Montfort Associação Cultural

3 de maio de 2006

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Gnosticismo x Gnose

Autor: Orlando Fedeli

  • Consulente: Marco Borgerth
  • Idade: 32
  • Localizaçao: São Paulo – SP – Brasil
  • Profissão: Engenheiro

Caro Sr. Fedeli,

desejo parabenizá-lo por seu website. É muito instrutivo e interessante.
Peço-lhe humildemente que me esclareça alguns pontos, a respeito dos quais guardo dúvidas.

Não seria possível fazer, dentro da ortodoxia católica, uma distinção entre gnosticismo e gnose?

O gnosticismo seria constituído pelos heréticos dos primeiros séculos. Este gnosticismo pregava que o “Pai de Jesus” não era Javeh e identificava este último com o Ildabaoth, criador do universo. Segundo esta doutrina, Jesus teria vindo para nos libertar da prisão da Lei de Javeh e deste universo intrinsicamente mau. Este gnosticismo era sincrético e foi condenado como heresia pela Igreja.

Porém, há indícios que devamos, sim, aceitar a ortodoxia de uma “verdadeira gnose cristã”. Gnose, aqui, considerada como o conhecimento das coisas divinas, não através da fé somente, mas através de percepção direta através do Intelecto (Nous). Este Intelecto seria a fonte de conhecimento transcendental.

Cito algumas passagens.

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Santo Agostinho
“Confissões”
Livro Sétimo
Cap IX
“…me fizeste chegar às mãos…alguns livros de platônicos, traduzidos do grego para o latim. Neles eu li – não com estas palavras, mas substancialmente o mesmo e expresso com muitos e diversos argumentos – que “no princípio era o Verbo, e o Verbo estava em Deus, e o Verbo era Deus. Este estava desde o princípio em Deus. Todas as coisas foram feitas por ele,…E a luz brilhou nas trevas, mas as trevas não a compreenderam…Também neles li que o Verbo, Deus, não nasceu da carne nem do sangue, nem da vontade do varão, mas de Deus.”

Cap X
“Estimulado por estas leituras a voltar a mim mesmo, entrei, guiado por ti, no profundo do meu coração, e o pude fazer porque te fizeste minha ajuda. Entrei e vi com os olhos da alma, acima desses mesmos olhos, acima de minha inteligência, a luz imutável…Quem conhece a verdade conhece esta luz, e quem a conhece, conhece a eternidade…E eu ouvi como se ouve no coração, sem deixar motivo para dúvidas; antes, mais facilmente duvidaria de minha vida que da existência da verdade, que se manifesta à inteligência pelas coisas da criação.”

Cap XVII
“E, gradualmente, fui subindo dos corpos para a alma, que sente por meio do corpo; e dela à sua força interior, à qual os sentidos comunicam as coisas exteriores, que é o limite alcançado pelos animais. Daqui passei para o poder do raciocínio, ao qual cabe julgar as percepções dos sentidos corporais; por sua vez, julgando-se sujeito a mudanças, levantou-se até sua própria inteligência, e afastou o pensamento de suas cogitações habituais. Livrou-se da multidão de fantasmas contraditórios, para descobrir que a luz a inundava quando, sem nenhuma dúvida, afirmava que o imutável deve ser preferido ao mutável com tanta certeza. E, finalmente, chegou àquele que é num único lampejo.”

Cap XXI
“…lancei-me avidamente sobre as veneráveis escrituras inspiradas por teu Espírito…compreendi que tudo de verdadeiro que lera nos tratados dos neoplatônicos se encontrava ali, mas com o aval da tua graça”

Clemente de Alexandria
Stromata (Book 1)
Cap 5
No início deste capítulo, Clemente sugere que, assim como a Lei Mosaica foi enviada aos judeus, a filosofia foi enviada por Deus para os gregos.

“Accordingly, before the advent of the Lord, philosophy was necessary to the Greeks for righteousness. And now it becomes conducive to piety; being a kind of preparatory training to those who attain to faith through demonstration. “For thy foot,” it is said, “will not stumble, if thou refer what is good, whether belonging to the Greeks or to us, to Providence.” For God is the cause of all good things; but of some primarily, as of the Old and the New Testament; and of others by consequence, as philosophy. Perchance, too, philosophy was given to the Greeks directly and primarily, till the Lord should call the Greeks. For this was a schoolmaster to bring “the Hellenic mind,” as the law, the Hebrews, “to Christ.” Philosophy, therefore, was a preparation, paving the way for him who is perfected in Christ.

Orígenes também era bastante familiar com a filosofia grega. Na verdade, seu professor foi Ammonius Saccas, o mesmo professor de Plotino.
Segundo ele, a Sagrada Escritura, assim como o homem, é composta de corpo, alma e espírito, isto é, de dimensão literal, moral e “sapiencial” ou “espiritual”. Nem todos os leitores podem entender o significado “interno” do texto, mas mesmo aqueles que não conseguem captar esta sabedoria estão conscientes que há algum tipo de mensagem oculta no Livro de Deus. Orígenes relaciona conhecimento sagrado diretamente com a Sagrada Escritura e acredita que seja função dos seres espirituais descobrir este significado interno da verdade revelada e usar sua inteligência na contemplação das verdades espirituais. A vida espiritual do homem é tão somente o gradual desenvolvimento do poder da alma de perceber a inteligência espiritual da Escritura que, como o próprio Cristo, alimenta a alma.

Ainda segundo Orígenes, é a presença do Logos no coração do homem e na raiz de sua inteligência que torna possível para o homem compreender o significado interno da Sagrada Escritura e a tornar-se iluminado por este conhecimento. O Logos é o iluminador das alma, a luz que faz a visão “intelectual” possível. De fato, o Logos que existe “in divinis” é a raiz da inteligência do homem e é o intermediário através do quel o homem recebe o conhecimento sagrado.

Lembrar-se que “intelecto” tem um sentido diferente entre os antigos em relação àquele que tem entre nós. Hoje, intelecto significa “ratio” e não “intelectus”, como era conhecido no passado.

Segundo Bertrand Russell, Orígenes, apesar de ser reconhecido como um dos Padres, foi, nos últimos tempos, condenado, por haver mantido quatro heresias:
1. A preexistência das almas;
2. Que a natureza humana de Cristo, e não apenas a sua natureza divina, existiu antes da Encarnação
3. Que, na ressurreição, nossos corpos serão transformados em corpos absolutamente etéreos;
4. Que todos os homens, e mesmo os demônios, serão, no fim, salvos.

Portanto, se a lista acima estiver completa, a Igreja não considerou heréticas as colocações de Origenes a respeito do Logos, da alma e da Escritura Sagrada.

Plotino
Enéadas V, 3, 14

“Aqueles divinamente possuídos e inspirados têm pelo menos o conhecimento de que contêm, dentro de si, alguma coisa maior do que eles próprios…quando conservamos o “nous” puro; percebemos, no íntimo, o Espírito Divino, que dá o Ser e todas outras coisas desta ordem; mas conhecemos também outro, que não é nenhum destes, mas um princípio mais nobre do que o que conhecemos como Ser; mais pleno e maior; acima da razão, da mente e dos sentimentos; conferindo estes poderes, mas sem confundir-se com ele.”

“No momento do contato, não há poder algum para se fazer qualquer afirmação; … Podemos saber que tivemos a visão quando a alma, subitamente, recebeu a luz. Essa luz vem do Supremo e é o Supremo.”

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A Revelação através das Sagradas Escrituras seria justamente a “tradução” simbólica da percepção direta obtida através do Intelecto. Digo “simbólica” pois o símbolo seria a linguagem para a transmissão do “indizível”.

Por favor, senhor Fedeli, me ajude a entender se estou em erro, ao interpretar estes fatos desta maneira.

Desde já, agradeço.

Marco

Muito prezado Marco,
Salve Maria.

    Obrigado por suas palavras elogiosas a nosso site.
    A distinção entre Gnosticismo e Gnose é enganadora. Ela foi adotada por certos esotéricos que pretendem como que salvar a gulodice distinguindo-a da gula.
    Agora, dou-lhe apenas algumas indicações. Nos textos de Santo Agostinho que você me cita, não se fala de modo algum de Gnose. Clemente de Alexandria, sim, falava de Gnose, e defendeu a possibilidade de existir uma Gnose cristã, texto esse que favoreceu muitos gnósticos, até hoje, a se apresentarem como cristãos.
    Não há Gnose cristã.
    Clemente de Alexandria empregou bem mal esse termo. A Gnose pretende ser um conhecimento experimental absoluto e salvador. Um conhecimento que pretende não ser intelectual, mas vivencial e experimental. Esse tipo de conhecimento não existe.
    Plotino e os neo platônicos em geral eram gnósticos, tanto quanto certas passagens de Platão.
    Orígenes é tido como o pai de todas as heresias e não é, então, de modo algum confiável.
    É falso que nas Sagradas Escrituras haja um sentido oculto. Pode haver um sentido mais profundo, porém ele é sempre discernível pelo intelecto. Também é errado afirmar que individualmente podemos alcançar esse sentido oculto inexistente nas Escrituras.
    A frase que você me escreve sobre a noção do Logos na raiz do intelecto humano é tipicamente herética e gnóstica:

De fato, o Logos que existe “in divinis” é a raiz da inteligência do homem e é o intermediário através do quel o homem recebe o conhecimento sagrado”.

    O Logos não é a raiz de nosso intelecto e não existe esse intermediário do conhecimento sagrado em nós.
    O único intermediário deixado por Cristo para alcançarmos o conhecimento sagrado é o Papa. Essa tese de Orígenes conduz à destruição da Igreja, pois que teríamos em nós mesmos a fonte do conhecimento sagrado, tornando-nos salvadores de nós mesmos. E isso é Gnose. E isso destrói a Igreja e a Fé.
    Um abraço amigo.

In Corde Jesu, semper,
Orlando Fedeli

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