Montfort Associação Cultural

18 de outubro de 2011

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Magister: Concílio, obra em andamento. Mas há quem cruze os braços

 

O cardeal Cottier, o jurista Ceccanti e o teólogo Cantoni defendem a novidade do Vaticano II. Mas os lefebvrianos não cedem e os tradicionalistas acentuam as críticas. Os últimos desdobramentos de uma disputa quente.

A reportagem é de Sandro Magister e está publicada no sítio Chiesa, 17-10-2011. A tradução é do Cepat, publicada por Unisinos.

A controvérsia sobre a interpretação do Concílio Vaticano II e suas mudanças no magistério da Igreja registrou nestas semanas novos desdobramentos, também em alto nível.

O primeiro é o Preâmbulo Doutrinal que a Congregação para a Doutrina da Fé entregou, em 14 de setembro passado, aos lefebvrianos da cismática Fraternidade Sacerdotal São Pio X, como base para uma reconciliação.

O texto do Preâmbulo enuncia alguns princípios doutrinais e critérios de interpretação da doutrina católica, necessários para garantir a fidelidade ao magistério da Igreja e o ‘sentirse cum Ecclesia’, deixando ao mesmo tempo para uma legítima discussão o estudo e a explicação teológica de expressões individuais ou formulações presentes nos documentos do Concílio Vaticano II e do magistério posterior.

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Um segundo desdobramento é a intervenção do cardeal Georges Cottier na discussão em andamento há alguns meses no sítio Chiesa e no Settimo Cielo.

Cottier, de 89 anos, suíço, dominicano, é teólogo emérito da casa pontifícia. Publicou sua intervenção no último número da revista internacional 30 Dias.

Ali, ele replica a tese defendida no sítio Chiesa pelo historiador Enrico Morini, segundo o qual com o Vaticano II a Igreja quis retomar a tradição do primeiro milênio.

O cardeal Cottier alerta contra o pensamento de que o segundo milênio foi, para a Igreja, um período de decadência e de afastamento do Evangelho.

Mas ao mesmo tempo reconhece que o Vaticano II fez bem em reforçar uma maneira de perceber a Igreja que foi particularmente viva no primeiro milênio: não como sujeito em si, mas como reflexo da luz de Cristo. E traça as consequências concretas que derivam dessa visão corrigida.

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Um terceiro desdobramento da discussão remete à tese do Vaticano II particularmente discutida pelos tradicionalistas: a da liberdade religiosa.

Com efeito, há indiscutivelmente uma ruptura entre as afirmações do Vaticano II e as anteriores condenações do liberalismo feitas pelos Papas do século XIX.

Mas “por trás dessas condenações havia na realidade um liberalismo específico, o liberalismo estatal continental, com suas pretensões de soberania monista e absoluta, que se considerava como restritiva para a independência necessária para a missão da Igreja.

Ao passo que, ao contrário, “a reconciliação prática, realizada pelo Vaticano II, se produz através do pluralismo de outro modelo liberal, o anglo-saxão, que relativiza radicalmente as pretensões do Estado até fazer deste último, não o monopolizador do bem comum, mas uma limitada realidade de escritórios públicos a serviço da comunidade. Ao desencontro entre os dois exclusivismos se seguiu o encontro sob o signo do pluralismo”.

No ensaio, Ceccanti analisa os dois importantes discursos pronunciados por Bento XVIem 22 de setembro passado no Parlamento Federal de Berlim e em 17 de setembro de 2010 no Westminster Hall, para mostrar como ambos os discursos “estão em estreita continuidade com a reconciliação operada pelo Concílio”.

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Um quarto desdobramento é a publicação, na Itália, deste livro: Pietro Cantoni, “Riforma nella continuità. Vaticano II e anticonciliarismo“, Sugarco Edizioni, Milano, 2011.

O livro navega pelos textos mais controvertidos do Concílio Vaticano II, para mostrar que neles tudo é legível e explicável à luz da tradição e da grande teologia da Igreja, inclusive Santo Tomás de Aquino.

O autor, o sacerdote Pietro Cantoni – depois de ter passado alguns anos de sua juventude na Suíça, na comunidade lefebvriana de Ecône, e de ter-se retirado dali – se formou em Roma, na escola de um dos maiores mestres da teologia tomista: Brunero Gherardini.

Mas justamente as críticas deste livro se dirigem contra o seu mestre. Gherardini é um dos “anticonciliares” que mais está na mira do autor.

Com efeito, em seus últimos livros, Gherardini antecipou sérias reservas sobre a fidelidade à Tradição de algumas afirmações do Concílio Vaticano II: na Constituição Dogmática Dei Verbum, sobre as fontes da fé, no Decreto Unitatis Redintegratio, sobre o ecumenismo, e na Declaração Dignitatis Humanae, sobre a liberdade religiosa.

A Civiltà Cattolica, revista dos jesuítas de Roma impressa com o controle prévio da Secretaria de Estado vaticana, ao resenhar em setembro um de seus livros reconheceu no ancião e competente teólogo uma “sincera devoção pela Igreja”.

Mas isto não impede Gherardini de apontar suas críticas mordazes contra o próprio Bento XVI, culpado, na sua opinião, de uma exaltação do Concílio que “corta as asas da análise crítica” e que “impede de olhar o Vaticano II com olhos mais penetrantes e menos deslumbrantes”.

Há dois anos Gherardini espera, em vão, do Papa o que lhe pediu em uma “súplica pública: submeter a reexame os documentos do Concílio e esclarecer de forma definitiva “se, em que sentido e até que ponto” o Vaticano II está ou não em continuidade com o magistério anterior da Igreja.

Para março de 2012, anunciou a publicação de um novo livro seu sobre o Concílio Vaticano II, que se prevê seja ainda mais crítico que os anteriores.

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Outra novidade é o Prêmio Acqui Storia que será concedido, no próximo dia 22 de outubro, a Roberto de Mattei pelo livro Il Concilio Vaticano II. Una storia mai scritta (Ed. Lindau).

O Prêmio Acqui é um dos mais prestigiosos, no campo dos estudos históricos. O jurado que decidiu conferi-lo a Mattei é composto por especialistas de diferentes orientações, católicos e não católicos.

Mas seu presidente, o professor Guido Pescosolido, da Universidade La Sapienza, renunciou ao cargo justamente para se afastar desta decisão. Na opinião do professor Pescosolido, o livro de Mattei estaria viciado por um espírito militante anticonciliar, incompatível com os cânones da historiografia científica.

Em apoio ao professor Pescosolido foi apresentado um comunicado da SISSCO, Sociedade para o Estudo da História Contemporânea, presidida pelo professor Agostino Giovagnoli, máximo expoente da comunidade de Santo Egídio, e com outro expoente da mesma comunidade no conselho diretor, o professor Adriano Roccucci.

E no Corriere dela Sera, o professor Alberto Melloni – co-autor de outra famosa história do Vaticano II, também ela seguramente “militante”, mas no âmbito progressista, produzida pela Escola de Bolonha, de Giuseppe Dossetti e Giuseppe Alberigo e traduzida para mais idiomas – maltratou diretamente a Mattei. Apesar de que reconhece ter enriquecido a reconstrução da história do Concílio com documentos inéditos, o autor equiparou o livro a “tantos outros panfletos anticonciliares”, que não merece consideração alguma.

Em contrapartida, a calma com que o professor Mattei suportou similares afrontas foi para todos uma lição de elegância.

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Por último, sempre na linha interpretativa de Gherardini e do professor Mattei, foi publicado no dia 07 de outubro na Itália outro livro que identifica já no Concílio Vaticano II os fracassos que apareceram no pós-concílio: Alessandro Gnocchi, Mario Palmaro, “La Bella addormentata. Perché col Vaticano II la Chiesa è entrata in crisi. Perché si risveglierà“, Vallecchi, Firenze, 2011.

Os dois autores não são historiadores nem teólogos, mas defendem suas teses de maneira competente e com eficácia comunicativa, para uma plateia de leitores mais ampla que a reunida pelos especialistas.

No lado oposto aos tradicionalistas, também o teólogo Carlo Molari ampliou o âmbito da discussão, em uma série de artigos na revista La Rocca, da Pro Civitate Christiana de Assis, nos quais retomou e discutiu as intervenções publicadas em Chiesa e Settimo Cielo.

Também graças a eles é então previsível que a controvérsia sobre o Vaticano II se estenda a um público mais amplo, justamente na vigília dos 50 anos da abertura da grande assembleia, em 2012.

Para a ocasião, de 03 a 06 de outubro do próximo ano, o Comitê Pontifício de Ciências Históricas tem na pasta um congresso de estudo sobre o modo como os bispos que participaram do Concílio o descreveram em seus diários e arquivos pessoais.

E em 11 de outubro de 2012, aniversário da abertura do Concílio, começará um especial “ano da fé”, que terminará no dia 24 de novembro do ano seguinte, solenidade de Cristo Rei do Universo. O anúncio foi feito por Bento XVI, em dia 16 de outubro, na homilia da Missa celebrada por ele na Basílica de São Pedro, com milhares de anunciadores dispostos a trabalhar pela “nova evangelização”, e exposto no Motu Proprio Porta Fidei.

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