Montfort Associação Cultural

26 de agosto de 2004

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Guerras santas

Autor: Orlando Fedeli

  • Consulente: Fernando
  • Idade: 32
  • Localizaçao: Lisboa – Portugal
  • Escolaridade: Superior concluído
  • Religião: Católica

Sou católico por convicção e fé, admito a doutrina da minha Igreja como verdade de Deus e gostaria que me esclarecessem à luz da doutrina católica se existe guerras santas. Eu sei que Cristo é a paz, Deus ama a paz, e a Igreja é sempre pela paz, mas pergunto se não há excepções. Não se justificaria, aos olhos de Deus, uma guerra para libertar um povo da tirania de um déspota, sanguinário, e que gosta de ser adorado como um deus ? não se justificaria uma guerra para trazer pão e prosperidade a um povo subjugado há décadas ?

Obrigado pelos esclarecimentos, e parabéns pela vossa obra

Prezado Fernando, salve Maria!

Muito obrigado por suas palavras de elogio a nosso trabalho. Esse apoio nos incentiva a permanecer na luta pela defesa da Fé, hoje atacada por todas as partes, e mesmo do interior da própria Igreja. Disse São Pio X que os piores inimigos da Igreja estão dentro dela…

E essa luta em defesa da Fé é uma forma de guerra e de guerra justa, feita com argumentos e não com espada material, mas com a espada da palavra de Deus.

Em sua missiva, você levanta o problema da guerra justa.

Para o pacifismo atual, toda guerra é má. Por isso, os pacifistas estão prontos a fazer até guerra ao belicismo. O que demonstra sua contradição. Nada mais hipocritamente belicoso do que um pacifista.

Dizer que Cristo simplesmente quer a paz, pode enganar, pois simplifica o seu ensinamento.

Cristo disse que nos deixava a sua paz e não a paz do mundo.

“Eu vos deixo a paz, dou-vos a minha paz; não vo-la dou como a dá o mundo” (Jo. XIV, 27) Logo, há que distinguir a paz de Cristo e a paz do mundo.

A paz de Cristo não é uma simples ausência de guerra, uma ausência de luta. Por isso, Nosso Senhor Jesus Cristo nos disse também: “Não julgueis que vim trazer a paz à terra. Não vim trazer a paz, mas a espada” (Mt. X, 34).

Como explicar isso?

Santo Agostinho definiu a paz como a “tranqüilidade na ordem”. A paz não é a mera tranqüilidade. Julgar que a paz é simplesmente a tranqüilidade, é ilusão, pois essa é a paz do preguiçoso e do covarde. É a paz do cemitério, da ausência de vida.

No cemitério há tranqüilidade, mas a da morte.

Numa sociedade tiranizada pode haver tranqüilidade material, ausência de assaltos e de lutas, mas só porque a sociedade está garroteada pela tirania, que não permite nenhuma ação.

A verdadeira tranqüilidade não é a da morte, ou a do manietamento forçado, mas sim a tranqüilidade que resulta da ordem.

Ora, ordem é disposição de elementos em função de um fim, cada um em seu devido lugar, fazendo o que deve, e recebendo o que tem direito.

Existe ordem na sociedade, quando cada elemento está em seu devido lugar, fazendo o que deve, e recebendo da sociedade aquilo a que tem direito. A ordem exige a justiça. Por isso, diz Deus na Sagrada Escritura que “a paz é o efeito da justiça“.(‘Opus justitiae, pax’). Não há paz sem justiça. Não há tranqüilidade sem ordem. Não há ordem sem justiça. Não há paz, sem justiça, sem ordem, sem tranqüilidade. Por isso Deus disse ainda: “Não há paz para os ímpios, diz o Senhor” ( Is. XLVIII, 22). A ordem implica necessariamente desigualdade. Na igualdade, não há ordem. Por esse motivo, as sociedades modernas — que são por definição igualitárias — não tem ordem, e não podem ter paz.

A paz social é comparável com a saúde. Esta é a resultante da colocação dos órgãos do corpo humano em seu devido lugar, cada um executando perfeitamente a função que deve, e recebendo aquilo a que tem direito. Caso falte uma dessas três condições, a pessoa não tem saúde, e a tranqüilidade física desse organismo é perturbada pela dor ou pelo incômodo. Assim, quando se dá uma grave desordem orgânica, é preciso a intervenção cirúrgica para restabelecer a ordem física.

Também no campo social, quando há uma grave desordem, fica necessário usar o “bisturi” social– a espada de que falava Cristo — para restabelecer a ordem violada.

Portanto a guerra– como as operações cirúrgicas — podem ser necessárias, para restabelecer a justiça e a ordem.

Se comparamos a guerra com a paz, evidentemente a guerra aparece como um mal e a paz como um bem.

Entretanto é preciso compreender a guerra como um mal relativo e, por vezes necessário.

Também fazer uma operação do coração é algo terrivelmente ruim se comparado com a saúde. Mas a morte é um mal pior ainda que a operação do coração.

A operação do coração pode ser um mal necessário. Comparado com a saúde a operação é um mal. Comparada com a morte a operação é um bem. Assim também a guerra: ela é, por vezes, um mal necessário, para evitar um mal ainda maior.

Há um exemplo claro da justiça da guerra, em nossos tempos.

Adolf Hitler, com sua doutrina criminosa e racista, escravizou a Alemanha e executou o genocídio dos judeus. Foi justo as nações aliadas fazerem guerra ao criminoso regime nazista. Portanto, há guerras justas. Do mesmo modo, foram justas as cruzadas feitas para proteger os cristãos que peregrinavam a Jerusalém, e que eram cruelmente impedidos de praticar atos de fé pelos turcos muçulmanos que haviam invadido as terras cristãs, e massacravam os que não se submetiam à lei de Maomé. As Cruzadas foram guerras defensivas, e a defesa da vida e da fé é sempre um direito.

(É claro que esta defesa da guerra justa e da guerra defensiva, nada tem a ver com a atual ameaça de guerra dos Estados Unidos ao Iraque, cuja causa é a luta entre judeus e árabes pela posse da Palestina. Mais: é a luta pela posse do monte Sião, onde os judeus querem reconstruir o Templo, e onde os árabes querem manter a mesquita de Omar. E ainda se ousa dizer que toda guerra tem motivo econômico. No monte de Sion não há nem ouro, nem prata, nem petróleo, nem platina. Há lá apenas um motivo religioso).

Portanto, há guerras justas.

Na Sagrada Escritura se fala das guerras justas de David, de Judas Macabeu, por exemplo. E houve grandes santos que fizeram guerras e cruzadas: São Luís rei de França fez duas cruzadas, e Santa Joana d’Arc foi a “santidade em armadura”, a “virtude revestida de couraça”.

E termino então citando uma frase dessa grande santa nada pacifista: “Só se encontrará a paz na ponta de uma lança”.

In Corde Jesus, semper,
Orlando Fedeli.

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