Montfort Associação Cultural

24 de agosto de 2004

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Infusão da alma, Gêmeos e Antropologia Teológica

Autor: Fábio Vanini

  • Consulente: Anonimo
  • Localizaçao: Rio de Janeiro – RJ – Brasil
  • Religião: Católica

Olá, mestre, Vou tentar explicar um argumento dos defensores da não-abortividade da pílula do dia seguinte, para que o senhor refute. Também mando perguntas de antropologia teológica para que o senhor responda. Por favor, se possível, responda-as separadamente.

A) Se a vida humana começa na concepção, a alma é infundida na primeira célula formada da união dos gametas (zigoto). Mas no caso de irmãos gêmeos, como é infusa a alma? Acaso pode uma única célula conter duas almas?

B) A única célula para a igreja é o corpo humano daquele ser, naquele estágio. Como pode um único corpo conter duas almas???

C) Os defensores da pílula do dia seguinte, dizem que só há indivíduo, portanto só há ser humano, a partir do oitavo dia, pois é o dia da afirmação dos indivíduos, ou da individuação. Do primeiro ao oitavo dia, há o chamado pré-embrião, mera matéria humana, mero conjunto de células indiferenciadas (ou tronco), embora geneticamente diferentes do pai e da mãe. E por que antes do oitavo dia, não pode ser considerado ser humano, perguntaríamos…Porque aquele conjunto de células pode se subdividir em até seis partes, até o oitavo dia, porque aquele conjunto não define necessariamente nenhum indivíduo, até o o oitavo dia, podendo dar origem a mais de um indivíduo( gêmeos univitelinos), por desintegração. E porque aquele todo, em si, é diferente de cada indivíduo gerado, após o oitavo dia, de per si. Quando do conjunto resulta um só indivíduo, não é que existia um ser humano, indíviduo antes, mas é que ele, depois do oitavo dia, se afirmou como único indivíduo, porque não ocorreu desintegração. E, a partir daí, não há mais como daquela matéria una, surja outro indivíduo, porque ela se consolidou substancialmente como UM humano. Então como não há ser humano, mas apenas matéria humana antes do oitavo dia, não há homicídio, não há aborto. Logo a pílula do dia seguinte não seria abortiva.

D) OBJEÇÃO IMPUGNADA por ELES : A possibilidade da geração de gêmeos a partir da matéria, pós-zigótica, na primeira semana, nos mostra que ela não se identifica com Um indivíduo, nem pode ser considerada junção de indivíduos, porque eles só passam a existir depois do oitavo dia, quando de uma dada coesão de matéria não pode provir nenhum outro ente humano.

E) OBJEÇÃO IMPUGNADA por ELES: Também cai a objeção daqueles que querem dizer que parte do indivíduo concebido é mutilada e dela se forma outro indivíduo, porque as células são funcionalmente indiferenciadas ainda,e, porque a cisão é de partes significativas, ou mesmo, pode ser de metade das células pra um lado e metade pro outro… Onde estaria, nesse caso, o “ser” original, dono da “alma” infundida no primeiro dia?Também não pode haver o critério da célula mais velha, porque a mitose faz desaparecer a célula-mãe, para que se formem duas células novas, de mesma “idade” e simètricamente distribuidas no todo pós-zigótico, até o oitavo dia, a partir de quando, de nenhuma matéria, pode vir novo conjunto de matéria que dê origem a um indivíduo. O fenômeno MACRO da mitose nessa fase, quando há gêmeos, é a formação de indivíduos idênticos entre si, mas não congruentes, que têm percentagem da matéria anterior, mas que são diferentes, em essência, dela. Ou seja, quando há indivíduo n ão há substancialmente a matéria anterior, quando há matéria anterior, não há indivíduo… Se houver alma antes do oitavo dia,para haver indivíduo ou ela se dividiria ( o q é impossível); ou ela se separaria de um dos corpos para infusão de outra( o que implicaria absurda mudança do ser, implicando uma morte técnica para o segundo indivíduo). A alma poderia cessar sua ação sobre a matéria sem matá-la???

Está aí, mestre. Não se incomode em escrever muito. Acho que essas perguntas não deixam de ser questionamentos interessantes.

Salve Maria, Sr. “Aprendiz”,

Permita-me que eu substitua o prof. Orlando para responder sua questão, por tratar de pontos mais específicos em embriologia e medicina. É uma pena que não queira se identificar, pois gostaria de saber para quem respondo. Em todo caso, tentarei mostrar-lhe que as diversas tentativas de justificar certas práticas, “fundamentadas” em argumentos científicos, não tornam lícito o pecado do aborto ou da anticoncepção.

Em primeiro lugar, é preciso considerar que a vida física do homem é um bem imenso, embora inferior à vida da alma e à justiça. Deus nos fez à sua imagem, com uma alma dotada de inteligência e vontade, e nos deu a capacidade de multiplicar uma criação dEle. Portanto, a partir da concepção humana, da geração de novo indivíduo, Deus é, de certo modo, “obrigado” a infundir uma alma de homem naquela matéria proporcionada a ela. Daí concluímos que todo aquele que pratica o aborto ou a contracepção, independente do momento do evento reprodutivo como um todo, incluindo as intenções dos envolvidos, age contra a vontade de Deus, seja impedindo a ação de Deus em infundir uma nova alma, ou matando aquele indivíduo já formado. Isso está incluso na Lei Natural, é doutrina católica e está citado nas Sagradas Escrituras. É o caso do Onanismo (Gen, 38, 9-10).

Além disso, temos que a alma humana é a forma do homem. E esta é uma premissa importantíssima em se tratando da geração humana. Considerando que não existe matéria sem forma, há de se julgar que, desde que a matéria apresenta potencialidade necessária para se tornar um homem em ato, Deus lhe dará a forma humana, ou seja, alma humana.

Do mesmo modo, não há duas formas humanas num mesmo corpo. Não pode haver duas almas, num indivíduo.

A maneira de se explicar a gemelaridade certamente não é nem assumir que as primeiras células possuem duas almas, nem que são apenas uma massa de células. Instantaneamente após a fertilização, aquele óvulo fecundado possui a matéria necessária para formar um novo ser humano. Portanto, possui forma humana (leia-se alma). Os gametas não possuem essa qualidade em si, erro cometido pelos defensores da pangênese.

Mesmo contendo células indiferenciadas, aquele zigoto já possui a matéria necessária para dali nascer um novo homem. Se em algum momento aquele zigoto se dividir, dando origem a um novo tecido e no caso desse tecido possuir, do mesmo modo, matéria própria para a geração de um novo homem, então lhe será infundida uma nova alma, criada por Deus naquele instante.

O tempo de desenvolvimento do embrião pouco importa. Se apenas ao oitavo dia as células começam a se diferenciar, esse fato não é argumento, para se afirmar que aquela matéria não é ainda humana.

Além disso, há casos relatados de divisão do embrião até no décimo terceiro dia de desenvolvimento (Rezende e Montenegro, 1999, Obstetrícia Fundamental, pág. 320). Nesse período, as células já estão diferenciadas e os gêmeos nascem geralmente colados. Porém, são dois indivíduos e de idades diferentes (um seria 13 dias mais velho que o outro, e Deus teria criado e infundido suas almas em momentos diferentes).

Para mostrar como o tempo para infusão da alma pouco importa, é só ver, na criação do homem, o caso de Eva. Adão já era homem adulto, com alma individual, quando foi-lhe retirada uma costela (tecido já diferenciado). E dessa matéria, Deus criou Eva, dando-lhe forma humana. Diz a Escritura: “E da costela que tinha tirado de Adão, FORMOU o Senhor Deus uma mulher”, ou seja, deu-lhe forma ou infundiu-lhe uma alma humana, criada naquele instante.

Quanto à chamada pílula do dia seguinte, podemos tranqüilamente chamá-la de abortiva. Ela impede que o embrião fecundado seja implantado na parede uterina. Contudo, o óvulo já está pronto para dar origem a um novo indivíduo. É um meio de interromper uma gravidez e não meramente preveni-la. Esses argumentos foram dados num documento publicado pela Conferência Episcopal Peruana, na intenção de condenar essa “pílula do dia seguinte” como método de aborto.

É doutrina da Igreja de Deus a condenação do aborto e de métodos contraceptivos de qualquer natureza, confirmada pela encíclica “Casti Connubii” (1930), de Pio XI, em que há uma condenação solene (artigos 21 e 22.) dessas práticas e de quem as defende, inclusive como “indicações terapêuticas” (art. 23). Os filhos são um dos maiores bens que Deus dá a um casal, e isso é inquestionável.

In corde Iesu et Maria,

Fábio Vanini

Replica

Ainda há um problema. A mesma célula vai ser sucessivamente animada por duas almas. A célula do indivíduo mais novo, enquanto estiver unida ao todo, vai ser animada pela alma A.

Quando ele junto com um bloco se desprender do todo, ela e o bloco já têm alma, que é igual a do outro, porque a matéria não perdeu a forma,e, a potencialidade para formar outro individuo é imediatamente continua em relação ao desprendimento. Como aniquilar A, para colocar uma alma B?

Pode um corpo ou tecido ter durante sua existencia sucessivamente duas almas diferentes???Experimentalmente a forma da célula continua sempre a mesma.

Acho que o seu conceito de forma seja mais metafísico, não é?

A troca da alma supõe um decaimento por algum instante no tempo ao não humano. Mais isso contradiz o dado experimental de que durante e após o desprendimento, as células desprendidas são sempre genticamente potencializadas a gerar um novo ser. Logo, me parece que sua solução não resolve o dilema entre ter que assumir que as primeiras células possuem duas almas, ou ter que assumir que são apenas uma massa de células.

Obrigado pela solicitude. Lamento não poder me identificar. Não é nada pessoal. Acredito que alguns itens do primeiro e-mail de A)-E) também não tenham sido respondidos. Isso não é bom, pq os leitores lerão meu primeiro e-mail no site,e, lhes suscitará mais dúvidas que certezas, a sua resposta.

Sei da falta de tempo de vcs. Um dia, se vc puder, preencha as lacunas por favor. Obrigado.

 

Caríssimo Sr. Anônimo,

Infelizmente acho que não quer se identificar por causa da confusão com que escreve sua carta.

Além disso, me parece que não quer entender o que escrevi.

Veja o seu caso, por exemplo. Em algum momento, você foi célula de sua mãe e de seu pai, e nenhum deles tinha duas almas. Sua alma não estava neles, antes de estar em você.

O mesmo se aplica ao novo zigoto. A primeira célula não traz nela a célula do segundo indivíduo, isto é, o gêmeo. Do mesmo modo, na formação de um irmão gêmeo depois de alguns dias, a partir de um embrião, não há um embrião duplicado, nem potencialmente. Ele sofre uma divisão mitótica das células. Se o embrião fosse duplicado antes de ser desprendido, ali já seriam 2 indivíduos, como gêmeos siameses.

E esse conceito de forma não é meu, nem pode ser diferente do conceito científico de forma.

Imagine uma fruta que, em seu desenvolvimento até a maturação, sofreu uma duplicação e gerou dois indivíduos. Ambos têm a mesma forma de fruta, pois pertencem à mesma espécie, mas são indivíduos diferentes, a partir do momento em que se possa identificar dois indivíduos (mesmo que microscopicamente). Nunca houve duas formas dessa fruta, num mesmo indivíduo.

Se considerarmos que num zigoto há uma massa celular que ainda não se desprendeu, mas que possui potencialidade para formar um novo ser humano, então ele é outro indivíduo, e nele já foi infundida uma alma, ainda que esteja materialmente ligado ao indivíduo mais velho.

Indivíduo é aquele que não pode ser dividido, senão deixa de ser. Se o primeiro zigoto foi dividido, ou ele se multiplicou (e cada produto tem uma alma) ou ele morreu.

Agora, imagine uma célula, em processo de divisão. Se ela têm dois núcleos apenas, não há o necessário para serem duas células. Logo, há uma célula bi-nucleada. A partir do instante em que há tal separação, que ambos os produtos possuem em si o que é necessário para serem células, então há uma forma de célula para cada indivíduo. O mesmo se aplica aos zigotos, embriões, etc.

Se há algum ponto que você não entendeu, supondo não ter sido respondido, especifique, mas seja claro, por favor.

E, por favor, identifique-se.

In Corde Iesu,
Fábio Vanini.

 

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