Montfort Associação Cultural

23 de julho de 2013

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Já está em curso a reforma da Cúria?

Dizem que os superiores jesuítas ouvem longamente seus subordinados e todos os implicados em um caso antes de tomar uma decisão. Mas quando a tomam, é uma decisão pessoal e de sua inteira responsabilidade. Os conselhos que Francisco tem criado no Vaticano parecem servir para cumprir de forma estável essa função de aconselhamento. A  reforma da Cúria pode caminhar nessa direção, substituindo a Cúria executiva com amplos poderes – inclusive o de decidir e falar contra o que queria o Papa – como teve que suportar Bento XVI!  

Fonte: IHU Unisinos

Comentário: Lucia Zucchi

Bertone deve sair em setembro. Assim muda o mapa do poder no Vaticano

Aquela que muitos esperam que a nomeação mais importante do novo pontificado será formalizada provavelmente nos primeiros dias de setembro. A era do cardeal Tarcisio Bertone se encerrará então como porto de uma transição que o Papa Francisco quis que fosse indolor. Até demais, segundo os adversários do “primeiro-ministro” vaticano.
A reportagem é de Massimo Franco, publicada no jornal Corriere della Sera, 21-07-2013. A tradução é de Moisés Sbardelotto.
Uma parte do episcopado tentou pressionar pelo afastamento de Bertone antes. E esperava que na próxima viagem aoBrasil, para a Jornada Mundial da JuventudeJorge Mario Bergoglio fosse acompanhado de um novo secretário de Estado, para que desse a impressão de uma reviravolta tangível também em uma política externa vaticana asfixiada há anos.
Mas Francisco permitiu a Bertone esta última aparição ao seu lado. Não tanto porque considera a sua colaboração insubstituível: a desautorização daquele que, sob Bento XVI, era chamado maliciosamente de “vice-papa”, para enfatizar o seu enorme poder, agora é palpável. Francisco também teria ignorado recentemente a sua sugestão de adiar a instituição da comissão de inquérito sobre o IOR.
Uma explicação da sucessão em câmera lenta é que o ex-arcebispo jesuíta de Buenos Aires preferiu esperar por delicadeza com relação a Josef Ratzinger: pôr de lado o seu primeiro colaborador soaria como uma crítica implícita ao pontificado anterior. Mas talvez a verdadeira razão é que, nesses primeiros meses, o papa quis entender bem não tanto se a era Bertone estava encerrada, porque as críticas descaradas ao secretário de Estado durante as congregações antes do conclave já o tinham mostrado como alvo e bode expiatório de um mau humor crescente. O problema é que tipo de “primeiro-ministro” Bergoglio tem na cabeça.
E aqui o quadro se torna mais confuso. Parece provável que vamos rumo a um redimensionamento do cargo. A Secretaria de Estado vaticana nos últimos anos foi o espelho de um sistema de governo que não funciona mais e provoca uma centralização tal a ponto de obrigar o papa a se sobre-expor para justificar e proteger o seu braço direito. Ao menos, foi isso que aconteceu entre Bento XVI e Bertone.
A instituição de uma espécie de “Conselho da Coroa” formado por cardeais de todo o mundo escolhidos pelo pontífice argentino prefigura, ao invés, um método de trabalho colegiado e, ao mesmo tempo, uma redução do perfil do secretário de Estado. Na incerteza sobre as próximas decisões de Francisco, vazou até a hipótese de que ele quer abrir mão de um “primeiro-ministro” vaticano: mas é improvável.
A “lista” de nomes que circulam sobre o sucessor de Bertone leva a entender que apenas poucos conhecem as verdadeiras intenções do pontífice, e que se irá rumo a uma figura menos volumosa, com funções não tanto “políticas”, mas mais administrativas. Também não está claro se a quase invisibilidade do secretário de Estado nas últimas semanas prefigura o modelo que o papa tem em mente. Alguns dão por certo que será um diplomata e um italiano.
“Talvez possa acontecer, mas com o clima contra o ‘partido italiano’, eu não daria isso como certo”, admite um cardeal, confirmando que o pós-conclave marca não apenas um enfraquecimento de Bertone, mas também uma certa dificuldade de uma parte da Conferência Episcopal Italiana de se sintonizar com o papa argentino. Por outro lado, os paradigmas e os equilíbrios geopolíticos do passado desapareceram.
O progressivo mas inexorável desmantelamento dos rituais da Cúria e a disposição de comissões papais ad hoc ao lado das atuais estruturas financeiras vaticanas dá corpo a uma “estratégia de cercamento” que prepara o terreno para se construir o novo modelo de governo. E enfatiza como ele não funcionou até agora.
Demolição simbólica
É uma operação de demolição simbólica de velhos hábitos e estruturas, que também serve para medir as resistências dos lobbies eclesiásticos e econômicos mais enraizados: aqueles que contribuíram para levar Bento XVI a renunciar em fevereiro passado e que ainda oscilam entre medo e vontade de resistir para sobreviver.
Diz-se que, nas antessalas dos palácios vaticanos, enquanto o papa recebe os seus convidados importantes, os monsenhores da Cúria brincam diante de todos com tons agridoces sobre onde serão “exilados” nos próximos meses. Primeiro, no dia 15 de junho, a nomeação do “prelado” do Instituto para as Obras de Religião, Battista Ricca. Depois, a criação da comissão de inquérito sobre o IOR; e há três dias, a do órgão chamado a controlar os custos de todas as atividades econômicas da Santa Sé.
A escalada é vistosa, em apenas um mês. Mesmo que o escândalo sobre os hábitos privados do Mons. Ricca está se tornando o pretexto ao qual a velha guarda vai tentar se agarrar para contestar os métodos solitários com os quais Bergoglio escolhe os colaboradores.
Mas dificilmente o incidente, embora irritante, irá bloquear a revolução em curso. Toda a cúpula do IOR, do passado e do presente, é chamada para desfilar diante da comissão de inquérito, presidida pelo cardeal Raffaele Farina para informar sobre as atividades do Instituto: não apenas Ernst von Freyberg, o atual presidente, mas também os antecessores Ettore Gotti Tedeschi e Angelo Caloja. E, com eles, os ex-diretores.
As acusações da magistratura italiana contra Paolo Cipriani e Massimo Tulli, o diretor do Instituto e o seu vice, forçados a renunciar no dia 1º de julho, evocam zonas escuras a serem esclarecidas antes que cheguem outros escândalos. Continua pairando a suspeita de que existem “contas de aluguel”, oferecidas a pessoas ou empresas com grandes disponibilidades de dinheiro para realizar operações financeiras protegidas em troca de grandes contribuições.
A prisão, no dia 28 de junho, do Mons. Nunzio Scarano promete outras revelações embaraçosas sobre a falta de escrúpulos de ao menos alguns daqueles que lidam com o dinheiro no Vaticano. O prelado de Salerno, envolvido na tentativa de fazer entrar na Itália 20 milhões de euros da Suíça, há alguns dias, teria entregue à Procuradoria de Romadocumentos sobre as atividades da APSA, a Administração do Patrimônio da Sé Apostólica, onde ele trabalhou por 22 anos.
Há rumores de que, há algumas semanas, algumas pessoas definidas como “próximas do IOR” teriam contatado a cúpula italiana de um banco estrangeiro para avaliar a possibilidade de realizar algumas transações. Não se fez nada, porque os interlocutores pediram garantias e condições que os emissários do Instituto não eram capazes de oferecer. Mas, se é verdade, o episódio confirma o motivo da determinação do papa de ir até o fim.
Reforma
Algumas pistas interessantes sobre a possível reforma do IOR foram oferecidas há alguns dias por Pellegrino Capaldo, professor emérito de Economia Empresarial da La Sapienza, tradicionalmente próximo à Santa Sé e respeitado e ouvido por sempre ter oferecido ao Vaticano ajuda e conselhos. Dentre outras coisas, em 1982, ele foi um dos três membros de nomeação vaticana (ao lado de três escolhidos pelo Palazzo Chigi) da comissão mista entre Itália e Santa Sé encarregada de reconstruir no obscuro caso das relações entre o banqueiro Roberto Calvi e o IOR. Participando recentemente de um debate, Capaldo defendeu que o IOR deve voltar às origens, eliminando as anomalias e os desvios que se manifestaram ao longo dos anos.
A ideia é de transformá-lo, de modo a deixar claro que ele não é um banco. Para alcançar isso, deveriam ser explicitamente proibidas as operações que o fazem parecer como tal. A alternativa, segundo Capaldo, é o desmonte do IOR e a construção de um novo órgão para se confiar tarefas limitadas às “obras de religião”.
O economista opta pela primeira solução, no entanto. A dissolução, em sua opinião, é desaconselhável, porque marcaria claramente a descontinuidade com o passado, mas teria como contraindicação uma avaliação nada benevolente do modo de agir da Igreja no passado.
Não se trata de uma análise heterodoxa. Ela parece ouvir os ecos da discussão em curso nas sagradas instâncias. Quando Capaldo expressa a convicção de que o Vaticano não precisa de um banco, me vem à mente o Papa Francisco, que, em uma homilia do dia 24 de abril, advertiu: “O IOR é necessário, mas até um certo ponto”. E as suas críticas à gestão não soam mais duras do que as feitas pelo pontífice repetidamente.
Transparência
Agora espera-se que as instituições financeiras internacionais certifiquem a transparência no modo de agir do Vaticano. Em cinco meses, chegará o relatório do Moneyval, o órgão do Conselho da Europa chamado a julgar as virtudes ou os defeitos dos Estados em matéria de lavagem de dinheiro sujo e de financiamento do terrorismo.
Mas, segundo o professor Capaldo, em vez de discutir listas brancas ou pretas, talvez seria melhor proibir todas as administrações da Santa Sé, e em particular o IOR, de executar certos tipos de operações. Não foi uma visão bonita, disse Capaldo, ver o Vaticano negociando por baixo os padrões de transparência. O ponto de chegada, no entanto, continua indefinido.
Papa Francisco tem o ar de um engenheiro ao qual foi confiada a tarefa de demolir os abusos arquitetônicos cometidos durante anos, impunemente, em um esplêndido edifício. Até agora, ele usou apenas a picareta, e já se entreveem alguns destroços entre as nuvens de poeira. No entanto, o que surgirá no fim é indecifrável.
A planimetria da Igreja de Bergoglio está escondida pelos barulhos e pelos rangidos de um canteiro de obras em atividade febril. Mas, provavelmente, na cabeça do pontífice e na de ao menos alguns dos seus eleitores no último conclave, ela está pronta há muito tempo. E logo após do verão europeu, ela vai revelar contornos e estruturas que, dadas as premissas, serão surpreendentes e talvez até traumáticos.

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