Montfort Associação Cultural

9 de novembro de 2014

Download PDF

Mais uma infundada acusação dos protestantes contra a Igreja

Consulente recebe críticas à tradução da Bíblia Católica. Mas, se só vale a Escritura, quem é juiz para definir a versão correta?

 

PERGUNTA

De: Rui
Enviada em: 24 / 09 / 2014
Local: São Paulo – SP , Brasil

As Bíblias Católicas traduzem a passagem de Isaías 8:19 da seguinte forma: Isaías 8:19 Quando disserem a vocês: “”Consultem os espíritos e adivinhos, que sussurram e murmuram fórmulas; por acaso, um povo não deve consultar seus deuses e consultar os mortos em favor dos vivos?”"

As de versão Protestante, como a da King James consta Isa 8:19 And when they shall say unto you, Seek unto them that have familiar spirits, and unto wizards that peep, and that mutter: should not a people seek unto their God? for the living to the dead?

E a PJFA Isa 8:19 Quando vos disserem: Consultai os que têm espíritos familiares e os feiticeiros, que chilreiam e murmuram, respondei: Acaso não consultará um povo a seu Deus? acaso a favor dos vivos consultará os mortos?

Qual é a tradução correta? “seus deuses” ou “Seu Deus”?

Fui confrontado por pessoas que afirmam que os Católicos adulteram os textos biblícos em virtude desta passagem, alegam que Elohim na passagem não poderia ser traduzida por “seus deuses”, como consta também em Gen 1

Poderiam me informar qual versão é mais correta?

…………………………………………………………………………………………………………………………………………………………………………..

RESPOSTA

Prezado Rui, salve Maria,

A versão das Sagradas Escrituras de maior autoridade, por ser a mais antiga que possuímos, é a versão grega da Septuaginta (LXX).

Na Igreja Latina desde os primeiros séculos se viu a necessidade de uma tradução latina. A primeira delas é chamada Vetus Latina. Mas a necessidade de ter uma tradução segura e isenta de erros levou o Papa S. Dâmaso a encomendar uma tradução de S. Jerônimo, grande conhecedor das Escrituras, da língua grega e da língua hebraica. Esse trabalho colossal de tradução, a partir do texto grego e do texto hebraico, deu origem à versão chamada Vulgata.

A Vulgata foi então aprovada por S. Dâmaso, e pouco a pouco passou a ser a versão mais usada no mundo latino. A autoridade da Vulgata foi ratificada pelo Concílio de Trento, que a declarou autêntica, ou seja, isenta de erros.

Quanto a essa passagem em particular de Isaías (8,19), eu não sei o que o senhor considera como uma versão católica. Em todo caso entre as versões aprovadas, as de maior autoridade trazem a palavra Deus no singular:

Vulgata: et cum dixerint ad vos quaerite a pythonibus et a divinis qui stridunt in incantationibus suis numquid non populus a Deo suo requirit pro vivis a mortuis

Neo-Vulgata:  Et cum dixerint ad vos: ” Quaerite a pythonibus et a divinis, qui susurrant et murmurant; numquid non populus a deo suo requiret, pro vivis a mortuis? “.

Algumas outras versões, de menos autoridade, trazem de fato no plural:

Bíblia de Jerusalém:

Se vos disserem: “Ide consultar os espíritos e os adivinhos, cochichadores e balbuciadores”, não consultará o povo os seus deuses, e os mortos a favor dos vivos? À instrução e ao testemunho! Se eles não falarem de acordo com esta palavra, certamente não nascerá para eles a aurora.”

Porque essa diferença de tradução?

“Ainda mais que o precedente, este oráculo está mutilado; várias passagens só se tornam relativamente compreensíveis por meio de diferentes correções” (La Sainte Bible, Pirot-Clamer). Isso quer dizer que se o texto for traduzido da língua original de forma completamente literal, ele não terá sentido nenhum. Para dar um sentido para a tradução é necessário interpretá-lo e acrescentar algumas palavras.

O fato pode ser devido a vários fatores, como um defeito nas cópias que chegaram até nós, ou a uma discordância entre as mesmas. Mas a dificuldade mais frequente que o tradutor encontra é o fato da escrita antiga não ser dotada nem de pontuação nem de espaço entre as palavras e, no caso do hebreu, nem mesmo as vogais são escritas, o que deixa varias vezes margem a diferentes leituras.

Seja como for, aqui as diferentes versões guardam sempre a fidelidade à mesma ideia, de que Isaías alerta os seus discípulos para que não ouçam os conselhos supersticiosos que lhes serão dados de que consultem os adivinhos sobre o futuro.

Nenhum exegeta razoável jamais interpretou que Isaías defendia aí o politeísmo. Assim como nenhuma pessoa de boa fé, que conheça um mínimo do que está falando, sustentou que a Igreja traía a Sagrada Escritura aprovando traduções no plural. As traduções que trazem a palavra deuses colocam como uma frase dos supersticiosos, a Nova Vulgata que traz deus com minúscula, também atribui a frase aos supersticiosos que querem consultar o deus deles para os vivos através dos mortos. As traduções como a Vulgata, que trazem Deus com maiúscula, ou seja, o verdadeiro Deus, colocam como sendo uma resposta a ser dada pelos discípulos contra os supersticiosos.

Uma tradução em português aprovada e digna de confiança, que traz o texto na linha da Vulgata e da LXX, é a do Padre Matos Soares:

E, quando vos disserem: Consultai os magos e os adivinhos, que murmuram em segredo nos seus encantamentos, (respondei): Porventura o povo não há de consultar o seu Deus? Há de ir falar com os mortos acerca dos vivos? Antes à lei e ao testemunho que eles (é que se deve recorrer).”

Vê-se como aí a necessidade de acrescentar algumas palavras para dar o sentido do texto.

Bem, os seus conhecidos protestantes parecem ter certo conhecimento da língua hebraica, visto que eles argumentam com a identidade de termos de Gen 1,1 e Is 8,19 no original hebreu e a diferença de tradução na suposta “bíblia católica”.

Eu admito minha ignorância nessa língua, mas a objeção me deixou curioso e fui consultar o texto hebreu que eu tinha a minha disposição. Pois as duas passagens em questão não me parecem trazer um termo idêntico. Se lhe interessar, segue abaixo a transliteração e o texto hebreu (que se lê da direita para a esquerda).

Mas ainda que o termo fosse idêntico e que eu soubesse ler, escrever e falar hebraico, ou mesmo que eu fosse doutor nessa língua, acho que não ousaria criticar tão facilmente a tradução da Bíblia de Jerusalém, por motivos linguísticos, porque é óbvio que quem é capaz de traduzir um texto tão complexo, não faz erros tão grosseiros.

Esse tipo de crítica, entretanto, não é de se espantar da parte de um protestante. A arrogância deles é genética. Veja o que dizia o pai de todos eles, Lutero. Numa carta a um amigo, ele respondia à um terceiro que o tinha criticado por ter alterado o texto da Epístola de São Paulo aos Romanos para poder apoiar aí mais facilmente a suas teses: “Se o teu novo papista quer te aborrecer a respeito da palavra sola (só), responda-o com segurança: O doutor Martinho Lutero assim o quer e diz:

“Papista e burro, é a mesma coisa: Sic volo, sic jubeo, sit pro ratione voluntas (Assim eu quero, assim eu mando, que a vontade esteja no lugar da razão) … nós queremos, por nossa vez nos gabar e nos fazer de bons com esses imbecis e assim como são Paulo se glorificava diante os santos insensatos, assim também eu quero me glorificar diante destes burros: Eles são doutores! Eu também. Eles são sábios? Eu também. Eles são pregadores? Eu também. Eles são teólogos? Eu também. Eles são filósofos? Eu também… Eu me gabarei mesmo de algo a mais: eu sei comentar todos os salmos e profetas, eles não o podem fazer. Eu sei traduzir, eles não o sabem! E para terminar, eu conheço a própria dialética melhor que todos eles juntos, e eu sei, além disso, que nenhum deles compreende Aristóteles. E eu quero que me ridicularizem, se um só entre eles todos compreende um proêmio ou um capítulo de Aristóteles.” (Citado por Döllinger, La Réforme, III, 138. Tradução nossa.)

Para concluir, muito mais do que esta questão pontual, é importante ter claro a que absurdo leva tanto o princípio de Sola Scriptura, quanto o de o do Livre Exame. Se só vale a Escritura, quem é juiz para dizer qual é a versão que vale? O único critério não é o próprio texto? Porque a versão de um protestante tem mais direito de existir que a católica? Por outro lado, se qualquer um pode interpretar as escrituras, o Zé da Esquina se sente no direito de criticar séculos de Tradição e de estudo transmitidos pela Igreja.

Salve Maria!
Ives de Kermartin

TAGS

Publicações relacionadas

Cartas: Porque voces são tão trouxas?

Cartas: Ambiguidade dos protestantes

Cartas: Presbiterianismo, Calvino e outros hereges - Orlando Fedeli

Para comentar esta publicação

O site Montfort não permite a inclusão de comentarios diretamente em suas publicacões.

Para enviar comentários, sanar dúvidas, obter informações, ou entrar em debate conosco, envie-nos sua carta.

Saiba mais