M. que tanto pregara e previra o “coup de force”, não o deu. Concluiu o seu soneto. O golpe falhou.

“M. entra chez lui vers huit heures du matin. Il venait de composer un sonnet en provençal en l’honneur de Madame Daudet, pour un album qui devait lui être remis. Maurras copia le sonnet sur l’album, puis se mit au lit”. (YC,371) Foi a AF que “se mit au lit”.

“C’est l’AF qui, indéniablement, avait mobilisé l’opinion depuis janvier. Le jour venu, elle semblait retenir ses troupes. Quelques-uns de ses partisans le lui reprochèrent et, estimant que jamais Maurras ne donnerait l’ordre de passer à l’action, quittèrent le mouvement”.(YC,371)

Não se pode acusar M. de covardia. Muitas vezes ele dera provas de destemor físico e moral. Seus duelos, sua vida política, a audaciosa carta a Schrameck, por exemplo, embora racista e absurda, demonstravam que ele tinha realmente coragem física e moral. Entretanto, na hora “H”, M. falhou. “Il se mit au lit”. Sua ambiguidade doutrinária se estendera também ao campo da ação.

Os decepcionados passaram a chamar o movimento de M. de “l’Innaction Française”. Houve quem escrevesse que “le soir du 6 février, les dirigeants de l’Action Française s’étaient mis au lit…”(YC,369) Esses maurassianos desiludidos se aproximaram do fascismo e do nazismo. Mussolini, Hitler, Salazar, – e mais tarde Franco – souberam agir e aplicar suas idéias. M. ficara na teoria. Ele que era anti-metafísico e o defensor da “Ação”, na hora da ação e do golpe, ficara imobilizado no mundo etéreo das rimas…

Jean de Fabrègues publica uma poesia inédita de M., escrita em 1892, e que pode explicar algo dessa misteriosa ambigüidade do pensamento e da ação de M.:

“Le secret”

Je t’ai dit mon secret, je t’ai donné mon âme
Tu le vois j’ai le coeur plus faible qu’une femme
Hélas! Ne saurais – tu rendre à ce lâche coeur
une fière jeunesse, une mâle vigueur”

(C. Maurras, apud JF, 400)

“Le Romantisme de l’action est puissant (…) Ce qui a été dix fois le paradoxe maurrassien, paradoxe impliqué par sa pensée, leur paraissait [aos discípulos de M.] insupportable: enseigner que l’heure viendra du coup d’État sauveur, comment le faire sans tricherie quand l’heure a sonné? Toute une part des “dissisents” d’hier de l’Action Française entrera dans cette optique, et leur histoire aura des tragiques prolongements dans celle de l’occupation allemande”.(JF,352-353)

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