Montfort Associação Cultural

7 de outubro de 2005

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Graças a Deus, que ainda existe gente como o senhor neste mundo, Professor Fedeli!

Autor: Orlando Fedeli

  • Consulente: Maria
  • Idade: 42
  • Localizaçao: Bradford – EUA
  • Escolaridade: Pós-graduação concluída
  • Profissão: Dona de Casa
  • Religião: Católica

+JMJ

Caríssimo Professor Orlando Fedeli, Salve Maria!

Louvado seja Deus por colocar no mundo pessoas como o senhor e também a sua Associação, um verdadeiro oásis de sabedoria e cultura nesse mundo que parece estar tomado pelas trevas da ignorância e da mediocridade!

A página da Associação Montfort me foi recomendada por um rapaz que conheci há pouco tempo, num forum de discussão, Bruno Santana, que Deus o abençôe abundantemente! Através dele, entrei em contato com o Paulo Ghetti aqui de Boston (pois também moro em Massachusetts).

Hesitei um bocado antes de lhe enviar uma missiva, pois me sinto uma “formiguinha” diante do seu saber, mas sei que, como professor, o senhor tem misericória dos ignorantes, por isso me animei a escrever, pois até pouco tempo pensava que era a única no mundo (ou uma das únicas) a pensar que existe algo errado em nossa querida e amada Igreja Católica Apostólica Romana. Pensei que era retrógrada, que estava me apegando doentiamente a um passado que não voltava mais, até conhecer, mesmo que só através da internet, pessoas como o Bruno, o Paulo e também o senhor e seus alunos. Seus escritos me maravilham a cada dia, alimento sólido e bom para qualquer Católico que preza sua Fé. Como é bom ouvir a Verdade ser dita novamente, e em alto e bom som, sem pieguices, sem “diplomacias”, sem a hipocrisia imposta pelo ecumenismo. Quando a página me foi recomendada, disseram que alguns dos artigos e cartas poderiam parecer chocantes… que bom que é assim!!! Jesus também chocou muita gente, não veio ao mundo para agradar ninguém, tanto que foi crucificado!! E nunca foi politicamente correto, muito pelo contrário!

Peço perdão por ocupar seu tempo, tão precioso, mas senti a imensa necessidade de compartilhar, de trocar idéias, desabafar e escrever uma mensagem para alguém que, sei, vai entender o que sinto. Gostaria de contar um pouco da minha história:

Sou natural do Rio de Janeiro, tenho 42 anos e moro há 7 anos aqui nos EUA pois conheci um americano na internet, nos casamos e agora temos um filhinho de 3 anos. Tenho que dar sempre graças a Deus por ser Católica, pois se o sou, é puramente pela Sua infinita Misericória e Graça. Sou Católica praticante desde criancinha… e praticamente a única na família. A grande maioria dos meus parentes é atéia, alguns dos meus tios foram comunistas militantes (agora já falecidos). Todos foram batizados e fizeram Primeira Comunhão forçados por minha avó paterno (que faleceu antes de eu nascer). Meu avô paterno era Kardecista (e isso foi já há mais de cem anos atrás, pois meu pai nem é um dos filhos mais moços e já está com 83 anos!). Morávamos num bairro humilde, de gente bem simples… e praticante de umbanda, da qual minha mãe era simpatizante. Meus tios ateus, todos eles totalmente fanáticos (o senhor já deve ter reparado o quanto os ateus são fanáticos na tentativa de defender sua “descrença”), debochavam muito de mim e da minhas devoções, mesmo quando era ainda bem pequena. Faziam piadas, diziam que Jonas não podia ter ficado numa baleia que tem garganta pequena, que, se Jesus tinha “subido aos céus”, sendo o universo infinito, estava ainda subindo e isso tudo às gargalhadas. Davam-me de presente de aniversário estátuas de demônios que apanhavam em trabalhos de macumba nas encruzilhadas e se riam quando eu corria apavorada, diziam que aquilo não era nada, só uma estátua ridícula para fazer medo a crianças ingênuas como eu. Mais tarde, chamavam-me de “papa-hóstias” e outros epítetos do gênero. A Bíblia, segundo eles, era só “história da carochinha” e quem acreditava em tais baboseiras era muito ignorante. Mas, mesmo assim, nunca conseguiram abalar minha Fé.

Frequentava com horror festas de umbanda e, mesmo ainda com meus 4 ou 5 anos, via perfeitamente que aquelas pessoas não estavam possuídas por nenhum espírito, a maioria só fingia e, se alguma estivesse mesmo possuída, só poderia ser por um espírito mal. Isso me dava muito medo, mas tinha que ir onde me levavam, sendo tão pequena…

Os únicos exemplos de Catolicismo que tive – e que me influenciaram favoravalmente – foram primeiro o de minha madrinha, a única irmã de meu pai (tinha oito) que rezava e acreditava em Deus… os irmãos “toleravam” suas devoções, pois a mesma sofria de um caso muito grave de epilepsia que afetava o seu cérebro de tal maneira a quase torná-la uma retardada. E, para eles, religião era mesmo coisa de gente que tem problema mental… Mas ela falava muito em Santa Teresinha, e morava ao lado da Basílica desta querida Santinha das Rosas. A outra influência veio de minha avó materna, que morava conosco. Não frequentava Missas, mas rezava muitos terços e era admiradora incondicional de Dom Marcos Barbosa, do qual não perdia um programa no rádio, um livro ou um artigo no jornal. Fazíamos juntas os autos de Natal do bom monge, conforme seu livro “A Noite Será Como o Dia”. Aliás, Dom Marcos foi um dos poucos a criticar duramente “Betos e Boffes” logo que começaram a se manifestar… mas foi chamado de “padre careta”, “ultrapassado”, “xarope”… O estilo de Dom Marcos me lembra muito o seu, professor, vejo muitos pontos em comum entre os dois. O bom monge Beneditino também não tinha medo da verdade, e também era um admirador da língua e da literatura francesa (e já vi que o senhor também o é… e também me incluo aí, muito humildemente!). Suas críticas eram sagazes e seus artigos, além de poéticos, traziam um fino senso de humor (assim como os do senhor! Rio muito lendo seus artigos sobre o Presidente Lula e a situação atual do país). Tive também o privilégio de “herdar” muito material religioso de primas de segundo e terceiro grau que iam falecendo… e meus tios tinham o pouco de bom senso suficiente para não jogar fora e entregavam tudo aos meus cuidados. Caixas e mais caixas de livros de oração, missais, santinhos, lembranças de Primeira Comunhão, imagens de santos, a maioria do material tem mais de cem anos e ainda conservo comigo (e trouxe tudo do Brasil!!!).

Meu pai, na época, não era mais ateu e sim agnóstico (!), mas sempre incentivou muito o meu gosto pela leitura e pelos estudos e me presenteava com muitos livros… Apaixonei-me pela Bíblia Sagrada por causa de uma coleção de jornaleiro, para crianças, intitulada “Histórias da Bíblia”. Depois ele me presenteou com a “História de uma Alma”, que mudou minha vida e influencia minha espiritualidade até hoje (e espero que continue influenciando pela vida inteira, pois é um verdadeiro manual de santidade de uma santidade “tangível”, não aquela santidade distante, “melosa”, romântica, sei que o senhor sabe do que estou falando). Por decisão própria, graças a Deus respeitada por meus pais, estudei em colégio de freiras, primeiro o Santa Dorotéia, depois o Instituto Padre Leonardo Carrescia. Ainda peguei o tempo em que só havia meninas no colégio ainda se respeitava professores, e disciplina não era só uma palavra perdida num dicionário qualquer… Mas as mudanças foram chegando… aos pouquinhos, e me deixando um bocado confusa (pois não tinha ouvido falar de Concílo Vaticano II). Admirava muito as freiras do colégio, e a princípio até pensava em ser freira… mas as freiras… achava lindo aquela vida de oração e também vestir aquelas “roupas de santos”… mas, de repente, a maioria das freiras começou a usar vestidos estampados, maquiagem e cabelos pintados… a nossa querida diretora, já muito idosa, se aposentou vaticinando: “eu já era!!!”.. usou o hábito até morrer, e foi enterrada com ele. Mas, se as freiras eram agora como todos, qual era o sentido de ser freira? Repetia para mim mesma a frase que o senhor também repete “o hábito não faz o monge, mas ajuda….” e como ajuda, caro professor!!! Quantas almas não se perderam por causa da “falta de hábito”, quando a vida sacerdotal e religiosa passou a ser encarada mais como uma profissão do que como forma de vida!!!

Havia em nossa escola uma linda e enorme capela (quase uma igreja!). Pois a nova diretora até quis mandar demolir, pois “era desnecessária” (no tempo da nossa querida madre “que já era”, íamos à capela todas as manhãs, adorar o Santíssimo!!). A capela não foi demolida… devido a muitos pedidos para que ficasse… mas nosso acesso à ela ficou um bocado restrito. A diretora preparou uma “salinha” para que adorássemos o Santíssimo… o Sacrário em cima de uma coluna em estilo romano, paredes nuas e, no chão, almofadões espalhados, pois a gente deveria “se sentir à vontade com Jesus”. Sempre me recusei a aderir a essas modernidades, alegando problemas de coluna. Ou ficava em pé ou arranjava um banquinho quando não estava ajoelhada no chão (pois mesmo na capela adotou-se o hábito de fazer os alunos se sentarem no chão ao invés de nos bancos, “mais próximos do Santíssimo”, maior “intimidade com Deus”…). Também começaram alguns traços da RCC… a freira ensinava canções (do Padre Zezinho e outros do gênero) e devíamos cantar fazendo gestos. Achava aquilo ridículo e me recusava a gesticular… um dia, a freira se aborreceu comigo e me obrigou, como castigo, a cantar e gesticular na frente da turma toda.

Nas Paróquias, começavam os Grupos Jovens… já adolescente, até pensei em me juntar a um grupo desses, pois pensei que era uma boa oportunidade de conversar sobre religião, de orar, de fazer amigos Católicos… Passei a observar os grupos, a reunião era antes da “Missa Jovem”… vinham de uma sala ao lado da sacristia e passavam pelo Santíssimo sem nem sequer notar que estava ali… sempre aos cochichos, aos risos, achei que não era conduta própria e desisti de me juntar a grupos como estes. Depois me disseram que muitos jovens entravam nos grupos só para arranjarem namorados ou namoradas e aí saíam, ou seja, de religião havia muito pouco nesses grupos (se é que havia alguma!). Surpreende-me este meu horror natural pelas “coisas modernas”, pois não sofria a influência de ninguém… atribuo esta graça totalmente a Deus, que quis me proteger do modernismo e de suas terríveis heresias. Falando nisso, chocava-me e, porque não dizer, causavam-me revolta também a infame Teologia da Libertação que parecia ter tomado conta da Igreja. A CNBB virou partido político, padres só falavam de política nas homilias e a Campanha da Fraternidade, um verdadeiro escândalo!!! Temas totalmente “materialistas”, músicas horrorosas (tanto canções quanto letras), até as procissões que amava tanto viraram passeatas, com fiéis carregando cartazes “de ordem”. Era demais!!! Muitas vezes tive ganas de me retirar de uma Missa no meio, tamanha a revolta que sentia de ouvir tais discursos políticos (e de esquerda!!) dentro das igrejas.. e nem se falava mais em santos (as imagens desaparecendo dos altares…. as paredes ficando nuas, altares sendo demolidos para darem lugar a mesas e cadeiras… e as pessoas fazendo a jenuflexão para uma cadeira! Sacrários o mais escondidos possível… Gostava de frequentar lojas de artigos religiosos quando pequena, pois sempre gostei de arte sacra e admirava estátuas de santos e também santinhos (que, segundo minha mãe, os padres distribuíam no passado quando as pessoas “pediam a bênção” e lhes beijavam as mãos, herdei caixas e mais caixas desses belos e inpiradores santinhos)… pois estes sumiram e no lugar deles, cartões com pensamentos meio em estilo “nova era” e fotos de flores ou paisagens campestres. Pensei cá comigo: acabou-se o culto dos santos, instalou-se o culto da natureza….

Sempre fui muito tímida e isolada. Tinha muito poucas amigas e vivia a maior parte do tempo em casa, lendo – a minha verdadeira paixão. Lia todos os clássicos da literatura mundial que me caíam nas mãos. (Há alguns anos atrás descobri que sofria do que se chama de Fobia Social, tomo medicamentos pois realmente sofro terrivelmente dos nervos e tremo só de pensar em falar em público ou mesmo ir a uma festa.. .só na igreja me sinto à vontade!!!). Por conta das leituras, era uma menina muito romântica e, de certa forma, criei um mundo ideal em minha mente, achava que o mal era uma exceção, que a maioria das pessoas queria ser santa… alías, por conta do meu problema nervoso, fui levada a uma neurologista quando tinha uns 11 anos de idade e esta, depois de me crivar de perguntas esquisitas, vaticinou o meu mal: “quer ser santa”. Que mundo é esse onde querer ser santo virou um problema psiquiátrico???

Tinha muita vontade de estudar filosofia e teologia… morava quase ao lado da Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Um dia fui visitar o campus e notei que no andar dedicado ao curso de filosofia, havia fotos do Che Guevara por todos os lados, além de bandeiras do PT e afins… Desisti da filosofia e cursei Administração de Empresas (era a profissão da moda naquela época, início dos anos 80) e depois Letras (Inglês e Respectivas Literaturas). Foi na faculdade que realmente me deparei com o mundo e com a sua dura realidade: as pessoas mentiam, enganavam, havia perversões de todo tipo, parecia que ninguém queria ser santo, muito pelo contrário!!! Querendo “ser aceita”, acabei me afastando cada vez mais dos meus princípios e “moral antiquadra”. Passei a não frequentar mais Missas aos domingos, só quando sentia vontade… Foi quando veio um padre novo para nossa Paróquia, um rapaz jovem, que estava sempre de jeans e de camisa aberta até o meio do peito. Anunciaram um “curso de Bíblia” e resolvi participar, pois sempre gostei muito de estudos Bíblicos… o padre estava lá, sentado de maneira desleixada, fumando, com aquela camisa meio aberta, dizendo que “a história da maçã é pura fantasia”, parodiando de forma infame uma marchinha de carnaval de conteúdo bem pouco ortodoxo. Além do mais, resolveu fazer uma “reforma” na igreja centenária. Quando terminou a reforma, no lugar do lindo altar cheio de santos barrocos e Sacrário no centro, a entrada para a sacristia, coberta apenas por uma cortina, e a “mesa” na frente, servindo de altar. O Sacário foi embutido na parede, ao lado da porta (graças a Deus essa arquitetura horrenda foi corrigida e a porta foi eliminada, cedendo lugar a um lindo Crucifixo. Nas paredes nuas, alguns nichos tão rasos que faziam as pequenas estátuas de santos caírem e se espatifarem. Pensei, com mistura de tristeza e revolta, que era o fim da Igreja que tanto amava e assim A deixei por um bom tempo. O padre em questão acabou tendo um caso com uma garota do Grupo Jovem, que engravidou, ele deixou a batina (aliás, essa expressão está meio deslocada, pois ele nem usava batina!) para se casar com ela, e estavam sempre lá nas ocasiões festivas, têm agora vários filhos. Para o senhor ver como a “falta de hábito” pode causar a perdição de muitas almas!!!

Por conta também de meu problema nervoso, fiquei revoltada com Deus. Culpava-O pela minha desgraça, por não conseguir um bom emprego, por não ter namorado, enfim, por todos os meus males. Ainda não tinha compreendido a “linguagem da Cruz”…. Parei até de rezar. Fui procurar “cura” para minha doença por todos os lados: homeopatia (desisti logo!!), psiquiatria e psicologia (os demônios do mundo moderno, também desisti logo, com horror total!!!), fui a uma igreja pentecostal assistir a um culto (e foi quando vi pela primeira vez em minha vida pessoas “orando em línguas”, nem sabia do que se tratava!), levei “passes” em centros espíritas kardecistas (mas não acreditei em nada daquilo), li muito sobre ocultismo, passei a ser fã dos livro de Paulo Coelho, recém lançados e “na moda”. Fui até a cartomantes! Obviamente, só piorei meu estado neste mar de lama diabólica… Deus esperava pacientemente minha volta, e suportava com amor de Pai as minhas injúrias e a minha raiva irracional.

Deus me chamou de volta escrevendo certo por linhas tortas… um dia, no auge de um período de muita depressão e pensando que minha vida não tinha sentido algum, vi nos classificados do Jornal do Brasil um pequeno anúncio que dizia “Mensagem da Virgem Maria!”. Tratava-se das visões de Medjugorje (que hoje, graças à sua página, sei que são totalmente falsas!). Pensei, com uma ponta de sarcasmo, “então Nossa Senhora anda enviando mensagems… e pelo jornal!! Vamos ver do que se trata!!”. Havia um endereço para “maiores informações” e lhes enviei uma carta. Recebi uns folhetos e a famosa estampa com o rosto de Nossa Senhora das Graças que eles usam muito. Quanta doçura naquele olhar, que beleza naquele rosto! As mensagens não me impressionaram muito, repetitivas e de conteúdo um tanto vazio, mas a imagem de Maria me tocou profundamente e resolvi “ver como andavam as coisas na igreja”. Fiquei espantada de ver como o número de Missas tinha diminuído! Quando deixei de frequentar, havia pelo menos 3 Missas nos domingos em praticamente todas as Paróquias e as igrejas ficavam abertas o dia inteiro durante a semana. Não haviam se passado nem uns 5 anos e agora era sorte ter duas Missas num domingo e as igrejas viviam fechadas fora dos horários de Missa, no estilo das igrejas protestantes… Resolvi assistir algumas Missas em honra da “Rainha da Paz”, onde até faziam procissões com a imagem de Nossa Senhora segundo as aparições já citadas e se liam as mensagens no final da Missa. Foi aí que entrei em contato com a RCC!!! Fui “exorcizada” por um padre na Catedral do Rio de Janeiro e recebi o “batismo do espírito santo”. No final da Missa, os fiéis faziam uma fila e eram ungidos com óleo na testa, enquanto leigos estendiam as mãos e oravam “em línguas” sobre nós, o que me lembrou muito os “passes” dos centros espíritas kardecistas. De vez em quando uma pessoa caía no chão gritando… diziam para não prestar atenção, que era o diabo tentando atrapalhar o culto… Os leigos estilo “obreiros” “profetizavam”, de vez em quando diziam, por exemplo “há alguém aqui que tem raiva do pai, que tem muito ressentimento, mas que vai ficar curada!!!” Aí uma pessoa qualquer levantava o braço e dizia “sou eu!!!”. “Aleluia!!!! Aleluia!!! Amém??? Amém!!!!” “Glória a Deus!!!”.

A princípio, não sabia o que pensar de tudo aquilo. Cheguei a conclusão de que deveria ser um contra-ataque da Igreja aos cultos pentecostais que estavam pipocando por todos os lados … e também, talvez, uma alternativa à Teologia da Libertação para os que gostavam mais de uma Igreja “espiritual”. Que caos, não é mesmo, professor?

Mas também não me sentia a vontade em tal atmosfera… as músicas me agradavam e até me levavam às lágrimas algumas vezes, mas só isso. Fui num show de uma banda Católica numa casa de espetáculos e, em certo momento, todos começaram a cantar “em línguas”. Este “dom” não fazia parte dos Sete Dons do Espírito Santo que tinha aprendido no meu velho Catecismo. Comecei também a cantar “blá, blá, blá”, mas olhava ao meu redor e me perguntava se era a única a não ser contaminada por aquele verdadeiro “transe coletivo”, lembrei-me do culto pentecostal que havia assistido há alguns anos atrás. Será que eu era a única renegada que não recebia os dons do espírito? Mas não me importei com isso, ainda tentei frequentar uns grupos de oração onde havia até um tipo de “louvor” chamado “pingue pongue”, mas, mais uma vez, era tudo muito “moderno” para o meu gosto, mais para show do que para devoção. Continuava pensado que a culpa era minha por ser tão retrógrada, tão antiga, os amigos diziam que eu falava “como uma velha”…

Resolvi participar de grupos mais conservadores tais como a Legião de Maria e o Apostolado da Oração, mas mesmo estes me decepcionaram depois de algum tempo, pois fofocava-se e fazia-se mais festinha do que se rezava (pelo menos nos que participei, não posso generalizar!). A Igreja foi posta nas mãos dos leigos, os padres nunca tinham tempo para nada… só para assistir futebol e novelas… Sempre gostei de me confessar com frequência, fazendo uso desta maravilhosa cura para a alma que Nosso Senhor nos deixou como herança! Mas os padres reclamavam… “que tanto pecado é esse??? Não chateia!!! Isso é exagero!!! Não tenho tempo!!! Vai procurar um psicólogo, eles é que dão conselhos!!” Além disso, notei que os confessionários haviam desaparecido – ou então ficavam lá, totalmente obsoletos, enquanto eu era obrigada a me confessar em pé, apoiada numa mesa da sacristia, às pressas minutos antes da Missa, com pessoas entrando e saindo o tempo todo. Sempre quis ter um Diretor Espiritual, mas se já era difícil até conseguir padre para ouvir uma confissão, imagine se algum teria tempo para isso!! Os corpos dos mortos não eram mais encomendados… alguns leigos da “Pastoral da Esperança” rezavam tropegamente algumas orações e borrifavam um pouco de água benta no corpo do defunto… a não ser que se tratasse de defunto célebre… aí havia (e ainda há!) Missa de corpo presente e tudo, mesmo o defunto sendo ateu confesso! Mas que paradoxo é esse, uma Igreja que “fez opção pelos pobres” só encomendar corpo de gente rica e famosa???

As “aparições” estavam por todos os lados e me falaram maravilhas da Vassula Ryden.. li todos os seus livros, mas não me impressionaram positivamente… mesmo assim, continuei curiosa a respeito de aparições e me ofereci como intérprete quando uma “vidente” australiana foi fazer palestras no Rio de Janeiro. Poderia escrever um livro inteiro sobre esta experiência, os dias que passei praticamente ao lado da “vidente” o tempo todo. Senti algo que realmente parecia divino. Depois de pouco tempo, a vidente foi excomungada pela Igreja e desmascarada, o que outra vez me abalou muito a Fé.

Mas foi por conta das traduções de alguns livretos da vidente que comprei um computador… e depois passei a acessar a internet e um mundo se abriu na minha frente. Conheci meu marido numa lista de discussão sobre um músico. Ele foi me visitar no Brasil, vim aqui visitá-lo, ficamos noivos e nos casamos. Meu marido foi batizado em igreja protestante, mas embora acreditasse em Deus, não seguia nenhuma religião. Eu agora, depois da desilusão com a vidente, tinha me tornado o que chamam aqui nos EUA de “Cafeteria Catholic”, “Católica a la carte”, fazia a minha própria religião, as minhas próprias regras… Não ia à Missas todos os domingos e dizia a meu marido que na Igreja Católica era assim, havia muitas regras mas ninguém as seguia muito à risca… que era tudo muito democrático…. Até que assisti ao filme do Mel Gibson, Paixão de Cristo e redescobri a Cruz e sua importância para a vida de todos nós, salvos a preço de sangue por Nosso Senhor. Voltei a meditar na Paixão, como fazia quando era menina e até pintara um “véu de verônica” num lenço de meu pai. A imprensa dizia que o Mel Gibson era Tradicionalista… eu só sabia que existia um grupo do Padre Lefebvre… que havia sido excomungado, mas isso há muitos anos atrás…. Passei a frequentar foruns e listas de discussão sobre o assunto e fiquei maravilhada de ver que não era a única a discordar da Teologia da Libertação, da RCC e das mudanças pós-Vaticano II. Vi que não estava sozinha, o que foi muito reconfortante. E um dia me disseram que religião não tem nada a ver com sentimento, mas sim com fé… e quanta diferença isto faz!!! E é tão óbvio!! Os sentimentos, assim como as paixões, vêm e vão como o vento… a Fé tem que ser sólida e não depender de nada instável!!

Convidei meu marido a se tornar Católico, e ele aceitou de bom grado. Via meu entusiasmo (no sentido original da palavra). Mesmo no tempo de “Católica relapsa”, era difícil conviver comigo sem se envolver com vida de santos, devoções, rosários, leituras da Bíblia, imagens de santos por todos os lados (e faço até trabalho de restauração de imagens). Por incrível que pareça, no caso de um protestante (ainda que não praticante), o que mais agradou meu marido na Igreja Católica foi o amor que temos pela Virgem Maria!!! O pároco deu-lhe aulas particulares de Catecismo, mas eu o sabatinava todos os dias e o próprio padre reconheceu que pouco ensinou, que o mérito era meu… Assim, com a graça de Deus, meu marido recebeu a Primeira Comunhão e foi Crismado no ano passado – a última pessoa a ser ser recebida na Igreja naquela Paróquia, que foi fechada pela Arquidiocese dois meses depois por conta da “reconfiguração” das paróquias aqui em Massachusetts. Que coisa mais triste esta reconfiguração, produto do pecado de sacerdotes, resultado de tudo isso que vivemos na “era Pós-Vaticano II!!!

Deus me deu um marido de ouro e só tenho a agradecer, creio que se alguém nesta nossa família se tornar um santo, será com certeza ele!! De vez em quando ainda fica confuso, mas quem não ficaria com a Igreja assim tão dividida? Os paroquianos foram para outra igreja, que estava abrigando várias paróquias fechadas e o Pároco era um rapaz novo, muito simpático, muito amável… mas será que essas qualidades bastam no caso de um Padre? Fã incondicional de beisebol, após à Missa ficava gritando no adro “Go Rex Sox!!!”. Uma vez fez um sermão inteiro segurando uma bola de futebol americano, que jogava para os coroinhas e para o diácono e recebia de volta… por pouco a Missa não se torna um jogo. Todos achavam graça… “Ah, ele quer conquistar os jovens!”… Não é se igualando a jovens que os conquistamos, não é verdade, Professor Fedeli? E padre não está ali para agradar ninguém (a não ser Nosso Senhor), não é animador de programa de auditório!!! Empolgada com o ano dedicado a Eucaristia (que sempre amei muito), na minha ignorância, pensei que seria bom me tornar Ministra da Eucaristia (não sabia também que o nome tinha mudado… e ninguém falou nisso). Ofereci meus préstimos, que foram aceitos com entusiasmo. Uma reunião com a pessoa responsável pela Liturgia na paróquia (não era o padre não, claro…) e lá estava eu distribuindo a Comunhão ou oferecendo o Cálice com o Sangue Precioso (pois aqui na Arquidiocese adotou-se o costume de disponibilizar a Comunhão nas duas espécies). Um dia, assistindo a um programa na TV Católica daqui, a EWTN, vi uma entrevista com o Cardeal Arinze, dizendo que não deveria haver Ministros Extraordinários da Comunhão, a não ser em casos de extrema necessidade, para Missas com milhares de pessoas, e mesmo assim apenas se não se encontrassem diáconos e padres suficientes. Quase caí da cadeira!!! Senti um frio na espinha, achei que estava cometendo então grave pecado. Fui no convento dos Carmelitas Descalços e pedi para falar com o “padre mais conservador que tivessem”. Realmente, um excelente sacerdote. Ele me explicou que não era pecado, mas que realmente não era certo ter Ministros Extraordinários com dias marcados e em todas as Missas. Aconselhou-me a conversar com o padre e largar tal ofício. Mas tinha medo de magoar o Pároco, que parecia tão bonzinho!!! Senti-me covarde, indigna, não estava “combatendo o bom combate”. Fui “salva pelo gongo” pois precisamos mudar para uma cidade distante de lá e procurar nova paróquia, mas ainda penso que deveria ter sido mais corajosa e conversado com o padre… como é que pode ignorarem assim instruções vindas do próprio Vaticano???

Graças a Deus estamos agora numa Paróquia mais conservadora (pelo menos isso!!!) e não tem bingo!!! (o estacionamento da outra igreja só ficava lotado nos dias de bingo… mas eu já vinha protestanto por conta dos bingos mesmo quando estava no Brasil, achava uma vergonha ver cartazes enormes na faixada de igrejas onde se lia “o melhor bingo da cidade!!!” em letras garrafais… “É para caridade”, diziam-me… mas será que os fins sempre justificam os meios? Não há uma forma mais piedosa de se fazer caridade sem ter que apelar para a jogatina?). Pelo menos aqui nos EUA estou livre da RCC que assolava praticamente todas as paróquias do RJ. Este fato me surpreendeu, pensei que ia ser pior aqui posto que a RCC surgiu em solo americano… Mas o povo americano é muito contido, mais solene, talvez por isso o “movimento” tenha quase que desaparecido por aqui… a não ser em comunidades de imigrantes brasileiros, onde ainda está a pleno vapor! Fui um dia assistir a uma Missa numa paróquia frequentada por brasileiros, pois meu marido estava curioso para ver como seria… Igreja de Nossa Senhora de Fátima, de portugueses e brasileiros. Na Missa “dos brasileiros”, bateria, teclados, guitarra, e uma tela bem na frente da linda imagem de Nossa Senhora, à esquerda do altar, projetando as letras das músicas. Meu marido achou o cúmulo, não quis mais assistir Missa de brasileiros… e mais horrorizado ainda ficou quando mostrei a ele a “Missa” celebrada pelo Padre Marcelo Rossi na TV… depois de dois minutos boquiaberto, pediu para que eu desligasse o aparelho.. e olha que eles nem mostraram a bênção do Santíssimo, quando bispo e padre jogam baldes de água benta nos fiéis, às gargalhadas, segurando o Ostensório!!!

Foi aqui nos EUA que percebi a importância da Quaresma e seu verdadeiro sentido, totalmente corrompido pela infame “Campanha da Fraternidade” inventada por Dom Hélder Câmara (que Deus tenha piedade de sua alma!). No Brazil não se faz penitência, nem jejum, nem abstinência (aliás, Sexta-Feira Santa é dia de bacalhoada!!!!), não se dá esmolas (quer dizer, fala-se muito nos pobres, mas com discursos vazios de teorias marxistas caducas e que a CNBB insiste em impingir aos fiéis brasileiros). Foi com espanto que tomei conhecimento do “tema” da campanha passada: água!!! E nem era água do Batismo, ou a água que jorrou do lado de Nosso Senhor junto com sangue, mas água mesmo, racionamento, ecologia e sei lá mais o que… o que tem isso a ver com a Quaresma??? Enquanto padres protestam contra o desperdício da água potável, o carnaval invade o tempo Quaresmal sem nenhum escrúpulo, com “desfiles dos campeões”, sem que ninguém na CNBB proteste contra tal abuso. Só me resta repetir a frase célebre de Cícero: “Quosque tantem, Catilina, abutiere patientia nostra!!”.

Sou dona de casa, gosto de cuidar do lar e de meu filho, tentando dar a ele uma educação alicerçada na Fé. Uma graça vê-lo, só com 3 aninhos, apontando Jesus na Cruz, dizendo que ele “está dodói” e reconhecendo Nossa Senhora Aparecida, de Fátima e de Lourdes, além de vários santos. Temos que colocar nossas esperanças no futuro e, no mais, rezar, fazer sacrifícios, pedir a Deus que restaure a Sua Igreja e que mande bons operários para a messe que é tão grande!!! Como não quero desperdiçar meus talentos, dados graciosamente por Deus, restauro imagens de santos (quem sabe um dia eles voltam às igrejas, hoje são são poucas as que ainda os têm!), toco um pouco de órgão e traduzo artigos religiosos da página de uma pessoa extraordinária chamada Robert Stanley, um verdadeiro tesouro de Apologética e Doutrina Católica (http://home.inreach.com/bstanley/index.htm). Costumo chamá-lo de meu “professor de teologia honorário”, tanto que aprendo com ele, tanto na troca quase diária de e-mails quando na tradução da página.
Que felicidade agora encontrar também a página Associação Cultural Montfort onde tenho aprendido tanto e que me maravilha mais a cada dia!!! Se precisarem de mim, estarei sempre aqui a disposição (posso traduzir textos para o inglês) pois muito me honra trabalhar para a maior glória de Deus (lema Jesuíta que adotei para minha vida).
Como são bem-aventurados os alunos que tiveram e têm o privilégio de ter tal mestre!!! Ah, se houvesse um Professor Fedeli na UERJ, provavelmente minha vida teria tomado um rumo bastante diferente do que tomou na época!!!
Mil perdões pela imensa missiva, quando começo a escrever não páro mais, ainda mais quando o assunto é religião e quando encontro alguém que me entenda. Mas não queria tomar seu tempo, que deve ser um bocado escasso com tantas atividades na luta em defesa da Fé!
Que Deus mande muitos Professores Fedeli para esse mundo, pois é pessoas como o senhor que estamos precisando!!! Rezo e rezarei sempre pelo senhor, pela sua associação e pelos seus alunos. Foi uma pena ter descoberto a Associação pouco depois de o senhor ter feito palestras aqui em Boston, gostaria muito de ter comparecido, mas espero em Deus que haja outras em futuro próximo e aí não perderei!!!
Despeço-me pedindo a Deus que o abençoe abundantemente.

Em Jesus e Maria,
Maria Lucia Treadwell
AMDG

Prezada Dona Maria Lucia,
salve Maria!
 
    Como não lhe agradecer palavras tão bondosas? E como não protestar contra o exagero delas?
    Deus lhe pague!
    Mas seu conceito a meu respeito exige, de mim, um novo esforço para corresponder palidamente à idéia que a senhora faz de minha pessoa sem relação com a realidade, e da senhora — lhe peço — orações para que Deus tenha piedade de mim.
    Fico contente que conheça o Bruno e o Paulo, meus bons amigos. Morando perto de Boston, lhe ficará mais fácil frequentar as reuniões dos Amigos da Montfort dessa cidade. É o amor à verdade católica que nos une. Mesmo tão distantes no espaço.
    Li com atenção a sua história. Ela é bem a história de uma alma que desejava ser  fiel e que foi vítima dos abandonos do Concílio Vaticano II.
    Seu perambular por tantos ambientes religiosos falsos é uma prova do abandono em que ficaram as ovelhas de Cristo por culpa dos maus padres.
    O povo tem fome de pão da verdade, porém esses padres modernos — que não crêem na verdade — lhe dão pedras e serpentes: a pedra da Teologia da Libertação materialista e as serpentes das ilusões carismáticas.
    Sua história mostra também como Deus é misericordioso, indo à procura de um alma perdida no cipoal e nos espinheiros do erro.
    Recomendo-lhe que persevere na imitação de Santa Teresinha, seguindo a sua pequena via.
    Recomendo-lhe ainda que procure estudar o que puder em São Tomás, na Suma Teológica, e que pesquise a História da Igreja onde encontrará não só exemplos admiráveis na vida dos santos, como também a compreensão da luta imensa entre e Civitas Dei e a Cidade maldita do Homem.
    Possivelmente, no ano que vem voltarei a Boston, e terei, se Deus quiser, a oportunidade de conhecer sua família.
    Aceito, sim, que nos ajude fazendo traduções dos textos do site Montfort. Eles poderão ser de boa ajuda a católicos americanos. Pedirei que nossa equipe encarregada dessa tarefa entre em contato com a senhora para evitar trabalhos repetidos. Peço-lhe ainda que as traduções sejam enviadas a São Paulo, para serem revistas a fim de não deixar escapar algum lapso de tradução que cause erro doutrinário. Em questões que envolvem a Fé todo cuidado é necessário.
    Escreva-me quando lhe parecer necessário e conveniente. E procure em Boston nossos amigos, que temos lá um grupo bem bom.
    Reze, enfim, pelo Papa, que está em grande luta com os lobos no Sínodo em Roma. Peça a Deus que dessa luta saiam triunfantes a Fé e a Missa de sempre.
 
In Corde Jesu, semper,
Orlando Fedeli

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