Montfort Associação Cultural

7 de janeiro de 2005

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Guitton, filósofo não católico, e amigo de Mons. Montini

Autor: Marcelo Fedeli

  • Consulente: Bernardo Guadalupe
  • Localizaçao: – Brasil

Caros amigos,

Me desculpe o tom dessa mensagem, causado pelo espanto com que li o texto sobre Jean Guitton, mas vocês ficaram loucos?

Quero dizer, tudo bem vocês serem mais tradicionalistas, não gostarem do Concílio do Vaticano II nem de Paulo VI, mas falar que o Guitton não era católico já é exagerar demais.

Acho que nem a TFP criticando o Maritain chegou nesse ponto. Porque vocês podem até não gostar do que o Guitton escreve, achar que ele fala umas bobagens e que ele se aproxima perigosamente do limite da ortodoxia (o que eu não acho de forma nenhuma), passando-o as vezes. Mas não se esqueçam que nesses 100 livros que ele escreveu, em todos ele dizia, com todas as letras, que era católico.

Cuidado para não repetirem o erro do bispo de Paris que condenou algumas teses de São Tomás: não estar de acordo com a sua interpretação do catolicismo não é não estar de acordo com o catolicismo.

Além disso, cuidado com a superficialidade com que esse assunto é tratado: faz parecer que existem mais intenções ideológicas do a busca pela verdade nesse artigo.

Em primeiro lugar, não é verdade que a obra de Guitton seja de difícil sistematização. Pode ser enorme, mas os últimos anos da vida do filósofo foram dedicados a isso. É impressionante, quase a totalidade de seus últimos escritos são uma síntese de suas idéias. Para citar dois nomes, Meu Pequeno Catecismo e Meu Testamento Filosófico. Todos aliás, bastante ortodoxos: a primeira parte do segundo livro citado foi escrita nessa ordem: por que acredito em Deus, por que acredito em Cristo, POR QUE ACREDITO NA IGREJA CATÓLICA.

Em segundo lugar, falar que ele é modernista é esquecer que muitos de seus livros são justamente críticas à esse movimento. De que eu tenho notícia, existem dois contra Loisy (A Igreja e o Evangelho foi escrito todo tendo em vista O Evangelho e a Igreja do líder modernista). Também é muito conhecido seu livro Jesus, também cheio de críticas à esse movimento.

Por fim, deve-se ler o livro Deus e a Ciência com cautela, tendo em vista outras partes de sua obra.

Esse é um livro de experimentação, de diálogo com novas áreas do conhecimento (atitude digna de um filósofo: não foi isso que fez São Tomás com Aristóteles?). Mas o ápice de seu pensamento filosófico é Le Temps et le Eternité chez Plotin et Saint Augustin, uma profunda crítica ao panteísmo.

Prezado Sr. Bernardo Guadalupe, salve Maria!

Perdoa-me pela relativa demora em responder ao seu e-mail, cujo envio lhe agradeço.

Entendo sua perplexidade diante do título, visto que, o catolicismo de Guitton, só fora oficialmente questionado quando da publicação da obra “La Vierge Marie”, no início dos anos 50, por Mons. Parente, da Cúria Romana, que o obrigou a suprimir certas passagens nas futuras edições.

Só não entendo, porém, sua antecipação aos argumentos que iremos apresentar, como indica o artigo, nos qualificando, a priori, de “loucos”, ao tempo em que, o senhor, admitiria até “achar que ele se aproxima perigosamente do limite da ortodoxia (limite que, o senhor não acha de forma alguma), passando-o, às vezes”. O senhor poderia exemplificar objetivamente essa sua afirmação? Ou seja, que pensamentos de Guitton “se aproximam do limite da ortodoxia ou ultrapassam-na, às vezes”?

Por outro lado, o fato de Guitton, em mais de 100 obras, dizer-se católico, o senhor há de convir, não basta como argumentação.Todos os modernistas sempre se disseram católicos.

Adiantamos, ainda, que não trataremos do assunto “com superficialidade”, e nem com “intenções ideológicas” outras, mas com a seriedade devida e somente em busca da verdade. Para isso, iremos comparar, objetiva e claramente, pontos fundamentais do pensamento de Guitton com o que ensina a Igreja.

Quanto à facilidade de “sistematização da obra de Guitton”, o senhor poderia resumir, por exemplo, o conceito de Guitton sobre Deus, “Presença”, Matéria, Dogma, Evolucionismo e Espiritismo?

O senhor afirma ainda que os livros de Guitton,“Meu Pequeno Catecismo” e “Meu Testamento Filosófico”, são “bastante ortodoxos”. Se o senhor me permite, gostaria de ressaltar que ser bastante ortodoxo”, não é característica de católico, muito menos de filósofo católico. A ortodoxia deve ser íntegra e plena, conforme ensina Leão XIII (Carta Pastoral Satis Cognitum, junho de 1896, item 20). Aliás, a maior parte dos modernistas foi “bastante” ortodoxa… alguns hereges chegaram a ser, talvez, até 99% ortodoxos.

Quanto ao “não” – ou até – “antimodernismo” de Guitton, o senhor poderia esclarecer como ele se posicionava diante da “nova teologia”, ou da encíclica “Pascendi”, de S. Pio X? (Estou supondo que o senhor conhece, e não superficialmente, essa encíclica).

Também não nos parece próprio o paralelo apresentado pelo senhor, ao se referir à obra “Deus e a Ciência”, entre “S. Thomas/Aristóteles” e o “diálogo” de Guitton “novas áreas do conhecimento”, pois, S. Thomas toma de Aristóteles o pensamento que, na ordem natural, está de acordo com os ensinamentos da Igreja, enquanto Guitton, naquele “diálogo”, aceita teses gnósticas, claramente contrárias aos ensinamentos da Igreja.

Não afirmei Guitton ser panteísta. De fato, ele nunca divinizou a matéria. Mas, o que o senhor me diz quanto ao conceito de Guitton, de que no homem há “une espèce de trou, un secret, et dans ce secret le mystère de l’esprit” ? Ou ainda, que um dos mais impenetráveis segredos da natureza é “un rien habité par un tout”? (“Journal de ma vie” p.303 – 304, op. cit. no artigo).

Mais uma vez agradeço seu e-mail esperando poder continuar este diálogo que, estou certo, muito elucidará nossos leitores.

In corde Iesu semper

Marcelo Fedeli

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