Montfort Associação Cultural

12 de janeiro de 2005

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Joaquim de Fiore, Mestre Eckhart e Guilherme de Ockham

Autor: Orlando Fedeli

  • Consulente: Bruno
  • Idade: 22
  • Localizaçao: Salvador – BA – Brasil
  • Escolaridade: Superior em andamento
  • Profissão: professor
  • Religião: Católica

Aos amigos da Montfort, Salve Maria!

Olhei rapidamente a obra prima “Os labirintos de Eco” feita pelo Dr. Orlando Fedeli. Li “O Nome da Rosa” várias vezes, mas tenho algumas dúvidas: 1- Quem foi Joaquim de Fiore? Entendi que existiam seguidores seus chamados “joaquimitas”. Mas ele foi um heresiarca? Pergunto pois já li em algum lugar que ele era um santo. E gostaria de entender quem foram os joaquimitas.

2- “O Evangelho Eterno” foi obra dos joaquimitas?

3- Mestre Eckhart e Guilherme de Ockham: Quem foram e o que fizeram; contribuiram em algo para beneficiar a fé católica?

4- Pelo que entendi, irmãos do Livre Espírito, Espirituais franciscanos e Fraticelli são uma só coisa. Eles constituiam grupos diferentes?

5- Quem foi realmente o Papa João XXII (este não foi um papa santo?) e o inquisidor Bernardo Guy? Me parece que existe uma distorção no comportamento dessas pessoas, seguindo a ótica de Umberto Eco.

Sem mais, subscrevo-me – e agradeço desde já a atenção e a boa vontade de vocês. Que Deus abençoe copiosamente todas as obras que vocês fazem em benefício da Santa Igreja.

Muito prezado Professor Bruno, salve Maria!

Muito me alegrou receber carta de um Professor, e de um Professor católico.

É bondade sua opinião tão exagerada sobre meu trabalho, mas que Deus lhe pague tanta generosidade.

Passo, sem mais, a responder suas questões.

O Abade Joaquim de Fiore foi um monge cisterciense do século XII. Ele se retirou da Ordem de Cister, para fundar uma outra ordem de monges beneditinos no Mosteiro de San Giovanni in Fiore, na Calábria. Ele se tornou famoso por sua capacidade exegética, tendo escrito muitos livros que tiveram uma repercussão imensa na História do Ocidente.

Seus principais livros foram: Livro da Concordância do Novo e do Velho Testamento, O Saltério das dez Cordas, Exposição sobre o Apocalipse, Comentário sobre Jeremias, o Livro das Figuras, Contra os Judeus, De Fé Trinitária, Tratado sobre os Quatro Evangelhos.

O Abade Joaquim de Fiore ficou famoso por sua teoria da história que ele dividia em três períodos: o do Pai (antigo Testamento) o do Filho (o Novo Testamento) e reino do Espírito Santo, ou do amor. Essa divisão deu origem a erros gravíssimos milenaristas. Todos os erros milenaristas surgidos posteriormente no Ocidente tiveram raiz em Joaquim de Fiore, inclusive o Terceiro Reich de Hitler se inspirou no terceiro reino de Joaquim de Fiore.

As heresias mais virulentas da Idade Média tiveram relação com as doutrinas joaquimitas. Os primeiros a serem contaminados pelos erros joaquimitas foram os chamados Espirituais Franciscanos, depois os Pseudo-apóstolos, os dolcinianos, os Gibelinos, entre o quais Dante.

O Modernista Padre Henri de Lubac escreveu um livro importante sobre A Posteridade Espiritual de Joaquim de Fiore (em francês), mostrando como suas doutrinas repercutiram em toda a cultura, literatura, Filosofia e política ocidental.

Outro livro muito importante sobre o Abade Joaquim é o de Marjorie Reeves, The Influence of Prophecy in tje Later Middle Ages. Em português recomendo-lhe os livros do Professor Nachman Falbel, da USP, sobre as Heresias Franciscanas e sobre as Heresias Medievais. O Evangelho Eterno foi uma obra escrita pelo espiritual Franciscano Fra Gerardo di Borgo di San Donino que defendia a tese de que o Evangelho Eterno seria o conjunto das obras do Abade Joaquim. Era essa uma obra violentamente milenarista, que esperava um grande castigo para aquele tempo, castigo do qual poucos homens escapariam, e que daria início ao Reino do Espírito Santo. Os franciscanos espirituais marcaram — tal como a TFP — várias datas para esse castigo e para a chegada desse Reino. Fracassaram sempre.

Mestre Eckhart e Guilherme de Ockham fora dois péssimos autores condenados como hereges pelo Papa João XXII.

Eckhart foi um gnóstico, enquanto que Ockham foi um herege de fundo panteísta e materialista. Lutero juntou os sistemas opostos desses dois hereges para fazer a Reforma Protestante.

A Heresia dos Irmãos do Livre Espírito era a de uma seita gnóstica que seguia as doutrinas de Eckhart. É possível que o próprio Mestre Eckhart tivesse feito parte dela.

Os Dolcinianos — seguidores do herege Fra Dolcino e de Segarelli — foram um ramo dos Espirituais franciscanos que defendiam o comunismo de bens e o amor livre, no Reino do Espírito que pretendiam fundar.

Finalmente, respondendo sua última questão, devo dizer-lhe que o papa João XXII nada teve de santo. Ele foi um papa violento, famoso pela prática da usura e, dizem alguns, pela prática da Alquimia. Ele condenou energicamente as heresias de seu tempo: Espirituais, Dolcinianos, Beguinos (seguidores de Frei Piere Jean Olivi ou Jeanolieu), Ockham, Eckhart, etc. Ele chegou a condenar até mesmo um erro teológico bem grave, que ele mesmo havia ensinado, sobre a visão beatífica.

Esperando tê-lo atendido, me subscrevo atenciosamente

in Corde Jesu, semper,
Orlando Fedeli.

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