Montfort Associação Cultural

29 de janeiro de 2016

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Introdução da liturgia tridentina em paróquia: relato de uma experiência

Aos sacerdotes desejosos de reorientar sua liturgia para prestar a Deus o culto devido: repor Cristo no centro das atenções.

Fonte: Paix Liturgique, conferência do Padre Milan Tisma

Entrevista com o Padre Claude Barthe , tradução Montfort

 

A Associação francesa Paix Liturgique publicou em seu site, os dois textos que intercalamos a seguir.  

Trata-se, em primeiro lugar, de uma conferência do Padre chileno Milan Tisma, proferida no Primeiro Congresso Summorum Pontificum que teve lugar no Chile, em julho de 2015. Esse sacerdote diocesano oferece a missa tridentina em sua paróquia, no âmbito do Motu Próprio Summorum Pontificum, e relata sua experiência como subsídio para outros sacerdotes interessados em começar a celebrar a Missa de sempre.  

Após cada tópico dessa Conferência, inserimos o comentário feito, por solicitação da Paix Liturgique, pelo Padre Claude Barthe, teólogo e vaticanista, capelão da Peregrinação Summorum Pontificum a Roma, lembrando sua experiência no apoio a muitos sacerdotes que iniciam a celebração do rito tradicional. 

O Pe. Milan Tisma, capelão da associação Magnificat de Santiago do Chile.

Além de capelão da Associação Magnificat, ramo chileno da Una Voce, o Pe. Milan Tisma é também o pároco da paróquia de São João de Deus em Santiago. Ordenado em 1997 pelo Cardeal Oviedo, então arcebispo de Santiago do Chile, o Pe. Tisma nunca deixou de celebrar [também] a missa tradicional. Em 1991, quando estava a pensar deixar o Seminário Diocesano, onde era perseguido por causa da sua ligação à liturgia tradicional, Mons. Oviedo, que acabara de chegar à arquidiocese, encorajou-o para que ficasse em Santiago, garantindo-lhe então a sua compreensão e a sua proteção, que, de facto, até ao dia da ordenação, jamais lhe vieram a faltar. Aliás, a ordenação do Pe. Tisma foi a última realizada pelo Cardeal Oviedo antes da sua morte.

O Pe. Milan conhecera a missa tradicional nos seus tempos de escola graças a um sacerdote jesuíta, que era então o capelão da Magnificat. Trata-se, pois, de uma experiência original e já longa, esta que o Pe. Tisma decidiu contar aos participantes do Congresso Summorum Pontificum de Santiago, subordinado ao tema da celebração da forma extraordinária no âmbito paroquial.

Apresentamos a seguir os pontos mais notáveis da conferência.

I- Recuperar o sentido do sagrado

Muito antes de se ter tornado o Papa do Motu Proprio Summorum Pontificum, o Cardeal Ratzinger já explicava de modo constante e claro o motivo pelo qual a crise da Igreja depende da maneira como a liturgia é tratada. A este propósito, ele foi mostrando insistentemente como a perda do sentido do sagrado constitui um elemento fundamental dessa mesma secularização que ele combateu vigorosamente ao longo do seu magistério pontifício.

Porque uma das consequências mais evidentes e dramáticas da reforma litúrgica foi precisamente a perda do sentido do sagrado, o Pe. Tisma começou por afirmar que a sua redescoberta desse sentido do sagrado há de ser o objetivo primeiro de qualquer esforço de renovação litúrgica

Valendo-se da definição de “sagrado” oferecida pelo teólogo luterano alemão Rudolf Otto (1), enquanto “mysterium tremendum et fascinans”, o Pe. Tisma crê que o regresso do homem contemporâneo ao sagrado passa justamente pelo seu reencontro com o mais “tremendo” e “fascinante” dos mistérios, a irrupção do Céu sobre a terra na Pessoa de Nosso Senhor Jesus Cristo. Que pode haver de mais tremendo e fascinante para nós mortais do que a Encarnação do Filho de Deus, a Sua Vida, a Sua Morte e a Sua Ressurreição?

Tradicionalmente dita “Morada de Deus e Porta do Céu”, à semelhança da Virgem Maria, ao longo dos séculos, a liturgia católica tem sido o reflexo fiel desse grande mistério que é o Céu a descer sobre a terra. Desventuradamente, a liturgia moderna perdeu a sua capacidade de atração, o seu carácter fascinante, virando assim as costas ao “mysterium tremendum”. A erosão do carácter sacrificial da Missa no Missal de Paulo VI e as suas traduções vernáculas abriram a porta à negação desse carácter sacrificial por parte de muitos celebrantes, seja que se ponham literalmente a dançar em roda do altar, ou que se contentem em limitar-se a unicamente comemorar o banquete pascal. Ora, sem sacrifício, simplesmente não há mistério. Nem “tremendum” nem “fascinans”.

 

Comentário do Padre Claude Barthe à conferência do padre Tisma:

Padre Claude Barthe: A referência ao trabalho de Rudolf Otto, O Sagrado, onde é analisada como ao mesmo tempo aterrorizante (tremendum) e fascinante (fascinans), é interessante na medida em que corrige a tendência moderna para apagar no culto toda a transcendência, e a fazer do Deus a quem nos dirigimos um objeto à nossa medida. Mas temos de pegar ambas as extremidades da corrente: Deus é por natureza o incompreensível – que não pode ser apreendido em si mesmo – e, entretanto, Ele se comunica a nós através da Revelação e da Encarnação do Verbo, o Emanuel, Deus conosco, que se tornou um de nós. São Tomás diz na Suma Contra os Gentios que a suprema “conveniência” da Encarnação é precisamente para nos fazer entender que o acesso à bem-aventurança eterna, que consiste em unir a nossa alma com o que a ultrapassa infinitamente, é uma coisa possível, uma vez que a divindade se uniu à nossa humanidade. A humanidade de Jesus Cristo, muito próxima e como que palpável na Igreja, mergulha-nos no abismo insondável da divindade unida a esta humanidade e que transparece nos milagres que ela produz, tais como a remissão dos pecados e a transubstanciação eucarística.

 

O Pe. Tisma acrescentou ainda que sem o mistério, a liturgia deixa também de ser epifania (manifestação) da glória e da perfeita santidade de Deus.

Para o Pe. Tisma, é evidente que “o apostolado da forma extraordinária pode e deve contribuir para a recuperação do sentido do mistério”. Rezada (baixa), cantada, ou solene, a Missa tradicional tem tudo para despertar junto dos nossos contemporâneos o sentido e, portanto, o desejo, do sagrado. Cabe aos párocos saberem usá-la com o propósito de chocar – no sentido médico do termo – suas ovelhas, sem no entanto as repelir.

 

Comentário do Padre Barthe:

Padre Claude Barthe: Concordo totalmente. O Padre Tisma ataca com razão essa redução do divino ao simplesmente humano, da fé ao simplesmente racional, o que é evidente na liturgia de hoje, onde o acesso à transcendência é por assim dizer aplainado. Esta liturgia que deseja estar antes de tudo “perto das pessoas” acaba por deixar de ter interesse, ao ponto em que eles não colocam mais os pés na igreja. Paradoxalmente, a verdadeira proximidade que uma liturgia bem entendida estabelece entre o homem e a santidade incandescente de Deus, passa através do sentimento de um distanciamento absoluto. O romancista alemão Martin Mosebach expressa bem isso em seu livro La liturgie et son ennemie – L’hérésie de l’informe [A liturgia e seu inimigo – A heresia do informe] (Hora Decima, 2005). O paradoxo inerente à ação litúrgica, disse ele, é o fato de que ela desvenda e revela o mistério envolvendo e escondendo-o. Ela oculta a presença do Deus infinito e insondável através dos véus do respeito, das formas, dos ritos e, por isso mesmo, ela o revela e faz aceder a alma verdadeiramente a esta presença: é uma epifania que esconde para manifestar  melhor.

Qual oferece melhor compreensão, do ponto de vista da fé: a consagração feita em língua vulgar e sobre uma mesa colocada no meio da assembleia, de um pão que em breve se terá na mão para comungar; ou a consagração da liturgia oriental, cantada em meio a nuvens de incenso na misteriosa língua sagrada, atrás do véu que caiu diante da porta da iconostasis? Fazer a pergunta é respondê-la: no primeiro caso, se acredita compreender tudo, e não se compreende nada, pois a proximidade estabelecida por uma liturgia banalizada torna muito difícil um verdadeiro encontro na fé; em vez disso, o afastamento sagrado que a liturgia de São João Crisóstomo opera aproxima muito de fato a alma de Deus. A liturgia é como a treva luminosa em que Moisés recebeu a revelação divina, escuro e brilhante ao mesmo tempo. Ou é como a “nuvem luminosa”, que “tomou sob sua sombra”, os três discípulos testemunhas da Transfiguração do seu Senhor (Mt 17: 5).

Para tomar sempre o exemplo da “natividade” do Santíssimo Sacramento no coração da Missa, durante a consagração: genuflexões, as velas dos ceroferários, o incensamento, os sinos, os linhos sagrados, os objetos preciosos para o recolher (cálices, ciborios), depois a mesa sagrada onde se ajoelha, com as mãos sob um pano branco para receber a hóstia na boca, o majestoso tabernáculo onde a sagrada reserva será colocada, tudo isso afasta pelo respeito de adoração e aproxima ao mesmo tempo servindo o ato de fé.

II- Contribuir para a paz litúrgica

A 12.000 km da região parisiense, onde nasceu a associação “Paix Liturgique”, vive um pároco para quem a celebração in utroque usu, isto é, em ambas as formas do rito romano, é um incontestável instrumento de paz litúrgica. Para o Pe. Tisma, os párocos têm o dever de trabalhar no sentido da reconciliação entre os fiéis; usando sempre, sem exceção, todos os meios que possam ter à sua disposição, a começar por tornar possível que, nas suas paróquias, quantos o desejam possam aceder de modo habitual à forma extraordinária. Que mais dizer? 

 

Comentário do Padre Barthe:

A Associação Paz Litúrgica trabalha meritoriamente para isso. Na França, os sacerdotes que entendem esse dever ainda são muito poucos, é verdade, mas o seu número está crescendo. Uma experiência pontual me permite expressar uma ideia inspirada pela festa de Natal. Em muitas paróquias da França, a Missa da Noite de Natal é celebrada as 9 ou 10 da noite, após o anoitecer. Nada impede o sacerdote de celebrar, ou deixar celebrar um padre idôneo, membro de uma comunidade dedicada à liturgia tradicional, uma missa celebrada como deve ser, à meia-noite e na forma extraordinária. Ele ficará surpreso com a afluência, incluindo paroquianos que frequentam geralmente na forma ordinária.

De modo mais geral, os párocos não deveriam hesitar em recorrer a padres habituados com a  forma extraordinária que, além da celebração de uma missa tradicional, poderiam garantir uma ajuda para as confissões, visita aos doentes, funerais. Ao mesmo tempo, eles também trabalhariam para a reconciliação entre os sacerdotes.

III- (Re)construir uma morada comum

Depois da reforma litúrgica, houve já várias gerações que só puderam conhecer uma liturgia devastada, deformada e superficial. Deste modo, faltou-lhes, não apenas o conhecimento e gosto do sagrado, mas também a percepção de uma morada comum, aquilo que Klaus Gamber chamava de “Heimat”, a “pequena pátria”, o lugar nativo, o “sentir-se em casa” dos católicos.

Esta pequena pátria perdeu-se, de fato, pois, de um domingo para o outro, e indo de igreja em igreja, não se encontram hoje à face da terra duas missas que sejam idênticas. Os sacerdotes celebram como sabem, como podem, e, sobretudo, celebram como querem. Privado hoje da sua pequena pátria, o católico tornou-se um apátrida litúrgico, um fiel sem lugar seguro onde alimentar e dar de beber à sua fé, e sem um teto sob o qual ela possa descansar.

“Nós, párocos, afirma o Pe. Tisma, podemos e devemos ajudar a reconstruir esta pequena pátria para podermos assim oferecer aos fiéis um novo lar.” (…)

 

Comentário do Padre Barthe:

Sim, Monsenhor Gamber lamentou que os católicos tenham sido privados de sua “pequena pátria”, porque não existem mais no novo rito, fragmentado ao extremo, duas missas idênticas. Quando eu era criança, nós íamos com a família à Espanha, que ficava pouco distante para nós. Nós assistíamos à missa dominical, parando em qualquer cidade grande ou pequena, e tínhamos a mesma missa que conhecíamos em nossa paróquia. De alguma forma, nós entendíamos tudo … menos o sermão em espanhol. Os católicos de todo o mundo, onde quer que assistissem à missa, tinham a sensação de estar em casa em todos os lugares. Na época da reforma litúrgica, se falava, não ainda de globalização, mas da “aldeia global”. É verdadeiramente surpreendente que os fabricantes da nova liturgia não tenham entendido que a liturgia já continha um liame universal, abrindo as portas de uma Cidade que cobria todo o mundo, a aldeia global da liturgia católica. Além disso, enquanto a secularização fazia já progressos consideráveis, no meio da qual o catolicismo se tornava a cada dia mais estranho na Aldeia Global, eles teriam podido perceber, se tivessem considerado os verdadeiros “sinais do tempo”, que os católicos tinham mais necessidade do que nunca de estar em uma casa de família.

Se, de fato, o catolicismo identitário – em um leque que vai da FSSPX à comunidade SaintMartin – atrai agora católicos praticantes e vocações, é que ele oferece um ritual tradicional ou tradicionalizante que faz experimentar sensivelmente esta comunidade de fé e de pertença à familia Christi. O uso do latim tem muito a ver com isso: orar e cantar na língua sagrada da Igreja Romana exprime e fortalece o vínculo da unidade. Infelizmente, a hierarquia católica e os seus peritos estão totalmente fora de época há quase meio século.
IV- Agir gradualmente

(…)

O Pe. Tisma não hesita ao afirmar qual é a primeira regra para uma instalação duradoura e estável da forma extraordinária numa paróquia: a gradualidade. Avançar depressa demais e de modo demasiado brusco é uma tentação que cumpre refrear, já que, em geral, ocorre refazer por completo a educação litúrgica dos fiéis. As mudanças litúrgicas devem ser acompanhadas por uma catequese adequada. Sobre a própria liturgia em geral, a sua estrutura, o calendário, o serviço do altar. Mas também relativamente à música, aos ornamentos, ao uso do latim, etc.

Além disso, são poucas as paróquias que conseguem, da noite para o dia, encontrar todos os elementos necessários para a celebração da liturgia tradicional, considerando que, em muitos casos, eles foram vendidos ou desfigurados durante o pós-concílio.

Outro princípio mencionado pelo Pe. Tisma foi o da continuidade. Citando o Professor Kwasnieski, ele convidou a aproveitar o caráter fluído das rubricas do novo missal para, sempre que possível, optar por fazer o que mais parecer estar em continuidade com a tradição precedente. Trata-se de um princípio que vem completar a regra da gradualidade, e permite aos fiéis e aos acólitos irem penetrando pouco a pouco na “nova liturgia de Bento XVI”.

 

Comentário do Padre Barthe:

Padre Claude Barthe: Concordo plenamente com os princípios da gradualidade e da continuidade. No meu pequeno livro sobre a implementação da reforma da reforma, com a Missa na forma extraordinária no horizonte, eu defendia a gradualidade. Perdoe-me citar a mim mesmo: “A prática da reforma da reforma em uma paróquia ou um local de culto ordinário é – quase naturalmente – um processo gradual, uma transição mais ou menos rápida de um estado “ordinário” a um estado próximo do “extraordinário”. A lei da gradualidade pode ser aplicada aqui, sem problemas de consciência”(2).  Aumentar a parte do latim, reintroduzir a comunhão na boca, usar a Oração Eucarística I (Cânon Romano), orientar o altar ao Senhor, retomar as orações do ofertório tradicional (elas devem ser rezadas em voz baixa) são as principais pistas a seguir. Pouco a pouco. Por exemplo, vire-se o altar “do lado certo” para algumas ocasiões, e em seguida, sempre durante a semana e, em seguida, em festas importantes e, finalmente, todos os domingos e continuamente. A maioria dos sacerdotes que fizeram em sua paróquia uma “reorientação” tradicional da liturgia agiu assim.

O Pe. Tisma durante uma das sessões litúrgicas do congresso do Chile.

V- Concreta e visivelmente

Partindo da sua própria experiência, o Pe. Tisma propôs algumas iniciativas aos sacerdotes desejosos de reorientar a sua liturgia, a fim de poderem prestar a Deus, de modo estável, o culto que Lhe é devido. A linha diretriz é simples: repor Cristo no centro das atenções.

O presbitério, o espaço sagrado em torno do altar, deve voltar a ser o templo do Senhor, e não mais o cenário onde o celebrante se agita. O pároco, ajudado pelo seu sacristão, deverá seguir o exemplo de Bento XVI, começando por repor a cruz e os candelabros sobre o altar. Eventualmente, se possível, ele deverá fazer recuar o altar moderno, nos casos em que este se encontre demasiado à frente. A ideia é a de chegar a não ter mais do que um altar, o que é a via para oferecer aos fiéis uma só pequena pátria, e que seja a mesma para todos.

Além disso, como lembra Klaus Gamber, o altar deverá estar vestido e revestido. Na sua paróquia, o Pe. Tisma recuperou o uso do antependium, o que proporciona aos fiéis uma estabilidade visual e permite habituá-los ao suceder dos tempos litúrgicos, através da mudança da cor, sempre que isso seja possível.

A etapa sucessiva, depois de se ter restaurado o espaço sagrado do presbitério, é a da celebração versus Deum, o que deve ser acompanhado por uma catequese adequada. O Pe. Tisma escolheu fazê-lo no Advento, por ocasião da abertura do novo ano litúrgico.

Em seguida, o Pe. Tisma propõe que se utilize os tempos fortes do ano litúrgico para fazer com que os paroquianos descubram progressivamente a forma extraordinária, lançando mão para isso da gradualidade que é própria da liturgia tradicional. Na sua paróquia, o Pe. Tisma apoiou-se sobre uma directiva do episcopado chileno de 1960 – e, por isso, aplicável ao Missal de São João XXIII – e que encoraja a missa dita “comunitária”, ou seja, uma missa baixa cantada, com um leigo que vai guiando os demais fiéis no que respeita às atitudes de oração e aos cantos.

VI- Ao longo da celebração

Os conselhos seguintes já dizem respeito à forma ordinária, e o Pe. Tisma enunciou-os, sobretudo, para dar resposta às perguntas vindas dos participantes do congresso. Não pretendem ser regras rígidas, mas antes sugestões que podem ser depois adaptadas individualmente, por cada sacerdote, em função de seu quadro paroquial e da sua própria preparação pessoal.

Em primeiro lugar, os conselhos relativos aos aspecto públicos da celebração:
- recitar o credo em latim;
- deixar de lado o sinal da paz nas missas de semana;
- favorecer os tempos de silêncio;
- restabelecer o uso do incenso;
- dar regularmente catequese sobre a comunhão;
- desenvolver a adoração eucarística, e, a propósito, fazer uma catequese sobre o estar de joelhos.

Depois, os que dizem respeito ao celebrante:
- preparar as ofertas em silêncio;
- unir o polegar e o indicador depois da consagração;
- fazer a purificação dos dedos após a comunhão com vinho e água, seguindo a prática tradicional;
- inclinar a cabeça à menção das três Pessoas da Santíssima Trindade, de Jesus, de Maria, do Papa, do santo do dia.

Aos sacerdotes que se encontrem num estágio mais avançado da aproximação das duas formas do rito romano, seja que celebrem já a forma extraordinária ou que, por enquanto, apenas desejem familiarizar-se com ela, o Pe. Tisma propõe, por fim, os seguintes exercícios de piedade privada: recitar o salmo 42 (o das orações aos pés do altar) quando se estão a dirigir da sacristia para o altar; recitar o Aufer a nobis ao subirem ao altar; recitar as três orações da comunhão durante o tempo de silêncio após o Agnus Dei; recitar o último Evangelho enquanto deixam o altar.

De mais a mais, nada impede ao sacerdote que use o barrete ou o manípulo, se assim o desejar.

 

Comentário do Padre Barthe:

Padre Claude Barthe: O mais importante do ponto de vista simbólico e também o mais difícil de fazer passar – não para a maioria dos fiéis, mas para os mais “reformados” deles: as religiosas, as senhoras que dão comunhão, o diácono permanente – é a celebração face ao Senhor. Por isso, sugiro o esquema de transição que eu mencionei, de que eu tenho uma série de exemplos de implantação. A formação de coroinhas, se possível numerosos, sabendo servir em ambas as formas, também é importante: eles ajudam muito a solenizar as cerimônias (e passar por degraus do ordinário para o extraordinário). Do ponto de vista pedagógico, todos os sacerdotes que têm essa preocupação também preparam folhetos fotocopiados para cada Missa, de modo que, tanto para a missa ordinária “reforma da reforma”, como para a missa extraordinária, os assistentes possam seguir o ritual simplesmente virando as páginas: não apenas tudo corre com facilidade, mas a piedade litúrgica também ganha muito. Pode-se evocar outros pontos: um sacerdote faz tocar o órgão durante o ofertório, o que soleniza este momento, durante o qual ele diz em voz baixa as orações tradicionais; um outro pronuncia, não em voz alta, mas em voz média as palavras da Oração Eucarística em francês ou latim, ou então passa ao latim no momento da consagração, o que também produz um efeito poderoso de sacralização; outro padre, para afastar do altar sem protestos as coroinhas meninas que herdou, e para dar uma nota festiva, transformou-as em uma irmandade de filhas de Maria em alvas brancas, que têm o seu lugar no alto da nave, assim como os membros do coral, etc.
Acrescentemos que, respondendo à pergunta de um sacerdote estrangeiro, o Pe. Tisma explicou que, por razões históricas, em tempos, a celebração da forma extraordinária era frequentemente marcada por uma forte influência francesa. Ora, o Chile é de tradição espanhola. Por isso, o Pe. Tisma tem-se esforçado, juntamente com a associação Magnificat, para defender e promover os usos espanhóis, por exemplo: a menção do santo titular da igreja no interior do Confiteor; o uso da “cucharilla” (pequena colher) no momento de acrescentar a água ao vinho do cálice; o uso da palmatória, que o acólito leva consigo ao acompanhar o sacerdote durante a distribuição da comunhão; ou ainda, sempre que permitido, o uso dos ornamentos azul celeste para as festas da Imaculada.

Estes elementos referidos pelo Pe. Tisma contribuem, todos juntos, para se poder oferecer aos fiéis a mais bela e mais acolhedora das pequenas pátrias, de que Cristo é o único e eterno soberano.

 

Comentário do Padre Barthe:

Padre Claude Barthe: Sempre existiram, na França e em outros lugares, costumes, remanescentes de antigos usos das igrejas locais que foram preservados até a reforma de Paulo VI, e, portanto, Summorum Pontificum autoriza, uma vez que ele coloca os ponteiros do relógio em 1962, logo antes do dilúvio. Quer dizer, do Concílio, desculpe-me … Sempre existiram hábitos piedosos adicionados à condução da cerimônia. [...]

Você pode dizer que tudo isso é um pouco folclórico, mas é popular. Mais estritamente litúrgico e muito francês é o costume pela qual os cantores revestidos com capa, não só oficiam as vésperas mas também para a Missa cantada, se possível diante de um grande púlpito, o que fica muito imponente.
VII- Quem são os fiéis?

A concluir a sua rica e original intervenção, o Pe. Tisma quis fazer o retrato falado dos fiéis que, desde há cerca de 20 anos, ele tem visto aproximarem-se e ficarem ligados à liturgia tradicional. E é notável como esse retrato é, de fato, universal!

“Em primeiro lugar, vêm os veteranos que se lembram ainda da pequena pátria da sua infância e sabem recitar de cor a missa inteira, atravessaram os anos do grande tumulto, exibindo as cicatrizes desse tempo, mas olham com esperança os sinais de uma nova paz litúrgica. Em seguida, há os feridos da nova missa, que sofreram os desvarios da liturgia pós-conciliar e que sentem não ter lar. Por fim, vêm os jovens ávidos do sagrado, surfando pela internet, e à procura do que chamam de “nova missa de Bento XVI”. Certamente, dentro de cada uma destas categorias, há também simples curiosos, aficionados, e também os fanáticos. Mas, juntou com um sorriso, não mais do que na forma ordinária”.

(1) Na sua obra “Das Heilige” (1917); “O sagrado: aspectos irracionais na noção do divino e sua relação com o racional”. Ed. Sinodal, Vozes, 2007.

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Padre Barthe

(1) A Missa tradicional em todas as suas formas. 52 páginas. Éditions de L’Homme nouveau, collection Paix liturgique, 6,50 euros.

(2) La Messe à l’endroit. Un nouveau mouvement liturgique [A missa do lado certo. Um novo movimento litúrgico] página 75. . Éditions de L’Homme nouveau, collection Hora Decima, 2010. 102 páginas.

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