Montfort Associação Cultural

28 de abril de 2006

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Malachy Martin e um decreto papal

Autor: Orlando Fedeli

  • Consulente: Carlos Jaime Jr.
  • Localizaçao: Rio de Janeiro – RJ – Brasil
  • Religião: Católica

Caro orlando Fedeli,

Acabo de ler seu artigo “Um decreto papal“. Muito bom, como sempre, e bem ao seu estilo, divertido e animador.

Mas achei curioso o sr. citar o livro “The Keys of This Blood”. Malachi Martin dizia que havia lido o Terceiro Segredo em 1960, quando era secretário do cardeal Bea. E, segundo ele, o segredo fala sobre a usurpação do trono papal por um impostor sob o controle do demônio. Fala do surgimento de uma falsa Igreja Católica, e esse seria o mistério do Dragão que varre a terça parte das estrelas do céu com sua calda. Essas estrelas do céu seriam a hirarquia católica. A questão é que nesse mesmo livro que o sr. citou, ele defende a teoria da eleição do cardeal Siri. Nesse livro ele fala apenas do conclave de 1963, embora a teoria Siri se estenda também ao de 1958. Segundo Martin Siri, em 63, conseguiu os dois terços dos votos, mas foi pressionado a não aceitar a eleição. Isso também teria acontecido em 58, segundo outros. Martin parece que não era sedevacantista, a não aceitação do papado por Siri seria legitima, apesar de alguns sedevacantistas atuais fazerem um outro uso do caso Siri. A questão é que ele não deixa claro se considera ou não que Paulo VI tenha sido esse papa usurpador de que o Segredo falaria. Ou se esse papa ainda estaria por vir.

No site Montfort há também uma resenha de um outro livro de Martin. Isso mostra que o sr. leva Malachi Martin a sério. Então eu gostaria de saber se eu estou certo nisso: o sr. crê que Malachi Martin possa ser levado a sério mesmo? O que o sr. pensa da teoria Siri? O sr. crê que o Segredo possa falar sobre um antipapa, sendo ele legitimo ou não?

Agradeço a atenção,
Carlos Jaime

P.S.: Domingo é de São Pio V, e os boatos sobre a liberação da Missa já estão se direcionando pra esse dia, só que dessa vez com mais cautela, claro. Parece ser o dia ideal, mas ficar criando expectativas para se frustrar depois acabará criando um desanimo generalizado. Na sua audiência geral da ultima quarta-feira, o papa parece ter mandado um recadinho nada animador aos tradicionalistas. O sr., que consegue ver bem o que se diz nas entrelinhas, o que achou do que disse o papa na ultima audiência geral?

Muito prezado Carlos Jaime,
Salve Maria.
 
    Obrigado por suas palavras. Alegra-me que meu artigo o tenha agradado e divertido. Afinal se “à quelque chose malheur est bon”, para alguma coisa serve o Lula.

    Malachy Martin foi secretário do modernista Cardeal Bea… Ora, dize-me com quem andas…
    Ele deixou o Vaticano brigado, e não aceitou ser subornado com o título de Cardeal, que lhe teriam oferecido para tapar-lhe a boca.
    É o que dizem…
    Falou muito. Escreveu até demais (ele era prolixo).
    Resultado: apareceu morto.
    Por outro lado, ele escreveu tudo em forma de romance, onde História e imaginação se enroscam em nós inextricáveis.
    Entretanto, muito do que ele diz em forma romanceada bate com os fatos que ficaram conhecidos.
   
    Você me pergunta se levo a sério Malachy Martin…
    A Malachy Martin deve ser aplicado o ditado espanhol sobre as bruxas: “Yo no creo en brujas, pero, que las hay, las hay!”
    O caso Siri é outro problema difícil e misterioso de desvendar.
    Parece certo que Malachy Martin leu o Terceiro Segredo. Outra questão é se ele diz a verdade, quando fala do texto.
    Tanto se falou desse texto do Terceiro Segredo de Fátima, — o qual caberia numa página, — que não se entende como tanta coisa cabe numa só página. Só se essa página for de papiro antigo, que podia ter 25 metros de comprimento bem enrolados.
    Por isso, enrolados ficamos nós com o segredo escondido. Não. Com o segredo revelado.
    O que se diz, e o que Malachy diz do Segredo, deixa as pessaos ficarem com os cabelos em pé, reverentes como pontos de interrogação (não eu, que sou careca).
    Que saudades dos sustos que deixavam meus cabelos em pé…
   
    Sobre o Terceiro Segredo de Fátima e o Apocalipse, lembro-me de uma velha declaração do Cardeal Ratzinger, de muitos anos atrás, dizendo que o Teceiro Segredo jamais seria revelado, porque nele não havia nada que não tivesse sido dito já, na Revelação.
    Ora, Nossa Senhora não poderia acrescentar nada à Revelação, que se encerrou com a morte do último Apóstolo, São João.
    Só que Revelação, em grego, é Apocalipse!!!
    E consta –sempre o “consta“ da insegurança — que a Irmã Lúcia, ao saber da declaração de Ratzinger, teria comentado: “Sim. Do capítulo VIII ao XIII”.
    Exatamente os capítulos que falam do Anticristo, que falam de uma estrela que caiu do céu, e recebeu as chaves do poço do Abismo. E que abriu o poço, de onde saiu uma grande fumaça. Veja lá as palavras exatas, no Capítulo IX do Apocalipse, logo nos primeiros versículos.
    Estrela no Apocalipse quer dizer Bispo, porque, assim como as estrelas guiavam os navegantes no mar, assim os Bispos guiam os fiéis ao céu.
    Ou devem guiar…
    Ah! CNBB!!!
    Que naufrágios!
    Nossa Senhora dos navegantes, SOCORRO!!!
   
    Uma estrela que cai do céu significa, então, um Bispo que se torna mau, que apostata. 
    O problema é que esse Bispo recebe as chaves depois de ter caído. E o Bispo que tem as chaves é o Papa.
    Parece, então, — mas nada disto é certo – que seria eleito papa um Bispo caído em heresia (tudo isso é puramente hipotético, pois só Deus pode conhecer o que significa, de fato, o Apocalipse, e estas são suposições hipotéticas sem nenhuma autoridade e sem valor maior).
    Se um herege é eleito Papa, mas é reconhecido como Papa, segundo alguns especialistas em Direito Canônico, ele é Papa de fato e de direito. 
    E ninguém pode julgar o Papa.
    Nem mesmo os Cardeais Martini e Danneels
    
     Por incrível que pareça, há uma outra coincidência terrível. Esse Bispo apocalíptico que cai do céu e recebe, apesar da queda, as chaves do poço do abismo, — do inferno — abre o poço, e dele sai uma grande fumaça, que escurece o Sol (Apoc. IX,2). Ora, o Sol é símbolo da Igreja que ilumina, com a Fé, a todo o mundo. E Paulo VI disse a famosa frase que, depois do Concílio Vaticano II, a fumaça de Satanás entrou no templo de Deus…
    E você deve se recordar que no dia 13 de Outubro de 1917, o grande sinal de autenticidade das aparições de Fátima foi ver o Sol caindo, em zig-zag, em direção à terra (leia mais). O sol caía do céu em direção à terra. Caía do Teocentrismo para o Antropocentrismo.
    E que fez o Vaticano II senão fazer a Igreja, Sol da Verdade, cair em direção à Terra, defendendo o Antropocentrismo?
    Que é a Missa nova senão uma Missa voltada para o homem, isto é, uma Missa antropocêntrica?
 
    Não declarou Paulo VI, no discurso de encerramento desse Concílio catastrófico, que nele a Igreja se fez como que escrava da Humanidade. E não pediu ele aos humanistas do século XX — será que eles não eram os do PC, que sempre se disseram humanistas? - que reconhecessem pelo menos isso; “Nós também somos cultuadores — ou cultivadores, como se queira – do homem“?
    De todo modo, o sede vacantismo é herético.
    Não se pode aceitar o sede vacantismo, porque ele é intrinsecamente cismático e herético. Ninguém pode julgar um Papa reinante.
 
    Não sei do terceiro Segredo de Fátima, senão aquilo que o Vaticano publicou: a visão da procissão e o martírio de um papa junto com Cardeais e Bispos por subirem uma montanha com a cruz. Um Calvário, que parece tanto ser um símbolo da Missa.
    Das palavras da Jacinta, das de Pio XII, das de João XXII, assim como do engano de Malachy Martin em julgar que o papa que restaura a Missa é polonês, haveria o que dizer…
    Mas esta carta já foi longa e longe até demais.
    Deixemos as hipóteses de lado, porque cavalgar hipóteses é bem pior que cavalgar cavalos bravios.
    Normalmente elas nos estatelam ao chão. De modo que tenha tudo isso como mero palpite (nem digo opinião, tanto isso é tudo suposição nas brumas, dentro de um mistério, a respeito de um segredo profético, escondido num labirinto do Vaticano…)
    E eu sou inacertante.
    E já não tenho idade para cavalgar mais nada, quanto mais hipóteses!
    Por isso, me despeçod e você “muy pedestremente”, como dicen los porteños, diciendole:
    “Hasta luego, hombre!”

In Corde Jesu, semper, 
Orlando Fedeli

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