Montfort Associação Cultural

20 de janeiro de 2005

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Fora da Igreja Católica não há salvação

Autor: Orlando Fedeli

  • Consulente: Marcelo H. C.
  • Localizaçao: – Brasil

Caríssimo Professor Orlando, que Cristo, nossa paz, vos abençoe e guarde!

Fico muito agradecido pelo fato de o Sr. enviar-me um e-mail noticiciado a atualização da home-page da Associação Montfort. Para minha maior alegria, percebi que o Sr. selecionou minhas mensagens para o “Espaço do Leitor”. A atualização está impecável, parabéns professor!

Professor, trago-lhe uma questão: Levando em conta o dogma “Fora da Igreja, não há salvação”, deve-se considerar que, necessariamente, todo protestante (por exemplo), estará condenado se não se converter a Santa Madre Igreja Católica? Ou estou fazendo uma interpretação apressada? São Mateus, XXV, “…a mim o fizeste…”, não nos pode auxiliar na solução desta questão? Procurei no Catecismo uma resposta, encontrei alguns comentários, mas não uma resposta definitiva. Este pode ser tema para um de seus futuros e-mails.

Que tudo quanto façamos, concorra para maior glória de Deus!

Marcelo H. C.

Muito prezado Marcelo,
Salve Maria

É sempre um prazer responder-lhe. Por isso o faço logo que leio uma carta sua.
Digo-lhe que é um prazer, porque noto em suas palavras um desejo sincero de saber a verdade e de conhecer a autêntica doutrina católica.

Perdoe-me não ter continuado a tratar dos pontos sobre os quais você me havia indagado. Andei tendo algumas polêmicas trabalhosas, que logo sairão no site, assim como outras polêmicas particulares.

Para responder sua pergunta de hoje, ressalto em primeiro lugar o que é dogma: “Fora da Igreja não há salvação”, conforme proclamaram o IV Concílio de Latrão (Denziger 430) e o Syllabus de Pio IX, este último tratando do liberalismo e sua esperança de que qualquer religião poderia salvar, especialmente o protestantismo que se diz cristão. Pio IX declarou errada a tese de que “Pelo menos deve-se ter fundadas esperanças sobre a eterna salvação de todos aqueles que não se acham de modo algum na verdadeira Igreja de Cristo” (Pio IX, Syllabus, apud Denziger, 1717).

Portanto, normalmente, deve-se crer que eles não se salvarão.
E o mesmo deve-se pensar de todos os que não pertencem à Igreja.

Entretanto, é preciso notar, isso não quer dizer que uma pessoa não católica esteja fatalmente votada à perdição.

E por que não?
Porque alguém que não pertence ao corpo da Igreja, pode entretanto pertencer à sua alma.

Tomemos o caso de um índio aqui do Brasil, antes da chegada dos portugueses. Como poderia ele se salvar sem conhecer Cristo? São Paulo nos diz que aqueles que não conheceram a salvação por impossibilidade absoluta – é o caso desse índio – serão julgados por Deus de acordo apenas com a Lei natural, que está impressa na natureza de todo ser humano.

Você sabe bem que a Lei Eterna é a própria vontade de Deus, que jamais muda.
A lei natural é essa mesma vontade de Deus, mas enquanto governa a natureza. Ora, como a vontade de Deus nunca muda, nem pode mudar, as leis naturais jamais mudam.
Da Lei natural é que decorre – ou deve decorrer – toda lei positiva, divina ou humana, eclesiástica ou civil, costumeira ou escrita.

Tome, por exemplo, uma lei de trânsito que proíba duas mãos de direção numa rua, porque ela é muito estreita. O que a lei de trânsito fez foi apenas aplicar a um caso concreto uma lei natural maior: dois corpos não podem ocupar, ao mesmo tempo, o mesmo lugar no espaço.

Quando uma lei positiva vai contra uma lei natural, ela é inválida e não pode ser obedecida. Por isso, nunca uma lei permitindo o aborto é válida, já que viola a lei natural.

O selvagem, qualquer que ele seja, conhece a lei natural, de que os dez mandamentos são uma mera expressão.

A Moral natural tem certos princípios que são conhecidos por todos os homens. Assim, o princípio generalíssimo da Moral é: “O bem deve ser feito, e o mal deve ser evitado”.

Com esse princípio generalíssimo, todos concordam. A discordância começa quando se pergunta o que é o bem e o que é o mal moral.

Desse princípio generalíssimo, decorrem três princípios gerais da Moral

1o

.Princípio Geral da Moral:  A vida física é um bem e deve ser preservada

Esse princípio também é conhecido de todos os homens, pelo instinto de conservação. Qualquer homem, tendo ameaçada sua vida, se defende instintivamente. Por isso todo homem sabe que a vida humana é um bem que deve ser preservado.

Em razão disso, todo índio, sendo aprisionado, esperneia, porque não quer morrer. Se ele captura um inimigo e tenta matá-lo, o inimigo também esperneia, porque não quer morrer. Ele sabe que a vida do outro lhe é preciosa, tanto quanto a sua. Por isso, se ele mata alguém, ele sabe que agiu mal. Assim, todo selvagem conhece o quinto mandamento.

Dessa noção ele retira também a compreensão de que não se deve roubar o alimento de outrem, porque isso, a longo termo, o matará. Daí todo selvagem lutar por seu território de caça, ou por suas plantações. Todo selvagem conhece, portanto, o 7. mandamento: Não roubar

2o. Princípio Geral da Moral: A vida da espécie é um bem e deve ser preservada

Não só a vida pessoal é um bem, mas qualquer homem compreende que a vida da humanidade é um bem ainda maior. Por isso, todo homem, naturalmente, deseja propagar a espécie, tendo filhos. Isso todo o mundo conhece através do instinto de reprodução sexual.

Por essa razão, todo homem quer defender seus filhos e sua esposa. Daí o adultério revoltar qualquer esposo ou esposa.

Como conseqüência do conhecimento de que a perpetuação da espécie é um bem, todo homem sabe:
- que deve honrar os pais, porque deram vida aos filhos pela união conjugal (quando o ato sexual é realizado fora do matrimônio e não visa dar vida, é sempre desonroso. Noutra carta, posso explicar-lhe melhor o “Honrar”). O honrar inclui serviço, obediência, auxílio e assistência. Em todos os povos, por mais selvagens, o respeitar os pais sempre foi lei conhecida.
- Não cometer adultério.
- Não agir sexualmente de modo errado.
Daí, todo homem conhecer o 4., o 6. e o 9. Mandamentos.

3o. Princípio Geral da Moral: A vida intelectual é um bem e deve ser preservada e desenvolvida

Toda homem quer saber o que as coisas são. Todo homem quer saber a verdade. Isso não decorre de um instinto — como os dois princípios anteriores – e sim da tendência do homem para saber, porque Deus fez o homem para conhecê-Lo.

Dessa tendência natural do espírito humano decorre a condenação da mentira e o amor à verdade, e portanto o amor a Deus, Verdade absoluta.

Dessa tendência para a verdade, que nos leva a Deus, decorrem os mandamentos 1., 2., 3. e 8.

Como exemplo, resumo para você os 42 pecados que o Livro dos Mortos dos pagãos enumerava, e que a alma devia negar ter praticado diante de Osiris. Eu os colocarei em outra ordem, para facilitar a sua compreensão:

1 – Adorei os deuses.

2 – Cumpri minhas promessa aos deuses.

3 - Freqüentei os templos.

4 - Não fiz minha mãe chorar.

5 – Não matei.

6 - Fui puro. Fui puro. Fui puro.

7 - Não mudei a cerca de lugar (Não fui do MST…)

8 - Não caluniei.

9 - Não cometi adultério. (O 10. mandamento era decorrência do 7.)

Isso mostra como esses pagãos conheciam a lei natural.

Se um pagão que não tivesse oportunidade de conhecer a revelação – era o caso de nossos índios antes da descoberta do Brasil – obedecesse a Lei natural, ele se salvava, porque, embora não pertencesse ao corpo da Igreja, pertencia à sua alma. Ele tinha o que a Igreja chama de batismo de desejo. Se ele obedecia a lei natural, era claro que, se conhecesse a revelação, ele a aceitaria.

O caso que você põe (do protestante) é bem mais complicado.

Suponhamos um protestante que não tivesse meio algum de conhecer a religião Católica. Esse protestante teria que ser uma criança educada no protestantismo, sem instrução histórica e sem contato com católicos. Se ele for sincero e buscar a Deus, ele terá que ler a Bíblia e estudar a origem do protestantismo.

Lendo a Sagrada Escritura, se for sincero, encontrará lá muitas coisas que condenam o protestantismo tal qual ele é ensinado. Por exemplo, ele terá que ter devoção a Nossa Senhora, porque em São Lucas lerá que ela foi bendita entre todas as mulheres, e em São João lerá que Jesus deixou-nos Maria por mãe, etc. Ele lerá em São Mateus que Cristo fundou a Igreja sobre Pedro, e não colegialmente. Lerá que não adianta ler a Bíblia apenas (Atos cap. VIII).

Ele, sendo sincero, ficará católico de alma. E, se tiver a oportunidade de conhecer um católico, se converterá.
Também pelo estudo da história da religião protestante – que ele tem obrigação de conhecer – ele chegará facilmente à conclusão que a Igreja Católica é a verdadeira.

Um dia, visitou-me um pastor de uma igrejola qualquer. Perguntei-lhe: “Há quantos anos existe sua seita? “Ele me disse: “Há dezessete anos”.
Contestei-lhe: “Então ela é mais nova que minha sobrinha.”
Como é possível que Cristo tivesse esperado 2.000 anos para fundar sua igreja?

Como pode alguém, sendo sincero, permanecer protestante, se o protestantismo afirma: “Cada homem tem o direito de interpretar a Escritura como quiser, pois é sempre inspirado pelo Espírito Santo“. Se fosse assim, todas as interpretações da Bíblia seriam verdadeiras. Entretanto, para eles, a interpretação dos católicos é falsa.

Caso, então, o tal protestante seja sincero, ele ficará facilmente católico, porque Deus não abandona ninguém, e dará graças para este protestante sincero encontrar a verdadeira religião.

Logo, se houver um protestante sincero – o que é bem difícil, ou quase impossível, excetuando o caso de crianças – ele pertencerá à alma da Igreja e poderia se salvar. Mas, normalmente, não se pode esperar bem da salvação de nenhum herege, porque “Fora da Igreja não há salvação”. (IV Concílio de latrão, Denziger 430).

É preciso lembrar que Deus não condena ninguém sem culpa.

Agradeço–lhe também a poesia que você me enviou e, em troca lhe mando uma de Santa Tereza, que é, creio, o mais belo soneto jamais composto em qualquer língua.A JESUS CRUCIFICADO

No me mueve, mi Diós, para quererte,
el cielo que me tienes prometido,
ni me mueve el infierno tan temido,
para dejar por eso de ofenderte.
Tu me mueves, Señor, mueveme el verte
clavado en una cruz y escarnecido.
Muéveme ver tu cuerpo tan herido,
muévenme tus afrentas y tu muerte.
Muéveme, al fin, tu amor, y en tal manera,
que aunque no hubiera cielo, yo te amara,
y aunque no hubiera infierno, te temera.
No me tienes que dar porque te quiera,
pues, aunque lo que espero no esperara,
lo mismo que te quiero te quisiera. 
                                   Santa Tereza de Ávila

Espero que você entenda e goste deste soneto da grande mística espanhola.
Se você não entender o castelhano, escreva-me, para traduzir o texto.

Esperando ter-lhe respondido, e prometendo-lhe elucidar novas dúvidas a respeito desse problema,despeço-me

in Corde Jesu, semper,

Orlando Fedeli

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