Montfort Associação Cultural

13 de agosto de 2011

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Judeus na Espanha

Autor: Marcelo Andrade

  • Consulente: Pedro Raisin-dadre
  • Localizaçao: Rio de Janeiro – RJ – Brasil
  • Escolaridade: Superior concluído
  • Religião: Católica

Prof. Marcelo Andrade,
Apreciei muitíssimo sua aula sobre a Reconquista Ibérica. Foi inspirador ouvir tantas histórias de bravura e martírio, de defesa da fé sem compromissos, os quais tanto abundam hoje em dia…
Fico também imaginando os pensamentos dos ecumenistas em relação a Pelayo, que certamente lhes é um reacionário tradicionalista, alheio aos ventos dos tempos, ao Zeitgeist muçulmano… que deveria dialogar com eles, mas jamais fazer-lhes guerra. Que época efeminada a nossa, desfibrada e suicida, em comparação com aquela.
Em 1995 visitei a Espanha e estive no Alhambra, en passant uma bela arquitetura, e lá se encontra o pátio dos leões, que o guia nos disse ser uma exceção representativa na escultura, que os árabes permitiram em homenagem aos judeus que trabalhavam para eles. Pensei então na situação miserável em que vivam os moçárabes.
Os judeus parece que foram beneficiados pelos árabes contra os católicos, pois aqueles eram os administradores (eficientes, dizem) das cidades invadidas, enquanto os moçárabes viviam fora dos muros. Na historiografia oficial – e em alguns filmes sobre a época – diz-se que, chegando os espanhóis, impuseram a fé cristã aos judeus que somente se converteram na superfície, externamente, para continuar com seus empregos. Que continuavam em suas casas com seus ritos judaicos.
E dizem também que a inquisição ia atrás desses cristãos falsos para expulsá-los do país, de forma que os cargos públicos que os supostamente convertidos judeus ocupavam desde a época dos árabes passassem para a baixa nobreza espanhola. Isso, dizem, afetou a administração das cidades que teria perdido a qualidade da época em que as administravam os judeus.
Outra coisa que dizem é que os judeus levaram sua experiência e capitais para a Holanda e outros países e que lá começaram a desenvolver o capitalismo.
Gostaria de saber o quanto disso tudo é verdade a respeito dos judeus e o quanto é mito.
Agradeço a atenção dispensada de antemão.
Pax Christi,
Pedro.

Pedro, Salve Maria.
 
     Obrigado por suas palavras e desculpe pelo atraso na resposta.
 
     A reconquista é fascinante e nos serve de exemplo. A fortaleza de La Alhambra é esplêndida e muito me impressionou quando estive por lá.
     Realmente, os moçárabes viviam em situação difícil sob o jugo mouro, não tinham nenhuma possibilidade de ascensão social no “Al Andalus”, viviam à margem da sociedade. Seu caso lembra muito o da plebe em Roma antiga e dos thetas na Grécia, que possuíam domicílio, mas não a pátria.
     É curioso notar que o bairro judeu em Córdoba ficava perto do palácio. Os judeus gozavam de prestígio e orbitavam a corte dos sultões. Foram os judeus que abriram os portões de Toledo para os mouros na conquista e, curiosamente, abriram de novo os portões da mesma cidade para os cristãos na reconquista.
     Sobre a relação das espanhas com os judeus há de se considerar a época histórica, já que houve muita variação..
     Na reconquista, os cristãos não perseguiram os judeus e estes até fizeram parte da corte dos reis. Afonso, o sábio, contava com eles em sua corte, idem para vários reis em Portugal.
 
     A inquisição dita “medieval”, que nunca perseguiu judeus em lugar nenhum, foi fraquíssima nas espanhas, inexistente em muitos lugares. Os “conversos” tampouco foram perseguidos. A chamada “conversão forçada” é apenas um mito.
     O panorama mudou depois do séc. XV. A famosa Inquisição Espanhola foi instalada. Mas, de novo, os judeus não foram perseguidos por ela. O objetivo da Inquisição era a defesa da fé e o combate às heresias. Tanto na Espanha quanto em Portugal, as heresias eram crimes contra o Estado.
     A Inquisição agiu sobre os “conversos” porque muitos faziam jogo duplo: ora eram “judeus” ora eram “católicos”. Isto irritava até os judeus que chegaram até a apoiar a Inquisição. E eles não eram “expulsos”, mas sim recebiam as penas normais como de qualquer crime. Lembrando que se algum herege se retratasse, era perdoado e nada lhe acontecia.
     Aliás, poucas coisas na história foram mais deturpadas que a Inquisição Espanhola.
     Nos seus 350 anos de existência, comparando com os tribunais de outros países da Europa, mormente os de países protestantes, a Inquisição Espanhola foi o tribunal mais leniente do continente em boa parte de sua história.
 
     Sim, é verdade que muitos judeus foram para os Países Baixos, após a expulsão da Espanha em 1492.
     Nas minhas aulas sobre Espanha e Portugal voltarei ao tema.
 
Marcelo Andrade

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