Montfort Associação Cultural

2 de setembro de 2004

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Igualdade entre as Culturas

Autor: Orlando Fedeli

  • Consulente: Roberto Cavalvanti
  • Localizaçao: Rio de Janeiro – RJ – Brasil

O primeiro assunto é em relação às culturas. Diga-me: não é óbvio que há culturas superiores a outras? O fenômeno do multiculturalismo não lhe parece irracional crendo na igualdade de culturas e querendo transformá-las simplesmente em um mingau, por conta de uma indiscriminada mistura? A idéia da igualdade entre culturas não é própria do comunismo?

Muito prezado Roberto,

salve Maria!

Inicio, hoje, as respostas às perguntas que você me fez.

Não prometo respondê-las todas de uma vez, dados o número e complexidade delas. Irei respondendo pouco a pouco, como você muito compreensivamente me propôs.

E a primeira delas trata do problema da Cultura e das chamadas “culturas”, e se há realmente igualdade entre todas as culturas.

Você argutamente me escreveu:

“Diga-me: não é óbvio que há culturas superiores a outras? O fenômeno do multiculturalismo não lhe parece irracional crendo na igualdade de culturas e querendo transformá-las simplesmente em um mingau, por conta de uma indiscriminada mistura? A idéia da igualdade entre culturas não é própria do comunismo?”.

Você tem razão. É o relativismo atual, que iguala tudo, – e, igualando tudo, conduz ao comunismo – que admite uma igualdade de todas as “culturas”, chegando -se ao absurdo de falar em “culturas selvagens”. Daí o atual “mingau” de culturas a que você faz alusão. Hoje, serve-se, na Mídia e mesmo nas Faculdades, um “Hambúrguer cultural”.

Copiei, da Internet, algumas conceituações de Cultura, para que as analisemos, e delas tiremos algumas conclusões.

E a primeira que desejo lhe citar é uma da Unesco E que é de rir…pela falta de cultura literária!

Diz o documento da Unesco:

“Atendendo à presente Recomendação:

“A cultura tradicional e popular é o conjunto de criações que emanam de uma comunidade cultural fundadas na tradição, expressas por um grupo ou por indivíduos e que reconhecidamente respondem à expectativas da comunidade enquanto expressão de sua identidade cultural e social; as normas e os valores se transmitem oralmente, por imitação ou de outras maneiras. Suas formas compreendem, entre outras, a língua, a literatura, a música, a dança, os jogos, a mitologia, os rituais, os costumes, o artesanato, a arquitetura e outras artes. (“Recomendação sobre a salvaguarda da cultura tradicional e popular” Conferência Geral da UNESCO – 25ª Reunião PARIS 15 DE NOVEMBRO DE 1989).

Repare, meu caro Roberto, a redundância dessa conceituação de cultura, na qual se usa o adjetivo “cultural”, para explicar o que é cultura.

Desse modo “cultura” englobaria tudo o que emana “de uma comunidade cultural”, para exprimir a “identidade cultural de uma comunidade”, e o que é cultural, é tudo o que pertence a uma cultura, numa comunidade cultural.

E assim a Unesco, com seu altíssimo saber cultural poderia continuar indefinidamente, num movimento contínuo e cíclico, como cachorro correndo atrás do próprio rabo, em volta de um poste.

Passando da Unesco para uma intelectual conterrânea, cito-lhe, ainda tirada da Internet, a seguinte conceituação de Cultura, emitida pela Professora Suely Barbosa Thomaz, Doutora em Educação pela UFRJ, Professora da Universidade do Rio de Janeiro:

“A IDÉIA DE CULTURA”.

“Parte-se da idéia de cultura como teia de significados construída pelos homens (GEERTZ, 1989, p. 15), localizada na mente e no coração dos homens, composta de estruturas psicológicas por meio das quais os indivíduos, ou grupos de indivíduos, guiam seu comportamento.

“É a junção do que está separado. É uma policultura. É o que ajuda o espírito a contextualizar, globalizar e antecipar. É cumulativa, auto-organizadora, ao mesmo tempo que é lacunar, cheia de buracos, inacabada. É um sistema que faz comunicarem-se dialetizando: uma experiência existencial e um saber constituído (MORIN, 1979).

“Não existe uma cultura, mas tantas culturas quantos forem os grupos sociais, que coexistem preservando a sua diferença/especificidade/multiplicidade.

“Kuckhohn e Kroeber, (apud, CRESPI, 1997, p.13) em 1962, inventariaram mais de 150 tipos de definição da cultura: o modo de viver de um povo na sua globalidade; a hereditariedade social que um indivíduo adquire do seu grupo de pertença; uma maneira de pensar, sentir, crer; a globalidade de um saber coletivamente possuído; um comportamento aprendido; um mecanismo para a regulação normativa do comportamento.

“Consideraram, também, estes autores que a cultura pode ser compreendida nas seguintes dimensões: (a) subjetiva da cultura: presença do aspecto humano, refere-se aos valores, modelos de comportamento, modos de pensar, sentir e crer (mecanismo de regulação do comportamento); (b) dimensão objetiva: hereditariedade social, depósito do saber e das técnicas, composto de história; memória coletiva, tradição codificada e acumulada no tempo; (c) dimensão descritiva e cognitiva: as crenças e as representações sociais da realidade natural e social, as imagens do mundo e da vida, que contribuem para explicar e definir as identidades individuais, as unidades sociais; (e) dimensão prescritiva: conjunto de valores que indicam os objetivos ideais a prosseguir, as normas (modelos de ação, definição dos papéis, regras, princípios morais, que indicam o modo como as pessoas e a coletividade devem comportar-se). (Suely Barbosa Thomaz, Doutora em Educação pela UFRJ, Professora da Universidade do Rio de Janeiro).

Deus meu !

Os eruditos alemães, quando estudam, arranjam 150 definições diversas para seu objeto de estudo. O que, em última análise, significa que nenhuma delas é suficiente. Deixemos de lado, então, as 150 insuficientes – ou inúteis? — conceituações de Cultura dos eruditíssimos Kuckhohn e Kroeber, e desçamos a um nível menos estratosférico, embora, em certo sentido, “angélico”

Vejamos, então, agora, o conceito de Cultura não mais de uma sumidade doutoral teutônica, mas a de um Maneco – que, entretanto, não é um Maneco qualquer—mas arquiangélico, pelo menos no nome, e a quem alguém perguntou:

“Na definição do Dictionary of Cultural Literacy, cultura é “a soma de atitudes, costumes e crenças que distingue um grupo de pessoas dos demais

Solicitei ao amigo Maneco, do Grupo Míseri Colóni, que fizesse um texto sobre cultura popular e invasão cultural. Êi-lo:

“Partindo do pré-suposto que na definição de cultura podemos entender como cultivar, habituar, cultuar, tratar bem tudo que faz parte dos usos e costumes e do patrimônio de um povo ou determinada civilização, ou mesmo de uma pequena comunidade.

“Partindo da definição de um ponto de vista antropológico,”cultura é um conjunto de padrões de comportamentos, crenças, conhecimentos, costumes, etc., que distinguem um grupo social de outros”.

Website:

http://www.jornalcontexto.com.br/Cronicas/cultura.htm

Autor: Arcângelo Zorzi, Maneco”.

“Taí”!

Nosso “Maneco” pareceu bem mais objetivo que os citados teutônicos e sapienciais “Kuckhohn e Kroeber. E bem menos empolado que nossa Doutora da UFRJ.

A palavra cultura é de conceituação difícil. Essas variadas tentativas de conceituação provam a dificuldade de compreender o que é exatamente Cultura.

Normalmente se admite que cultura é o conjunto de valores de um povo, incluindo-se nesse conceito a religião, os conhecimentos, a moral, os costumes o modo de vida, as artes, a culinária, etc.

É um conjunto tão vasto, — e ainda mais com esse mui indefinido e mui vago etc. — que, praticamente, nele se inclui tudo.

Entretanto, faço-lhe notar que todos esses fatos culturais, podem ser reunidos em três grupos:

1 – Religião, incluindo nela a Verdade.

2 – Moral, isto é o Bem, incluindo costumes, modos de vida.

3 – As artes, isto é, a Beleza.

A cultura incluiria, então, as noções do Verum, do Bonum, e do Pulchrum de um povo.

Ora, o Verum, o Bonum, e o Pulchrum – a Verdade, o Bem e a Beleza – são reflexos objetivos do ser de Deus no mundo criado por Ele. Verdade, Bem e Beleza são valores metafísicos objetivos e jamais resultantes do subjetivismo de cada indivíduo, ou mesmo, de cada povo, sem relação objetiva com a realidade.

Cultura é o fruto resultante da cosmovisão de um povo.

Nas conceituações relativistas de Cultura, aceitas hoje me dia, se acham, esparsos e desconjuntados, esses valores objetivos.

Notemos que todas as conceituações acima citadas de cultura incluem as crenças, os costumes, as artes, isto é a Verdade (a verdade religiosa revelada, e verdade conhecida naturalmente pela razão), a Moral, o Bem, e através das Artes, a Beleza.

Não há dúvida, portanto, de que fé e cultura são inseparáveis.

Até mesmo o Vaticano II — concilio tão pastoralmente relativista – reconheceu que há relação íntima entre Fé e cultura. E um teólogo, Doutor pela Gregoriana, como tantos pululam, hoje, por aí, Paulo Fernando Carneiro de Andrade, presidente do “Soter”, afirma, num ensaio com titulo bem interessante, que:

“A preocupação com a relação entre Fé e cultura sempre esteve presente no cristianismo”

(Paulo Fernando Carneiro de Andrade, “A Educação do ser humano realizada no diálogo entre fé e cultura”, in “Concílio Vaticano II Análise e Perspectivas”, obra organizada pelo Padre Paulo Sergio Lopes Gonçalves e pela Irmã Vera Ivanise Bombonatto, Paulinas, São Paulo, 2004).

Então, não é possível qualquer dúvida: até o Vaticano II admite que a Cultura tem relação com a Fé.

E por que é assim?

Porque Deus tudo fez à sua imagem e semelhança.

Ensinou-nos São Paulo que:

” …o que se pode conhecer de Deus é-lhes [aos pagãos] manifesto, pois Deus lho manifestou. De fato, as coisas invisíveis de Deus, depois da criação do mundo tornaram-se visíveis, sendo compreendidas através das coisas criadas, e assim o seu poder eterno e a sua divindade, de modo que eles [os pagãos ] são inescusáveis, porque tendo conhecido a Deus, não o glorificaram como Deus , nem lhe deram graças, mas desvaneceram-se nos seus pensamentos e obscureceu-se o seu coração insensato, pois, dizendo ser sábios, tornaram-se estultos e mudaram a glória de Deus incorruptível na figura de um simulacro de homem corruptível, de aves, de quadrúpedes e de serpentes(Rom. I, 19-23).

Toda causa se reflete em seus efeitos. Desse modo, o mundo criado por Deus reflete o Criador que nele imprimiu sua semelhança, sua imagem e seus vestígios.

São Tomás de Aquino, na Suma Teológica I, Q. XLV, a. 7, e São Boaventura demonstram que os vestígios de Deus se encontram nos seres irracionais, nos minerais, vegetais e animais.

A ordem que há nesses seres, o bem que neles existe são vestígios do Criador, assim como as marcas de cascos, na areia de uma praia, nos dizem que um cavalo passou por lá.

A Imagem de Deus se encontra nos seres dotados de intelecto e de vontade, “d´intelletto e d´amore“, como disse Dante.

Mas a semelhança com Deus se acha apenas nos seres intelectuais que vivem na graça de Deus, a qual é a participação na própria vida divina. Portanto, só há participação na vida divina, e só há semelhança com Deus, nos anjos bons e nos santos.

Todo o universo é simbólico e os símbolos da natureza só falam de Deus. Mas, para ler esses símbolos, é preciso ter coração reto.

Por isso, Corneille escreveu bem numa poesia esplêndida:

Si ton coeur était droit…
Si ton coeur était droit, toutes les créatures
te seraient des miroirs et des livres ouverts,
où tu verrais sans cesse, en mille lieux divers,
des modèles de vie et des doctrines pures.
Toutes, come à l”envie, te montrent leur Auteur.
Il a dans la plus basse imprimé sa hauteur,
et dans les plus petite Il est plus admirable:
De sa pleine bonté, rien ne parle à demi,
et du vaste océan la masse épouvantable
ne l “étale moins que la moindre fourmi.
Et tous les êtres ne parlent que de Lui
dès la Sainte Vierge au petit grain de sable,
dès la petite étoile au Soleil à midi.

(Pierre Corneille)

Se teu coração fosse reto…
Se teu coração fosse reto, todas as criaturas
seriam, para ti, como espelhos e livros abertos,
onde verias sem cessar, em mil lugares diversos,
modelos de vida e doutrinas puras.
Todas, como desejosas, te mostrariam seu Autor.
Na mais baixa Ele imprimiu sua grandeza,
e na menor, Ele é mais admirável:
de sua plena bondade, nada fala pela metade
e do vasto oceano a massa espantosa
não o manifesta mais do que a pequena formiga.
E todos os seres só falam dEle,
desde a Santa Virgem ao pequeno grão de areia,
desde a pequena estrelinha ao Sol do meio dia.

 

Dante ensinou a mesma coisa na Divina Comédia, escrevendo versos que condenam a estultice do ateísmo materialista e do delírio do relativismo atuais:

“Chiamavi `l cielo e ´ntorno vi si gira,
mostarndovi le sue bellezze etterne,
e l´occhio vostro pur a terra mira;
onde vi batte chi tutto discerne”.

(Dante Alighieri, Divina Commedia, Purgatorio, XIV, 148-151)

Chama-vos o céu que em torno de vós gira,
mostrando-vos suas belezas eternas
e o vosso olhar ainda olha para o chão,
por isso vos castiga Aquele que tudo discerne”

 

O magnífico Cantico delle Creature de São Francisco faz resplandecer essa mesma doutrina.

Uma cosmovisão correta e objetiva vê Deus em todo o universo que canta a sua glória. Mas quem não tem o coração reto, não pode ver a Deus em todas as coisas. Por isso, disse Nosso Senhor Jesus Cristo:

“Bem aventurados os puros de coração, porque eles verão a Deus” (Mt. V, 8).

Deus nos fala por meio de suas criaturas de modo simbólico ou parabólico. Daí, a Sagrada Escritura afirmar que as nuvens e as tempestades, as montanhas e as colinas nos falam de Deus.

Pela razão, entendemos esses símbolos objetivos, e deles tiramos verdades.

Cultura, portanto, tem íntima relação com a verdade e, portanto com a Fé. A Cultura verdadeira nada mais é do que uma visão dos símbolos de Deus, iluminada pela fé

Da visão intelectual objetiva e correta do mundo vai decorrer a compreensão do Bem da qual nasce a Moral objetiva.

Pela Lei Natural, que é a vontade de Deus enquanto governa a natureza, conhecemos a lei de Deus, os dez mandamentos. Todo homem conhece essa lei porque Deus a inscreveu na própria natureza.

Pelo instinto de conservação sabemos que a vida física é um bem, e que devemos preservá-la. Assim conhecemos o quinto mandamento e o sétimo, relacionados com o bem da vida física pessoal. Pelo instinto sexual, conhecemos que a vida da espécie humana é um bem e que devemos preservá-la. Daí, o conhecimento que todo homem tem do Quarto, sexto e nono mandamentos da lei de Deus.

Pela tendência natural do homem em conhecer a realidade, a verdade do mundo e das coisas, conhecemos o oitavo mandamento e todos os relacionados com Deus, isto é, os três primeiros mandamentos.

Desta forma, a natureza revela objetivamente o Bem, e ela é a fonte da moral natural e dos bons costumes.

Não pode haver cultura divorciada da moral.

Portanto, quando um povo viola a lei natural, estabelecendo um vício como hábito, ele entra em decadência, e esses vícios não podem ser aceitos como cultura, pois violam a ordem natural.

Por exemplo, a antropofagia asteca não é um elemento cultural, mas um vício contra a natureza, que não pode ser aceito.

A aceitação de um vício como se fosse um elemento da cultura de um povo só pode nascer da negação da possibilidade do conhecimento objetivo da realidade, da verdade e do bem. É essa negação que leva ao relativismo da anticultura vigente no mundo moderno e à barbarização da vida em nossos dias. Barbarização ensinada e incentivada pelo relativismo militante das Universidades atuais.

Da compreensão clara da verdade e do bem decorre a noção de Beleza que foi definida por São Tomás como “o Bem claramente conhecido”. Ou ainda, “Beleza é o resplendor da forma na proporção da matéria”, na esplêndida definição de Beleza de Santo Alberto.

Assim como a Verdade e o Bem, a Beleza também é objetiva. Foi da negação da objetividade da Verdade e do Bem feita pelo subjetivismo idealista do Romantismo que decorreu a relativização da noção de Beleza, que conduziu à Arte Moderna destruidora de toda Arte e de toda Beleza.

Portanto, se Cultura engloba a Verdade, o Bem e a Beleza objetivas, a Cultura tem que ser também objetiva. Tanto quanto a Verdade, o Bem e a Beleza, a Cultura provém de visão correta e objetiva do universo criado.

Logo, assim como existe uma só visão correta do universo – embora ela possa ser expressa de modos variados – existe uma só verdadeira Cultura, que é expressa de modos particulares, por cada povo, segundo suas características próprias, sem contradição, porém, com a única Cosmovisão objetiva.

Como já lembramos, “a beleza é o bem claramente conhecido” (São Tomás). Sendo assim, o belo é a resultante do conhecimento de que um bem é verdadeiramente bem. Ora, como a verdade e o bem são objetivos, a beleza também é objetiva. Só a arte que respeita a verdade e as leis objetivas da natureza, assim como as leis da moral natural, é verdadeiramente arte. Não há arte sem verdade e não a verdadeira beleza de uma arte que recusa aceitar a moral e o bem objetivos.

Deste modo, só existe uma cultura verdadeira, que é aquela que aceita a verdade, o bem e o belo objetivos da natureza, que são os reflexos da Verdade, do Bem e da Beleza infinitas de Deus criador do Universo.

Mas isto não significa, de modo algum, que se pense que a cultura é uniforme. Isso não implica em uniformidade cultural, nem exige a destruição das legítimas peculiaridades de cada povo

Deus é infinito e a natureza criada é finita. Isto tornou necessário que Deus criasse seres que espelhassem a Verdade, o Bem e a Beleza divinas e infinitas, de modo variado e finito. O que aparece em Deus como uno se desdobra no universo numa variedade infinda. Daí, cada pessoa ser diferente, espelhando especialmente uma qualidade de Deus.

Em conseqüência, cada povo também é diferente e espelha a Deus Nosso Senhor sob certo ângulo, refletindo especialmente certas virtudes de Deus. Por isso, embora haja uma só cosmovisão objetivamente verdadeira, cada povo tem aspectos culturais particulares dentro da única cultura verdadeira.

Desse modo, por exemplo, as roupas árabes próprias para o deserto, e que obedecem à realidade do meio geográfico natural em que vivem os árabes, além de estarem de acordo com a moral natural, são roupagens objetivamente verdadeiras, boas e belas.

Jamais, se os árabes se convertessem ao Catolicismo, a Igreja faria abolir o albornós e o turbante, que protegem a pessoa do calor do deserto, ou o véu que filtra a poeira, para permitir uma respiração melhor do ar.

Tenho uma foto de um tuareg analfabeto do deserto, que revela uma vestimenta culturalmente mil vezes mais elevada do que as pobres roupas dos homens europeus ou americanos de nossos dias. Um jovem universitário moderno, em roupas “grunge”, mastigando chicletes é bem mais selvagem do que esse tuareg analfabeto. Até o camelo mehari em que ele está montado parece compreender a grandeza dessa roupa objetivamente correta, porque objetivamente de acordo com a natureza e com as suas leis.

Mas a diversidade de expressões da única cultura verdadeira não implica, de modo algum, em relativização da Cultura.

Para bem se entender a idéia de que há um só cultura verdadeira, embora em variadas formas, de acordo com as peculiaridades de cada grupo humano, e de como podem existir alguns elementos corretos e positivos, mesmo em culturas falsas, é bom recorrer a um paralelo, bem didático, comparando cultura humana e cultura dos campos.

O termo Cultura nasceu por analogia do cultivo dos campos, da Agricultura.

O Homem é terra. Adam significa feito de terra.

Assim como se deve cultivar a terra, o homem deve cultivar a si mesmo, porque ele também é feito de terra.

Já no Éden, Deus ordenou a Adão que cultivasse o jardim do Paraíso terrestre.

Depois do pecado original, a terra foi amaldiçoada por Deus por causa do pecado do homem. Por isso, ela, normalmente, dá espinhos e abrolhos. O que nasce espontaneamente nos campos é erva daninha e não um trigal ou um cafezal bem enfileirado. Assim também, o que nasce normalmente e espontaneamente nas mentes dos homens são erros, e não sistemas filosóficos completos. É evidente que o homem pode descobrir verdades, e ter idéias verdadeiras. Mas isso exige esforço e estudo.

Assim como a agricultura é o conjunto de técnicas e modos de fazer a terra produzir os bens necessários à manutenção da vida física, assim a cultura é o conjunto de verdades, valores objetivos e bens necessários para manter a vida espiritual e espiritual de um povo.

Nos campos, o que nasce espontaneamente são ervas daninhas.

É claro que, ocasionalmente e de modo espontâneo, pode nascer um pé de manga, ou uma planta de trigo. Mas um pomar, ou um trigal, não nascem espontaneamente num campo sem o trabalho do homem.

Para que haja cultura em um campo, antes de tudo, é preciso limpar o terreno, arrancando dele toda erva daninha ou inútil.

Da mesma forma, para uma pessoa adquirir cultura, a primeira coisa a fazer é arrancar de si toda idéia falsa que distorça a visão correta do mundo, que afaste a visão correta a respeito de Deus.

Depois de limpar o terreno, para que ele seja cultivado, é necessário trabalhar a terra, ará-la. O que é um trabalho duro. A isso corresponde o estudo, o exame da realidade. Não há cultura sem esforço intelectual, ainda que pequeno. Isto não significa, porém, que só tem cultura o diplomado em universidade.

Isso não é verdade. Mesmo uma pessoa sem estudos pode ter uma relativa cultura. A cultura, sendo fruto de uma cosmovisão correta e verdadeira da realidade, ela pressupõe sabedoria, isto é, compreensão da ordem do universo com relação a Deus e a ordem interna do universo, isto é, das coisas entre si. Um iletrado pode ter essa sabedoria e, até certo ponto, ele teria então cultura. Mas é claro que uma pessoa que tenha estudado alcança normalmente um nível de cultura mais elevado.

É verdade, pois, que ter cultura não equivale a ser formado. Mas é absurdo o que afirma Renold Blank que “todos os homens são cultivados”.

Isso é absurdamente falso.

Assim como nem todos os campos são cultivados, assim também nem todos os homens têm cultura. Há os ignorantes. E há os pretensiosos e ignorantes. Ainda que diplomados…E há homens bem errados. E há homens criminosos.

E pensar que quem afirma esse absurdo numa apostila, dá aulas em Faculdade de Teologia!

E, pensando bem, ele, hoje, só poderia dar aulas numa Faculdade de Teologia, pós Vaticano II, pois que, normalmente, nelas, tudo vale, exceto a verdade católica.

Se “todos os homens são cultivados”, para que dar aulas numa Faculdade de Teologia? Para que as escolas?

Um professor que emite tal juízo deveria se demitir.

Depois de limpar o terreno, para que ele seja real e verdadeiramente cultivado devem-se plantar nele apenas coisas úteis. Caso se volte a plantar nele ervas daninhas ou inúteis, haverá ali uma falsa cultura.

Assim, também, um homem que adquira conhecimentos inúteis, ou sem importância, não teria verdadeira cultura. Uma lista telefônica possui informações verdadeiras, mas estudar a lista telefônica, sabê-la de cor, não significa ter cultura, de modo algum. Por isso, é ridículo o posicionamento de certos relativistas que julgam que ter qualquer tipo de conhecimento é ter cultura.

Para que o terreno seja cultivado, não basta plantar nele coisas verdadeiramente úteis. É preciso que elas sejam plantadas em ordem. Caso nele se plante um pé de trigo, depois uma planta de feijão, um mamoeiro, e assim por diante, o campo não estará cultivado. Do mesmo modo, de nada adianta ter conhecimentos verdadeiros não ordenados. Ter cultura exige possuir uma visão ordenada, sapiencial, de todos os conhecimentos verdadeiros. Saber verdades sem ordem entre elas, de nada vale.

Finalmente, a cultura de um campo deve ser ordenada à vida física do homem. Do mesmo modo, a cultura, em seu sentido mais alto, exige a ordenação do homem a Deus, compreendendo a relação que existe entre o mundo criado e a Divindade. Ora, essa compreensão da ordem interna do universo, e a compreensão da ordenação do universo a Deus é que se chama Sabedoria. De onde não existe verdadeira cultura sem Sabedoria, pelo menos natural, e a cultura mais elevada e perfeita tem que ter, além dessa sabedoria natural, a virtude sobrenatural, assim como o Dom da Sabedoria.

Como nasceu o relativismo que nos levou à atual decadência cultural ?

Vimos que entre as conceituações que inicialmente citamos de cultura, só a conceituação da Unesco – por seu laicismo maçônico congênito—não inclui a palavra crer ou crença em sua redundante conceituação, falando apenas de “mitologia” e de “rituais”, o que veladamente inclui a religião como elemento integrante da cultura.

Mas, embora haja concordância geral de que a religião é um elemento integrante e essencial da cultura, por outro lado a admissão do relativismo criteriológico e a negação de que há um só Deus, levam a negar que haja também uma só religião verdadeira e uma verdade objetiva.

Essa negação causou o relativismo religioso. Todas se religiões seriam igualmente “verdadeiras” e igualmente falsas, ao mesmo tempo, por serem visões relativas e incompletas.

Negando-se que o homem possa ter uma visão objetiva do mundo, então se concluirá que nenhuma religião pode se afirmar unicamente verdadeira, e daí não se poderá afirmar que há uma Cultura objetiva e verdadeira. Do relativismo religioso nasce necessariamente o relativismo cultural.

Entretanto, admitindo-se que há um só Deus verdadeiro e uma só religião verdadeira, disso decorrerá a noção de que existe uma só cosmovisão objetiva e verdadeira, e, portanto, uma só cultura verdadeira.

Mas o Vaticano II admitiu esse relativismo religioso modernista, ao aceitar o pluralismo religioso. Daí sua defesa do ecumenismo relativista e indiferentista. Daí a defesa que o Vaticano II faz do pluralismo cultural.

Tudo isso leva a distinguir a cultura verdadeira, em suas múltiplas manifestações nos diversos povos e épocas, das culturas falsas, já que religião verdadeira é só uma, pois que há “Um só Deus, Pai todo poderoso, criador de todas as coisas visíveis e invisíveis”, e a lei natural é única para todo o ser humano.

A cultura verdadeira, portanto, é aquela iluminada pela única verdade da fé, e que segue a moral natural.

Nesse sentido, os pagãos podem ter uma cultura verdadeira: embora neguem ou desconheçam a fé verdadeira, têm muitas vezes manifestações culturais que não negam a verdade objetiva, ou a moral natural.

É o caso, já citado, das belíssimas vestimentas árabes.

Deste modo, é inadmissível um relativismo cultural universal, tal como se defende, hoje, como resultado do relativismo filosófico e religioso, triunfante com o Concílio Vaticano II.

Se a cultura deve estar subordinada à verdade e ao bem, ela pressupõe que o homem seja capaz de conhecê-los.

Logo, o kantismo – e todos os sistemas filosóficos dele derivados, que negam a possibilidade de a inteligência humana alcançar a realidade – são anticulturais.

Toda filosofia que nega a capacidade e a inteligência conhecer o real, assim como todas as artes derivadas dessa concepção, isto é, toda a Arte Moderna, são assassinas da verdadeira cultura.

A Cultura nasce do conhecimento da realidade do Mundo. Ela é o conjunto dos elementos que relacionam homem com o mundo e com Deus.

Visões deturpadas, vesgas, ou subjetivas da realidade produzirão necessariamente falsas culturas.

Ora, uma cosmovisão objetiva e correta do universo só pode conduzir a uma teodicéia objetivamente correta, pois que o mundo foi feito à imagem e semelhança de Deus.

O Mundo Moderno se tornou crescentemente cego ao aceitar o Humanismo, o racionalismo, o subjetivismo, o materialismo e a gnose.

Descartes, Kant, Marx, foram os cegos que guiaram o mundo moderno, mais cego ainda, para o abismo em que caiu a humanidade atual.

São os relativistas cegos, os subjetivistas, os materialistas, que não sabendo ler o mundo — que só fala de Deus – são eles que defendem a multiplicidade e a relatividade de todos os valores e de todas as cosmovisões, mesmo daquelas que se declaram explicitamente cegas.

A cegueira contemporânea, herdada de Kant, recusa que o intelecto possa conhecer a realidade. Sendo assim, nega-se tudo a tal ponto que até numa aula de Química num curso de Pós Graduação, na USP, um certo professor afirmou: “Não se pode dizer que uma caneta é azul, porque isso seria impor uma nossa visão da realidade’.

Ora, se assim é, como essa pessoa pode pretender ensinar qualquer coisa ?

Pior que esse despautério ensinado por um professor, em sala de aula universitária, foi o ensinamento pastoral do Vaticano II.

Toda a filosofia do Vaticano II se fundamentou no kantismo e nas filosofias modernas dele decorrentes, que negam a capacidade do intelecto conhecer a realidade. Daí o Vaticano II, como a heresia modernista, não admitir a Fé como a adesão da inteligência às verdades reveladas por Deus e ensinadas dogmaticamente pela Igreja.

A Constituição Dei Verbum afirma que, pela revelação, é comunicada diretamente ao homem— a qualquer homem de qualquer religião que ele seja — a própria res divina, e não verdades sobre ela. Daí, a revelação seria uma experiência do divino imanente em todo homem. Por isso, toda religião seria verdadeira. Essa a fundamentação modernista do pluralismo religioso do Vaticano II e de seu ecumenismo relativista.

Pois então, se a Fé é pluralista, se não se pode aceitar uma religião como a única verdadeira, então não haveria também uma Cultura verdadeira. A pluralidade de revelações legítimas exige aceitar o ecumenismo, e, com ele, a pluralidade de culturas

É o que explica o Presidente do Soter, no artigo acima citado:

” … o Concílio afirma que a fé cristã não se identifica com nenhuma cultura em particular, mas está serviço de todas as culturas”.(…) “A Igreja deve assumir e elevar todas as culturas, recapitulando-as em Cristo”. (Cfr. Paulo Fernando Carneiro de Andrade, “A Educação do ser humano realizada no diálogo entre fé e cultura”, in “Concílio Vaticano II Análise e Perspectivas”, obra organizada pelo Padre Paulo Sergio Lopes Gonçalves e pela Irmã Vera Ivanise Bombonatto, Paulinas, São Paulo, 2004, p. 408).

Por isso, depois do Vaticano II, assim como se renunciou a fazer missões para converter os pagãos ao Catolicismo, se renunciou também a cristianizar os costumes dos povos pagãos, salvando o que eles tinham de bom, de acordo com a lei natural, e eliminado seus erros e vícios.

Depois do Vaticano II não se falou mais em catolicizar os costumes dos povos pagãos, não se falou mais em cristianizar suas culturas, e sim em inculturar o cristianismo. Não se procurou converter à única Fé verdadeira, mas se buscou adaptar a Fé Católica aos costumes do paganismo.

Foi o Vaticano II que popularizou o relativismo religioso e cultural.

Conforme o teólogo Karl Rahner, cuja doutrina foi a alma danada do Vaticano II, a Igreja anterior ao Vaticano II tinha uma ação que “se assemelhava mais à de uma empresa de exportação que divulgava em todo o mundo uma religião e uma cultura européias”.

” O Concílio finaliza a época da Igreja Católica como Igreja européia, dando início, ainda que germinalmente, a ação da Igreja como Igreja mundial, instaurando uma ruptura só comparável, segundo K. Rahner, à que marcou a passagem do judeo-cristianismo ao cristianismo helenista sob o influxo de são Paulo” (Cfr. Paulo Fernando Carneiro de Andrade, “A Educação do ser humano realizada no diálogo entre fé e cultura”, in “Concílio Vaticano II Análise e Perspectivas”, obra organizada pelo Padre Paulo Sergio Lopes Gonçalves e pela Irmã Vera Ivanise Bombonatto, Paulinas, São Paulo, 2004, p. 410).

E quantos professores dogmatizam que não existe a verdade, e, pastoralmente, quase impõem excomunhão a quem afirmar que a verdade existe e que é objetiva!

Eu soube ainda que até numa Faculdade de Teologia que se afirma católica, um professor de Antropologia, Renold Blank, baseado no Vaticano II, ensina o relativismo mais bruto, impondo com tirania, nada democrática, o dogma da incerteza absoluta.

Para esse professor de Faculdade Católica de Teologia, não haveria cultura modelo, nem superior. Não se poderiam criticar culturas, sobretudo não se poderiam emitir juízos sobre elas.

Renold Blank condena o que ele chama de etno-centrismo, que considera as demais culturas inferiores, exaltando a própria. Para ele, não existindo uma cultura verdadeira, deveria haver o diálogo relativista entre as culturas, para que mutuamente elas revelem a sua posição, e se enriqueçam mutuamente.

Um esquema desse professor Blank, em sua apostila, afirma que certo é o

relativismo cultural. Diz essa apostila:

“Observar e aceitar outras culturas sem preconceitos Ex. esquimó que mata crianças”

E depois:

“A compreensão de certas atitudes não implica em nada a aceitação delas”.

O incrível é que se ensine esse relativismo descabelado numa Faculdade de Teologia Católica, quando o Papa João Paulo II, em suas encíclicas e discursos, tem condenado seguidamente o relativismo.

É esse relativismo religioso, moral e deontológico, esse relativismo cultural vigente no mundo contemporâneo, que afirma não poder se aceitar que haja uma cultura objetivamente válida. Tudo seria igualmente válido. Dai a aceitação, por exemplo, da “cultura” yanomani, que manda o marido espancar a esposa, ou a “cultura” de uma tribo que manda comer os velhos, ou dos astecas que mandava praticar antropofagia ritual.

É claro que do relativismo com relação à verdade nascerá o relativismo moral, e do relativismo criteriológico e moral, provirá o relativismo estético.

No livro que já citamos Concílio Vaticano II Análise e Perspectivas (Paulinas, São Paulo, 2004), organizado pelo Padre Paulo Sergio Lopes Gonçalves e pela Irmã Vera Ivanise Bombonatto, há um capítulo sobre a Moral do Vaticano II, escrito pelo teólogo Márcio Fabri dos Anjos, no qual se defende que a Moral preconizada pelo Vaticano II é diferente da Moral que a Igreja Católica defendeu durante 2.000 anos.

Afirma Márcio Fabri dos Anjos que a nova Moral do Vaticano II, contrária à Moral tridentina, é dinâmica e não estável, isto é que ela seria uma moral relativa, e nunca universal e objetiva. (Cfr. Op. cit., pp. 389- 404).

Cristo afirmou:

“Nem um só jota será tirado da Lei” (Mt V, 18), e que “passarão os céus e a terra, mas minha palavra não passará”.

Mas, conforme confessa esse livro sobre o Vaticano II, o Concílio negou o que Cristo ensinou: ensinou que a Moral cristã passou e mudou, e que o Vaticano II tirou da lei não só um Jota, mas várias outras letras.

Perdoe-me, muito prezado Roberto, o desalinhavamento dessa minha exposição. Mas espero que dela você possa retirar algum proveito.

In Corde Jesu, semper,
Orlando Fedeli

 

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