Montfort Associação Cultural

24 de março de 2006

Download PDF

Inquisição e tortura

Autor: Orlando Fedeli

  • Consulente: Guilherme
  • Localizaçao: São Paulo – SP – Brasil

 

Olá professor, aqui estou eu de novo para lhe perguntar mais coisas sobre o catolicismo. Dessa vez a minha dúvida é sobre a chamada Santa Inquisição. Comecei a pensar nisso depois que li na Folha de SP (se não me engano, do domingo passado) algo sobre a Inquisição no caderno “Opinião”. Entre várias coisas que ele fala, destaco a parte em que ele diz sobre aquela parte da Bíblia em que uma adúltera é levada a Jesus, e Jesus, vendo seu arrependimento, perdoa ela!
Olhe o que li na Barsa sobre a Inquisição: “Mulheres, crianças e escravos eram admitidos como testemunhas de acusação mas não de defesa. Se o processado delatava parentes, amigos e outras pessoas, passava a gozar de regalias. Era crime, para o Santo Ofício, qualquer ofensa à fé ou aos costumes, como judaísmo, heresia protestante, feitiçaria, usura, blasfêmia, bigamia, sodomia etc. Considerava-se crime de judaísmo acender velas ou usar toalhas limpas no começo do sábado, abster-se de comer carne de porco ou peixe e sem escamas e jejuar no dia do Perdão ou da rainha Ester.
Os réus que se DECLARAVAM ARREPENDIDOS sofriam vários tipos de PUNIÇÃO. A mais rigorosa era a condenação às galés, que equivalia à pena de morte, em virtude das condições do trabalho forçado. A prisão perpétua com o tempo deixou de ser aplicada, sendo as pessoas libertadas, em geral, depois de oito anos. Havia o desterro para lugares distantes ou o confinamento numa aldeia por toda a vida.”

Agora lhe pergunto: depois que Jesus viu que a mulher estava arrependida, mandou que matassem-na ??!! E outra coisa que estou pensando também. A Inquisição punia os hereges e os que se desviam da ortodoxia católica , não é? Então, hoje em dia, não existem mais hereges e pessoas que se desviam da ortodoxia católica?? Acho que existem sim, hem! Então cadê a Inquisição agora? E, por favor, agora leia só mais esta parte: “Em 1252, no entanto, o papa Inocêncio IV autorizou o USO DA TORTURA quando se duvidasse da veracidade da declaração dos acusados.”

Aí lhe pergunto novamente: será que a Igreja realmente é guiada pelo Espírito Santo?? Um papa que autoriza o uso de tortura pode ser um papa guiado pelo Espírito Santo?? Sempre pensei que Jesus tinha sido um homem que pregou o AMOR e o PERDÃO! Acho que neste tempo todo eu estava enganado….

Espero que o senhor tire essas minhas dúvidas, pois não consigo ser católico com esse peso na cabeça. Mas acima de tudo tenho que lhe agradecer por tirar muitas dúvidas, e aguardo resposta.

Prezado Guilherme, Salve Maria.

Acabara eu de responder uma carta sua, quando me dei conta desta outra, que me aprece anteriormente enviada.

Sobre a Inquisição, temos publicado no site algumas cartas respondendo às calúnias contra ela.

Se você quiser comprar um livro interessante sobre a Inquisição, adquira a obra “A Inquisição e seu mundo” do Professor da Faculdade de Direito da USP, João Bernardino Gonzaga. O livro é da edição Saraiva e é muito bom.
Lá você verá como os jornais e as enciclopédias vulgares mentem e caluniam a Inquisição e a Igreja.

A tortura era o método normalmente aplicado, infelizmente, por todos os países, por todas as polícias, e permitido por todos os códigos legais até o século passado.
Foi a Igreja a primeira a não aceitar a confissão sob tortura como prova de culpa.
Na Inquisição — ao contrário do que se fazia em todas as partes, a tortura só podia ser aplicada uma vez, sem derramamento de sangue, só com a aprovação do Bispo e com a assistência de um médico. Os papas sempre preveniram os inquisidores de que eles eram pastores e não torturadores nem carrascos.
Nas prisões de todos os países, toda pena capital era precedida de torturas punitivas. Por isso os acusados preferiam ser julgados pela inquisição, onde o tratamento era sempre muito menos cruel.

Na Inquisição visava-se a conversão e não a punição do acusado. Por isso, a Inquisição era o único tribunal do mundo que começava dando um prazo de perdão: quem se acusasse de ter agido contra a Fé dentro de um prazo de 15 a 30 dias estava perdoado. O acusado, em qualquer fase do processo, pedindo perdão, estava perdoado.

O livro do Professor João Bernardino Gonzaga menciona muitas outras situações que mostram como a Inquisição era misericordiosa em relação aos outros tribunais da época, e como ela foi caluniada.
Por exemplo, o condenado à prisão podia sair para cuidar dos pais ou parentes doentes. Permitia-se mesmo ao condenado tirar … FÉRIAS !!! da prisão em que estava, gozando de um período de liberdade.
Eu teria que lhe escrever um livro para desmentir todas as calúnias que se inventaram sobre a Inquisição.

A Inquisição da Igreja, diferentemente da Inquisição Espanhola, do Estado, não existia para os judeus, muçulmanos ou não cristãos.
Ela só julgava quem fosse católico e tivesse traído a Fé.
Há textos de historiadores judeus que confirmam isso. George Sokolsky, editor judeu de Nova York, em artigo intitulado “Nós Judeus”, escreveu:
“A tarefa da Inquisição não era perseguir judeus, mas limpar a Igreja de todo traço de heresia ou qualquer coisa não ortodoxa. A Inquisição não estava preocupada com os infiéis fora da Santa Igreja, mas com aqueles heréticos que estavam dentro dela (Nova York, 1935, pg. 53).

O Dr. Cecil Roth, especialista inglês em História do Judaísmo, declarou num Forum sionista em Bufalo, (USA):
“Apenas em Roma existe uma colonia de judeus que continuou a sua existência desde bem antes da era cristã, isto porque, de todas as dinastias da Europa, o Papado não apenas recusou-se a perseguir os judeus de Roma e da Itália, mas também durante todos os períodos, os Papas sempre foram protetores dos judeus.
(…) A verdade é que os Papas e a Igreja Católica, desde os primeiros tempos da Santa Igreja, nunca foram responsáveis por perseguições físicas aos judeus, e entre todas as capitais do mundo, Roma é o único lugar isento de ter sido cenário para a tragédia judaica. E, por isso, nós judeus, deveríamos ter gratidão ” (25 de Fev de 1927).

Você me pergunta se Cristo era a favor da pena de morte, ao citar o caso da adúltera.
Repare que Jesus não disse que não se devia puní-la. Disse o contrário: que aquele que não tivesse pecado ATIRASSE a primeira pedra. Deste modo, Jesus confirmou a lei mosaica. O que Ele condenou foi alguém desejar, individualmente, ser juiz e executante da pena capital. Mas, quando Pedro cortou a orelha do servo, Cristo disse-lhe: “Pedro, mete a espada na baínha, porque quem com o ferro fere com o ferro será ferido”. (Cfr. Mt XXVI, 52 citando Números, XXXV, 16)
Repare que Jesus não mandou Pedro jogar fora a espada. Mandou guardá-la, para que Pedro, quando fosse seu representante na Terra, a usasse contra quem ferisse ou matasse outro com a espada.
Por isso, no Apocalipse, se diz expressamente “QUEM MATAR À ESPADA, IMPORTA QUE SEJA MORTO À ESPADA” (Apoc. XIII, 10).
E quando Pilatos julgava a Cristo, disse:
“Não me respondes? Não sabes que tenho poder de te perdoar ou de te condenar [à morte]?
Ao que Cristo lhe respondeu:
“Tu não terias esse poder, se não te fosse dado pelo alto” (Jo. XIX, 10).
Logo, Pilatos tinha o poder de condenar à morte, porque lhe fora dado por Deus.

Cristo pregou sim o amor e o perdão.
Só que o perdão só pode ser dado se a pessoa pedí-lo.
Se teu irmão te ofender setenta vezes sete vezes e pedir-te perdão, deves perdoá-lo setenta vezes sete vezes”.

E o amor consite em desejar o céu para os outros, e não em não castigar os outros. Se uma mãe castiga um filho para corrigi-lo, ela o está amando.
Leia no site a explicação que dei para um leitor sobre o amor e o ódio.

Não, você não estava enganado em crer na santidade da Igreja Católica. Ela sempre foi santa. Por isso sempre foi e é odiada. Como Cristo.
Quando todos gritaram para libertar Barrabás e para crucificar Cristo, poucos ficaram fiéis a Nosso Senhor.
Hoje também, todos gritam calúnias contra a Igreja Católica, a única Igreja de Deus. Nunca apoie os gritos e calúnias contra ela, mas, pelo contrário, repita sempre alto e bom som: “Creio na Igreja, Una SANTA, Católica e Apostólica e Romana”.

Peço a Deus que lhe conceda sempre a Fé perfeita,
In Corde Jesu semper,
Orlando Fedeli.

TAGS

Publicações relacionadas

Cartas: Estudos do Vaticano sobre a Inquisição - Orlando Fedeli

Cartas: Inquisição Espanhola e Absolutismo - Orlando Fedeli

Cartas: Inquisição e pena de morte - Orlando Fedeli

Para comentar esta publicação

O site Montfort não permite a inclusão de comentarios diretamente em suas publicacões.

Para enviar comentários, sanar dúvidas, obter informações, ou entrar em debate conosco, envie-nos sua carta.

Saiba mais