Montfort Associação Cultural

5 de setembro de 2013

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John Allen: Última entrevista de Parolin antes da nomeação

Uma entrevista “bem lugar comum”, na análise de Gustavo Andrade, o amigo que nos presenteou com a tradução. Entretanto, ela foi republicada agora por John Allen Jr. o vaticanista “modernista moderado” americano. Prova portanto que serve a seus propósitos. De fato, o novo Secretário de Estado – homem avesso a protagonismos, segundo Andrea Tornielli – recita sua lição. Que a eleição de Francisco mudou “miraculosamente” a “percepção” da Igreja – dentro ou fora da Igreja? Ou ambos, não importa! – e que agora “se olha com grande confiança para o futuro que Deus deseja”. 

Ora, esse foi um milagre tanto mais miraculoso por ter contado e ainda contar com o auxílio valioso da midia internacional! A mesma mídia que fez da vida de Bento XVI um inferno, acusando-o constantemente pelo que disse ou pelo que não disse, por todo o mal que foi feito de Caim a Hitler e por todos os pedófilos americanos do século XX! Será que não houve padres péssimos em Buenos Aires? Certamente, mas ou a mídia já os perdoou, ou está guardando esses casos para quando Francisco a decepcionar… 

Fonte: National Catholic Reporter

Tradução Montfort

Comentário Lucia Zucchi 

Última entrevista de Parolin antes da nomeação

John Allen Jr. 31/08/2013

O site italiano Terre d´America, especializado em notícias da América Latina, postou hoje a transcrição da entrevista do Arcebispo Pietro Parolin, conduzida por um jornalista venezuelano no final de junho, e publicada em 4 de agosto. Para todos os efeitos, foi a última entrevista pública dada por Parolin, quem à época era ainda núncio apostólico na Venezuela, antes de sua nomeação para ser o novo Secretário de Estado do Vaticano, feita pelo Papa Francisco em 31 de agosto.

(…)

* * *

O que aconteceu com a Igreja desde o dia 13 de março, quando o Cardeal Jorge Bergoglio foi eleito como novo Papa?

Parolin: Não acredito que nada de novo esteja acontecendo na Igreja, no sentido de que o novo também é ordinário.

A Igreja está sempre disposta à renovação?

Exatamente, sempre, porque seu principal protagonista é o Espírito Santo.

Como o senhor interpreta o “fenômeno Francisco”?

O que me marcou – e isto eu considero um milagre da eleição do Papa Francisco – foi a súbita mudança do clima prontamente percebida. Antes, havia um pessimismo – injusto, eu acrescentaria, porque o Papa Bento XVI fez tudo o possível para reformar a Igreja, se olharmos, por exemplo, em seu enorme compromisso na questão da pedofilia.

Pode-se dizer que a tensão de encarar a pedofilia e a corrupção o exauriu?

Sim, eu suponho. Estávamos focados nesses problemas, e parecia que a Igreja não tinha a capacidade de se renovar. De repente, após a eleição e do primeiro pronunciamento do Papa, a situação mudou completamente e um novo clima de esperança se fez presente, de renovação, de um futuro que antes parecia irreparavelmente obstruído. Eu verdadeiramente considero isto um milagre. A coragem e a humildade de Bento XVI em afastar-se vai ao encontro da coragem e da humildade de Francisco em aceitar o papado, e o novo ar que ele trouxe.

O que mais lhe marcou a respeito do papado de Francisco?

O que me marcou é que a percepção da Igreja mudou completamente. De uma Igreja sitiada por milhares de problemas, uma Igreja que parecia, digamos, um pouco doente, passamos a uma Igreja que se abriu.

Ele a revitalizou?

Exatamente, e agora se olha com grande confiança para o futuro que Deus deseja. Isto me parece ser o que de mais belo aconteceu.

O que significa ter sido o Brasil a primeira viagem do Papa?

Foi uma coincidência, porque já se havia decidido que a Jornada Mundial da Juventude seria no Brasil. Logo o Papa, qualquer Papa, estaria lá.

Foi também uma coincidência o Papa Francisco ter escolhido os pobres, e o Brasil ser o berço da Teologia da Libertação?

Quanto à Teologia da Libertação, e isso digo de coração, pois houve muito sofrimento, as coisas estão bem mais claras agora. Os anos recentes, dolorosamente, passionalmente, serviram para tornar as coisas mais claras. A Igreja de fato tem uma opção preferencial pelos pobres, e é uma escolha universal da Igreja. Mas deve-se sempre deixar claro que não é uma opção exclusiva, ou que exclua alguém.

Mas é preferencial?

Preferencial, sim, mas isso significa que a Igreja é para todos, a Igreja oferece o Evangelho para todos, mas com particular atenção para com os pobres, pois eles são os favoritos do Senhor,  e também nos recordamos que o Evangelho apenas pode ser acolhido com uma atitude de pobreza.

A simplicidade proclamada por Francisco…

Papa Francisco assinala isso. A atenção que ele demonstrou desde os primeiros momentos de seu pontificado põem esta opção fundamental no centro da Igreja, uma opção por todos, mas com especial atenção para os pobres.

Esta é uma leitura que se aplica aos fiéis da América Latina e do Caribe. Qual leitura pode ser feita pelos fiéis da África?

Há diferenças. A Teologia da Libertação teve menos repercussão na África que na América Latina.

Também na Europa, com os padres trabalhistas…

Sim, certamente, mas não na África. A preocupação de Francisco para com os pobres é uma boa notícia para a África, que vive com conflitos em vários países e situações de injustiça. Creio que a ênfase do Papa seja também importante para a África, por tudo o que diz respeito à justiça social e à paz, que foi considerado nos últimos dois sínodos da África que tiveram ligar no Vaticano.

Para a Igreja, pobreza é uma questão de humanidade. Mas é também um tema clássico dos marxistas…

A Igreja não deve assumir as categorias marxistas, ou luta de classes. Um dos pontos de divergência que surgiram com a Teologia da Libertação foi o uso das categorias marxistas e a ideia da luta de classes propagada. A Igreja sempre propõe, como primeiro passo, a educação das pessoas na ideia da solidariedade, a solidariedade que permite que os problemas da sociedade sejam superados tanto pessoal como estruturalmente. Com respeito à pobreza, a Igreja tem um vasto patrimônio em sua doutrina social.

Qual a importância que a Igreja dá à corrupção como base desses problemas?

O Papa chamou atenção para a corrupção. É um tema que também diz respeito à Igreja, porque Ela sabe que a corrupção prejudica o tecido social e gera várias consequências, como aquelas mencionadas. É importante que haja uma luta contra a corrupção, especialmente na educação, a qual é uma arena fundamental para a Igreja. Precisamos uma educação da pessoa para a legalidade, honestidade, coerência entre palavras e atos, de modo que as pessoas rejeitem essas tentações e saibam construir uma sociedade saudável e positiva.

O Papa Francisco encorajou o diálogo inter-religioso, ao menos entre as religiões monoteístas… o que dizer das religiões mistas da América Latina e do Caribe?

No diálogo ecumênico entre cristãos, bem como no diálogo inter-religioso, o Papa está seguindo os passos de seus predecessores, por exemplo, João Paulo II com o Encontro de Assis. O Papa Francisco é muito claro quanto ao movimento que devemos fazer nesta direção.

E quanto aos credos mistos latinos e caribenhos?

A Igreja segue o princípio de S. Paulo de observar tudo e escolher aquilo que seja bom e saudável. Tudo o que seja compatível com o Evangelho pode ser assumido.

Qual a visão que a Igreja tem do sofrimento social como resultado da crise econômica em diversos países da Europa?

A Igreja e todos os cristãos, como afirma o Concílio Vaticano II, cujo quinquagésimo aniversário estamos celebrando, assume sobre si todos os dramas do mundo contemporâneo. A Igreja lançou um apelo para que o sofrimento humano fosse considerado em toda e qualquer solução para a crise que a Europa está vivendo.

O que está acontecendo com o “capitalismo selvagem”? João Paulo II o criticou, Bento XVI o criticou, assim como o Papa Francisco. Ele ainda é dominante na Europa?

É algo preocupante. A Igreja continua a pedir que no que seja necessário corrigir, os imperativos humanos devem sobrepor-se aos da economia, a dimensão ética e moral. A pessoa humana deve ter precedência em relação ao mercado. Daí nasce um senso de amor aos pobres, de solidariedade, de uma economia verdadeiramente humana que ajude às pessoas a se desenvolverem e que não as humilhe ou prejudique sua dignidade. Esta é uma preocupação fundamental da Igreja, a tratar disso temos todas as encíclicas papais desde a Rerum Novarum de Leão XIII de 1891 até a Caritas in Veritate de Bento XVI de 2009.

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