Montfort Associação Cultural

2 de outubro de 2011

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Lamarck e a Evolução: Filosofia de Zoológico

André Roncolato Siano

A cristalização explícita da idéia evolutiva na Biologia se deu por Jean Baptiste Pierre Antoine de Monet de Lamarck, economicamente conhecido e difundido nos meios escolares e midiescos apenas como Lamarck. Darwin apenas deu uma roupagem mais atrativa e palatável ao mesmo princípio que subjaz a toda Idéia Evolucionista:

 

“Não se deve esquecer, sobretudo, que aos defensores da teoria do transformismo do biólogo francês Jean-Baptiste Lamarck (1744-1829) (teoria que formula a hipótese da origem animal do homem) juntam-se os novos adeptos de uma filosofia zoológica, melhor formulada pelo inglês Charles Darwin (1809-1882), autor do famoso A origem das espécies (1859), (…).” (Samain, 2001 – História Natural do Homem, o destaque é nosso)

 

Não trataremos aqui de criticar especificamente o dogma evolucionista, o qual já foi exaustivamente refutado em diversos artigos que podem ser encontrados em nosso site. Não obstante, sugerimos a leitura do texto Evolucionismo: dogma científico ou tese teosófica?, pois ajudará muito na compreensão e complementação deste nosso texto. Trataremos, por hora, de expor a consolidação da idéia evolutiva na biologia por Lamarck, posteriormente reelaborada por Darwin.

 

Jean de Lamarck foi colaborador e protegido de Georges-Louis Buffon. Desta estreita relação, houve a influência mútua do pensamento e dos sistemas que ambos desenvolveram, assim como da Escola Vitalista Animista de Montpellier. O pensamento de Buffon, como mostra Étienne Samain, pode ser sintetizado, de sua vasta obra História Natural do Homem, numa visão acentuadamente antropocêntrica, na qual o Homem é o “ser único e superior por essência(Samain, 2001 – nosso destaque) conforme afirma Buffon. Na verdade, para Buffon, o homem é Deus. Um Deus que para ser tal, espera sua libertação evolutiva. De outra forma, vemos aqui explicitamente o princípio da gnose. Esta “essência” afirmada de forma obscura é que torna o Homem o ser único e superior e, em outras palavras, dá ao gênero humano um aspecto divino. É a evolução desta “essência” que une todos os homens num só ser, superior e, sob sua igualitária, democrática e relativística visão, estão todos os outros seres, os quais “submetem-se à sua lei” (Buffon), ou seja, a lei do homem.

 

Vejamos, pois, do que se trata o Vitalismo.

 

O Vitalismo é uma doutrina essencialmente gnóstica. Assim, ele “está associado à doutrina de Barthez (escola de Montpellier), expressa nos Nouveaux élements de la science de l’homme (1775): existiria em cada indivíduo um ‘princípio vital’, distinto ao mesmo tempo da alma pensante e das propriedades físico-quimicas do corpo, que governa os fenômenos da vida.(Lalande, Vocabulaire techique et critique de Philosophie, p.1214 apud Martins, L.A.C.P., Lamarck e o vitalismo francês, Perspicillium, v.9 n.1 p.25-68, 1995- o destaque é nosso)

 

Ora, se há um “princípio vital”, não natural e distinto até mesmo da alma sobrenatural, esse “princípio” só pode ser divino. Essa descrição se coaduna harmoniosamente com o princípio da gnose de que a matéria possui uma partícula divina, de que temos uma semente divina em nós, a qual deve evoluir para a divindade. Ainda, para reafirmar a boa fundamentação de nossa crítica, Morton O. Beckner diz: “A Vida de um organismo pode ser substancial mas não é totalmente constituída por substância não viva”(Beckner, “Vitalism”, apud opus cit, p.30). Aqui se pode ver o quão intrigante é essa alegação! Quer dizer, a vida seria uma forma “substancial”. E como já foi dito, distinta, inclusive da matéria. E para que não se restem dúvidas do gnosticismo do Vitalismo, Barthez,  médico e professor em Montpellier, que foi um dos precursores do Vitalismo francês junto com François B. S. de La Croix, Theóphile de Bordeu e Marie François X. Bichat, diz clara e sonoramente:

 

“Não importa que se atribua ou se negue uma existência particular e própria e este Ser que eu chamo de Princípio Vital.”(Barthez, nos Nouveaux élements de la science de l’homme, p.127, 1775 – o destaque é nossoVeja-se, é interessante como ele trata “este Ser”, assim com letra maiúscula. Seria um “Ser” por excelência? Divino?

 

Neste ponto já se consegue perceber a similaridade entre os princípios evolucionistas e o vitalismo, o qual é a velha gnose disfarçada.

 

 

 

Filosofia evolucionista aplicada à biologia

 

A obra de Lamarck, embora pouco conhecida, está bem longe de ser resumida somente na sua famosa e sugestiva Philosophie Zoologique, mas é composta também, por outras importantes publicações como Recherches  sur l’Organisation des Corps Vivans e Histoire Naturelle des Animaux sans Vertèbres, esta última contendo suas quatro leis da variação das espécies. Outras obras são também de interesse para nosso assunto como Mémoires de Physique et d’Histoire Naturelle e Système Analytique des Connaissances Positives de l’Homme.

 

A primeira lei de Lamarck, pouco comentada e até negligenciada nos meios acadêmicos, é o cerne de toda idéia evolutiva aplicada à biologia e é a que vai interessar neste artigo. Suas leis normalmente conhecidas são:

 

- a terceira lei “desenvolvimento ou atrofia de órgãos como função de seu emprego” (lei do uso e desuso);

 

- a quarta lei “A herança do adquirido” (herança dos caracteres adquiridos)

 

- e, um pouco menos, a segunda lei “Surgimento de órgãos em função de necessidade que se fazem sentir e se mantém”.

 

 

“Coincidentemente” a lei mais importante é a menos conhecida, ou seja, a primeira lei, a de que vamos falar.

 

Essa primeira lei de Lamarck trata da “tendência para o aumento da complexibilidade”.

 

 

- “A primeira lei da natureza, que dá à vida o poder de aumentar as dimensões de um corpo e de estender suas partes, e, por outro lado, que coloca esse poder na posição de aumentar gradualmente suas forças na composição da organização animal(…)” (Lamarck, Histoire naturelle, vol 1, p. 154, apud, Martins, L.A.C.P., Lamarck e as quatro leis da variação da espécies, 1997 – o destaque é nosso)

 

[este poder] “(…) teria a capacidade de compor, formar e reparar incessantemente a substância dos seres vivos (Lamarck, Mémoires de Physique et d’Histoire Naturelle, apud ibdem – o destaque é nosso)

 

 

É evidente nesta citação que Lamarck não trata aqui exclusiva e ingenuamente dos aspectos do crescimento do indivíduo, mas trata da existência de um poder. Ora, o poder é um atributo ou propriedade intrínseca da essência, e não a essência em si.  É interessante o fato de esse tal poder aprimorar a substância dos seres – que muda continuamente o indivíduo em seu crescimento,  e de que esta mesma essência faça com que, de uma maneira geral, haja uma contínua evolução no indivíduo em particular e nas espécies.

 

Evolução aqui deve ser entendida como progressão e aperfeiçoamento pois, de maneira geral, os entes progrediriam do inanimado para o animal, do animal para o homem, do homem para o divino. Então o ente não é realmente o que ele é. Ele é tão somente o devir de outro ente, até seu fim evolutivo: uma única divindade. Isso contraria frontalmente a razão, pois um ser não pode ser ele e outro ser ao mesmo tempo. O ser não pode ser ele mesmo e seu devir.

 

Afirmar isso sobre Lamarck não é mera especulação, como nota Lílian Martins:

 

 “Comparando-se as diferentes versões da obra de Lamarck, percebe-se que ele acreditava na existência de um poder inerente à vida, dotado de uma tendência para o aumento da complexibilidade, que teria como efeitos tanto o crescimento e aumento da complexibilidade de cada individuo (do ovo ao adulto) quanto o desenvolvimento progressivo das espécies.” (Martins, L.A.C.P., Lamarck e as quatro leis da variação das espécies, 1997 – destaques nossos)

 

Mas, acusarão alguns que cometemos um equívoco, uma injustiça, ao tratar Lamarck e mesmo a  evolução como sendo intrinsecamente vitalista e, portanto, gnóstica.

 

Então deixemos que Driesch, autor insuspeito, fale a respeito:

 

“O que ele [Lamarck] diz sobre a vida orgânica é em geral sem importância (…). Quanto ao resto ele admite uma autonomia dos processos vitais, e provavelmente apenas combate a teoria vitalista por medo de introduzir fatores sobrenaturais; mas sua idéias aqui estão longe de serem claras(Driesch, History and theory of vitalism, p. 96 apud Martins, L.A.C.P., Lamarck e o vitalismo francês, Perspicillium, v.9 n.1 p.45, 1995 – destaques nossos).

 

Ora, ainda alguns podem contra argumentar que haveríamos de perceber em Lamarck uma fase “pré-evolucionista”, na qual suas obras e idéias eram vitalistas, e uma fase “evolucionista”, na qual Lamarck recusaria toda a idéia que defendeu durante tempos. É um argumento muito ingênuo este. Na verdade, afirmar isso é restringir a idéia de Lamarck somente na conceituação da vida em si. Mas o trabalho de Lamarck é justamente bem conceituado ao tratar da “evolução” das espécies e é nesta fase que é mais perceptível o vitalismo. É a “evolução” que condena Lamarck.

 

Assim, podemos perceber que, desde os primórdios lamarckistas, a evolução é uma doutrina, não uma ciência ingenuamente natural. Muito pior, subjacente ao vitalismo lamarckista se esconde a gnose anti-católica, incutindo sutil e capciosamente seu veneno e seu ódio contra Deus, Aquele que É, o Imutável, o Sumo Bem.

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