Montfort Associação Cultural

6 de setembro de 2012

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Jovens ausentes nos funerais do Cardeal Martini

O artigo abaixo comenta de forma laudatória a grande multidão presente ao funeral do Cardeal Carlo Maria Martini, em Milão. Uma das últimas figuras de destaque do Modernismo ecumênico e “aberto ao mundo”, o Cardeal defendeu até o fim suas posições opostas às de Bento XVI.  Como “o veneno está na cauda”, o Cardeal deixou mesmo uma entrevista póstuma, cheia de críticas à ação do Papa e às posições morais da Igreja, defendendo uma refundação utópica da Igreja, com base em novos doze Apóstolos…

Esse modernismo antiquado pode atrair – civicamente – “toda Milão”, inclusive e sobretudo os não-católicos, mas deixou uma ausência gritante: a dos jovens. Certamente a Europa, e particularmente a Itália, tem uma sociedade envelhecida. Mas há apenas três meses, Milão esteve tomada por jovens na visita de Bento XVI ao Encontro Mundial das Famílias!

Duas observações são comuns a quem acompanha o movimento católico: a de que os modernistas não deixam herdeiros, e a de que, na sentença do Cardeal Castrillon Hoyos, “a tradição é um movimento de juventude”.

Comentário Lucia Zucchi

Tradução Montfort

Fonte Paparatzinger Blog

Todas as faces de uma cidade

por Michele Serra

em “La Repubblica”  em 4 de setembro de 2012

Uma multidão serena e silenciosa – como são os milaneses nos melhores momentos – saudou Carlo Maria Martini no Duomo, dentro da grande catedral escura e sobre a praça luminosa que é ao mesmo tempo, como sempre, praça cívica e lugar sagrado por excelência. A multidão era tão composta que se ouviam bastante distintamente as vozes humanas individuais e até mesmo, nas pausas da liturgia, o som dos passos em torno.

Foi um funeral solene e lotado, de um quase papa ou de um como papa, precedida por uma interminável homenagem ao féretro, uma fila que durou três dias e três noites, da qual se disse “lá estava toda Milão”, e faz refletir sobre a popularidade não  óbvia de um homem pouco midiático, de um intelectual muito munido, e nos últimos anos isolado também por causa da doença de Parkinson, que prejudicou a palavra justamente de quem da palavra fez a razão da vida e do magistério.

Ter sido arcebispo de 20 anos, fortemente enraizado também na Milão não-católica graças ao compromisso social, talvez não baste para explicar no momento da despedida, uma presença tão maciça, tão ecumênica da cidade. Em sua despedida breve e afetuosa (a homilia foi feita pelo atual bispo de Milão, Scola) sucessor de Martini, Tettamanzi, elogiou, no “pai” Carlo Maria, “a arte de escutar” e “a capacidade de reunir,” a segunda consequência óbvia da primeira. Uma fé não excludente (Tettamanzi repetiu duas vezes o objeto de pregação de Martini: “para todos! para todos! “), uma fé mergulhada  na complexidade e no caos da modernidade sem nunca temê-la, sem nunca exorcizá-la. Assim, no adro da igreja, junto com muitos crentes que faziam o sinal da cruz e recitavam as palavras do rito, estavam também muitos não-crentes ou duvidosos ou indefiníveis, que permaneciam de pé com os braços cruzados, testemunhas silenciosas e respeitosas de um  luto municipal, portanto da cidade inteira e não apenas da muito relevante comunidade católica ambrosiana. A esta multidão, e talvez até mesmo a alguns  fiéis, a homilia do Cardeal Scola deve ter parecido, como dizer, um pouco hesitante em relação aos méritos específicos de cardeal Martini. Realçando muito o mistério da ressurreição, o “poder de Cristo sobre a morte”, “a claridade do eterno fulgor “, o atual pastor da diocese de Milão concedeu apenas um fugaz aceno final ao interesse do falecido pela “realidade contemporânea”: o que, no entanto, é o que fez de Martini uma

testemunha muito escutada mesmo fora do mundo católico. Era como se as palavras de Scola tendessem a trazer a figura de Martini, orgulhosamente, para dentro da Igreja Romana.

Dentro do Duomo e na Praça, ao mesmo tempo, a impressionante multiplicidade da multidão celebrava no nível máximo (ou seja, no nível do Cardeal Martini)  o poder do “interclassismo” católico elevado ao cubo do poder do diálogo “com todos”: uma manifestação política jamais poderia reunir pessoas tão diferentes em riqueza, em status social, em estilo de vida, até mesmo no modo de vestir… Apenas com meu simples conhecimento pessoal, eu reconheci um banqueiro, uma vendedora de jornais, um ator, um garçom, uma operaria aposentada, um livreiro, uma assistente editorial, um par de velhos comunistas, uma amiga de minha mãe muito piedosa e uma amiga bidivorciada. Rostos de pessoas do povo e de burgueses grisalhos, ares de centro histórico e ares de periferia, senhoras bronzeadas recém-chegadas da praia e suburbanos vindos de metro. Único traço comum: milaneses.

A única falta perceptível, para quem olhasse melhor, foi a dos jovens. Para encontrar alguém abaixo de 30 anos, exceto as (poucas) crianças pela mão dos pais, era necessário para aguçar a vista. Uma sociedade decididamente envelhecida não é, por si só, suficiente para explicar a flagrante ausência, em um dia muito significativo para Milão, dos milaneses jovens. Ao mistério da ressurreição poderia, portanto, somar-se, na praça compenetrada para saudar o seu pastor, o mistério de um futuro pouco inteligível, e ausente em seus representantes mais autorizados, os jovens. Talvez nem mesmo o “pai” Carlo Maria tivesse sabido explicar por que em seu funeral havia sinal de tudo, menos dos filhos.

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