Montfort Associação Cultural

17 de janeiro de 2005

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Igreja santa e pecadora, e outros absurdos

Autor: Orlando Fedeli

  • Consulente: anonimo
  • Localizaçao: – Brasil

Caros Amigos 
Estou estupefato com o site dos senhores. A princípio pensei que se tratasse de um veículo de Evangelização, mas lendo e percebendo os conteúdos de alguns ítens verifiquei que os senhores pararam no tempo e no espaço. Vivem uma fé e espiritualidade que já não existe. São contra tudo e todos: contra o Movimento Carismático, que tantos frutos positivos trouxe à nossa Igreja, como a volta de muitos jovens e afastados ao seio da Mãe Igreja; contra a Teologia da Libertação cujo teor é inteiramente evangélico, pois prega a Igualdade entre as Classes Sociais, entre as raças e buscam uma Ordem Política Renovada baseada na Justiça e na Partilha; além disso o site é altamente retrógrado, ultrapassado, chega até a incentivar a volta do uso de batina nos padres, que absurdo! É contra o Ecumenismo, movimento que é altamente apoiado pelo nosso Querido Papa, enfim, vocês vivem uma religião que não existe mais. Hoje, é impossível viver uma fé, uma espiritualidade, que aliena o indivíduo da sua condição humana, econômica, social e política. É preciso unir Fé e Vida, mas uma Fé Viva, dinâmica, construída no dia a dia das pessoas, em meio às suas lutas, aos seus problemas. Celebrar o Deus da Vida e do Amor é o papel fundamental da Liturgia. A Renovação Carismática, o Movimento Progressista e tantos outros segmentos que surgem e surgirão na Igreja são como uma refeição que contém diversos tipos de alimentos, necessários ao desenvolvimento pleno do organismo humano. Nesse sentido gostaria de enfatizar o meu pensamento, que é o pensamento atual da Igreja e que está sendo ignorado pelos senhores. Sou Católico Praticante, inserido em Pastorais diversas, sou consciente que a minha Igreja é santa e pecadora. Espero que um dia ela seja somente santa.

Os tempos mudaram irmãos, não é mais possível viver a nossa fé baseados em documentos antigos da Igreja que são, a cada dia, substituídos por novos que também no futuro serão renovados, porque essa é a Lei da Vida. Infrigi-la, é cair no mais atroz dos erros.

Graça e Paz de Nosso Senhor Jesus Cristo
Seu irmão

Prezado senhor …,
Seja louvado Nosso Senhor Jesus Cristo.

Respondemos com prazer a sua mensagem de crítica contra nós.

O senhor, em poucas linhas, nos acusa de tantas coisas que teremos que lhe dar uma longa resposta.

Antes porém de responder às críticas contra nós, começaremos por contestar uma acusação que o senhor faz à Santa Igreja.

O senhor afirma estar consciente de que “a Igreja é santa e pecadora“. Santa ela é. Pecadora, não. Protestamos contra esta acusação, que por ser feita sem distinções, é caluniosa e herética. Herética sim, porque, feita como o senhor a fez, sem nenhuma ressalva ou distinção entre o que é humano e o que é divino na Igreja, vai direta e rotundamente contra o que se afirma no Credo : “Creio na Igreja, una, Santa, Católica e apostólica” (Credo in Unam Sanctam Catholicam et Apostolicam Ecclesiam).

Prezado sr., a Igreja, enquanto tal, não é e nem pode ser pecadora. Pecadores são os homens que dela fazem parte; em primeiro lugar nós: eu e o senhor.

Hoje em dia, se faz facilmente a confusão entre Igreja e clero. O clero é parte da Igreja, e parte mais importante, porque é ao clero que cabe governar a Igreja, ensinar e administrar os Sacramentos. Mas o clero não é de per si, sozinho, a Igreja. A Igreja é uma sociedade divina e humana. Divina porque sua cabeça é Cristo. Humana, porque seu corpo é feito de homens. Mas a Igreja enquanto tal ela é sempre santa. E Cristo prometeu que as portas do inferno não prevalecerão contra ela, isto é, que ela jamais ensinará a mentira nem o pecado.

É fácil atribuir pecados à Igreja — e não venha, por favor, nos falar nem de Galileu, nem da Inquisição, espantalhos agitados pelos inimigos de Deus e que só assustam católicos tíbios e ignorantes da História (se quiser, conversaremos sobre estes pontos). Não nos venha a falar de Alexandre VI e de outros Papas criminosos do passado, porque eles, embora chefes da Igreja, não eram a Igreja. E o senhor deveria saber que a infalibilidade papal não significa impecabilidade papal.

A Igreja Católica é santa e impecável, meu caro sr. …

Agora vamos às suas acusações contra nós.

O senhor nos acusa, em primeiro lugar, de só citarmos documentos papais do passado que hoje não valeriam mais. Deveríamos, segundo o sr., citar documentos atuais. Os quais, segundo o Sr., amanhã não valerão mais.

Pois então cito-lhe um documento bem atual: a encíclica Fides et Ratio, do Papa João Paulo II. Sua encíclica mais atual: a última. Nessa encíclica, ao tratar dos erros atuais, o Papa João Paulo II condena explicitamente o historicismo com as seguintes palavras:

“O ecleticismo é um erro de método, porém poderia ocultar também as teses próprias do historicismo. Para compreender de modo correto uma doutrina do passado, é necessário considerá-la em seu contexto histórico e cultural. Em troca, a tese fundamental do historicismo consiste em estabelecer a verdade de uma filosofia sobre a base de sua adequação a um determinado período e um determinado objetivo histórico. Deste modo, ao menos implicitamente, se nega a validade perene da verdade. O que era verdade em uma época, sustenta o historicista, pode não sê-lo mais já em outra”. ( João Paulo II, Fides et Ratio, n. 87).

Então, prezado senhor …, é o Papa atual que condena sua tese de que se deve seguir apenas os documentos atuais, como se o que os Papas do passado já não valessem mais hoje, ou como se um Papa atual pudesse ensinar o contrário do que foi ensinado pela Igreja no passado.

Se assim fosse, o que João Paulo II ensinou ontem, já não valeria hoje. E o que ensinou hoje, já não teria valor amanhã.

O que o senhor defende é o relativismo, que também foi condenado por João Paulo II nessa mesma encíclica Fides et Ratio. O senhor, e não nós, é que está num dos piores erros em que se pode cair: o relativismo, para o qual nada é verdade perene. Nada vale para sempre.

E note, prezado senhor …, que Nosso Senhor Jesus Cristo nos ensinou que :

Passarão o céu e a terra; minhas palavras, porém, não passarão” (S. Marcos, XIII, 31).

Portanto, o senhor é quem segue a Lei da Morte. Deus não muda, caro senhor, e por isso o que Ele ensinou é para sempre. Recomendo-lhe que leia ainda a encíclica de João Paulo II Veritatis Splendor, na qual o Papa atual ensina com o poder das chaves que a verdade é objetiva, una, universal e imutável.

Sua crença numa fé que varia a cada dia é contrária à Fé católica e é fruto dos erros modernistas que são tão difundidos hoje em dia em nossas paróquias.

É também João Paulo II quem afirma que o historicismo conduz ao Modernismo em Teologia, o que é o seu caso.

Veja o que diz o atual Papa:

“Na reflexão teológica, o historicismo tende a apresentar-se muitas vezes sob uma forma de “modernismo”. Com a justa preocupação de atualizar a temática teológica e torná-la acessível aos contemporâneos, recorre-se somente às afirmações e ao jargão filosófico mais recentes, descuidando das observações críticas que se deveriam fazer eventualmente à luz da tradição. Esta forma de modernismo, pelo fato de substituir a verdade pela atualidade, se mostra incapaz de satisfazer as exigências da verdade a que a Teologia deve dar resposta”. (João Paulo II, Fides et Ratio, n. 87).

E o senhor confessa que é modernista – talvez inconscientemente – ao dizer que “É preciso unir Fé e Vida, mas uma Fé Viva, dinâmica”.

Que a Fé deve ser vivida e que deve ser viva, não há dúvida nenhuma.

Mas o que se entende por uma “Fé dinâmica”? Meu caro senhor, a Fé é um conjunto de verdades que Deus nos revelou e Igreja nos ensina. Ela é estável. É um depósito confiado a Pedro e aos Apóstolos. Ela não é de modo algum dinâmica, porque dinâmico é o que tem movimento, o que muda. A Fé é imutável. Embora o senhor não aceite o que a Igreja ensinou no passado, sou obrigado, em consciência, a lembrá-lo que São Pio X condenou solenemente o evolucionismo criteriológico da heresia Modernista no decreto Lamentabili:

“A verdade não é mais imutável do que o próprio homem, pois se desenvolve com ele, nele e por ele” (São Pio X, Lamentabili, erro modernista 58)

O senhor nos acusa de “ter parado no tempo e no espaço”. De viver uma fé e uma espiritualidade que já não existe” (sic). Meu caro, se nós as vivemos, então elas existem! Não vou refutar sua acusação de que estamos parados “no espaço”: basta sair de meu escritório, ou ir dar uma conferência numa faculdade, ou ir comprar pão na padaria, para ter certeza de que o senhor escreveu, na pressa e sem se dar conta, uma tolice.

E que significa “parar no tempo”? Essa é uma acusação modernista de quem gosta de estar na moda com a penúltima novidade da TV. É um mero slogan, não é uma demonstração. Em Filosofia e em Teologia isso não significa nada, a não ser que o acusador é evolucionista, modernista, relativista e historicista. Mas não é católico.

O senhor defende ao mesmo tempo o carismatismo e a teologia da Libertação, sem sequer se aperceber de que são movimentos , em certo sentido, opostos e contraditórios.

O carismatismo é místico e anti-racionalista. A Teologia da Libertação, conforme a definiu o ex-Frei Boff, é “marxismo na Teologia”. Portanto, é racionalista.

Defina-se, meu caro. Ao menos perceba a luta que existe entre os líderes carismáticos e os da Teologia da Libertação. Pelo menos perceba que os carismáticos consideram que a Teologia da Libertação é compromissada com a revolução socialista e marxista, e que os pensadores da Teologia da Libertação julgam o movimento carismático alienante.

O senhor afirma este absurdo: “A teologia da Libertação cujo teor é inteiramente evangélico, pois prega a igualdade das classes sociais”.

Ora, o que o Evangelho de Cristo nos ensina é que a desigualdade é que é a justiça, e não a igualdade. Não, não caia de costas. Leia os evangelhos. Analise. Raciocine. Cristo nasceu no povo eleito. Se havia um povo eleito, então Ele preferia um povo a outro. Por isso Deus disse:

Bem aventurado é o meu povo do Egito, e o Assírio é obra de minhas mãos, mas Israel é minha herança“.(Is. XIX,25)

E Cristo ensinou que o reino dos céus é semelhante a um rei que deu 5 talentos a um servo, 2 para outro, e apenas 1 para um terceiro. E quando voltou cobrou deles os juros (S. Mateus , XXV 14-30). E Cristo também disse:

A quem muito foi dado, muito será pedido” (S. Lucas XII, 48).

Cristo tratou desigualmente os homens. Ensinou mais para os discípulos do que para o povo. Mais para os Apóstolos do que para os discípulos.

Tratou Ele igualmente os Apóstolos? Não! A um Ele deu as chaves (Pedro); a outro, a estima (João); a outro, a confiança, entregando-lhe a bolsa (Judas); a outro, elogiou, (Natanael); a outro quis chamar em primeiro lugar (André). Mas, o Apóstolo – com maiúscula – não é nenhum dos doze. É Paulo.

Poderia citar-lhe dezenas de provas. Para encurtar esta carta que já vai longa, peço-lhe que leia o Eclesiástico capítulos XXXIII e XXXVIII, onde Deus mostra que tudo fez com desigualdade.

Recomendo-lhe também que leia o trabalho sobre desigualdade (Desigualdade & igualdade: considerações sobre um mito) que escrevi e que está em nosso site. Lá o senhor achará os argumentos de São Tomás provando que Deus fez tudo com desigualdade, porque fez tudo com sabedoria. Lá o senhor achará também muitos textos de encíclicas de muitos Papas, condenando a igualdade.

E como o senhor diz que o evangelho afirma que se deve fazer a igualdade de classes, cito-lhe só um texto, de Pio XI:

“Não é verdade que na sociedade civil todos temos direitos iguais e não exista hierarquia legítima” (Pio XI”, Divini Redemptoris, 33).

Procure ler o que ensinou sempre a Igreja e verá que ela sempre condenou o igualitarismo (no site da Montfort, o senhor encontrará mais documentos papais dizendo a mesma doutrina no trabalho sobre desigualdade).

E como o senhor ousa defender ainda a Teologia da Libertação, quando é público que o papa João Paulo II tomou medidas contra ela?

Quanto ao carismatismo, esse movimento se diz herdeiro dos Despertados da Baviera e do Revival protestante. Como pode a árvore má dar bom fruto?

Quanto à batina dos sacerdotes, nessa questão também o senhor é que está “ultrapassado”; o que para um historicista e relativista é uma monstruosidade. Pois o Papa atual ordenou que se volte aos antigos sinais distintivos do clero.

Mas o senhor como muitos sacerdotes modernos, deve preferir os padres de bermudas e as freiras de mini saia…

Para refutar as bermudas dos padres e as mini saias das freiras teríamos que fazer uma longa explanação sobre simbologia…

Não, por hoje chega. Mas se o senhor quiser mais, se lhe restou alguma dúvida, escreva-nos que lhe responderemos, com prazer.

Em todo caso, rogo a Deus que o esclareça e salve de tantos erros em que está.

In Corde Jesu, semper
Orlando Fedeli

Replica

Caro Irmão
Orlando Fedeli

Recebi o seu E-mail de resposta e lhe agradeço a boa vontade em que o fez. Na verdade pude observar que o senhor não conhece verdadeiramente o sentido de muitas coisas que lhe escrevi. Vou tentar colocar numa linguagem simples e de fácil entendimento o que percebi quando li suas colocações. A princípio gostaria de enfatizar que não tenho nenhum interesse em agredir ou impor minhas colocações, o que seria anti evangélico, somente gostaria de expor minhas idéias, ao menos, uma última vez. Realmente o senhor tem razão quando diz que o Movimento Carismático e a Teologia da Libertação são movimentos antagônicos, eu sei bem disso. Concordo que existem muitos erros no Movimento Carismático com relação a esse Pentecostalismo desenfreado, essa busca excessiva de dons do espírito, como o dom das línguas, da profecia, etc. Pessoalmente não me identifico com isto, mas também não posso deixar de reconhecer que no Aspecto Litúrgico a Renovação Carismática está de parabéns, pois suas celebrações são dotadas de muita participação, entusiasmo, símbolos, que trazem vida e alegria ao Encontro com o Senhor, que é a Celebração Eucarística. Portanto, a Renovação Carismática, tem como muitos outros movimentos, seus erros e acertos, talvez o que esteja faltando seja uma maior informação entre seus dirigentes e o Clero.

Continuo crendo firmemente que a minha Igreja que eu tanto amo é santa e pecadora, porque os erros que seus membros no passado praticaram, o fizeram em nome dela e até mesmo em nome de Deus. O próprio Papa reconhece alguns desses erros. Ele mesmo pediu perdão à Comunidade Judaica por causa da omissão e da neglicência do Papa da época e demais Autoridades Eclesiásticas, que se calaram diante do latrocínio que sofreu nossos irmãos judeus na Segunda Grande Guerra. Em 1989, tive a oportunidade de participar, aqui no Rio de Janeiro, em Duque de Caxias, do 7º Encontro Intereclesial de CEB”S – As Comunidades Eclesiais de Base – e fui aplaudido de pé por muitos Bispos e Padres, quando disse em alto e bom som, durante a conferência, que eu era consciente dos inúmeros erros que a Mãe Igreja cometeu, erros, irmão, que a própria Igreja tenta acertar, quando, hoje, se volta para o pobre e oprimido e o indica caminhos de Libertação.

Eu sou Católico sim, sou praticante, envolvido em inúmeras Pastorais na minha Comunidade. Só para ilustrar, a minha Comunidade é inserida em uma Favela. O nosso padre, é antes de qualquer Ministério, nosso amigo e companheiro em meio às nossas lutas, pois testemunhar Jesus Cristo em Conferências, Universidades e Sites da Internet, cheio de palavras difíceis é muito fácil; aliás, esta era a atitude dos Doutores da Lei e Fariseus, pois se valiam dos seus conhecimentos e cultura, para subjugarem as pessoas em um regime religioso de opressão e sofrimento; difícil irmão, é ir lá na favela celebrar com o Povo de Deus, os Excluídos; enfrentar o armamento pesado de traficantes e bandidos, conviver com a pobreza e miséria desses irmãos. Sinto-me imensamentre feliz quando tenho a oportunidade de transformar tantos sinais de morte em sinais de vida lá na minha Comunidade, na Favela, quando nos reunimos ao redor da Palavra de Deus e celebramos juntos o Dom da Vida, nossas angústias, nossos anseios por dias melhores. Nosso Irmão e Companheiro de Luta, Padre André, também vivencia conosco esses momentos, quando nos reunimos na Associação de Moradores, nos Movimentos Populares.

Ser Cristão é ser de Cristo, é ser particípe da história de seu povo, é caminhar juntos em busca de tempos novos. Graças a Deus temos exemplos de pessoas que comprometidas com o Evangelho, deixaram de lado o seu comodismo, as regalias que teriam direito, graças a Deus tivemos um Leonardo Boff, temos um Frei Betto, um D. Pedro Casáldaliga, D. Helder Câmara, que recentemente nos deixou, D. Mauro Morelli, Bispo de D. de Caxias, D. Luciano Mendes, Padre Adelar Pedro, e tantos outros, que saíram do conforto das suas Casas Paroquiais, Mansões Epicospais e foram ao encontro do povo, fazer o que fez e faria Jesus se conosco estivesse. Sua Morte de Cruz comprova isso. As Comunidades da Igreja nascente proliferaram tanto que Ele e seus companheiros começaram a incomodar, daí não foi difícil para os Fariseus, Doutores da Lei e Sacerdotes (que se diziam donos da verdade e da fé) planejarem seu assassinato. Hoje temos também exemplos de pessoas que derramaram seu sangue defendendo a fé e a vida dos pobres e fracos, porque lutaram e sonharam, tal qual Jesus, com uma Sociedade de Irmãos, onde todos se amem, se respeitem. Sim, o Senhor Deus não faz, nem nunca fez acepção de pessoas, para Ele somos todos irmãos. Diante do Pai não sou diferente, nem melhor nem pior do que o senhor, do que o meu amigo Padre André, do que o Papa. Diante de Deus somos todos iguais, daí seu Filho ter nascido numa família pobre, que vivia sob um sistema religioso e social injusto. A família de Jesus é semelhante a tantas famílias pobres, excluídas. Maria hoje, seria, com certeza, uma favelada, marginalizada e excluída. São José um pobre chefe de família desempregado, sem perspectiva. E o Estábulo, um barraco, na favela nossa de Nazaré. O projeto de Jesus é o Projeto dos Fracos, dos Pobres. Os ricos também são convidados a essa proposta desde que sejam solidários com a miséria e o sofrimento de seus irmãos e, principalmente, desde que não se utilizem da falta de cultura e do trabalho escravo do seu irmão para enriquecer.

Com relação à Leitura da Palavra de Deus que o senhor tanto me recomenda, gostaria de colocar que as faço desde a mais tenra infância, pois fui educado na Religião. Sempre entendi a Palavra de Deus, através da História do Povo Hebreu, passando por Abraão e os Profetas, bem como os Reis, Juízes, depois por João Batista e finalmente por Jesus Cristo, como um apelo à mudança de atitudes, que de sinais evidentes de morte e injustiça passassem a se tornar Sinais de Vida: É o Deus misericordioso, Javé, que aparece no livro do Êxodo: “Eu vi, ouvi e desci para libertar meu povo”(Ex 3,7). Esta é a visão atual de Deus que queremos experienciar e apresentar como caminho necessário neste processo contínuo de libertação. As CEBs, Caro Amigo, são sinais claros de um novo de ser Igreja, onde todos se reúnem como IRMÃOS e buscam juntos Caminhos de Solidariedade e Fraternidade, tal qual era o Projeto Inicial de Jesus (As Primeiras Comunidades Cristãs, AT 2), que foi modificado por causa de certos interesses, mas ainda resisti como sinal da Fecundidade de sua Obra.

Eis alguns aspectos das CEB”s, Professor, extraídos do site do meu amigo Redentorista Teólogo Luiz Ronaldo:

As CEBs tem como ponto de partida quatro aspectos fundamentais da teologia cristã: a fé (no projeto libertador de Jesus Cristo), a palavra (Bíblia), a comunhão (partilha) e a missão (ir ao encontro dos excluídos). Por isso possui algumas características novas e desafiadoras. Entre as muitas irei destacar algumas: – É um modo de Igreja “portador de valores eclesiológicos; reinventa, concretamente, a Igreja de Deus no seu sentido histórico real”. – É “a Igreja que nasce da fé do povo de Deus ou mais simplesmente, a Igreja que nasce do povo crente e oprimido pelo Espírito de Deus”. – É um modo de Igreja onde os “pobres e oprimidos de nossa sociedade se reúnem em nome de Jesus Cristo e na escuta de sua Palavra de Salvação e libertação, eles constituem concretamente, no nível da história, a Igreja de Jesus Cristo”. As CEBs é um novo modo de ser Igreja que procurou resgatar alguns princípios da Igreja primitiva. Por isso fundamenta-se na palavra de Deus que é refletida a partir da realidade concreta e valorizada como fonte de vida. As alternativas surgem a partir do processo de ação e reflexão que produzem práticas e compressões diferentes. “Nas CEBs o Evangelho se mostra uma palavra transformadora”.

Para encerrar esta carta, que também já se faz longa, gostaria de lembrar-lhe que o Povo Santo de Deus não precisa que os Irmãos que são comprometidos com o Evangelho andem de trajes diferentes, é necessário antes de qualquer outra coisa que, aqueles que se colocam a Serviço do Evangelho, estejem atentos às necessidades e aos clamores de seus irmãos menos favorecidos e lute com eles em busca de tempos novos, novo céu e nova terra, promessa de Javé, o Deus dos Pobres, do Povo Sofredor, que enviou seu Filho para plantar a semente que dará frutos cem por um.

Caro Professor, obrigado por me ouvir mais uma vez. Espero que tenha sido claro, senão fico a espera de uma nova carta. Eu e meus amigos, colegas de Faculdade, ( pois somos estudantes de Teologia), que respondemos à sua carta juntos, não teremos nenhum problema em respondermos outra.

Agradeço desde já a Boa Vontade.
Felicidades!
Graça e Paz de Nosso Senhor Jesus Cristo.

“Igreja é Povo que se organiza, gente oprimida buscando a Libertação, em Jesus Cristo, a Ressurreição”
(Irmão Pedro Casaldáliga)

Prezado …, Salve Maria.

Recebi com prazer a carta coletiva, organizada por você, na qual é patente a presença de vários autores. Daí uma certa confusão e algumas contradições.

Pareceu-me evidente que um dos autores — que espero seja você — me trata com respeito e procura ser caridoso. Outro, porém, se mostra mais agressivo, e insinua que sou um “Doutor da Lei e Fariseu”.

Deixando de lado estas posições pessoais e de estilo de cada um, vamos tratar das questões doutrinárias, que são as que importam.

Em primeiro lugar, é importante deixar registrado que você não me respondeu sobre a questão do historicismo condenada por João Paulo II. Você defendeu uma tese historicista – a de que um documento papal, porque mais antigo, deixava de ter valor hoje — e lhe provei, com a encíclica Fides et Ratio à mão, que isso foi condenado por João Paulo II. Você não me refutou. E numa discussão não se deixa de responder uma acusação tão grave. Calar-se é fugir. Ou se contesta com argumentos sólidos o que não se aceita, ou se confessa que se errou. Calar-se apenas é fugir do problema. E isso não é correto.

Provei-lhe ainda que seu conceito de “fé dinâmica” é uma tese modernista condenada pelo decreto Lamentabili. Nem você nem seus companheiros de redação responderam. Ficaram quietos.

Arrependeram-se? Admitiram seu erro? Ou fugiram do problema?

Também lhe provei que Cristo não pregou a igualdade. Você nada me respondeu sobre isso. Aceitou minha argumentação? Você não o disse. Tem você argumentos contra ela? Você os silenciou. Será que está simplesmente fugindo da questão?

Nesse caso, ainda, recomendei que você lesse o que diz Deus, no livro do Eclesiástico (cap. XXXVIII). Você não me disse se o leu, nem o que achou. Por que seu silêncio? Aceitou o que Deus diz nesse texto? Ou fugiu do problema?

Prefiro crer que você apenas ainda não teve tempo para analisar esses textos.

Aguardo sua análise.

Fico contente com seu reconhecimento – parcial apenas — de erros da Renovação Carismática. Mas lamento que veja em sua atuação pontos positivos em matéria de comunicação e de liturgia, quando, na verdade, os “pontos positivos ” alegados são falsos, pois que a fé não se comunica como sucesso de marketing, nem a liturgia é um show profano.

Mas esses erros que você acha “positivos” da Renovação Carismática, eu os deixo para outra ocasião, a fim de tratar mais de perto os erros seus e de seus amigos da Teologia da Libertação.

I – Conceito de Igreja

Seu erro fundamental é sobre o conceito de Igreja. O que vocês dizem mostra que vocês não acreditam na Igreja que Cristo fundou.

As provas de que não crêem na Igreja de Cristo são:

1 – a definição de Igreja de D. Casaldáliga;

2- a idéia de que é uma nova igreja que está nascendo hoje;

3- a idéia de que a Igreja Católica no passado errou e cometeu crimes.

4- a idéia de que o “Projeto de Deus” foi o de fundar uma comunidade de fracos e pobres.

Analisemos essas afirmações, começando pela frase absurda e herética de D. Casaldáliga ao tentar conceituar o que ele considera ser a “Igreja”.

Segundo a citação que vocês fazem desse esse infeliz Bispo castrista, “A Igreja é Povo que se organiza, gente oprimida buscando libertação em Jesus Cristo, a Ressurreição”.

Essa conceituação não é a da Igreja Católica Apostólica Romana.

A Igreja Católica nasceu do lado de Cristo, no Calvário. Ele a fundou sobre Pedro. Ela não nasce do povo. Vem de Deus.

A Igreja de D. Casaldáliga então não coincide com a Igreja Católica, e se vocês são dessa nova “igreja” que nasce do povo e não de Deus, vocês também não são católicos.

Para vocês, a Igreja está nascendo agora. Ela não teria existido nesses dois mil anos decorridos desde a morte de Cristo.

A “igreja”, tal como definida por D. Casaldáliga, é naturalista e não divina. Essa “igrejola” mais merece o nome de partido político do que de igreja. Ela é “o Povo organizado”. Organizado por quem? Pelo Partido Comunista?

Ela visa o quê? Existe para quê?

D. Casaldáliga responde: “para a Libertação”.

Só que ele não diz claramente que seria a tal libertação. “Libertação” de quê?

Vocês me responderão o slogan dos sequazes da Teologia da Libertação: libertação das “estruturas de pecado social”, isto é do capitalismo. E então estarão confessando que essa “Libertação” é puramente política e social, portanto, naturalista e nunca sobrenatural.

Mas Cristo fundou uma Igreja com fim sobrenatural.

Logo, a “Igreja” de D. Casaldáliga não é a de Jesus Cristo.

Essa nova e falsa “igreja” tem a mesma finalidade, a mesma visão da História, a mesma concepção de sociedade, a mesma visão do mundo que tem o Partido Comunista e o cego Fidel Castro..

É uma “igrejola” marxista, fundada por “teólogos” materialistas e ateus, com uma filosofia dialética marxista, que serve para arregimentar massas para as manobras revolucionárias, a fim de estabelecer no mundo a sociedade socialista e igualitária que os Papas têm repetidamente condenado.

Por exemplo, para estabelecer o que João Paulo II condenou na Nicarágua, quando repreendeu o sandinista comunista Padre Carbonell. Ou o que condenou quando tomou medidas contra os erros de um frade, agora apóstata, e que vive hoje em adultério publicamente.

De tudo isso se conclui que, na medida em que crêem realmente nos conceitos que emitiram, que vocês não são católicos. São, isso sim, sabendo ou não, membros de uma célula comunista a serviço do castrismo.

2 — Igreja Nova

Você repete que a Igreja à qual vocês pertencem é a igreja das CEBS, e que “as CEBS são um novo modo de ser Igreja que procura resgatar alguns princípios da Igreja primitiva”.

Dizendo isso, vocês repetem um slogan herético do ex Frei Boff.

Herético, sim, porque afirma que a Igreja de Cristo se perverteu, se corrompeu, perdendo alguns princípios, os quais as CEBS, agora resgatam.

Portanto, afirmam — com Frei Boff — que a Igreja se corrompeu, que ela não é santa. Estão dizendo que a Igreja atual, que vem desde 2.000 anos, já não é mais a Igreja de Cristo. E que ela foi substituída pelas CEBS.

Vocês estão negando a palavra de Cristo, que afirmou : “Eis que Eu estarei convosco todos os dias, até o fim dos séculos” (Mt. XXVIII,20).

Estão negando a promessa que Cristo fez à Igreja ao dizer : “E as portas do inferno não prevalecerão contra ela” (Mt.XVI,18)

Dizendo que a Igreja Católica se corrompeu e que é preciso resgatar o que ela teria perdido, vocês estão repetindo as heresias de todos os gnósticos, de todas as hereges que surgiram durante os 2.000 anos de História da Igreja. De fato, todos eles acusaram a Igreja de ter-se corrompido, sendo preciso voltar à Igreja primitiva. O ex-Frei Boff também disse esta heresia. E vocês — Deus considere a ignorância em que se acham, para tratá-los com misericórdia – repetem, sem estudar e sem examinar, a mesma heresia.

Para vocês, a nova Igreja das CEBS teria 4 notas principais:

“a) Fé, no projeto libertador de Jesus Cristo;

b) a Palavra , isto é, a Bíblia;

c) a comunhão (partilha);

d) a missão de ir ao encontro dos Excluídos).”

Examinemos essas 4 notas:

a) “Fé (no projeto libertador de Jesus Cristo). Fé devemos ter nas verdades que Cristo nos revelou: Unidade e Trindade de Deus; Encarnação do Verbo; Igreja fundada sobre Pedro; sacramentos que Ele instituiu, etc.

Que projeto libertador é esse que vocês afirmam ser o objeto da Fé Católica?

Frei Boff explica que esse projeto consiste na libertação de toda desigualdade, de toda autoridade — até da autoridade de Deus Criador que nada nos poderia mandar nem impor, quando Ele nos impôs os dez mandamentos.

Projeto libertador de Cristo seria a instalação de uma sociedade anárquica e igualitária.

Atribuir isso a Cristo é uma blasfêmia, porque Ele veio nos dar o exemplo de obediência e não de revolta: “Ele se fez obediente até a morte, e morte de cruz”(Fil. II,8).

Já lhe mostrei que Ele não se revoltou contra o Império Romano. Pelo contrário, mandou pagar, e pagou tributo a César.

Você me disse que foi educado lendo as Escrituras. Por acaso, saltou esse trecho?

Noto ainda que João Paulo II e o Cardeal Ratzinger condenaram a ambigüidade do termo libertação.

b) A Palavra, isto é, a Bíblia.

Seguindo a onda ecumênica e a admiração que os tíbios têm pelos hereges, vocês dizem que se fundamentam na Bíblia.

Na realidade, vocês fazem uma leitura herética das Sagradas Escrituras, porque as lêem aplicando o método marxista usado pela Teologia da Libertação. O próprio Boff declarou que a teologia da Libertação é uma aplicação do marxismo à Teologia. É o que confessa despudoradamente esse ex-frade:

“O que propomos não é teologia dentro do marxismo; mas marxismo (materialismo histórico) dentro da teologia” (Frei Leonardo Boff, artigo no Jornal do Brasil, 6 –IV – 1980, apud Lenildo Tabosa Pessoa, artigo “Contaminação marxista“, in Jornal da Tarde, 4- VIII-1985).

E que leitura correta da Bíblia poderia sair lendo-a com os óculos do materialismo histórico? Só poderia sair uma leitura vesga e distorcida. Por isso, vocês lêem a Bíblia escolhendo os textos e torcendo o seu significado. Ora, aqueles que escolhem da Bíblia só alguns textos, recusando outros, são chamados de haeresim , isto é, herege, o que escolhe.

E, no decorrer desta missiva, lhes darei várias provas de que vocês não lêem corretamente as Escrituras.

c) A Comunhão, isto é, a partilha.

O que vocês chamam de “comunhão” é na realidade o comunismo de bens pela violação e depois anulação do direito de propriedade. Desse modo vocês contrariam dois mandamentos da lei de Deus : “Não furtar” e “Não cobiçar as coisas alheias”. E sobre o Direito de propriedade como direito natural recomendo-lhes que leiam a encíclica de Leão XIII Rerum Novarum.

d) A missão: ir ao encontro dos excluídos. Quem lhes deu essa missão? Certamente não foi Nosso Senhor Jesus Cristo. Na Sagrada Escritura nada se encontra destes termos.

A missão que Cristo deu a seus Apóstolos foi outra :

“Ide e ensinai a TODOS, batizando-os em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo” (Mt. XXVIII,19). “Ide por todo o mundo, pregai o Evangelho a TODA criatura” (Mc. XVI, 15).

É verdade que a Sagrada Escritura manda “evangelizar os pobres”, “sarar os contritos de coração”, “anunciar aos cativos a redenção e aos cegos a vista”, e “por em liberdade os oprimidos” (Lc, IV, 18).

Mas não está dito que se deveria pregar o Evangelho exclusivamente para os pobres. Cristo não falou só aos pobres.

2 – Igualitarismo

Outro erro fundamental em que vocês incidem, talvez por ignorarem o que todos os Papas têm ensinado a esse respeito e o que se lê nas Sagradas Escrituras, é o do igualitarismo.

Para vocês, estabelecer a igualdade dos homens em todos os campos é um bem.

Ora, Deus nas Escrituras, os Papas nas encíclicas, os Doutores da Igreja em suas obras sempre ensinaram o contrário.

Vocês escreveram: “Diante de Deus, os homens são todos iguais” E isto, dito simplesmente assim, não está certo.

Se vocês querem dizer que, sendo os homens iguais na natureza, todos temos direitos naturais iguais, estão certos.

Mas se considerarem que isto basta, estarão errados, porque os homens, ao lado de uma igualdade de natureza (todos somos animais racionais), têm uma desigualdade de acidentes: Deus fez uns homens mais capazes do que outros, dá graças desiguais a cada um, dá a cada um uma personalidade diferente etc.

Sendo os homens iguais na natureza e diferentes nos acidentes, não se pode dizer que somos iguais. Deve-se dizer que somos semelhantes.

Por isso São Paulo escreveu na Epístola aos Romanos que os cristãos deviam obedecer as autoridades constituídas porque todo poder vem de Deus. Disse São Paulo:

Toda a alma esteja sujeita aos poderes superiores, porque não há poder que não venha de Deus e os que existem foram instituídos por Deus. E aquele que resiste à autoridade, resiste à ordenação de Deus. E os que assim resistem, atraem sobre si a condenação” (Rom XIII 1-2)

Você, meu prezado …, que diz seguir a Escritura, devia meditar esta lição da Escritura Sagrada. Esse trecho de São Paulo é a condenação clara da Teologia da Libertação, para a qual toda autoridade é opressora. E quem segue esse “projeto de Libertação”, resistindo às autoridades instituídas “resiste à ordenação de Deus”. “E os que assim resistem — leia D. Casaldáliga, D. Morelli, etc — atraem sobre si a condenação”.

São Paulo diz ainda, pouco mais adiante: “De fato, também por esta causa é que pagarás os tributos, pois são ministros de Deus, servindo-o nisto mesmo. Pagai, pois, a todos o que lhes é devido: a quem tributo, o tributo; a quem imposto, o imposto; a quem temor, o temor; a quem honra, a honra” (Rom XIII, 6 e 7).

O que ensina São Paulo na Bíblia é exatamente o oposto daquilo que lhe ensinam na Teologia da Libertação. Logo, a Teologia da Libertação é contra Deus. A Teologia da Libertação não é Católica.

Cristo tratou os homens com desigualdade. Como já lhe citei, e agora repito, Cristo disse que Deus dá talentos em número desigual para cada um , e depois vem cobrar os juros dos talentos dados…

Portanto, nada socialista. Cristo também disse: “A quem muito foi dado, muito será pedido ” (Lc. XII, 48).

E como podemos julgar-nos iguais à Virgem Maria, que foi dita “bendita entre todas as mulheres”?

E se somos todos iguais, como Cristo disse que “jamais houve homem nascido de mulher maior do que João Batista”?

Você me escreve com aparente humildade: “Diante do Pai, não sou melhor nem pior do que o senhor, do que meu amigo Padre André e que o Papa”.

Você aí mistura as coisas. Moralmente, espero que você seja mais santo do que eu, que sou pecador, e espero na misericórdia de Deus que Ele me faça tão santo quanto possível. Mas só Deus sabe quem de nós é o melhor moralmente (espero, repito, que seja você o melhor de nós dois).

Mas nem desse ponto de vista somos iguais. Diante do Pai somos — os batizados – todos seus filhos, que Ele ama infinitamente, mas não igualmente. Ele amou mais a Nossa Senhora do que a todos os demais santos em conjunto, e amou o Apóstolo João como seu preferido (é isso o que está escrito no Evangelho, e não que Ele amou a todos igualmente). Ele amou mais a Pedro do que a nós dois juntos, pois a Pedro ele chamou de bem-aventurado : “Bem- aventurado és tu, Simão, filho de Jonas”. Ele não disse nunca de você: “Bem – aventurado és tu, …, que freqüentas a favela, e que chamas de pecadora a minha igreja…”.

Não, nem você e nem eu, e nem NINGUÉM é igual ao Papa, porque só o Papa é vigário de Cristo.

Portanto, atrás de sua aparente e formal humildade de se declarar nem melhor, nem pior do que eu, se esconde o orgulho imenso de se declarar igual ao Papa.

Ponha-se no seu lugar, meu caro. Seja mais humilde, acatando o Papa como seu superior. Ele não é seu igual.

Sobre a desigualdade, repito-lhe: vá ao site da Montfort e consulte os textos da Escritura e dos Papa que lá estão citados, no artigo “Desigualdade & igualdade: considerações sobre um mito”.

Leia lá os textos dos Papas condenando a igualdade dos homens. Lá, você e seus amigos “teólogos” acharão também os argumentos de São Tomás condenando a igualdade e defendendo a desigualdade com que Deus fez todas as coisas.

Recomendei-lhe que lesse, sobre esse problema da igualdade dos homens, o que Deus diz, no Eclesiástico Cap. XXXVIII. Leia ainda o Capítulo XXXIII desse mesmo livro da Sagrada Escritura.

E você me diz que Cristo quis nascer numa família pobre, porque os homens são iguais.

Nisso você deturpa o Evangelho, porque não diz tudo o que o Evangelho diz.

De fato, Cristo quis nascer pobre, para nos mostrar que a riqueza não é o fim do homem e que ela diante de Deus não tem valor.

Mas você omite que Cristo também quis nascer de uma família nobre. Ele era descendente do rei Davi. Cristo quis nascer da família real dos judeus. Ele quis nascer pobre e PRÍNCIPE, para nos demonstrar que na sociedade devem existir pobres e príncipes.

E dos Reis Magos, Ele quis receber incenso, mirra e ouro. Portanto, Ele não foi tão pobre quanto você pensa. Tinha uma bolsa, que confiou a Judas. E tinha um manto tão rico que os soldados não quiseram rasgá-lo, mas preferiram jogar sortes para ver com quem devia ficar.

É verdade que Ele era tão pobre que não tinha onde repousar a cabeça. Mas seu manto era inconsútil. E também esse é um dos motivos por que os Padres têm que ter uma veste que seja um sinal externo de sua dignidade invisível.

Meu caro, você parece não saber ler bem os Evangelhos. Você e seus cooperadores da carta coletiva parece que o lêem só com o olho esquerdo. Foi a Teologia caolha de Frei Boff , de D. Casaldáliga, de D. Arns — o amigo de Fidel Castro –, a “teologia” de D.Morelli, que os tornou doutrinariamente caolhos. Pior: cegos.

Também sobre a idéia de Igreja, o igualitarismo da Teologia da Libertação teve influência. Vocês não admitem que Cristo instituiu uma Igreja monárquica e hierárquica. Querem uma igreja igualitária, como o ex-frei Boff escreveu no livro “Igreja, carisma e Poder”, página 207. E dizem que aprenderam isso na Bíblia, nos livros de Moisós.

Pois você poderá ler nos livros de Moisós que a Teologia da Libertação já tinha seus defensores no deserto, durante o Êxodo.

No livro dos Números — escrito por Moisós — vocês e seu amigos teólogos, inclusive o Padre André – poderão ler que Coré, Datan e Abiron se revoltaram contra a autoridade de Moisés e Aarão, dizendo que todo o POVO DE DEUS era santo, e que, por isso, Moisés e Aarão não tinham direito de governá-los.. E perguntavam a Moisés: Por que vos elevais vós sobre o POVO DO SENHOR(Num. XVI,3).

Que tal? Não parece Frei Boff interrogando as autoridades da Igreja?

Qual foi o resultado dessa tentativa de estabelecer a igualdade em nome do POVO DE DEUS?

Deus fez o fogo consumir Coré e todos os seus sequazes. Deus fez a terra engolir Datan e Abiran com todos os seus familiares e bens.

Que tal, meu caro …? A Teologia da Libertação é bíblica mesmo?

Responda-me, sem fugir das questões. Foi você que afirmou ter aprendido na leitura da História do Povo hebreu a doutrina da Libertação. E isto você não leu lá. Nem seus mestres de “teologia” explicaram, e nem lhe explicarão esse trecho condenatório da igualdade no POVO DE DEUS (você notou como até a expressão POVO DE DEUS calha para o que vocês dizem?).

Sobre os pobres , mais adiante trataremos.

3 — “Igreja pecadora”

Já lhe provei que a Igreja é santa e não pecadora. Pecadores são os seus membros.

No Credo, proclamamos: “Creio na Igreja una, SANTA, Católica e Apostólica”. Dizer que a Igreja é pecadora, sem distinções como você faz, é contra a doutrina católica.

Todavia, nessa carta “coletiva”, vocês fazem uma distinção, quando dizem que há membros pecadores da Igreja que pecam “em nome da Igreja e até em nome de Deus”.

Meu caro, nenhum católico pode falar em nome de toda a Igreja.

Só o Papa pode falar em nome da Igreja toda. Quando o Papa se pronuncia, está isento de erros quando usa as condições da infalibilidade definidas pelo Concílio Vaticano I.

Quando não as usa, o Papa pode cometer um erro ou até um pecado, mas isso ele faz pessoalmente, e nunca em nome da Igreja. Esta, enquanto tal, é sempre Santa e indefectível.

Você alude a um fato que teria sido um pecado escandaloso de um papa: o silêncio sobre o “latrocínio que sofreu (sic!) nossos irmãos judeus”, na Segunda Guerra Mundial.

Você deve ter querido dizer “genocídio” e não “latrocínio”. E devia ter escrito “sofreram nossos irmãos judeus” e não “sofreu” (o sujeito plural exige verbo no plural).

Cartas coletivas feitas às pressas contém facilmente erros de redação e de formulação (o erro de concordância pode ter sido apenas um lapso no digitar o texto; graves mesmo são os erros de doutrina e os erros filosóficos e históricos dessa “pastoral coletiva”). Ainda mais escritas por “teólogos”…

Hoje, há tantos que se dizem teólogos… Há, por aí, tantas Faculdades de Teologia… que só ensinam marxismo. E que desconhecem totalmente o tomismo!

Se Pio XII silenciou — sou um estudioso desse assunto, e acho que ele fez mal em não condenar alto e bom som o genocídio dos judeus feito pelos nazistas racistas e criminosos –, o mesmo pecado cometeram os que, em vez de condenar o comunismo com toda a energia, fizeram e promoveram uma política de aproximação com o comunismo. A Ost Politik de Casarolli e de Paulo VI – o qual, aliás, foi o principal auxiliar de Pio XII durante a Segunda Guerra Mundial tem a mesma culpa de omissão ou de cumplicidade.

Por exemplo, Frei Boff e Frei Betto elogiaram o comunismo existente na URSS pouco antes desse regime cair. Frei Betto vive elogiando o comunismo castrista de Cuba. Isso também é pecado de omissão e de cumplicidade com os inimigos da Igreja e da humanidade.

Mas, se Pio XII errou, errou pessoalmente, e não o fez em nome da Igreja. Você confunde os pecados pessoais de um Papa com a Igreja.

E se você foi aplaudido de pé por Bispos e Padres quando, numa conferência, declarou em alto e MAU som que a Igreja errou, isso só prova a ignorância doutrinária e histórica desses padres e Bispos. Ou pior, prova que eles participam do erro doutrinário que acusa a Igreja de ter cometido pecados, quando foi o clero — do qual infelizmente eles fazem parte — que os cometeu.

4 — “O projeto de Deus é o Projeto dos Fracos e dos Pobres”

Para a Teologia da Libertação — como para a heresia Modernista — Cristo não fundou uma Igreja.

Diz Frei Boff que Cristo teve apenas um “Projeto”. Ora, só se Deus fosse o Grande Arquiteto do Universo da maçonaria é que Ele faria “Projetos”.

Deus Nosso Senhor não projetou uma Igreja: Ele fundou a Igreja E a fez monárquica, pois deu seu governo a um só homem: o Papa. Desde já eu o previno de que negar que a Igreja seja uma monarquia é heresia que acarreta excomunhão, isto é, exclusão da Igreja.

Cristo fez a Igreja, além de monárquica, hierárquica, isto é desigual.

E a fez feudal. Lembro esse caráter feudal da Igreja para provocar a ira de seus mestres igualitários.

Além disso, Ele fundou a Igreja para todos os homens, sem excluir ninguém. Por isso, uma das notas essenciais da Igreja verdadeira é a de ser católica, isto é, universal, para todos.

Você me citará o texto do Evangelho no qual Cristo declara : “Bem-aventurados os pobres de espírito” (Mt V,.3). Certamente você estará pensando nos favelados da Vila Excluída. E se enganará redondamente.

Repare que Cristo não diz: “Bem aventurados os pobres”. Quem diz isso é o ex-Frei Boff.

Cristo chama de bem aventurados não todos os pobres, mas só os “pobres de espírito”.

E que quer dizer “pobres de espírito”?

São aqueles que, tendo ou não riquezas materiais, não dão valor a elas. Pobre de espírito foi, por exemplo, Abraão, que era materialmente muito rico.

Pobre de espírito foi Lázaro, que era muito rico também. Pobre de espírito foi São Luís Rei da França, que, embora milionário, desprezava as riquezas que possuía.

Ricos de espírito são os ricos que só vivem para o dinheiro e que consideram a riqueza como o supremo bem, e portanto consideram a pobreza como o supremo mal. Ricos de espírito são os favelados que só pensam em se apossar do que é dos outros e que julgam a riqueza o bem máximo. Ricos de espírito são os do MST, que invadem as terras alheias, colocando a riqueza delas acima da lei de Deus.

Ricos de espírito são aqueles “teólogos” que julgam que a pobreza é péssima.

Deus já os condenou, quando ensinou : “A pobreza é péssima no dizer do ímpio ” (Eclesiástico, XIII 30).

E Cristo Nosso Senhor nos disse: “Sempre tereis pobres entre vós” (Mt. XXVI, 11).

Portanto, os que falam em erradicar a pobreza estão contrariando a palavra de Cristo.

Para a Teologia da Libertação, o fato de alguém ser pobre o coloca num nível de si mesmo superior. O Pobre seria, pelo fato de ser materialmente pobre, um bem aventurado, um eleito, a fonte da sabedoria. E o ex-Frei Boff chega a considerar o pobre como fonte da revelação. É o que você pode ler no seu livro, do qual vocês retiraram quase todas as idéias que exprimiram, Igreja, Carisma e Poder. Na página 186, lê-se: “O pobre evangelicamente significa uma epifania do Senhor”. Epifania, isto é, revelação.

Na Teologia da Libertação, o pobre ocupa o lugar que era do proletário na teoria marxista, ou do ariano, na doutrina criminosa do nazismo.

Os sequazes da Teologia da Libertação manifestam seu amor ao pobre com o que cultivam contra os ricos. Eles se alegram mais em despojar o rico do que em saciar o pobre.

São Tomás ensina que o amor à igualdade é resultante do ódio à Sabedoria e ao Amor de Deus. Por isso todo igualitarismo — inclusive e especialmente o da Teologia da Libertação — cultiva o ódio da desigualdade: ódio aos superiores, ódio aos ricos, ódio a Deus.

A carta está longa demais. Se deixei algum ponto para trás, reclame, que volto a lhe escrever. Se a carta lhe foi útil, que Deus seja louvado.

Estou à sua disposição para discutir com você e seus amigos o que quiser, e o que eu souber — que é pouco –, mas que lhe será dado de bom coração. Que Deus os ilumine e os cure da cegueira (ou da caolhice) esquerdista, é o que lhe deseja

In Corde Jesu, semper,

Orlando Fedeli

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