Montfort Associação Cultural

7 de janeiro de 2005

Download PDF

Influência política do neocatecumenato

Autor: Orlando Fedeli

  • Consulente: Jarbas
  • Idade: 17
  • Localizaçao: Santos – SP – Brasil
  • Escolaridade: 2.o grau concluído

Senhor Orlando Fedeli,

Sou um adolescente que gosta muito de história, especialmente de temas ligados à religião. Li recentemente um livro que falava sobre o Neocatecumenato, assim como outros movimentos similares. O nome do livro é “A Armada do Papa”, e ele atacava a forma de organização destes movimentos e dizia inclusive que eles possuem apoio total e irrestrito do Papa, além de serem acusados de processos de lavagem cerebral e até de um certo “terrosismo teológico” visando a total obediência e o não questionamento dos valores do movimento.

Apesar do livro soar convincente, por ser leigo no assunto seria pouco apropriado formar minha opinião a partir de uma única fonte. Pesquisando na Internet, percebi que a maoiria dos sites que eram contra o Neocatecumenato apresentavam motivos consistentes e fatos concretos que apoiavam sua visão, enquanto aqueles que eram a favor do NC apenas se preocupavam com a adesão de novos membros ao seu movimento.

Eu gostaria portanto de lhe fazer as seguintes perguntas:

As informações que constam no livro “A Armada do Papa” são, de um modo geral, verdadeiras?

O Papa realmente endossa a existência de tais grupos, dando inclusive apoio financeiro e político para manter seu funcionamento? Ou apenas divulga elogios como uma maneira de manter a unidade da Igreja?

A influência de tais grupos ultrapassa a esfera religiosa, tendo em vista subverter a política de outros países para que ela melhor se adapte aos seus propósitos?

Existe realmente um perigo de um segundo cisma, separando católicos mais radicais (de extrema direita talvez?) dos mais moderados?

E finalmente tais grupos são realmente sociedades secretas, uma espécie de maçonaria, cujas informações são inacessíveis aos não iniciados no movimento?

Todas estas perguntas são dúvidas sinceras, sendo nenhuma delas capciosa ou irônica. Imagino se seria possível a divulgação de algumas apostilas secretas do NC, de modo que um estudo comparativo por parte dos interessados (como eu) fosse possível.

Obrigado pela atenção,

Jarbas

Prezado Jarbas, salve Maria.

Perdoe-me por demorar em responder à sua carta tão bem escrita.

Você parece ser um muito bom estudante. Parabéns.

Se demorei a lhe responder, é porque fiquei um mês num sítio, sem acesso à Internet.

Ainda não li esse livro escrito por um autor bem suspeito. Disseram-me que ele apresenta alguns documentos verdadeiros. Não quero dar uma visão de um livro que ainda não li, e só pelo que eu ouvi dizer dele.

É certo que esses movimentos contam com o apoio do Papa atual, o que não é absolutamente garantido pela infalibilidade pontifícia. A simpatia do Papa por um autor, ou por um movimento, não está incluída no carisma da infalibilidade petrina. Não existe uma simpatia ex cathedra. Em que pese isso aos Neo Catecumenais.

Não me surpreenderia se provassem que tais grupos tem repercussão na esfera política. É óbvio que eles tem uma certa visão do mundo e da sociedade. Seria de estranhar que não tivessem uma visão, e, portanto, uma atuação, pelo menos indireta, na política.

É também muito comum que existam graus nesses grupos. No Neo Catecumenato, o segredo é lei, e eles mesmo dizem que seus membros tem que passar por uma verdadeira iniciação, que leva anos.

Que estamos em grave e iminente risco de cisma, não há dúvida. Ainda no ano passado, quando saiu a lista dos novos Cardeais de João Paulo II, e nessa lista não constavam os nomes de Lehman, Presidente da Confederação dos Bispos da Alemanha, e de Kasper, o líder da Nova teologia, modernista, os Bispos da Alemanha ameaçaram separar-se de Roma, e com o apoio do governo alemão exigiram a nomeação de Kasper e Lehman para o cardinalato. Uma semana depois, os dois eram nomeados Cardeais. E ao chegar a Roma, para receberem o chapéu cardinalício, um deles ainda deu uma entrevista afrontosa.

Também no ano passado, quando quase aconteceu o acordo entre o Papa e os Bispos lefebvristas, os Bispos da França, em número de mais de oitenta, ameaçaram rebelar-se contra Roma, caso permitisse a Missa antiga em todo o mundo. E eles defendem a liberdade religiosa… Consta mesmo que, no próximo conclave, seria certo um cisma.

Naturalmente a Mídia mantém os brasileiros em estado de inocência… clerical… E falar disso entre os católicos é, para alguns, “pecado grave”…

Das Apostilas de Kiko, só obtive por enquanto, quatro. E são enormes. E são imensamente chatas. Além de serem recheadas de erros doutrinários bem graves. Ser-me-ia difícil publicá-las na íntegra.

Mas o Neo Catecumenato, agora que teve seus estatutos aprovados por Roma, agora que eles dizem que a Cúria Romana aprovou as Apostilas, deveria publicá-las. E com uma apresentação e aprovação do Cardeal Ratzinger.

Porque será que eles, nem com a aprovação dos estatutos, não publicam as Apostilas?

Mistério…

Mas mistério fácil de entender.

Admirei a sua inteligência e seu modo correto de escrever. Além do quê, você tem interesses bem elevados e incomuns para um moço de 17 anos. Gostaria de conhecê-lo, e teria prazer que você participasse de algum curso da Montfort.

In Corde Jesu, semper,

Orlando Fedeli

TAGS

Publicações relacionadas

Cartas: Realismo e objetividade na análise do debate - Orlando Fedeli

Cartas: As apostilas de Kiko realmente existem - Orlando Fedeli

Artigos Montfort: Neocatecumenato e confissão - Orlando Fedeli

Para comentar esta publicação

O site Montfort não permite a inclusão de comentarios diretamente em suas publicacões.

Para enviar comentários, sanar dúvidas, obter informações, ou entrar em debate conosco, envie-nos sua carta.

Saiba mais