Montfort Associação Cultural

29 de outubro de 2004

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Joeirando a Montfort

Autor: Orlando Fedeli

  • Consulente: Romero Gomes
  • Localizaçao: Ouro Preto – MG – Brasil
  • Escolaridade: Pós-graduação concluída
  • Profissão: Professor

Caro Sr. Fedeli:

Tendo concluído um curso de doutorado e defendido, portanto, sua tese em sessão pública, o senhor tem amplo conhecimento da sistemática de uma pesquisa exaustiva e do processo de avaliação correspondente, bem como do papel específico dos membros de uma comissão examinadora, particularmente o do examinador externo. Por ter vivido esta experiência de ambos os lados do processo (e muitíssimas vezes como o examinador externo de dissertações e teses), é-me natural a leitura atenta, o rebuscar detalhado da vinculação entre o geral e o específico, do todo com as partes, das premissas com as formulações, das proposições com as conclusões e, particularmente, do conteúdo com o papel de embrulho. Assim, torna-se um processo bastante natural a minha condição de leitor do seu site e de examinador externo do insight.

Esclareço de imediato, entretanto, que faço isso não com o cabedal do tecnicismo ou a leda fragilidade da sapiência humana, mas com alma de apóstolo e profunda devoção pelas coisas do Pai e da Santa Igreja. Defender as Verdades dos Evangelhos e a Santa Igreja não é mister do senhor, deveria ser propósito e meta de vida de qualquer cristão autêntico. Neste ofício de cristãos, entretanto, padecemos todos das inevitáveis vicissitudes da alma humana. Das minhas, conheço-as bem (e não são poucas) e procuro humildemente mantê-las no anonimato da minha fragilidade. As suas estão expostas a olho nu no site e, portanto, é o senhor que defende a tese.

O senhor aborda de tudo no site, de princípios teológicos a concepções dogmáticas, da Igreja e de organizações religiosas, de vida cristã e de coisas mais mundanas. E mesmo que expostos, muitas vezes em meio a elucubrações secundárias, muitas colocações têm um viés de coisa definida, pronta e acabada, em assertivas que não parecem padecer de contestações. E, se algum mortal julgar pertinente a réplica, a tréplica é fulminante e encerra qualquer polêmica. Bastaria a experiência prévia do doutorado para se ter a constatação óbvia que um doutor de tudo é, antes de tudo, um tolo de tudo. Assim, é preciso uma grande cautela do leitor ante o caudal dos seus escritos e joeirar é preciso.

Há joio e trigo, há a espada do cristão cônscio da tradição bimilenar da Santa Igreja e a armadilha frouxa dos meros achismos e personalismos vagos, há a vigorosa defesa dos eternos valores dos Evangelhos e o cipoal intransponível das queixas e modorras de um ser humano, limitado como todos nós. E é, por isso, que não há nenhuma crítica ou julgamento sobre o seu trabalho neste aspecto: tudo isso é natural e incontornável numa abordagem ampla como a pretendida: seus equívocos ou posicionamentos questionáveis (que não é meu propósito discuti-los aqui) devem ser motivo apenas da análise pessoal de cada leitor, à luz de critérios emanados do conhecimento, sensibilidade e vivência espiritual. A visão tradicionalista do senhor é perfeitamente louvável: ai da Igreja e da cristandade se fluíssem ao sabor das utopias e dos tempos dos homens… é possível que outras visões possam ser compartilhadas neste louvor e é possível crer em outros homens as defendessem com igual vigor e, similarmente ao senhor, errassem e errassem muitas vezes… sendo assim, não há demérito nenhum nestas colocações, apenas uma salutar advertência a todos os seus leitores sobre a arte de joeirar ininterruptamente (que seria ipsis literis aplicável a mim ou a qualquer outro escritor). Não considere para si, portanto, a alcunha de tolo de tudo dada acima; ou considere, sim, no contexto de que se aplica irremediavelmente a toda espécie humana.

Um segundo aspecto, entretanto, me parece ser objeto além de uma necessidade de advertência explícita aos simples leitores, senhor Fedeli, pois incide num pressuposto de uma plena vida cristã, que é a caridade. Fora da caridade, não pode haver bons frutos. E, neste ponto, o senhor é uma pessoa de múltiplos exemplos e muitos paradoxos: contra instituições e, principalmente, contra pessoas e também na virulência das respostas (como disse um grande teólogo do passado: a ironia é a maior das invenções do diabo…). Será que tratar com rispidez ou com ironia um cristão que pertence a dois ou cinco anos na RCC (que eu também tenho profundas restrições) é um ato cristão? Isto realmente contribui para a melhoria de sua vida espiritual e a salvação de sua alma que é, incondicionalmente, a vontade do Pai? O senhor não levou 30 longos anos para descobrir que a TFP (que eu desconheço quase que por completo) não era seu caminho de Damasco? Como o senhor reagiria diante de uma resposta ríspida e irônica à sua participação na época em que o senhor estava há apenas 02 ou 05 anos naquela organização? É um ato cristão agredir e acalentar rancor contra seus antigos companheiros? Desqualificá-los na forma de suas iniciais, quando o senhor parece ficar particularmente incomodado quando um leitor não se identifica? É um ato cristão rebater agressões dos leitores (dos quais não conheço nenhum) com mais agressão, humilhar os que não escrevem bem, distinguir entre os que têm e os que não têm curso superior? Alto lá, senhor Fedeli. Acredito piamente que devem ter sido duras algumas de suas penas e labutas e que o senhor tem todo o direito (eu diria o dever) de ser duro, inflexível e categórico na defesa das coisas da Igreja (Deus nos livre das almas mornas e tíbias) mas, sem a caridade, tudo (tudo mesmo!) é incomensuravelmente vão.

E, neste sentido, mais que uma sugestão, eu faço um apelo ao senhor: ampute do site todo resquício de rancor, vingança ou agressão inútil; isto não significa não criticar, não denunciar, não expressar reação firme contra as coisas de Deus e da Igreja. Não significa se calar diante de suas posições em relação à TFP, RCC ou qualquer outra coisa; significa somente uma resposta conscientemente cristã à pergunta: neste texto ou nestas palavras que agora coloco no site, é a caridade que semeia as vinhas do senhor? Que o Espírito Santo lhe ilumine nesta reflexão! Se isso lhe for particularmente duro, mais abundantes serão os frutos de tal decisão…

Um terceiro aspecto que considero bastante grave em sua “tese” é a sua capacidade inata de julgar. Em muitos casos, o senhor emite julgamentos totalmente precipitados, injustos e profundamente equivocados. Uma coisa é o postulado de firmes convicções (pode haver erro ou dolo na defesa intransigente da manutenção dos princípios tradicionais da missa e da sagrada eucaristia? Um cristão pode ser julgado incoerente por defender, por exemplo, a santa comunhão de joelhos e na língua? Eu tenho feito isso a vida inteira e não me arredo um milímetro dessa convicção, pense o senhor ou o bispo da esquina o que quiserem…). Outra coisa muito diversa, por exemplo, é bater o martelo secamente em relação às manifestações de videntes ou aparições. Cuidado, senhor Fedeli, muito cuidado… as coisas de Deus não são as coisas dos homens … julgamentos intempestivos nesta área são muito perigosos e podem estar eivados de insensatez. A prudência da Santa Igreja nestes casos deve ser farol para os cristãos; desliguemos, pois, a etérea luzinha das nossas lanternas de descrédito e escárnio. Não lhe é vedado como cristão acreditar em Pe. Gobbi ou Vassula Ryden (e tantos outros); não me é tolhido como cristão crer em suas mensagens. Claro que é preciso enorme discernimento, mas, com certeza, é pura insensatez, por exemplo, misturar no cadinho oco das pseudo-aparições ou alucinações doentias, todas as extraordinárias manifestações marianas dos tempos atuais. Volto a insistir, não é apenas mera credulidade ou a necessidade de exigir respeito a autênticas e legítimas convicções cristãs; é questão de foro íntimo acreditar ou não e não lhe cabe rotular os cristãos que crêem ou que não crêem. Aliás, não nos cabe julgar ninguém, nunca… e, por isso, não faço qualquer julgamento ao seu modo de pensar (legítimo!), mas, questiono a sua insensatez de julgar (definitivamente, uma acepção extrínseca à insustentável leveza da alma humana).

Eu confesso que fico consternado com algumas colocações e reflexões de alguns de seus leitores, particularmente de seminaristas e estudantes de teologia (que, pelo menos, assim se identificam). Que o Espírito Santo possa iluminar muito estas almas carentes da Verdade, que parecem aprender de tudo em seminários e cursos de teologia, menos o essencial da autêntica doutrina católica. Já me envolveu a ira santa contra posições de sacerdotes que transgridem, que transgridem não, que confrontam e deturpam a sã doutrina. Ao famigerado Pe. Zezinho, já enviei e-mail manifestando meu repúdio ao tratamento vulgar, desqualificado e desrespeitoso à Mãe de Deus em um artigo mais ou menos recente de sua autoria. Mãe de Deus! Uma expressão que traduz uma das maiores glórias da cristandade e que hoje, exatamente hoje, vi ser questionada de forma torpe por um pároco de Belo Horizonte que, em boletim divulgado à sua comunidade, pede cautela extrema em relação à devoção mariana, nega que Maria seja a Mãe de Deus e pratica outras heresias. Este sacerdote da Santa Igreja Católica, responsável por uma das mais importantes paróquias da capital de um estado brasileiro maciçamente católico, chega ao ponto de caracterizar como perda da auto-estima dos cristãos a nossa concepção de pecadores e a de tratarmos Maria com o epíteto de Rainha … São tempos difíceis, senhor Fedeli. É claro que tanta insensatez (loucura…) merece uma resposta imediata e veemente, forjada em ferro rubro (contra o pecado, contra o desdém, contra a heresia!). Mas, mesmo aqui, não pode haver julgamento ou condenação ao pecador: seria apenas uma insensatez a mais no rol de tanta loucura… Pelo simples fato de que, ainda que fosse extraordinária a minha indignação e minha razão tivesse os contornos do universo, ira e razão seriam nada diante do Infinito Amor do Pai por uma alma de Sua criação…

Neste contexto, que site cristão é este que semeia vento e tempestade … entre cristãos!? Que profunda incoerência pode tolher a defesa da Verdade com a incapacidade de discernir o próprio erro? É triste, para não dizer deprimente, ver tantos irmãos nossos (que fazem perguntas no site) tangidos por idéias tão equivocadas, nocivas e, às vezes, até antagônicas aos tesouros da cristandade. Trata-se, entretanto, de uma aterradora realidade dos tempos atuais. Mas lamento também, com igual tristeza, as respostas irônicas, a retórica inconclusiva, a descortesia … mas que, enfim, são frutos da finitude do ser humano. Tudo isso é apenas triste… mas a falta de caridade nos rouba a alma. Ouvir, discernir, apontar caminhos, dirimir dúvidas, gritar sobre os telhados a glória dos Evangelhos, semear louvores a Cristo, Sua Santíssima Mãe e à nossa Amadíssima Igreja … são obras de santos, Sr. Fedeli. Sem o perdão, sem a caridade, tudo isso é apenas bom, pois tornados apenas frutos ressequidos do triunfo periférico do cérebro do pesquisador contra a alma do cristão.

Na ânsia de criar trincheiras para a Igreja peregrina na terra, ” inter persecutiones mundi et consolationes Dei”, anseio caminhar por elas sem o lastro do medo ou da babel mundana. Nesta crença, escrevo-lhe este texto de cunho estritamente pessoal, personalíssimo, no afã não de julgar, criticar ou desvalorizar este trabalho, que se justifica per se. Muito pelo contrário, não se lançam sementes em campos estéreis ou em pedra bruta. Como um doutor após a sessão pública de defesa, cabe ao senhor analisar a relevância ou não dos argumentos e observações do examinador externo e de incorporá-los ou não à sua tese. A tese é sua, senhor Fedeli. E, de uma forma ou de outra, ambos teremos cumprido os nossos papéis. Embora saibamos que, na babel de vozes, o sino nunca vibra no mesmo diapasão. E que há coisas além dos limites do conhecimento exposto e que somente serão compreendidas plenamente na planura das almas diante do Pai.

Ao senhor, a paz de Cristo e a proteção da Virgem Maria. E para todos nós, homens de Boa Vontade, despidos de nossos doutorados e outros vazios mais, o propósito de nos tornarmos sempre vasos de frágil argila, prontos para sermos moldados como obras primas e inacabadas pela Vontade do Pai Eterno.

Em Jesus e Maria,

Romero Gomes.

Muito prezado Professor Dr. Romero César Gomes,
Salve Maria!
 
    Receber uma carta de Ouro Preto com a assinatura de Romero Gomes,– que suponho deve ser a do Dr. Romero César Gomes, da Universidade Federal de Ouro Preto– muito me honra.
    O senhor, Professor, afirma que me escreve em caráter pessoal: “escrevo-lhe este texto de cunho estritamente pessoal, personalíssimo”.
    Entendo esta sua frase como querendo dizer que o senhor me escreveu apenas para minha consideração pessoal, quase como um conselho dado em consciência.
    Em todo caso, vou publicar sua carta com gosto, pois que os leitores do site Montfort muito lucrarão com a leitura desta sua carta, que muito me honra, e com a minha resposta. E honra mais do que o senhor imagina.
    Ela me honra, em primeiro lugar–e lhe agradeço o favor– por ter o senhor pretendido enviar suas advertências à luz da caridade. Ora, receber uma correção de um tão ilustre Professor, como o senhor é, e escrita com tanto cuidado “diplomático”, e com tantas distinções, só poderia me causar honra, por ser alvo da preocupação de sua proclamada caridade.
    Entretanto… Nem sempre essa pretensão de ser caridoso é coerente em sua carta, pois se nela há quase constante preocupação em parecer afável, mas há também, sob o veludo da afabilidade diplomática, repentinas estocadas que o senhor diplomaticamente me enfia, e retira, rapidamente, depois. O que me honra ainda mais.
    Esquematicamente, o senhor trata de  três “aspectos” sobre  meu modo de atuar, e com relação à minha alma.
    E Deus lhe pague por esta última preocupação, no grau em que ela é sincera.
 
    Três, então, são as suas preocupações declaradas:
1a. – A falta de rigor de argumentação, em minhas cartas, e o excessivo campo em que me atrevo  manifestar-me, tratando doutoralmente de tudo, o que faria de mim um tolo doutor sabe tudo.
2a. — O uso da ironia– essa “maior invenção do diabo”, segundo um teólogo que, infelizmente, o senhor não cita, ironia que não seria, então, coisa cristã nem louvável.
3a. — O fazer julgamentos de pessoas, o que seria contra a caridade cristã.
           
    No final de sua missiva, vêm considerações  amigas, e uma crítica mais forte ao site Montfort: “Neste contexto, que site cristão é este que semeia vento e tempestade … entre cristãos!?”
    E o senhor tem a bondade de se despedir como amigo, desejando-me a paz de Cristo e a proteção de Maria, coisa que  são das mais preciosas.
    Deus lhe pague por sua caridade.
 
*****
 
    Depois de criticada a tese pela banca julgadora, formada pelos Doutores de futuros Doutores, costuma-se dar tempo ao doutorando para se manifestar, refutando as críticas que recebeu, ou admitindo os erros que cometeu. Em suma, julgando o juízo que foi feito de sua tese e, às vazes, até da sua pessoa, feita por algum examinador mais rigoroso, como é o seu caso.
    Atrevo-me, pois, a julgar meu julgador, porque somos humanos, e até os juízes podem errar em seu juízo. E sei que em sua humildade o senhor não me negará esse direito de criticar a sua crítica, e de julgar o seu juízo sobre minha pessoa.
    De pronto, aceito de boa mente as críticas pessoais a meu estilo e à minha pessoa.
    Professor, sei bem que sou feito de argila, assim como todos os membros da banca examinadora invisível que me lê o são também, e como o senhor leal e humildemente admite que é.    
    E só posso lhe agradecer seus conselhos e críticas a meu comportamento moral, garantindo-lhe que pesarei tudo o que o senhor me disse diante de Deus. “Coram Domini” [Na presença de Deus].
    Deus lhe pague.
    Mas, tenho o direito de pesá-las, pois que o julgamento pessoal moral que o Professor faz de mim não é, de si, infalível.
    Em todo caso, as suas observações me merecem a maior consideração. “Coram Domino”   
 
    Quanto ao meu estilo…   
    Não pretendo obrigar ninguém a gostar dele.
    Há quem goste e há quem deteste. E pelo crescente número de leitores do site Montfort, (mais de 120.000 por mês), creio que os que gostam são bem mais numerosos do que aqueles — como o senhor — que não o apreciam.
    On ne peut pas contenter tout le monde, et son Père… [Não se pode agradar a todo o mundo e a seu Pai].
   
    Mas permita-me  contar-lhe, aqui, uma epigrafe  que li, certa vez, num livro de extraordinário valor, escrito por um padre dominicano contra o maometismo. O livro se chama “Islam, Entreprise Juive”, e seu autor usava o pseudônimo de Hanna Zakarias.
    Esse Padre, ele também, não sabia que “a ironia era a maior invenção do diabo” — que o diabo é o pai da ironia (segundo o seu teólogo incógnito) – e  ele usava a ironia como a uma espada de fogo. Perto dele, Professor, sou moderado. Pois, Hanna Zakarias  coloca  uma epígrafe que calha bem no caso em pauta:
   
     ”S´agit-il de mon style?  Je l´abandonne.         [Trata-se de meu estilo? Eu o abandono.
    Veut -on s´attaquer à ma personne?                 Querem visar a minha pessoa?
    Ma conscience est mon refuge.                          Meu refúgio é minha consciência.
    Est-il question du fond de cet ouvrage?            Trata-se da questão de fundo deste livro?
    Qu´on entre en lice; mais qu´on prenne           Que se entre na arena, mas que se tome cuidado
    garde aux raisons qu´on y apportera"                com os argumentos que se utilizarem”
 
(Hannah Zakarias, Islam, Enterprise Juive, 2 vol., edição do autor, Cahors, 1955, epígrafe de  F.D´Olivet, La Langue Hébraique Restituée, t. I, Paris, 1815, p.X- XI) 
 
    A epígrafe é valente.
   
    Confesso-lhe, porém, que tenho uma certa dificuldade em aceitar o abandono do estilo, "car le Style c´est l´homme" [porque o estilo é o homem], e não se renuncia ao que se é, pois que isso seria uma forma de suicídio psíquico. Portanto, se o ilustre membro de banca me permitir, declaro alto e bom som:
Moi, je ne renonce pas à mon style“. [Eu não renuncio a meu estilo]
   
    Professor, na defesa da Fé, cada um combate com a espada e com  habilidade que Deus lhe deu, e com seu próprio estilo de combate.
    Creio bem que o senhor combate também, a seu modo. E tomara que o senhor tenha mais êxito que eu…
    Claro que deveria renunciar a meu estilo, caso o senhor tivesse razão em apontar nele coisas proibidas pela lei de Deus.
    Mas me permito a ousadia de tentar refutá-lo, provando-lhe que meu modo de combater é legítimo, segundo a moral católica. E é o que farei, mais adiante, provando-lhe que sigo a doutrina católica e o exemplo de Deus, de Cristo e dos santos. 
    Depois desta minha introdução, vamos ao corpo de seu juízo sobre mim e sobre meu trabalho.  
 
******
 
    Deveria examinar, inicialmente, sua própria Introdução, mas, infelizmente, ela vem um tanto misturada àquilo que o senhor chama de primeiro aspecto alvo de sua  preocupação ou observação (Mistura que criticaria, se fosse eu o examinador e o senhor o doutorando). É falha menor sua que se explica pela pressa em me mandar sua caridosa preocupação com minha alma.
    A pressa é inimiga da perfeição… Não é Professor?
    
    Em primeiro lugar, permita-me dizer-lhe, prezado professor Romero Gomes, que o senhor comete um grave erro de critério.
   
    O Senhor, acostumado a julgar teses de Doutorado, examinou  meus escritos no site Montfort com o mesmo critério  que usa para julgar teses de Doutorado. 
           
    Respostas a cartas que se me enviam – às dezenas por dia (Hoje, tenho a responder cerca de 80)– não podem ter, de modo algum, a precisão de uma tese de doutorado. Muitas respostas são feitas, em pleno fogo do combate — sem consultar as fontes, mas só as citando textos de memória, sem tempo de revisão. O senhor está exigindo de respostas feitas às pressas, recebendo e dando golpes, algo que se exige apenas de teses elaboradas em anos de pesquisas, no silêncio das bibliotecas e do escritório, discutidas com o orientador, revistas por amigos e conselheiros. O senhor está exigindo de um cruzado, que ele dê, em plena batalha, os passos medidos de um bailarino, ou os golpes elegantes de um esgrimista, em um campeonato de florete.
    Professor, um combate não é um campeonato de esgrima. 
           
    Aplicar critério impróprio é uma injustiça.
    Se o senhor aplicasse as regras da lírica aos Lusíadas, seria capaz de condenar a epopéia de Camões, por não seguir os parâmetros de Píndaro
 
    Mas que o senhor erra ao julgar minhas cartas, escritas no fogo da batalha, com o crivo com que se aquilata uma tese, não há duvida que erra.
    E mais que errar de crivo, o senhor me faz injustiça.
    Assim como meu hábito de dar golpes com o florete da ironia me fez, talvez, aplicá-la agora ao senhor, o seu hábito de julgar em bancas de doutores o fez equivocar-se, julgando cartas de batalha como teses de doutorado.
           
    Estou procurando desculpá-lo…
           
    Esse seu erro de ótica, caro Professor Romero, vai deformar sua visão de minhas batalhas epistolares. Mas espero que, trocadas as lentes com que me leu, o senhor me examinará com mais indulgência. E talvez eu seja aprovado pela banca invisível que o senhor está presidindo em sua carta.
 
    Sim, uma banca invisível. Porque atrás de sua carta estão mais de cem mil leitores do site Montfort que vão me julgar, espiando por cima de seu ombro, se eu bem respondo e bem refuto seus argumentos, para ver se o senhor tem razão, ou não, contra mim.
    Mais. Atrás de sua banca invisível entrevejo também o olhar satisfeito dos inimigos da Fé, vendo um eminente católico, como o senhor é conhecido, criticar meu modo de combater, e mesmo minha pessoa.
    Professor, todos esses inimigos de Deus estão torcendo por sua vitória.
    Infelizmente.
    Pois não se ataca, em pleno combate, quem luta por Deus, sem, pelo menos indiretamente, ajudar o inimigo. E este é o seu segundo erro, ainda que indireto.
    E este é um erro seu, que não provém de seu hábito de julgar em bancas de pós- graduação, mas de sua concepção da História da Igreja, e de sua formação, perdoe-me a franqueza, — C´est mon style! Je ne l´abandonne pas!  [É meu estilo! Eu não o abandono!] —de sua formação  liberal.
    E é o que provarei mais adiante.
   
    Um terceiro erro seu provém de um hábito, de uma visão, um tanto míope, — que destaca o pormenor e esquece o conjunto– miopia própria de examinadores ou de revisores de teses.
    O senhor mesmo admite ter esse “hábito”, pois me escreve:
    “é-me natural a leitura atenta, o rebuscar detalhado da vinculação entre o geral e o específico, do todo com as partes, das premissas com as formulações, das proposições com as conclusões e, particularmente, do conteúdo com o papel de embrulho”.
   
    Pois tanto o senhor rebuscou o detalhado, tanto examinou o embrulho e sua relação com conteúdo do remédio que forneço, que se esqueceu de examinar os resultados dele.
    O senhor não diz uma palavra sobre as inúmeras, sobre as bem numerosas conversões conseguidas através do site Montfort e de seu estilo irônico e polêmico. O senhor não faz sequer menção das numerosíssimas mensagens de apoio, de entusiasmo,  de aplauso, e de afervoramento na Fé, testemunhados por tantos leitores do site Montfort.
    Como o senhor nem leva em conta a ira ou o silêncio encabulado, vazio de argumentos e cheio de injúrias, dos inimigos de Deus que não conseguem refutar a doutrina católica, como a exponho.
    Sobre esses dois resultados de minha forma de batalhar, — as conversões e o ódio dos ímpios e hereges–o senhor se cala.
             
    Professor, isso é justo?
   
    Lendo sua carta tão crítica, tão negativista, escrita por trás de uma lente de aumento para meus defeitos reais, e com uma lente de diminuição — ou com tapa olho?– para com os bons resultados do site Montfort, me vieram à mente as críticas e lamúrias do Imperador bizantino, confortavelmente assentado em almofadas, em seu trono, aos erros dos cruzados a conquistar Jerusalém…
 
    Claro que isso é apenas uma comparação — não aplico literalmente ao senhor essa imagem de estar sentado em almofadas. Sei quanto é duro o banco dos que julgam teses. Nem quero afirmar que o senhor não combate. O senhor se apressou a me garantir que, por vezes, é tomado de ira santa e que tem vontade de usar argumentos como ferro em brasa.
 
    O senhor os usa?
    Se o senhor  usa ferro em brasa ao discutir com os inimigos de Deus, porque me critica, então?
    Ou o senhor só tem vontade de usar ferro em brasa contra certos maus católicos?
    Pena que o senhor me critique por, mais do que ter vontade de usar o florete frio e fino da ironia (que o senhor considera filha maior, a primogênita, do diabo) o use realmente. E com tão bons efeitos.
   
    Mas já que o senhor não examina o resultado de meu combate,– e o contesta– e me recomenda uma troca de armas, aconselhando-me usar uma espada mais… aveludada, permita-me perguntar-lhe, porque não conheço seu trabalho apostólico:
    A quantos alunos ateus o senhor levou a crer em Deus?
    Quantos protestantes Deus converteu por seu intermédio?
    Quantos espíritas deixaram de ir a sessões ouvir “as vozes do além tenebroso” graças à sua ação apostólica?
    A quantos judeus o senhor levou à pia batismal ?
    Quantos maçons renunciaram à iniciação, por meio de seu apostolado?
   
    Creio que devem ter sido muitos, já que o senhor tanto me critica o método.
   
    Como São Paulo fez em sua Apologia, e sem querer fazer competição, que seria infantil, sua critica me obriga a dizer-lhe que os frutos de meu apostolado combativo são proporcionais ao ódio dos inimigos da Igreja contra mim. Esse ódio, que me honra, é bem grande.
   
    Professor, leia as cartas de apoio, de louvor e de conversão no site Montfort. Essas cartas e essas conversões são um belo tesouro que conquistamos, — Graças a Deus! Com Deus! Para Deus! – na ponta da espada, numa vida de combate.
    Na ponta do argumento.
    “E più non dicco! E più non dico…”.
*****
 
    Entrando, agora, no cerne de sua crítica a mim, ainda no que o senhor chamou de primeiro aspecto, o senhor observa que:
    “O senhor (OF) aborda de tudo no site, de princípios teológicos a concepções dogmáticas, da Igreja e de organizações religiosas, de vida cristã e de coisas mais mundanas”.
    Meu caro professor, sou obrigado a responder, na medida em que posso, aos ataques feitos contra a Fé católica.
Não sou eu quem escolhe o ataque contra a Fé católica. São os inimigos que escolhem uma ou mais verdades do Credo para atacar.
Não escolho para responder apenas o que me é mais fácil, mas recebo, como num escudo, os golpes que os inimigos de Deus assestam, e respondo a eles com o que sei e como posso.
    Que deveria fazer eu, segundo o senhor?
    Deveria anunciar, no site Montfort, que só respondo aos golpes assestados contra a Fé no campo de meu doutoramento, que é a da cabala e do romantismo?
    Na muralha da Fé, o católico pode impor ao inimigo: só aceito combater no campo que eu conheço doutoralmente, porque, no resto, me eximo e me retiro?
    Creio que o senhor é especialista em Geologia, não?
    Então, como o senhor defende a Fé, quando a atacam fora do terreno geológico?
    E o senhor, então me diz, dando sua sentença:  um doutor de tudo é, antes de tudo, um tolo de tudo”.
 
    Claro que depois de me ter dado essa estocada bem ultrajante, chamando-me de Tolo Doutor Sabe Tudo, um Tolo de Tudo, o senhor se apressa em passar sobre a ferida causada a pomadinha diplomática de uma restrição generalizante, dizendo-me: “Não considere para si, portanto, a alcunha de tolo de tudo dada acima; ou considere, sim, no contexto de que se aplica irremediavelmente a toda espécie humana”.
    O senhor dá a estocada e logo vem correndo colocar um esparadrapo. Sua carta cobre veneno amargo com mel dulçuroso.
    É o seu estilo…
 
    O meu estilo é o da franqueza.
    É o do falar sim, sim; não, não!
 
    Por isso, lhe digo com Corneille:
    “Monsieur, souffrez que je l´admire mais ne l´imite point!” [Meu senhor permita que eu o admire, mas que não o imite absolutamente].
 
    E sublinhei o pronome “o” para indicar que lhe tenho pessoalmente alguma admiração  Mas que não admiro nem um pouco o seu estilo de morde e depois assopra.
 
    E não pense que fiquei agastado pelo fato de o senhor “insinuar “ que sou “um tolo de tudo”. E de modo nenhum aceito a generalização apaziguadora que o senhor faz ao generalizar a ofensa, incluindo-se, de certa forma, na acusação que me faz, para diluí-la.
 
    Não! O senhor não é, de modo algum, um “Tolo Doutor sabe Tudo”. Um tolo de tudo.
    O senhor é uma autoridade em sua especialização, e o senhor revela competência ao escrever.
    O que agrava a sua ofensa, embora depois diluída numa generalização diplomática.
    Permita-lhe dizer-lhe, então, bem francamente, que não aprecio esse seu estilo diplomático, um tanto brumoso, de escrever. Não foi Cristo quem o inventou. Cristo nos disse: “Seja o vosso falar: sim, sim; não, não. Tudo o que disso passa procede do demônio” (Mt,V, 37).
 
    Portanto, uma das filhas do demônio é essa “diplomacia”, que insinua e diz, e depois nega, e não a ironia. Essa diplomacia dissimula o que realmente se pensa, e, por isso, é uma forma que atenta contra a verdade. Essa “diplomacia” é uma irmã menor da mentira. Mas o pai das duas é o mesmo diabo.
 
******
 
    Passamos assim ao segundo aspecto que o senhor focaliza em meu estilo e em meu trabalho: a ironia que seria contra a caridade.
 
    Será?
   
    Para provar esta sua tese o senhor recorre à autoridade de um grande teólogo que o senhor não cita: “como disse um grande teólogo do passado: a ironia é a maior das invenções do diabo…”.
 
    Ora, no Evangelho, Cristo diz que “o diabo é mentiroso e pai da mentira” (Jo., VIII, 44).
    Cristo não disse que o diabo é pai da ironia!
    De que Evangelho esse teólogo tirou essa assertiva, que o diabo inventou a ironia?
    Estranho muito essa afirmação que substitui a mentira pela ironia na filiação do diabo.
    E sabe por que eu a estranho, prezado Professor Romero?
    Simplesmente porque Deus e Cristo usaram a ironia.     
    Se a ironia fosse contra a caridade como o senhor diz, baseando-se não em que teólogo famoso, nem Deus, nem Jesus a teriam utilizado.
    E Eles a utilizaram.
    E em ocasiões extremamente importantes.
 
    E quando foi que Deus usou a ironia?
    Exatamente, contra Adão, logo depois do pecado original, quando Deus riu-se de Adão, ironizando o estado em que Adão caiu, depois de pecar.
    Deus disse então: “Eis que Adão se tornou como um de nós, conhecendo o bem e o mal” (Gen. III 22).
    Como então a ironia é contra a caridade, ilustre Professor Romero, se Deus mesmo a utilizou e contra o pecador original?
    Se Deus usou a ironia contra Adão pecador, como se pode dizer que ela foi inventada pelo diabo?
 
    E o próprio Cristo, depois de ter recomendado a seus Apóstolos que vigiassem e orassem, ao descobrir que em vez disso, eles haviam dormido, e vendo Judas se aproximar,  mandou bem ironicamente aos Apóstolos dormitantes:
    “Dormi, agora, e descansai” (Mt., XXVI, 45).
    Se Cristo usou a ironia, como me garante o senhor que ela é contra a caridade?
    Por acaso Cristo terá pecado contra a caridade ao fazer ironia sobre o sono dos Apóstolos?
    E Santo Elias que, no desafio aos sacerdotes de Baal, ironizava o culto desses idólatras, perguntando com ironia e escarnecendo deles:
    “Elias escarnecia-os, dizendo: Gritai mais alto, porque ele é um deus, e talvez esteja falando em alguma estalagem, ou dorme, ou  necessita que o acordem” (I Reis XVIII 27).
    Por acaso Santo Elias, escarnecendo dos inimigos de Deus, faltava com a caridade?
    Como então a ironia é filha maior do diabo?
    Não haveria, Professor Romero Gomes, em sua afirmação de que a ironia é contra a caridade “um mero  achismo e personalismo vago” de sua parte?
 
    Professor, não lhe fica bem, ao fazer juízo de meus escritos, fazer, sem base, uma afirmação de tal tipo.
 
    A contumélia consiste em ofender ao próximo injustamente com palavras, e a detração consiste em fazer conhecer por outros o pecado de uma pessoa, pecado que a desonra. Visando desonrar o próximo, a contumélia, o insulto, e detração são pecados mortais. Porém, se alguém a pratica, moderadamente, visando a conversão da pessoa pecadora, ou que ela, por ser desmascarada em sua hipocrisia, não possa prejudicar a outros, a contumélia, a detração, e até a apóstrofe são lícitas (Cfr. São Tomás, Suma Teológica, II- IIae, Q. 72 , a. 1 e 2; II IIae, Q. 7, a. 1 e 2; e sobre a ira II IIae Q. 158, a.1 a  5 )
 
    Por isso Cristo chamou, direta e publicamente, os fariseus de víboras e de raça de víboras, de sepulcros caiados, de hipócritas, e até de filhos do demônio (Cfr. Mt . XXII, e Jo. VIII).
    Ora se é lícito, em certas circunstâncias até usar a contumélia e o apodo pejorativo, com muito mais razão é lícita a ironia, visando ou conversão da pessoa com quem se discute, ou a conversão dos que ouvem ou lêem uma polêmica em defesa da Fé.. Logo, a ironia, numa polêmica contra os inimigos da Igreja, defendendo a Fé, e visando a  conversão do adversário e dos que assistem a polêmica, é inteiramente lícita e louvável.
    Por isso, os santos apologetas, em suas polêmicas, usaram da ironia e os atacavam violentamente. E a Igreja nos deu esses santos, para que os imitemos em nossas polêmicas.
 
    Dou-lhe algumas citações para lhe provar que sua acusação de que no site Montfort se falta com a caridade por atacar firmemente os inimigos da fé é falsa e injusta.
    Veja como os santos lutavam contra os inimigos da Igreja
 
    Por exemplo, veja  o que dizia São Tomás contra seu adversário Guilherme do Santo Amor e seus seguidores que se opunham às Ordens mendicantes, e a que dominicanos e franciscanos ensinassem na Sorbonne:
 
    “Inimigos de Deus, ministros do diabo, membros do Anti-Cristo, inimigos da salvação do gênero humano, difamadores, réprobos, perversos, ignorantes, iguais a Faraó”.
 
    Então, Professor Romero, o senhor diria que também São Tomás não teve caridade, desrespeitando esses hereges ?
 
    São Boaventura, o Doutor Seráfico, contemporâneo de São Tomás, disse de um herege de seu tempo, e creio que foi de Gerardo di Borgo di San Donnino, seu irmão na Ordem de São Francisco: Perverso caluniador, louco envenenador, ignorante embusteiro, malvado, insensato, pérfido”.
 
    E o Papa São Gregório Magno disse de João, Arcebispo de Constantinopla, que ele tinha:- “um profano e nefando orgulho, a soberba de Lúcifer, fecundo em palavras néscias, vaidoso e escasso de inteligência”.
 
    Santo Inácio de Antioquia chamava os hereges de: “bestas ferozes – lobos rapaces – cães danados que atacam traiçoeiramente – bestas com rostos de homens – ervas do diabo, plantas destinadas ao fogo eterno”.
 
    O senhor poderia argumentar contra o dulcíssimo São Francisco de Sales que ele também faltava com a caridade por maltratar os hereges ?
    Claro que não!
    Entretanto, São Francisco de Sales em seu livro Filotéia (cap. 28, parte III)escreveu:
     “Os inimigos declarados de Deus e da Igreja devem ser difamados tanto quanto se possa, desde que não se falte à verdade, sendo obra de caridade gritar ‘eis o lobo!’ quando está entre o rebanho ou em qualquer lugar onde seja encontrado”
 
    Pois então, caro Professor Romero Gomes, São Francisco de Sales recomenda que os hereges sejam difamados tanto quanto se possa, desde que não se falte coma verdade.
    E agora, Professor?
    Será que o senhor mantém ainda sua acusação contra minhas ironias?
 
    São Bernardo, o Doutor Melífluo, —note melífluo – assim chamou o herege Arnaldo de Brescia:
    “Desordenado, vagabundo, impostor, vaso de ignomínia, escorpião vomitado de Brescia, visto com horror em Roma, com abominação na Alemanha, desdenhado pelo Romano Pontífice, louvado pelo diabo, obreiro de iniqüidades, devorador do povo, boca cheia de maldição, semeador de discórdias, fabricador de cismas, lobo feroz”.
 
      Foram esses ataques de São Bernardo que me inspiraram a chamar de escorpião um pastor protestante que atacou de modo blasfemo a honra de Nossa Senhora. (Por que será que sua peneira não captou essa defesa que fiz de Nossa Senhora?).
 
    Polemizando  no site Montfort  quereria poder dizer como São Jerônimo: “Jamais poupei os hereges e empreguei todo o meu zelo em fazer dos inimigos da Igreja meus inimigos pessoais”
 
    São Policarpo de Smirna, discípulo de São João, o Apóstolo do Amor, respondendo ao herege Marciano que negava a Humanidade de Cristo, que lhe perguntava se o conhecia, disse-lhe:
 
    “Sim, sem dúvida, és o primogênito de Satanás”.
           
    Será que também para São Policarpo o senhor lançaria a pecha de ser descortês?
 
    Santa Catarina de Siena, que era de mansidão imensa, escreveu a três Bispos italianos que se haviam passado para o lado do antipapa, durante o Grande Cisma do Ocidente, em Avignon, depois de terem aceitado Urbano VI como Papa. 
    ”Agora voltastes as costas, como cavaleiros vis e miseráveis: a vossa sombra fez-vos medo.
    ”Não sois flores que lançam perfume, mas mau cheiro que empesta o mundo todo”.
    ”Fostes escolhidos, como anjos terrestres, para nos libertar do demônio do inferno e recebestes o encargo angélico de conduzir as ovelhas a obediência da Santa Igreja; e no entanto quereis o oficio dos demônios.”
    ”Esta não é a cegueira da ignorância, isto e, que venha da ignorância; não que vos tenha sido apresentada uma coisa por outra. Não: porque vos sabeis qual e a verdade e no-la anunciastes, e não nos a vos. Oh! como sois loucos! vos que nos destes a verdade e quereis saborear a mentira …(digo-vos isto sem reverencia alguma, porque estais privados da reverencia)…”
    ”Ai insensatos, dignos de mil mortes! Como cegos não vedes o vosso mal; e chegastes a tanta confusão que a vós mesmos vos fizestes mentirosos e idólatras.”
 
    Esses santos polemistas nos foram dados por modelos pela Igreja, para que os imitemos.
    Então, não há nem falta de caridade, nem descortesia no modo como tenho tratado os inimigos da Fé ao polemizar no site Montfort.
    Tenho me esforçado por imitar esse modo de combater. Claro que defeituosamente, pois sou de argila e não sou nada santo. Mas nunca agi intencionalmente com malevolência.          
 
    E é o faço com aquilo que Deus me deu. E como os frutos dessas polêmicas tem sido grandes, excelentes e numerosos – o senhor deveria conhecer meus alunos e minhas alunas — ouso esperar que Deus, longe de me condenar, abençoa meu combate.
 
    Claro que se pode abusar da ironia, e então ela se torna pecado contra a caridade. Mas a ironia, usada por Deus e por Cristo, é ela também uma criatura de Deus, e é lícito usá-la, com as reservas que expliquei.
    Também ao uso da ironia se aplica a regra de Santo Inácio: deve-se usar das coisas criadas tanto quanto elas nos aproximem de Deus, e deixar de usá-las tanto quanto elas nos afastem de Deus.
 
    Pois como o senhor bem disse: “Fora da caridade, não pode haver bons frutos.”
    Concordo inteiramente com esta afirmação.
    Mas, então, como explicaria então o senhor os bons frutos de apostolado do site Montfort?
    Se ironia fere a caridade, o site Montfort não poderia ter os frutos que tem.
 
    A propósito, Professor, — pergunto-lhe de novo — quantos universitários o senhor converteu  à pratica da Religião Católica, usando o seu método diplomático e caridoso?
    Não é preciso me responder. Deus conhece os frutos de seu apostolado e os do site Montfort. Muitos desses frutos o senhor poderia tê-los constatado se tivesse lido com lentes iguais meus defeitos e meus frutos.
    Infelizmente, seus óculos têm lentes completamente opostas…
    Lamento os dois pesos e as duas medidas, erradas, que o senhor empregou na crítica de minhas cartas.
    O senhor joeirou com duas peneiras o site Montfort.
    O joio, inerente e inevitável à condição humana, o joio de meus escritos, o senhor o catou cuidadosamente em peneira bem estreita.
    Mas o trigo o senhor o senhor o fez escoar por outra peneira de rede larga. De um furo só.
    Nada ficou escolhido por essa sua rede furada
    Daí, o senhor praticamente não ter considerado o bem que  site Montfort faz 
 
    Lamento esse seu duplo crivo.
    Julgador de banca  que usa duas peneiras não é justo, meu caro examinador.
 
    E o senhor me acusa moralmente ao dizer:
    “É um ato cristão agredir e acalentar rancor contra seus antigos companheiros?”.
 
    Esse é um sofisma liberal sentimental seu, e que visa explorar o liberalismo atual das pessoas.
    Por acaso o senhor considera que Santo Agostinho devia ter tratado com amizade seus antigos mestres e companheiros de Maniqueísmo? Por ter sido colega deles, Santo Agostinho deveria tratá-los com afagos em vez de escrever o “Contra Manicheos” com argumentos candentes?
    Isso, Professor, seria liberalismo  porque coloca a amizade humana acima do maior e o zelo pela Fé.
    Esse seu modo de ver é liberal e não está de acordo com a doutrina e a moral católicas.
           
    Meu caro senhor, no caso da tfp, o agredido fui eu.
    Eles é que escreveram três volumes contra mim designando-me apenas de OF, adulterando os textos de minhas cartas. Eu apenas retruquei, defendendo mais a Fé que eles violam do que me defendendo.
    O senhor protesta que a vitima se defenda. E isso também é liberalismo.
 
    E como o senhor sabe que, no fundo de meu coração, guardo rancor deles?
    Esse sim que é um juízo temerário que o senhor faz de meu estado de alma interior.
    O senhor nada pode saber do que se passa no fundo de minha alma, mesmo com relação àqueles que combato. Sua afirmação é um “achismo” gratuito.
 
    E o senhor se arroga o direito de me perguntar qual se fosse meu confessor ou meu diretor espiritual: “Isto realmente contribui para a melhoria de sua vida espiritual e a salvação de sua alma que é, incondicionalmente, a vontade do Pai”.
    Pois lhe respondo: contribui sim, porque o combate à heresia e às seitas eu o faço visando defender a Fé e a salvação das almas, inclusive de muitos de meus antigos alunos que levei para a falecida tfp,  e da qual consegui tirar muitos.
    O senhor pergunta:”É um ato cristão rebater agressões dos leitores (dos quais não conheço nenhum) com mais agressão, humilhar os que não escrevem bem, distinguir entre os que têm e os que não têm curso superior”
 
    É, sim senhor!
    E corresponde á legítima defesa que é obrigatória pela moral. E esse  direito e esse dever é ainda mais obrigatório, se  a agressão é feita à Igreja Católica. Calar-se e tergiversar é que não é cristão.
    O senhor insinua que deveria de deixar de defender a Fé quando ela é agredida, e, de novo, isso é liberalismo.
    E o senhor me pergunta ainda, fazendo crer que ajo de modo não cristão: “humilhar os que não escrevem bem, distinguir entre os que têm e os que não têm curso superior”?.
    Alto lá, senhor Professor Romero Gomes.
    Humilhar os inimigos de Deus e da Igreja é ato cristão sim, senhor.
    O que não é ato cristão é querer impedir essa humilhação, como o senhor pretende com sua carta, pois a Igreja faz os cristãos rezarem na Ladainha de todos os santos;
    “Ut inimiccos Sanctae Ecclesiae humiliari digneris, Te rogamus, Audi nos!” (“Para que vos digneis humilhar os inimigos ad Santa Igreja, nós Te rogamos, ó Senhor”!)
    Quando a  Igreja reza essa jaculatória, o senhor protesta?
     O senhor a cala?
    O senhor deseja o oposto do que a Igreja pede?
    Quer o senhor a exaltação dos inimigos de Deus?
    Se assim é, compreendo que o senhor não simpatize com o site Montfort e muito menos comigo. Mas então o senhor se coloca ao lado dos inimigos da Fé.
    O que lamento muito.
    E tratar desigualmente os iletrados dos Doutores é também coisa obrigatória pela caridade. Foi o que Cristo fez, indo ensinar primeiramente aos Doutores, no templo, quando Ele tinha doze anos. Foi o que Cristo fez recebendo um Doutor em Israel, Nicodemos, temeroso como o são muitos Doutores, à noite, e às escondidas, usando de misericórdia particular para com ele, mas sem deixar de lhe exprobrar a ignorância: “Tu és Mestre em Israel e não sabes essas coisas”? ( Jo. III, 10).
 
    Por minha vez lhe pergunto, meu caro Dr. Romero: “Tu és Mestre em Israel e não sabes essas coisas ”? ( Jo. III, 10).
 
    E Cristo tratou diversamente os Doutores da Lei e a samaritana do poço, sem deixar de dizer a eles e a ela, rotundamente, sem circunlóquios diplomáticos, a verdade sobre Deus e sobre eles e sobre ela. É regra de caridade tratar diversamente doutores e iletrados, dizendo, porém, a verdade inteira a todos.
    Dr. Romero, a diplomacia, como tudo, “sem a caridade, tudo (tudo mesmo!) é incomensuravelmente vão”.
    E o senhor, como estou provando, não foi caridoso em seu julgamento para comigo. Pois o senhor se preocupa mais em lamentar o esmagamento e a humilhação dos hereges do que em se alegrar com a vitória da verdade.
    Daí escrever o senhor com um queixume:
    “E, se algum mortal julgar pertinente a réplica, a tréplica é fulminante e encerra qualquer polêmica”.
    Que quer o senhor dizer com esse muxoxo sentimental? Quereria o senhor que os que atacam a Fé saíssem da polêmica airosamente?
    Faço, então, minhas as suas palavras aplicando-as à sua carta:
    “Neste texto ou nestas palavras de sua missiva, que agora coloco no site, é a caridade que semeia as vinhas do Senhor?
    Pode a caridade se queixar da humilhação dos inimigos da Igreja?
    Quer o senhor mudar a jaculatória que citei da Ladainha de Todos os Santos? Por exemplo. “para que os inimigos da Santa Igreja sejam exaltados, nós Te rogamos , Ó Senhor “?
    Sua carta semeia a vinha do Senhor?
    Evidentemente que não.
    Pois quem escreve o que o senhor escreveu em sua carta jamais cantaria com o salmista:
        “Combate, Senhor, os que me combatem.
        Empunha por mim, escudo e lança,
        E para socorrer-me, avança.
        Puxa tua espada,
        corta a passagem dos que me perseguem
        Diz para a minha alma:
        “Alma, Eu sou tua salvação”.
        Sejam confundidos e envergonhados
        os que buscam a minha vida.
        Retrocedam e sejam confundidos
        Os que meditam males contra mim.
        Tornem-se como o pó levado pelo vento,
         e o anjo do Senhor os coarte.
        Torne-se o seu caminho em trevas
        E escorregadia seja a sua via.
        E que o anjo do Senhor os persiga.
        Porque sem razão, ocultamente,     
        Amaram-me um laço para me perderem,
        Sem causa ultrajaram a minha alma” (Salmo XXXIV).
 
    Para seu estilo, e para seu modo de conceber o amor, essa linguagem da Sagrada Escritura é arrogante, e sem caridade.        
    Para mim, ela é uma delícia e é sublime. E essa é a linguagem do Espírito Santo, do Amor de Deus.
    E essa linguagem divina é intolerável para o liberalismo.
 
*****
 
    Passemos à sua terceira preocupação para comigo, ou ao terceiro aspecto de sua análise de meus textos e meu atuar: fazer julgamentos e ter caridade
    Diz-me o senhor de modo muito pouco exato para um presidente de banca de doutoramento:
    “Um terceiro aspecto que considero bastante grave em sua “tese” é a sua capacidade inata de julgar”.
    Que confusão é essa Professor?
 
    Eu nunca defendi a tese de que eu tenho uma capacidade inata própria somente a mim. 
    A capacidade de julgar é dada por Deus a todo homem normal.
    Todo homem que pronuncia uma frase enuncia uma sentença. E sentença é própria de juiz. Frase, oração, juízo ou sentença são sinônimos, meu caro Professor, que se arvorou como juiz de minha tese.
    Embora haja matizes nesses sinônimos, toda oração é uma sentença. É próprio do homem julgar. Um homem que nada julgue é um tolo a quem a mãe deve ter dito muitas vezes: “Tenha juízo, meu filho!”. Daí tribunais para julgar réus, confessionários para julgar e perdoar pecadores, escolas com professores que julgam o conhecimento de alunos, e até bancas universitárias para julgar teses doutorais.
    O senhor exerce um cargo de juiz em sua Faculdade. Será isso contra a caridade?
    O senhor defendeu uma tese completamente liberal ao me escrever:
 
    “Aliás, não nos cabe julgar ninguém, nunca... e, por isso, não faço qualquer julgamento ao seu modo de pensar (legítimo!), mas, questiono a sua insensatez de julgar (definitivamente, uma acepção extrínseca à insustentável leveza da alma humana).
 
    O senhor escrevendo isso tornou-se o Doutor da Contradição!
    O senhor critica minha ironia e descortesia e me acusa de ser insensato?
    Disse-me o senhor: “lamento também, com igual tristeza, as respostas irônicas, a retórica inconclusiva, a descortesia …”
 
    Essa é sua maneira de ser cortês, Professor…
    Professor, raramente encontrei frase tão contraditória e tão descortês como a sua.
    Hesitei em qualificar sua frase com a palavra “insensata”, por não querer de modo algum ofendê-lo. Mas como o senhor a usou contra mm, seria bem lícito devolver-lhe a “gentileza”, mas sem a contradição, que é apenas sua.
    Então o senhor julga que “não nos cabe julgar ninguém, nunca...”?  
    Se o senhor afirma que não se pode julgar ninguém, como me julga?
    Como qualifica o que escrevo de insensato?
    Quem o nomeou meu juiz?
    Por que o senhor aceitou esse encargo que o senhor condena?
    E por que então o senhor me julgou em seu arrazoado contra mim, que é um continuo julgamento de alguém que não se apresentou à sua banca geológica?
 
    Até de hereges o senhor diz que não se pode fazer juízo:
    “Mas, mesmo aqui, não pode haver julgamento ou condenação ao pecador: seria apenas uma insensatez a mais no rol de tanta loucura..”.
 
    Como o senhor escreve:não faço qualquer julgamento ao seu modo de pensar (legítimo!)”, e depois escreve cinco páginas me julgando e condenando com duplo critério e com crivos vesgos?
 
    E como o senhor afirma que o julgar é definitivamente, uma acepção extrínseca à insustentável leveza da alma humana” e a seguir me julga e condena?
 
    Professor Romero Gomes, o senhor se auto condenou.
    Professor, sua lição de que nunca se podem fazer juízos de ninguém não é cristã.
    Jesus afirmou que não devemos fazer juízos temerários, isto é, sem base: “Não julgueis pelas aparências, mas julgai com reto juízo” (Jo. VII,  24).
    Cristo proibiu fazer juízos pelas aparências. Mas Ele nos ordenou julgar retamente.
    Por isso São Paulo nos ensinou: “Não sabeis que havemos de julgar os anjos? “Quanto mais as coisas deste século?” (I Cor. VI, 3).
    E ainda: “É possível que não haja entre vós um homem sábio que possa julgar entre seus irmãos?” ( I Cor. VI, 5).
    E mais: “O homem espiritual julga todas as coisas e não é julgado por ninguém” ( I Cor. II, 13).
 
    Portanto, não é pecado julgar com reto juízo. E o senhor errou ao afirmar que não podemos julgar nunca.
    Cristo e São Paulo ensinaram o contrário do que o senhor defende.
    Sua tese é liberal e não católica.
 
*****
 
    E, logo de início, desta terceira preocupação sua comigo, Professor, sua caridade, não o impediu de insinuar que ajo insensatamente.
    Pois que o senhor me endereça uma “cortesia” com viés de insulto:
    “Outra coisa muito diversa, por exemplo, é bater o martelo secamente em relação às manifestações de videntes ou aparições. Cuidado, senhor Fedeli, muito cuidado… as coisas de Deus não são as coisas dos homens … julgamentos intempestivos nesta área são muito perigosos e podem estar eivados de insensatez. A prudência da Santa Igreja nestes casos deve ser farol para os cristãos; desliguemos, pois, a etérea luzinha das nossas lanternas de descrédito e escárnio. Não lhe é vedado como cristão acreditar em Pe. Gobbi ou Vassula Ryden (e tantos outros); não me é tolhido como cristão crer em suas mensagens”.
 
    Pois fique sabendo que a sua luzinha etérea o enganou: Vassula Ryden nem católica é. Portanto, suas visões são falsas. Absolutamente falsas.
    Não sou eu que sentencio que não pode haver visões e revelações verdadeira em quem não tem fé católica. É a Igreja que toma como critério de veracidade a ortodoxia dos videntes. O farol da Santa Igreja condena como falsas as visões de hereges.
    Diz Antônio Royo, O.P.: “É preciso considerar absolutamente falsas as revelações que se oponham ao dogma ou à moral. É impossível haver contradição em Deus” (Antonio Royo, O.P., Teologia da Perfeição Cristã, p. 1077). 
 
    Quem então aceita as visões de Vassula Ryden, que nem católica é, pratica ato “de pura insensatez”.
    Compreendo que quem usa um critério que não condena Vassula Ryden,  tem que aprovar ainda mais facilmente as visões do Padre Gobbi…
    Insensatez clama por insensatez
    Sua peneira para joeirar aparições é aquela que tem um furo só cujo diâmetro é o da peneira. Nada lhe deixa ela para exame.
    Cuidado Professor, em confundir visões verdadeiras com falsas, porque o anjo das trevas se faz de anjo de luz. Cuidado…
    O senhor me recomenda, depois, que diga a frase que todo mundo atribui a Santo Agostinho, sem jamais citar a obra em que ele teria escrito isso: condenar o pecado e amar o pecador:
    “É claro que tanta insensatez (loucura…) merece uma resposta imediata e veemente, forjada em ferro rubro (contra o pecado, contra o desdém, contra a heresia!). Mas, mesmo aqui, não pode haver julgamento ou condenação ao pecador: seria apenas uma insensatez a mais no rol de tanta loucura…”.
           
    Claro que se deve amar o pecador no sentido que se deve desejar sua conversão. Mas, o pecador, enquanto continua em pecado deve ser combatido e exprobrado. Não existe a bebedeira isolada e cambaleando pelas ruas. A bebedeira existe no bêbado. O adultério existe no adúltero. A heresia existe no herege. E assim como é impossível dar um tiro na ferocidade e um abraço no leão, porque a ferocidade está no leão, assim também o pecado está no pecador.
    Ainda que o senhor pisasse o pecador num pilão, o senhor não conseguiria separar dele a sua impiedade.
    E Deus odeia igualmente o ímpio e a sua impiedade.
 
    Essas duas últimas frases lhe pareceram duras demais?
    Essas duas últimas frases lhe pareceram típicas do site Montfort?
 
    Pois o senhor se engana. Elas não são do site Montfort. Elas foram escritas pelo próprio Deus.
 
    “Ainda que pisasses o néscio num gral, como se pisam os grãos de cevada com o pilão, não separarias dele a sua estultícia” (Prov. XXVII, 22 ).
 
    E a segunda :
    
    “Deus odeia igualmente o ímpio e a sua impiedade” (Sab. XIV, 9).
 
    Então,  meu caro Professor Romero, não seguirei o seu conselho liberal e sentimental de distinguir pecador e pecado. Antes seguirei o que Deus nos recomenda. Combaterei a heresia no herege, desejando a conversão do pecador herege. Porque “minha boca proclamará a verdade e meus lábios detestarão o ímpio” (Prov. VIII, 7).
    Aceitaria o senhor um aviso?
    Pois lho dou:
    “Não é bom ter considerações com a pessoa do ímpio, desviando-se da verdade do julgamento” (Prov. XVIII, 5).
    E o senhor acaba por colocar praticamente num mesmo nível os pecados contra a Fé e o que o senhor erradamente supõe em mim ser pecado contra a caridade, por minhas “descortesias” e ironias.
    Professor, os pecados contra a Fé são bem piores que os pecados contra a caridade.
 
    Depois de tantos erros de apreciação de sua parte sobre o que escrevo e como escrevo, só poderia resultar uma sentença final um tanto irada e completamente injusta e deturpadora da realidade:
    “Neste contexto, que site cristão é este que semeia vento e tempestade … entre cristãos!?
     Professor, se há tempestade na Igreja, hoje, não é o site Montfort quem semeou seus ventos e seus raios.
 
    Foi o Vaticano II que semeou essa tempestade.
 
    Paulo VI reconheceu ao dizer:
     “A hora presente… é hora de tempestade! O Concílio [Vaticano II] não nos deu, até agora, em muitos setores, a paz desejada, mas antes suscitou perturbações…” (Paulo VI, Discurso em 15 de Julho de 1970, apud Padre Luigi Villa, La Nuova Chiesa di Paolo VI, Edizione Civiltà, Brescia,  2.003, p. 61).
 
    Mais ainda, disse Paulo VI:
    “Também na Igreja reina esse estado de incerteza. Acreditava-se que depois do Concílio [Vaticano II]  viria uma dia de sol para a história da Igreja. Veio em vez disso um dia de nuvens, de tempestade e de escuridão” (Paulo VI, Discurso ao Seminário Lombardo, Roma,  7 de Dezembro de 1968, apud  Romano Amerio, Jota Unum,  Ricardo Ricciardi, Milão-Nápoles, 1985  p. 8. O negrito e sublinhado são meus).
 
    Caro Professor, eu estou me molhando nessa chuva – nessa tempestade – que atormenta a Igreja desde o Vaticano II. Atribuir a tempestade que atormenta todos os católicos ao site Montfort é sua última injustiça.
    Sim, é a Igreja Católica que está na tormenta e na guerra interna por causa do Vaticano II.
    Queixe-se disso a João XXIII e a Paulo VI.
    Não me culpe pelos ventos e tempestades que me atormentam como ao  senhor. Não jogue a culpa desses ventos e tempestade que nos fustigam às costas do site Montfort.
    É muito fácil fazer isso.
    Mas é injusto.
 
*****
 
    Conclusão
    
    À guisa de conclusão o senhor me escreveu:
 
    “Como um doutor após a sessão pública de defesa, cabe ao senhor analisar a relevância ou não dos argumentos e observações do examinador externo e de incorporá-los ou não à sua tese”.
    Agradeço-lhe o reconhecimento desse meu direito.
    E, exercendo-o, analisei suas críticas, e as pesei, e as achei faltas de peso, liberais, contraditórias e injustas. Por isso as rejeito e as condeno.
    Como considero o seu estilo Professor, diplomático demais, ocultando seu verdadeiro pensamento em meio às brumas de um palavreado confuso e aparentemente piedoso, mas onde aparecem, de repente, as pontas agudas de rochedos cortantes de descortesia e de ofensa semi camuflada, que fazem rombos no casco da nave da caridade e no batel da cortesia.
 
    Não é meu estilo.
    Lamento que seja o seu.
 
    E o senhor, para coroar seu texto infeliz, o senhor se despede usando uma fórmula ambígua: “E para todos nós, homens de Boa Vontade”
    Chiii….
 
    Retire esse nós, porque não aceito ser posto nessa designação coletiva que, se teve origem evangélica, — e então é bem correta — foi assumida hoje em dia para designar homens muito misteriosos, que não seriam nem católicos, nem cristãos, nem judeus, nem pagãos, nem não sei o que mais, mas apenas “Homens de Boa Vontade”.
    Tais como aparecem no romance de Jules Romain “ Les Hommes de Bonne Volonté”—“ À la Recherche d´une Église” [ Os Homens de Boa Vontade. – Á procura de uma Igreja”].
    Recomendo-lhe sua leitura.
    Mas porque já li esse livro, tenho que dizer-lhe que não aceito ser incluído no rol desses “homens de boa vontade” muito suspeita…
 
    Claro que lhe agradeço e lhe retribuo de coração o desejo de ter “a paz de Cristo e a proteção da Virgem Maria”.
    E tanto me agradou esse seu santo desejo e suas boas palavras sobre Nossa Senhora que, depois do acaloramento do debate, isso me trouxe uma brisa de consolo e de esperança, fazendo ressurgir, no fundo de minha alma, um desejo: como seria bom que Nossa Senhora nos unisse no mesmo combate. Sob a mesma tempestade, arrostando os mesmos ventos!
    Professor, creia-me, minha alma tem sede da sua.
    Que Nossa Senhora nos una na mesma Fé, na mesma caridade, no mesmo combate, numa só alma, na defesa da Fé Católica Apostólica Romana, é o que lhe desejo
 
in Corde Jesu, semper,
Orlando Fedeli

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