Montfort Associação Cultural

15 de março de 2011

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Igreja, sacerdócio, democracia e outros assuntos essenciais

Por Carmen Elena Villa, Zenit

Destaque Montfort.org.br 

” Hoje vemos padres hipócritas, não

coerentes – e a observação se aplica a

todos os cristãos, não só aos sacerdotes;

encontramos uma desculpa para não

nos convertermos. “

 

  Entrevista com Pe. Laurent Touze, professor da Universidade da Santa Cruz

ROMA, segunda-feira, 14 de março de 2011 (ZENIT.org) – Será que a Igreja deve necessariamente adaptar-se a todas as mudanças culturais do tempo em que se encontra? É esta a maneira correta de dialogar com o mundo?

Diante da viagem de Bento XVI à Alemanha, em setembro próximo, e do manifesto que 143 teólogos assinaram há alguns dias, nas universidades germanofalantes, no qual pedem que o Vaticano autorize a ordenação sacerdotal de mulheres, o casamento dos padres e a eleição popular de bispos, ZENIT entrevistou o sacerdote francês Laurent Touze, da Pontifícia Universidade da Santa Cruz.

As assinaturas foram publicadas no jornal “Süddeutsche Zeitung”, com o título “Igreja 2011: uma pertença necessária”.

O Pe. Touze publicou, no Ano Sacerdotal, o livro “L’avenir du célibat sacerdotal” (“O futuro do celibato sacerdotal”), Parole et Silence/ Lethielleux.

ZENIT: A abolição do celibato é realmente a solução para a vida dupla ou para a dupla moral que alguns sacerdotes vivem?

Pe. Laurent Touze: A verdadeira solução para a vida dupla, para o farisaísmo do “faça o que eu digo, não faça o que eu faço”, é simplesmente a conversão. Muitos homens e mulheres de hoje intuem que a fé pode ser a resposta para o que eles procuram, muitas vezes sem perceber; mas se dão conta de que dizer “sim” a Deus lhes implicaria em mudar a vida moral, abandonar seus apegos próprios e isso seria muito custoso.

Hoje vemos padres hipócritas, não coerentes – e a observação se aplica a todos os cristãos, não só aos sacerdotes; encontramos uma desculpa para não nos convertermos. Nós, crentes, temos grande parte da culpa, se esses homens e mulheres não acham a alegria e a paz do encontro com seu Pai. Nossa coerência ambiciosa e humilde, com a fé, permitirá que Deus converta seus corações.

ZENIT: Geralmente as pessoas associam o celibato com a Idade Média. O senhor acha que o celibato é realmente uma medida conservadora, ou faz parte da Igreja e da vocação ao sacerdócio?

Pe. Laurent Touze: Trabalhos científicos como os do Pe Christian Cochini ou de Stefan Heid recordam que os sacerdotes dos primeiros séculos viviam, todos, a continência sexual: ou porque eram celibatários, porque eram casados ​​ou porque renunciaram ao matrimônio depois da ordenação.

O celibato para todos os sacerdotes latinos é como uma evolução desta antiga tradição. Renunciando ao matrimônio, que é um dom maravilhoso de Deus, o sacerdote não despreza a carne, a sensualidade. Na verdade, ele oferece o próprio corpo, como o Senhor Jesus se doou à Igreja. Com seu celibato, o sacerdote se torna adequado à Eucaristia que celebra. Porque diz em público, em nome do Senhor, “este é o meu corpo, este é o meu sangue, que será derramado”, também é chamado a oferecer publicamente sua vida a servir seus irmãos.

ZENIT: Um grupo de teólogos busca o sacerdócio feminino. É uma questão de igualdade?

Pe. Laurent Touze: Não, é uma questão de fé. A igualdade dos batizados é um princípio básico da Igreja. O que está em jogo aqui é que a Igreja não é uma criação nossa; ela vem de Deus, quem nos dá as características que não podemos mudar como se muda uma Constituição. Que o sacerdócio seja reservado aos homens faz parte dessas características. A Igreja sabe disso há muito tempo, e assim será para sempre.

ZENIT: Também se pediu a eleição popular dos bispos. É “antidemocrático” deixar essa decisão somente para o Papa?

Pe. Laurent Touze: O Papa não decide sozinho! Ele acompanha um longo processo de consulta, no país do bispo que quer nomear e, depois, em Roma. Nos últimos séculos, a Igreja tem conseguido, em muitos países, garantir a sua liberdade na decisão dos bispos, sem ter de se submeter aos chefes de Estado, a critérios políticos, ao invés de pastorais.

Eu não acho que seja um progresso o fato de transformar a escolha de bispos em uma eleição política ou sujeita a sondagens e manipulações. O que me parece fundamental é que o processo de nomeação permita que o povo de Deus tenha pastores fiéis e corajosos.

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