Montfort Associação Cultural

25 de dezembro de 2012

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Frei Tiago: A voz que clama no deserto!

Frei Tiago está partindo mas a luta continua! Em sua última Missa Dominical pública no Mosteiro de Atibaia, Frei Tiago pronunciou essa magnífica Homilia para o Quarto Domingo do Advento, que divulgamos nesse Dia do Natal do Senhor. 

 VOX CLAMANTIS IN DESERTO

Homilia do IV Domingo do Advento

 

Queridos irmãos e irmãs:

Hoje estamos celebrando este último domingo do Tempo do Advento. Por ser esta liturgia muito solene, resolvi escrever a homilia para apresentar melhor o que estamos celebrando. Entramos nesta Capela para escutar a Palavra de Deus. Ao contrário do que vemos por aí, não encontramos a figura de um “papai Noel”, mas de João, o Batista. Preparai o caminho do Senhor: fazei retas as suas veredas. Com certeza, é mais fácil ser um “papai Noel” do que um “João Batista”. Trazer presentinhos, dar um sorriso e subir num carro mágico acenando para a multidão. Uma coisa linda! Sem dúvida mais fácil que vestir roupas rudes, abster-se de comidas saborosas e colocar-se no silêncio do deserto. Está aí descrita a contradição que vemos em nossos dias: De um lado o Natal mágico da fantasia e da satisfação dos desejos, representado pelo “papai Noel” e de outro lado o Natal de Cristo como ocasião de encontro consigo mesmo e com o verdadeiro Deus. Sem dúvida, é mais fácil para um sacerdote ser uma espécie de “papai Noel” que abraça a todos, que distribui somente presentinhos e manda beijos, que vai cantarolando musicas suaves em programas de televisão… que não incomoda nem repreende os vícios, que não denuncia o pecado,  nem assusta as pessoas com aspecto de austeridade, que não fala de sacrifício, nem de penitência, que não aponta a mentira e o erro…  Muito interessante essa ideia moderna de ser um sacerdote estrela, aplaudido nos palanques do mundo e brilhando em meio ao delírio da multidão… tal como o mágico “papai Noel”. –E afinal não poderia ser algo ruim, pois é tão simpático e bonzinho!? Sim, muito bonzinho pelo que parece, mas carregado de uma malícia fatal. Aparentemente inofensivo, mas incapaz de conduzir a Deus, o verdadeiro Bem. Como lemos nesta leitura da Carta aos Coríntios: “o que se pede dos administradores é que sejam fiéis”. João é fiel porque aceitou ser imagem do crucificado. Ele não apresenta a si mesmo. Vão até ele na sua solidão e lhe perguntam: Quem és tu? És o Cristo? És Elias? És o Profeta? Quem és afinal?! João é verdadeiro porque não busca a si mesmo. A grande tentação do religioso é usar a religião como instrumento para o próprio benefício. O falso profeta é aquele que deseja agradar a todos, trazer a segurança e as soluções que as pessoas buscam para serem felizes nesta vida… O verdadeiro profeta não é o mágico, nem o adivinho, mas o servo da Palavra de Deus. Se eu buscasse agradar os homens, diz o Apóstolo, não seria mais servo de Cristo. Pois, a Palavra de Deus não nos traz segurança, nem felicidade terrena; mas nos interpela para ver se somos capazes de acreditar que Ele é mais do que todas as coisas que temos nesta vida! Por isso, João se diz apenas uma voz. Voz significa um som que passa… Quando se diz uma voz, quer dizer, não importa a minha pessoa, importa aquilo que eu anuncio: “Aquele que existe antes de mim e que eu não sou digno de desamarrar a correia da sua sandália.” Qual é a recompensa da voz? Saber que foi ouvida! Nada mais lhe importa. Não busca a si mesmo, porque o seu ser só deseja se unir a Deus. E quem é Deus afinal? Deus é aquilo que o mundo não pode conhecer! “Ele está entre vós, mas vós não o conheceis!” Por isso, essa voz deve permanecer no DESERTO! O Deserto é o lugar do desconhecido, onde as seduções do prazer não penetram. Durante todos esses anos estivemos aqui neste deserto, clamando e anunciando, com a vida e com a Palavra a presença desse nosso Deus. Agora vamos embora. E por que nos mandam embora? Perguntamos… e não sabemos qual seria a causa.Talvez a resposta seja: por que queremos que se cale! Cale-se a voz da sua Palavra, cale-se a voz do seu estilo de vida! Mas… Como calar a voz? Seria lícito calar? Será que uma voz no deserto incomoda tanto que logo tem que se calar? Será que ela está suscitando algum questionamento que pode comprometer a tranquilidade daqueles que se encontram confortavelmente instalados nas suas situações de prestígio e vaidade!? De fato, vamos embora, mas não vamos nos calar! Porque Deus é quem nos manda: “Vai e anuncia! Não temas, Eu estou contigo!” (Jer. 1,8) Enfim, a nossa conclusão de tudo isso é que não podemos viver um “Natal de sonhos”, mas de uma verdadeira conversão que nos torne capazes receber a visita de Deus! Deus não nasceu nesta terra para nos deixar no fascínio pelos bens materiais ou pelas ilusões desta miserável vida, mas para arrebatar o nosso coração para o céu. Claro que anunciar a Palavra de Deus tem um preço e temos que estar dispostos a assumir a nossa vocação até as últimas consequências: porque o menino Jesus continua nascendo, mas não é nas multidões, nem nos shows, nem em meio a luzes e estrelas de sucesso que Ele nasce, pois neste mundo governado pelo Diabo, não houve, nem nunca vai haver lugar para Ele! Seu lugar é na simplicidade, no silêncio, na humildade de uma estrebaria fria, em meio aos animais, no escondimento e na austeridade do DESERTO. Eis, portanto, meus irmãos uma proposta diferente para celebrar o Natal: saiamos ao encontro dEle, para fora das cidades e dos canais de televisão, para fora das festinhas e comilanças, para longe das piadas e das falsas alegrias! Vamos para o DESERTO dos nossos corações! Vamos, como João Batista em busca de um Deus verdadeiro e não de um mágico que nos traga seus venenosos “presentinhos”. Vamos permitir que o mesmo Espírito Santo que fez o Verbo de Deus se tornar carne no ventre puro de Maria, nos fecunde e nos transforme, pois, se, como homem, Ele nasceu em Belém, agora, como Deus, Ele quer nascer em nós.

 

+ Fr. Tiago de S. José

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