Montfort Associação Cultural

12 de janeiro de 2005

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Liberalismo e tolerância

Autor: Orlando Fedeli

  • Consulente: Cristiano
  • Localizaçao: – Brasil

Olá senhor Orlando Fedeli, li alguns artigos seus, achei interessante sua abordagem perante os temas expostos, porém não vi em todos uma credibilidade, li tambem as cartas dos internautas e suas repectivas repostas, achei lastimavel tanto o comportamento de alguns deles, quanto o seu proprio.

não escrevi com a intenção de rivalizar com o senhor, apenas, como já disse antes achei interessante sua abordagem, mesmo não concordando com tudo que disse.

Ah, sim, não sou ateu, mas tb não sou catolico ou sigo qualquer religião, gosto de rock, adoro Jesus, é contraditorio? sim, mas isso não me deixa mau.

abraços.

Cristiano

Prezado Cristiano, salve Maria!

Muito obrigado por sua consideração por algum aspecto positivo que você encontra em meus escritos. Lamento, porém, a sua discordância noutros pontos, especialmente naquele do tom polêmico de minhas cartas, quando defendo a igreja e a verdade contra algum erro ou ataque feito à Fé.

Lembro-lhe que polêmica quer dizer guerra, e na guerra, na luta, ainda que apenas de argumentos, se visa a vencer o inimigo, e convencer os que assistem à batalha. Por vezes — e, graças a Deus, isso tenho visto e alcançado, inúmeras vezes, em cinqüenta anos de polêmica — convencer e converter o inimigo. Quantos tenho levado a se tornarem católicos! Ainda na polêmica com o herege Saul da Lagoinha vários protestantes se tornaram católicos. E por causa da polêmica com o gnóstico Olavo de Carvalho, um bom grupo dos que o seguiam se tornou católico praticante, Deus seja louvado.

Na realidade, o que o faz discordar de mim, é a sua posição liberal. Para o liberalismo não existe a verdade.

Cada um teria a sua verdade particular. Exatamente como no manicômio: lá, cada louco acredita no que quer. E o mundo, hoje, se transformou em um manicômio, onde todos dialogam, ninguém escuta, e ninguém acredita em ninguém. Manicômio no qual nenhuma informação tem valor. Vive-se num relativismo total.

Desde o Vaticano II fala-se continuamente em Diálogo. Mas não se acredita mais no Verbo.

E você, como muitos liberais, quereria que o manicômio do mundo, fosse bem “comportado”, “educadinho”, todos tagarelando com bons modos. O reino da tolerância e da paz relativista.

Ainda agora recebi uma carta de um Doutor mineiro que me repreendia por minhas certezas, e me criticava por meus ataques que ele qualifica de contrários ao amor, à caridade. Principalmente ele condenava meus juízos. E, condenando meus julgamentos, ele me julgava – pobre Doutor da Incoerência — me julgava, repito, sem caridade, um tolo e um insensato.

Você, como ele, discorda de mim pelo tom polêmico, combativo, que adoto, porque você e ele não crêem que exista uma verdade objetiva (Veja que não estou escrevendo apenas a você. Aproveito sua carta e sua discordância, para responder também a outros de mentalidade pacifista. E respondo não só a você, e não só a um Doutor em Incoerência. Respondo a muitos, pois nosso tempo infelizmente está repleto de liberais e de relativistas que criaram esse manicômio atual em que vive o mundo).

Sim, os relativistas e liberais sonharam com um mundo sem lutas, sem polêmicas, em doce paz, sem guerras e sem polêmicas mal educadas.

Criaram o século XX, reino da tolerância, no qual houve já duas guerras mundiais. Criaram o século do Amor — Terceiro Milênio da Civilização do Amor — que começou com Bin Laden.

Ocorre, porém, que a verdade e a mentira estão em perpétua guerra.

Ocorre que o bem detesta o mal e o mal detesta o bem.

Ocorre que Cristo Deus disse que não veio trazer a paz ao mundo, mas sim a espada, a guerra.

Ocorre que Deus disse que a vida do homem na terra é uma guerra.

Ocorre que Jesus disse que mandava seus filhos como cordeiros entre lobos.

E os relativistas não admitem que haja defesa contra os lobos.

Ocorre que os relativistas sonham fazer a paz entre Cristo e Belial.

Ocorre que eles sonham em dialogar — e dialogar com boas maneiras — até com o diabo.

Ocorre que a paz e a educação liberal só produziram um mundo de guerras mundiais e de violência.

Ocorre que a perda Fé e do senso de verdade e de virtude causaram o relativismo que torna não obrigatórias não só a lei de Deus e a da Igreja, mas até mesmo as leis e regras de etiqueta. Daí a desordem generalizada de nossos dias.

Ocorre que Cristo nos deu exemplo de polemista, quando discutiu violentamente com os fariseus, chamando-os justamente de filhos do diabo, hipócritas, serpentes, raça de víboras, e de sepulcros caiados.

Se esses liberais “educadinhos” e pacifistas tivessem assistido Cristo discutindo com os fariseus, eles acusariam a Jesus de ser violento demais.

Como reagiriam esses católicos de saleta, vendo Cristo de chicote na mão, batendo nos vendilhões, derrubando as suas mesas, e expulsando-os aos gritos do Templo?

Certamente criticariam a falta de “bons modos” de Cristo, e diriam que Ele não fora bem educado. Que afinal, se Ele foi crucificado, foi porque não teve a habilidade diplomática conveniente, e a caridade de dialogar pacificamente com seus opositores. Que ele não respeitou a opinião de Caifás, e que Ele, por sua violência, acabou sendo crucificado.

Que se poderia esperar da pregação de Cristo se, desde o começo Ele declarou que o Reino dos Céus é dos violentos que todos os dias o arrebatam?

Que se poderia esperar da pregação de Cristo, senão a violência do Calvário visto que Jesus declarou que deveria haver guerra entre os filhos da luz e os filhos das trevas?

Que se poderia esperar, diriam esses tolerantes e relativistas contra Jesus, de uma pregação tão radical e tão cortante, tão intolerante como a de Cristo?

Meu caro Cristiano, se você quer ser verdadeiramente um “cristiano” só poderá sê-lo se aderir à verdade de Cristo, e essa adesão deve ser de tal porte e de tal monta que exige lutar por ela. Que exige, se necessário, morrer por ela.

A vida católica exige defender a Fé. Exige vender, se preciso, o manto para comprar uma espada, como Cristo recomendou a São Pedro. E a Palavra de Deus é como uma espada, nos diz São Paulo.

São Paulo !…

São Paulo, o Apóstolo que compôs o hino mais sublime em honra da caridade, São Paulo recomendou a seu discípulo Tito que tratasse duramente os hereges: “Increpa illos dure!“. “Repreendê-os asperamente” (Epístola de São Paulo a Tito, I, 13).

São Paulo não disse a Tito: “Tenha bons modos com os hereges”, mas “Increpa illos dure!”.

E muito radicalmente e muito pouco “caridosamente” (para os sentimentais modernos) o cantor da caridade, São Paulo recomendou ainda a Tito que fechasse a boca dos hereges faladores: “as quais é necessário fechar a boca” (São Paulo a Tito, I, 11).

São Paulo, contra os doces Doutores de Incoerência usou de ironia, debochando de certas “Mulherinhas( …) que aprendem sempre e nunca chegam ao conhecimento da verdade” (II TIm, III, 6-7).

Outrora os defensores da Fé eram combativos e usavam argumentos e ironia.

Imitemo-los. Outrora, os santos eram normalmente mártires e confessores.

Siga os seus passos sangrentos.

Hoje, os doutores de boas maneiras e de incoerência querem que haja apenas os “santos” dialogantes, e que a Igreja seja uma casa de tolerância…

Non !!! Jamais !!!

Não os sigamos.

Não os imitemos.

Trata-se de meu estilo?

Estilos são coisas pessoais, que se devem tolerar.

Sou como sou.

Trata-se de meus princípios?

Jamais renunciarei a eles, porque eles são os da Religião Católica.

Trata-se de minha pessoa?

Meu refúgio é minha consciência, e minha confiança está na misericórdia de Deus.

Trata-se da verdade?

Quero morrer por ela.

E que para ter essa morte, Deus me ajude com sua divina graça.

E você, meu caro Cristiano, não quer jogar fora seus discos de rock, aprender a verdade católica, amá-la até a morte e me ajudar a defendê-la?

Pense nisso.

Rezo para isso.

Por você.

In Corde Jesu, semper,
Orlando Fedeli.

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