Montfort Associação Cultural

17 de março de 2011

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Lutero, “católico”? Nem sonhando.

Por Thomas Ricci, 30Giorni

Tradução montfort.org.br

Entrevista com Theobald Beer, 81 anos, um sacerdote católico, autor de um livro que revoluciona a tese mais difundida acerca de Lutero. Dissipou muitos estereótipos: o monge de Wittenberg despreza Santo Agostinho, não é occanista, é contradito por Melanchthon. Mas, o problema real é a sua falsa cristologia.

O trono de José Lortz e seus discípulos, incluindo os eminentes professores, como Erwin Iserloh e Peter Manns, começa a ruir? Sua interpretação de Lutero, durante décadas, considerado o melhor no campo católico, está sofrendo fortes críticas por parte de muitas áreas novas e inexploradas da pesquisa. Um livro em particular, tem feito uma reviravolta de todo o ambiente “luteranófilo” despertando a ira  da escola lortziana: se trata de “Der Wechsel und Streit Fröhliche”, “O Intercâmbio e a Feliz Disputa”, lançado na Alemanha Oriental já 1974 e republicado no Ocidente em 1980 por Johannes Verlag, editora suiça dirigida pelo teólogo Hans Urs von Balthasar. O autor é Theobald Beer, um sacerdote católico já ancião, agora com 81 anos, que foi pároco     durante quase quarenta anos em Leipzig, desde 1949 cidade da República Democrática Alemã.

Theobald Beer é um personagem singular, simpatissíssimo. Vive sozinho em Regensburg (República Federal da Alemanha), a antiga Ratisbona, Bispado da Baviera Oriental. Ele mora em um apartamento modesto, repleto de livros em todas as paredes, os quais se destacam os volumes da Ausgabe Weimarer de textos de Martinho Lutero. “Eu comprei para meu irmão que morava em Mônaco, no oeste. Eu sei que certamente não poderia pagá-lo”, diz ele, entristecido. Por seu livro recebeu o doutoramento em teologia honoris causa em 1977 na Universidade de Regensburg.

O sr. objeta que Lutero tenha construído uma cristologia falsa. Não é apenas uma acusação gratuita…

Theobald Beer: Não é uma acusação minha. É um fato. Os textos de Lutero sobre esta questão são inequívocos. Num texto de 1509, especificamente as anotações De vera religione di Agostino, Lutero diz: “Cristo é feito (factus) à imagem de Deus, hipostaticamente (ou seja, como uma substância real ndr), mas um acréscimo (additus) a esta”. Bem, os padres da igreja diriam àqueles que afirmassem isso sobre Cristo, anathema sit.
A afirmação de Lutero está, entre outras coisas, em claro contraste com Santo Agostinho, que, ao contrário, argumenta que Cristo é Imago Dei e não factus ad imagem Dei, como  se fosse qualquer parte da criação de Deus.

A idéia de um Lutero profundamente “agostiniano” é, portanto, falsa…

Beer: Não resta a menor dúvida. Lutero rejeita Agostinho. Há inúmeras passagens em que ele comenta Santo Agostinho com ironia.

Pois então, quem é Cristo para Lutero?

Beer: Respondo com as palavras do próprio Lutero. Em uma anotação de 1511, ele escreve: “Quando perguntei que coisa – atenção: Lutero não diz quem é Cristo, mas, que coisa é Cristo – lógicamente respondo que ele é pessoa. (Lutero rejeitava a lógica ndr.). O teólogo ao contrário disse: Cristo é a rocha, pedra angular “. Lutero explica o que ele quis dizer com isso. Cristo é a rocha que nos protege da ira de Deus.

Cristo como “função” e não como “pessoa”?

Beer: Exatamente. Lutero faz uso da palavra hipostáse, mas a anula acrescentando a expressão sed additus. Lutero diz abertamente que Cristo não é uma pessoa; sobrando apenas a função de cobertura da ira de Deus. Cessando a “função” também Cristo deixa de ser.

As interpretações em voga na Alemanha são prevalentemente do tipo “histórica”, e particularmente atendendo uma atmosfera ecumênica. Francamente, cheguei a ler uma interpretação “supraconfessional” ou “preconfessional” de Lutero. Ao contrário, o sr.  concentra sua análise sobre a cristologia de Lutero, sobre a questão “Quem é Cristo para Lutero”. Por quê?

Beer: A Cristologia é o cerne da questão. A partir da posição que ele assume frente a Cristo, depende todo o resto. Lutero não compreende a profunda unidade presente na encarnação. Em 1508, ele escreveu: “Se dizemos que Cristo é composto (compositus) e se se entende o termo em seu sentido estrito (proprie), então ele está certo. Se, ao contrário, se afirma que Cristo é constituído (constitutus), então ele é falso”. Como se vê, Lutero tende a divisão. Não foi por acaso que um dos seus contemporâneos, Hieronymus Dungersheym, o acusou de arianismo. Também Scbwenckfeld, um nobre da Silésia, que foi inicialmente ligado à Lutero, em um ponto escreveu-lhe: “Seu discípulo Vadian em St. Gallen está sustentando que a humanidade em Cristo é uma adição. Mas isso não está de acordo com o que dizem os padres da Igreja”. O próprio Lutero, em 1511, andava fazendo afirmações como esta: Cristo é feito pelo Pai, nascido pela Mãe.

Como é que ninguém percebeu esses gravíssimos erros cristológicos?

Beer: A pouco se acorda da condição de atribuir a Melanchthon esses erros, que se sabe ter “propagado” Lutero na Alemanha. Na verdade Melanchthon é um humanista cristão que apoia exatamente o oposto de Lutero. Quanto a questão da redenção e da criação, Lutero diz: humanitate nihil cooperande (Yves Congar notou que se trata de uma espécie de monergismo, que equivale a dizer que a humanidade de Cristo não coopera com a justificação), Melanchthon fala ao contrário, de natura conditrix; a natureza humana de Cristo participa da criação. Mas ninguém se preocupa em confrontar os dois autores.
Claro que também há razões bem objectivas que explicam esse atraso. As anotações milequinhentistas de Lutero ficaram à margem de numerosos textos, e só foram descobertos por volta de 1900! E elas são a prova decisiva. Para entendê-las, é necessário também conhecer Santo Agostinho, Pedro Lombardo, Tauler, Gabriele Biel, este último um teólogo excelente. O desconhecimento destes autores é um obstáculo para muitos. O Concílio de Trento não sabia desses textos, ou, de outra forma, Lutero teria sido diretamente condenado.

Seu livro suscitou uma inflamada controvérsia, especialmente nos círculos católicos.

Beer: As revisões críticas que recebi desconsideram a maior parte do que Lutero escreveu sobre o tema da cristologia. Para esses críticos vale o critério que posto que não deve ser, não pode ser. Lutero não pode ter escrito essas coisas a respeito de Cristo: e ainda assim ele o fez. Lutero não poderia ter utilizado fontes neoplatônicas para seu pensamento, mas ainda assim o fez, com a Theologia Deutsch. Lutero não poderia ter feito extensa referência a Hermes Trismegisto: mas isso é exatamente o que ele fez!
Lutero está repleto de referências anti-bíblicas e é estranho que não se queira ver.

E os protestantes, que dizem sobre os especialistas católicos que estudam Lutero?

Beer: Eu poderia citar o nome de proeminentes estudiosos protestantes que têm me perguntado: “mas porque a Igreja Católica deve repetir todos os disparates que fizemos no passado?”. Certa vez, um exegeta protestante me disse: “Quando eu vejo os exegetas católicos que adotam os mesmos princípios que nós havíamos abandonado, me dá um medo infernal. Penso se seremos punidos por isso”.

Com seu livro, o sr. pensa ter dificultado o diálogo ecumênico?

Beer: O verdadeiro ecumenismo eu o conheci em minhas conversas com os protestantes do leste. Além disso, não se pode fazer ecumenismo se nem mesmo se pode falar de Lutero.

T.R.

[De "30 Giorni", ano I, n. 04 de junho de 1983, pp 56-58, apud Contro la leggenda nera]

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