Montfort Associação Cultural

3 de agosto de 2005

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Fidelidade exemplar à Igreja Católica

Autor: Orlando Fedeli

  • Consulente: Wilson Junior
  • Localizaçao: Rio de Janeiro – RJ – Brasil
  • Escolaridade: 2.o grau concluído
  • Profissão: Auxiliar Adminstrativo
  • Religião: Católica

Caro professor Orlando, desejo-lhe a paz de Jesus!

Gostaria de parabenizá-lo pelo site, que me tem ajudado muito na minha caminhada, inclusive me dando meios de defender a fé católica diante dos padres ( !!!! ), que muitas vezes deturpam os ensinamentos da nossa mãe Igreja. Infelizmente hoje somos atacados de dentro! Em vista disso, gostaria que o senhor pudesse ler e comentar uma carta que mandei ao meu pároco sobre uma homilia que ele fez durante a Missa do dia 27/07/05 ( inclusive cito o site montfort como referência ) e que lhe mando como anexo. A intenção é que o senhor me corrija no que eu estiver equivocado, já que não sou nenhum teólogo e só comecei a estudar o conteúdo de seu excelente site há pouco tempo, mas estranhei algumas declarações do padre ( que fique bem claro também que meu relacionamento com ele é ótimo e creio que ele é um ótimo padre, que têm defeitos como todos têm, e talvez algumas idéias erradas que lhe foram ensinadas assim ).
AFINAL, QUEM É QUE PODE ERRAR?


Rio de Janeiro, 29 de julho de 2005

Padre Sebastião, a paz de Jesus!

O senhor sabe que lhe tenho na mais alta estima e que, dentro da Congregação Vocacionista, na minha opinião, o senhor é uma das esperanças! Mas o Senhor sabe também que ter uma admiração pela sua espiritualidade e sermos amigos não impede que tenhamos opiniões muitas vezes contrárias, como já aconteceu outras vezes e o senhor deve lembrar. Gostaria de lhe apresentar esta carta onde coloco algumas ponderações a respeito do que o senhor falou durante a semana. Na quarta-feira, dia 27/07, durante a Missa, o senhor fez uma homilia onde começou falando da 1ª leitura, onde Moisés estava com seu rosto brilhando ( a ponto de esconde-lo com um véu ), graças ao seu contato com Deus. A partir daí o senhor fez uma comparação com o que chamou “algo que não é bíblico, mas que a Igreja inventou”, que seria, no passado, os homens tirarem o chapéu e as mulheres colocarem um véu para entrarem na Igreja, segundo o senhor uma clara alusão “ao homem ser superior à mulher na opinião da Igreja”. Então o senhor continuou dizendo que o Concílio Vaticano II mudou tudo isso, fez uma revolução na Igreja, que “antes a Igreja era morta, depois ganhou vida”. Vieram os grupos de jovens, instrumentos musicais, desobrigou-se os padres a usarem batina, etc. Tudo isso porque “o Papa João XXIII teve a inspiração do Espírito Santo para renovar a Igreja” e que “o Papa Paulo VI deu continuidade ao que João XXIII iniciou, mas que João Paulo II segurou a Igreja, que tentou voltar algumas coisas,como os padres voltarem a usar batina, e se João XXIII estivesse até hoje, a Igreja seria outra”. Disse ainda que “infelizmente não foi aplicado na Igreja nem em 20% o que se decidiu no Vaticano II”. Tudo isso sempre fazendo questão de frisar que a Igreja esteve errada no seu proceder. Pra terminar o senhor disse desejar “que o atual Papa Bento XVI deveria aprovar a comunhão para os que são de segundo matrimônio”, que isso “seria um bem enorme para a Igreja”.
Bom, vamos agora aos meus questionamentos:
O traje das mulheres dentro da Igreja é bíblico sim! Está lá em 1 Cor 11 e Paulo não chega a exigir que assim se faça, mas diz que pensa que assim deveria ser e aconselha a comunidade de Corinto a agir dessa maneira:

“Todo homem que ora ou profetiza tendo sua cabeça coberta, desonra a sua própria cabeça. Toda mulher, porém, que ora ou profetiza com a cabeça sem véu desonra a sua própria cabeça, porque é como se a tivesse rapada. Porque, na verdade, o homem não deve cobrir a cabeça, por ser ele imagem e semelhança de Deus, mas a mulher é glória do homem. Julgai entre vós mesmos: é próprio que a mulher ore a Deus sem trazer o véu?”.

É bíblico ou não é? É! Afinal, a Bíblia é inspirada por Deus ou não? Por que não se acusa Deus de machista?
Digamos, contudo, que não fosse, e a Igreja tivesse achado por bem orientar dessa maneira, qual o problema? Seria tão difícil assim para as mulheres usarem um véu nas celebrações e, pegando o gancho, os padres usarem batina nas ruas? A Igreja tem ou não tem autoridade para isso? É curioso em Atos dos Apóstolos 2,42 leia-se:

“E perseveraram na doutrina DOS APÓSTOLOS e na comunhão, no partir do pão e nas orações”.

É curioso que não se tenha escrito: “…na doutrina de Jesus…”. Por que? Talvez porque a doutrina de Jesus era a mesma que a doutrina dos apóstolos ( da Igreja ) e não poderia mesmo ser diferente. Visto isso, penso: se não conseguimos obedecer e estar junto nas pequenas coisas, imaginem quando for nas grandes… e tudo isso vindo do senhor, religioso, que fez voto de obediência…
Quanto ao Vaticano II e só ter sido aplicado 20% do que foi decidido, qual o problema? O Vaticano II foi um Concílio Pastoral e não dogmático, ou seja, foram feitas propostas pastorais e não decisões infalíveis nele. Dando essa margem, cada um ficou, infelizmente, livre para agir conforme achou melhor.
O Padre Pierre Blet, S.J. – atual professor de História Eclesiástica na Universidade Gregoriana e autor de um famoso livro sobre Pio XII, recomendado pelo próprio Papa João Paulo II, declarou recentemente:

“Considerando que o Concílio [Vaticano II] não proclamou nenhuma definição dogmática que seja obrigatória, cada um tem então o direito de examinar o que pode aceitar” (Padre Pierre Blet, entrevista publicada em Una Voce, Julho-Agosto de 2002)

Quanto a João Paulo II ter segurado a Igreja e até tentado voltar certas coisas, nada mais natural, afinal o Vaticano II tomou algumas decisões contrárias ao que a Igreja sempre ensinou, o que causou muita confusão, e deu liberdades demais, gerando desavenças cada vez maiores dentro da própria Igreja.

“Foi depois da Segunda Guerra Mundial que os católicos começaram a tentar compreender o que acontecia fora (sic). Até então, sua visão do mundo exterior achava-se dominada por esquemas apocalípticos de que encontramos uma amostra significativa na encíclica Divini Redemptoris. Essa encíclica foi inteiramente desclassificada pela constituição Gaudium et Spes mas, até o Concílio, ela exprimia a interpretação oficial da história moderna e contemporânea.” (José Comblin, Mitos e Realidades da Secularização, São Paulo: Editora Herder, 1970, p. 146, negrito nosso).

Outra coisa que me chamou a atenção é a falta do devido respeito à Igreja como mãe, mas ela é sempre um velha que está sempre errada e caduca ( essa é a impressão que o senhor me passa quando fala, não o que o senhor disse, que fique bem claro ). Afinal, vamos definir uma coisa: quem é que pode errar? Quando se fala que João XXIII foi inspirado por Deus para realizar o Concílio, está se dizendo que João Paulo II não foi ao “segurar” a Igreja? Qual o critério para saber quem agiu certo? O critério é a minha opinião própria? Quem é infalível? Eu? O padre? João XXIII? João Paulo II? Bento XVI? Quem é infalível? Seria a Canção Nova, a Comunidade Shalom, quem sabe a opinião pública? Seriam as outras religiões? Se todos se disserem “inspirados por Deus”, como saberemos quem está realmente? Qual o critério?

Todos podemos nos enganar! Qualquer católico de verdade sabe que quem não erra nunca é o MAGISTÉRIO EXTRAORDINÁRIO DA IGREJA. Mas como pode então um Concílio que foi pastoral ( portanto não infalível, sendo Magistério Ordinário ) anular Concílios anteriores ( dogmáticos, portanto, do Magistério Extraordinário )? O Magistério ordinário é infalível apenas quando reafirma verdades que já foram ditas pela Igreja, o que não foi o caso do Vaticano II. Então, quem errou?

É interessante também ver que nem Paulo VI, tão defendido pelo senhor, por ter dado continuidade ao Vaticano II, não ficou satisfeito com o resultado do Concílio, como podemos notar naquela famosa homilia onde ele diz que “a fumaça de Satanás entrou na Igreja”:

“Acreditava-se que, depois do Concílio, viria um dia ensolarado para a história da Igreja. Veio, pelo contrário, um dia cheio de nuvens, de tempestade, de escuridão, de indagação, de incerteza. Pregamos o ecumenismo, e nos afastamos sempre mais uns dos outros.”
(Paulo VI, Homilia de 29 de junho de 1972, na solenidade dos Santos Apóstolos Pedro e Paulo. .)

Peguei na Internet uma estatística interessante no site www.montfort.org.br, da Associação Cultural Montfort ( a qual peguei as citações todas que coloquei nesta carta, exceto as passagens bíblicas, que usei do site www.bibliaonline.net ), que tem uma posição contrária ao Vaticano II:

Padres em exercício:
1965 – 58.000
2002 – 45.000

Ordenações:
1965 – 1.575
2002 – 450

Paróquias sem padre:
1965 – 549 (cerca de 1%)
2002 – 2.928 (cerca de 15%)

Seminaristas:
1965 – 49.000
2002 – 4.700

Freiras:
1965 – 180.000
2002 – 75.000

Frades:
1965 – 12.000
2002 – 5.700

Jesuítas:
1965 – 5.277
2002 – 3.172

Franciscanos:
1965 – 2.534
2002 – 1.492

Redentoristas:
1965 – 1.148
2002 – 349

Colégios Católicos:
1965 – 1.566
2002 – 786

Estudantes de Colégios Católicos:
1965 – 700.000
2002 – 386.000

Escolas Paroquiais:
1965 – 10.504
2002 – 6.623

Estudantes de Escolas Paroquiais:
1965 – 4,5 million
2002 – 1,9 million

Batismo de Crianças:
1965 – 1,3 million
2002 – 1 million

Batismos de Adultos (conversões):
1965 – 126.000
2002 – 80.000

Casamentos Católicos:
1965 – 352.000
2002 – 256.000

Anulamentos:
1965 – 338
2002 – 50.000

Presença Regular à Missa – estudo no.1:
1958 – 74% dos Católicos (pesquisa Gallup)
1994 – 26.6% (estudo da Notre Dame)

Presença Regular à Missa – estudo da Fordham University:
1965 – 65% dos Católicos
2000 – 25%

Misc. (fonte, National Catholic Reporter)
77% acreditam que Católicos não precisam assistir à Missa aos Domingos
65% acreditam que Católicos possam se divorciar e casar novamente
53% acreditam que Católicos possam fazer aborto
10% acreditam no ensinamento da Igreja com relação ao controle de natalidade (fonte: pesquisa da Notre Dame)
70% acreditam que a Eucaristia seja uma “lembrança simbólica” de Nosso Senhor (pesquisa da New York Times)

Outro detalhe muito interessante: é possível que a Igreja tenha errado durante 1.965 anos e que apareceu a verdadeira Igreja de Cristo no Concílio Vaticano II? Afinal, como pode se manter firme durante esse tempo todo uma “Igreja morta”? Essa não é uma maneira protestante de pensar? Então Jesus não cumpriu sua promessa de que “as portas do inferno não prevalecerão sobre a Igreja”, conforme Mt 16?

Conclusão: o que pensar? Concordo que o Concílio trouxe coisas boas, mas está longe de ser essa perfeição que foi anunciada na Missa. Mas creio que o pior de tudo é o senhor fazer uma oposição a si próprio, atacando a Igreja da qual faz parte.
Espero não ter faltado com o respeito com essa carta, mas não poderia ficar calado nem podia ter rebatido na hora da Missa. Espero poder ter ajudado ao menos para que o senhor medite sobre suas homilias. Não tenho a pretensão de convencê-lo de nada, pois só o Espírito Santo nos convence da Verdade, e além de que, eu também não sou o dono da verdade, apenas um estudioso dos tesouros da Igreja. Não existe a “infalibilidade Wilson Junior”.
Cordialmente, sua ovelha

WILSON JUNIOR
PASTORAL DA CRISMA E ACOLHIMENTO



E, se me permite, além de avaliar minha carta ao padre, gostaria que me enviasse ou me dissesse onde encontro uma oração eucarística em Latim, e onde posso participar de uma Missa em Latim aqui no Rio.
Um último comentário: hoje ( 02/08 ) completa-se 10 anos em que voltei à Igreja ( através da RCC, que foi minha porta de entrada ). Sim, concordo com suas críticas à RCC ( onde hoje não sou membro ativo, de equipe, mas participante ) mas vejo que lá existem pessoas que querem acertar e estão em busca disso, ou seja, só precisam ser bem orientados para voltarem totalmente ao que a Igreja ensina e sempre ensinou.
Agradeço a paciência em ler esta enorme carta e fico ansioso da resposta. Que Deus abençoe sempre mais não só ao senhor mas a todos os que fazem este site acontecer.
A paz do Senhor Jesus esteja nos seus corações!

Muito prezado Wilson,
Salve Maria!

    Não tenho nada de importante a corrigir em sua carta. Só poderia elogiar a sua fidelidade e respeito pelo sacerdote e sua fidelidade exemplar à Igreja Católica Apostólica Romana, fora da qual não há salvação.

    Deus o recompense. Quero elogiar ainda sua capacidade de argumentar com lógica irrefutável. Meus parabéns.

    Publicaremos com alegria sua carta no site Montfort, porque ela é um exemplo de coragem e de coerência. 

    Um forte abraço de um velho para um novo companheiro de cruzada.

In Corde Jesu, semper,
Orlando Fedeli

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