Montfort Associação Cultural

2 de fevereiro de 2006

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Formas de Monarquia

Autor: Orlando Fedeli

  • Consulente: Ricardo Coelho
  • Localizaçao: Recife – PE – Brasil

Prezado Professor Orlando Fedeli,

Estive lendo seus comentários sobre a monarquia. O Sr. diz que doutrinariamente é monarquista. Gostaria de saber qual tipo de monarquia o Sr. defende doutrinariamente, e o que pensa do parlamentarismo e do constitucionalismo aplicado à monarquia.

O Sr. também faz críticas a Dom Luiz por ser celibatário e desse modo impossibilitar a continuação da monarquia, esquecendo-se que ele tem irmãos e sobrinhos também. O que pensa então de Santo Eduardo que se casou, mas, segundo reza a lenda, manteve um casamento virginal propositadamente, impossibilitando a continuação de sua monarquia? Mereceria suas críticas também por causa disso? O Sr. também o critica por pertencer a tfp, e por isso ter adotado idéias religiosas delirantes. Pelo que entendi, o Sr. já foi membro da tfp e saiu de lá por descobrir a existência de uma sociedade secreta que cultua o Plínio. Mas, fora essa sociedade, quais são as idéias religiosas delirantes da tfp? Pergunto isso, porque algumas vezes leio a revista “catolicismo” e – desculpe-me a ignorância se estiver errado – as idéias religiosas da revista e da Associação Montfort me parecem extremamente convergentes. Eu acho que há que se considerar se Dom Luiz, apesar de ser membro da tfp, compartilha des sa sociedade secreta ou das outras idéias religiosas delirantes, antes de o acusar. Talvez o Sr. tenha conhecimento dessas coisas e possa afirmá-las com propriedade, mas nesse caso eu gostaria que o Sr. explicitasse melhor a relação de Dom Luiz com a tfp.

Ricardo.

Muito prezado Ricardo,
salve Maria !
    Sua carta engloba dois problemas que devem ser distinguidos: um é teórico. O outro é concreto.
    O problema teórico é o das formas de governo. O concreto é sobre a pessoa do Príncipe Dom Luiz de Orléans e Bragança.
    Quanto ao problema teórico– o da Monarquia, haveria que distinguir ainda o caso dourinário teórico, e sua oportunidade de aplicação ao caso brasileiro, hoje.
    A Igreja sempre ensinou que  a melhor forma de governo é a Monarquia, porque é a que mais se assemelha ao governo do próprio eus e ao da Igreja, que é monárquica. É claro que aceito essa doutrina da Igreja, e não poderia ser diferente. E é evidente que detesto a  Monarquia liberal de Luís Felipe de Orléans, e também a Monarquia absolutista de Luis XIV, que Plínio C. de Oliveira admirava embevecidamente. Ele fazia do Ancien Régime, uma lenda e  o seu desvanecimento…
    Porém, outra questão é se a Monarquia , hoje, e no Brasil, em concreto, resolveria alguma coisa.
    Estou absolutamente convencido que não.
    Pelo contrário.
    Uma instauração da Monarquia só a comprometeria.
    O problema do mundo, hoje, é moral e religioso, e não político.  A Monarquia seria um remédio político, que em nada influiria na solução da crise atual, que é bem mais profunda do que a Política. Só um Papa é quem  pode solucionar a crise atual da Igreja e do mundo. Porque a crise do  mundo provém da crise da Igreja. Foi porque o sol da Igreja se obscureceu é que a lua –o Estado — perdeu a luz.
    Doutrinariamente, ainda haveria que repudiar uma monarquia constitucional — tal como é defendida, pelo menos publicamente,  pela ex Tfp e pelos Príncipes Orléans, que pronunciam o que a Tfp lhes dita – e uma verdadeira Monarquia que jamais pode ser uma repetição da Monarquia constitucionalista da Restauração e, pior ainda da Monarquia dos Orléans, traidores da Monarquia, em Julho de 1830.
    A Monarquia Constitucionalista da Restauração nasceu envenenada pela idéias martinistas (Já o nome, Restauração indicava esse comprometimento com a Maçonaria martinista). E Monarquia constitucionalista burguesa de Luis Felipe foi a a coroação das idéias de Igualdade, Liberdade e Fraternidade, pelo filho de Felipe Égalité.
     A Monarquia Constitucional ou Parlamentar é um casamento da Monarquia Católica com os princípios da Revolução Francesa. E isso é inaceitável. Um Orléans pode aceitar isso. Um católico de verdade, jamais. Foi esse casamento espúrio e bastardo entre a Monarquia e o Liberalismo que trouxe o fracasso -  a tragédia– política e religiosa do século XIX, e as hecatombes do século XX. O último fruto dessa capitulação diante dos princípios da Modernidade foi o Vaticano II , que foi a admissão de 1789 pelo Clero.
    Se você quiser ler uma obra interessante sobre esse casamento espúrio da Monarquia com o Parlamentarismo, na Restauração , leia a peça L ´Otage de Paul Claudel.
    Quanto a Dom Luís de Orléans e Bragança, ele foi vítima da Tfp, e não tem idéia nem do que pensa realmente a Tfp, nem do que está implicado nessas questões.
    E a comparação do caso dos Orléans brasileiros com Santo Eduardo é descabida, pois no caso do rei inglês havia uma questão de alta santidade envolvida, coisa que está absolutamente ausente do celibato dos Orléans tefepistas brasileiros, que só não se casaram porque PCO fazia restrições ao casamento– uma “fassurada” como diziam na tfp – também com base nas idéias românticas de Anna Katharina Emmerick.
    Tanto isso é verdade, que o celibato era a norma absoluta para todos os autênticos membros da tfp, e, mais rigorosamente ainda, para os membros da sociedade secreta Sempre Viva.
    Finalmente, você me fala das idéias publicadas no jornal Catolicismo.
    Ora, meu caro, sendo a estrutura da tfp a de círculos concêntricos, secretos, alguns deles, o jornal Catolicismo é apenas um boletim de divulgação das idéias que a tfp considera bem publicar, para atrair incautos e ingênuos. E eu fui um dos captados por essas idéias públicas, ou publicadas, da tfp. Outras, bem diversas, são as idéias ensinadas “en petit comité”, as idéias “parâmicas” — as que eram proibidas de divulgar – de Plínio Corrêa de Oliveira, e que ele “manifestava” nas reuniões bem discretas do MNF, reuniões das quais jamais participei– graças a Deus!!! –e das quais soube só indiretamente o conteúdo, e só de uma bem pequena parte delas. 
    E o pouco que soube era de um romantismo descabelado e delirante e, dessas idéias os Orléans da tfp compartilham, na medida em que são capazes de compartilhar. E que os deixam compartilhar.
    Por último, dou-lhe um conselho: deixe de sonhar com tronos e príncipes.
    Lute pela Igreja
    Estamos no Calvário da Santa Igreja. Ficar sonhando com coroas, dinastias, tronos e cortes, equivale à atitude de algum apóstolo que se preocupava em pensar em como seria o reino terrestre de Cristo, enquanto Ele estava agonizando nos tormentos da crucificação.
    Reze e lute. Não sonhe com Monarquias de qualquer tipo.
    É o que lhe aconselho, sinceramente, 
in Corde Jesu, semper,
Orlando Fedeli
 
 

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