Montfort Associação Cultural

24 de abril de 2012

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Latim X Vernáculo

Autor: Alberto Zucchi

  • Remetente: Gustavo Silveira
  • Escolaridade: Pós-graduado
  • Profissão: Servidor Público
  • Religião: Católico
  • Localização: Areado – MG , Brasil

Prezados amigos da Montfort,
Salve Maria!

Parabéns pelo site que tanto estimula milhares de pessoas a conhecer e praticar a doutrina católica. Minha dúvida é simples: se o Concílio de Trento condenou o uso da língua vernácula na liturgia, por que o CV II o autorizou? Não seria uma contradição, ou há margem para essa interpretação nos documentos do Concílio de Trento?

Deus lhes pague.

Certo da resposta, me despeço.

Prezado Gustavo,
Salve Maria!

Para esclarecer a questão, colocamos abaixo o trecho do Concílio de Trento ao qual sua carta faz menção (Concílio de Trento, sessão XXII, cap. 8):

“Ainda que a Missa contenha um grande ensinamento para o povo fiel, todavia não pareceu bom aos Padres do Concílio que ela seja celebrada em língua vulgar (… ) o Santo Concílio ordena aos pastores e a todos aqueles que têm cura de almas a darem explicações frequentemente, durante a celebração das Missas, por si próprios ou por meio de outros, à partir dos textos lidos na Missa e, dentre outros, esclarecer o mistério desse sacrifício, sobretudo nos domingos e dias de festa”

O Papa tem o poder de permitir ou proibir o uso da língua vernácula na liturgia conforme julgar conveniente. Não há contradição sob esse aspecto. No Concílio de Trento, com muita razão, julgou-se que isso era inconveniente. O mesmo mostra o Rev. Padre João Batista Reus em seu livro “Curso de Liturgia” (1944) em que diz:

“1. No princípio da Igreja nenhuma língua fora proibida para a Liturgia nem por Nosso Senhor nem pelos apóstolos. Jesus Cristo celebrou a missa no cenáculo provavelmente em língua aramaica, que era o idioma popular. Os apóstolos ter-Lhe-ão seguido o exemplo.

2. Contato com os pagãos. Logo que se iniciou a evangelização dos pagãos, as duas línguas mais faladas, a latina e a grega, foram admitidas na Liturgia. Assim, as três línguas, em que estava escrito o título da santa cruz, hebraica (aramaica), grega e latina, serviram à Liturgia.
(…)

4. As línguas romanas. Em Roma, nos três primeiros séculos, a Liturgia era celebrada em grego. Há várias circunstâncias justificadoras desta asserção: 1) a língua oficial na administração romana era a grega; 2) os cristãos em Roma entendiam o grego, pois a epístola [de São Paulo] aos romanos foi escrita em grego; 3) os papas e os escritores cristãos em Roma, p. ex., S. Justino, Taciano, escreveram em grego; a Liturgia de S. Hipólito de Roma está redigida em grego; 4) ainda hoje [nota: em 1944] na missa papal solene o evangelho e a epístola se cantam em grego e latim. Esta cerimônia, no princípio, era necessária por causa dos fiéis que só entendiam o grego. Depois foi conservada para significar que a Igreja católica abrange todos os povos. Restos da língua grega há em várias partes da Liturgia, p. ex., Kyrie, ágios o theós. (…)

VANTAGEM DA LÍNGUA LATINA NA LITURGIA

A língua litúrgica latina é:

1 uma língua venerável. Pois é o produto do desenvolvimento histórico e secular, consagrada pelo uso multi-secular.

2. Uma língua estável. A Igreja conserva-a por saber que as suas palavras são a expressão fiel da fé católica. Tal certeza não teria com traduções continuamente reformadas e adaptadas à língua viva. Os gregos, apesar de separados da Igreja romana, guardaram a sua fé quase completamente devido em grande parte à sua Liturgia antiga.

3. Língua fixa. A língua latina é muito aperfeiçoada, com termos próprios, formados pela legislação romana.

4. Língua misteriosa e santa. É convicção geral que, para um ato tão santo como a missa, a língua quotidiana é menos conveniente. Os hereges, faltos de respeito de Deus, introduzem logo a língua vulgar na Liturgia. Seguindo o exemplo do Concílio Tridentino, Alexandre VII (1661) nem sequer permitiu a tradução do missal em francês. Hoje isto se concede; mas nega-se a licença de usar a língua vulgar na Liturgia, principalmente da missa. Existe o perigo de serem abusadas pelo povo baixo as palavras que contêm os divinos mistérios.

5. Língua unitiva. A diversidade das línguas separa os homens, a língua comum une-os. A língua latina une as igrejas particulares entre si e com Roma.

6. Língua civilizadora. Todos os membros do clero devem aprender latim, e por isso podem aproveitar para a sua formação esmerada os autores clássicos antigos e a doutrina profunda dos santos padres da Igreja.

(…)

8. Mas, dizem, o povo não entende nada da missa. Responde-se: A missa é uma ação, não um curso de instrução religiosa. No Calvário não havia explicações. O altar é um Calvário. Todo cristão sabe o que significa: imolar-se. Além disso, o Concílio Tridentino (sess. 22) encarrega os sacerdotes “que frequentemente expliquem alguma coisa do que se lê na missa”.(p. 46-47)

Hoje muitos defendem o uso da língua vernácula na Missa. No entanto, gostaria de saber quantos padres teriam de fato uma boa nota num exame de compreensão de texto em português mesmo!
O próprio Concílio Vaticano II não aboliu o uso da língua latina em troca da língua vulgar na liturgia. Veja os seguintes parágrafos do texto do concílio “Sacrosanctum Concilium” que trata da liturgia (n.36):

Ҥ 1. Deve conservar-se o uso do latim nos ritos latinos, salvo o direito particular.

§ 2. Dado, porém, que não raramente o uso da língua vulgar pode revestir-se de grande utilidade para o povo, quer na administração dos sacramentos, quer em outras partes da Liturgia, poderá conceder-se à língua vernácula lugar mais amplo, especialmente nas leituras e admoestações, em algumas orações e cantos, segundo as normas estabelecidas para cada caso nos capítulos seguintes”.

E, em outra parte, contra os padres “criativos” modernos, diz o Concílio (n.22 §3):

“ninguém mais, mesmo que seja sacerdote, ouse, por sua iniciativa, acrescentar, suprimir ou mudar seja o que for em matéria litúrgica”.

O que ocorreu, no entanto, é que, na prática, os Bispos abusaram das brechas abertas pelo texto do Concílio e excluíram completamente o latim das igrejas e impuseram traduções mal feitas dos textos litúrgicos com os frutos desastrosos consequentes.

Veja, então, que o que o Concílio de Trento sabiamente fez não foi condenado pelo Concílio Vaticano II, embora esse último tenha deixado abertas brechas para que os Bispos locais fizessem adaptações na liturgia local segundo a conveniência julgada por cada um. A história deixou claro que tratou-se, portanto, de uma ação pastoral equivocada do Concílio Vaticano II, pois na prática, muitos Bispos, numa ação autodestruidora da Igreja, para parafrasear Paulo VI, causaram grande dano à Missa e às almas retirando o latim da liturgia (e também dos seminários!).

Felizmente o Papa Bento XVI tenta reverter a desastrosa administração dos Bispos e busca revalorizar o latim o tanto quanto pode.

Alberto Zucchi

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