Montfort Associação Cultural

17 de janeiro de 2005

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Fé e razão

Autor: Orlando Fedeli

  • Consulente: Jairo
  • Localizaçao: – Brasil

Bom dia Sr. Orlando Fedeli,

Que a paz de Nosso Senhor Jesus Cristo e o amor da Virgem Maria estejam com toda sua família.

No fundo, apesar de muito do que é colocado pelo Sr. ainda ser contrário a muito do que aprendo desde criança e eu não concordar com muitas delas (sobre a pena de morte e a RCC, por exemplo), o contato que tenho tido tem apenas reafirmado a certeza da fé católica. Algum dia, por graça de Nosso Senhor, eu mude de opinião, muito mais por esclarecimento que pela simples mudança.

E lá vou eu com uma nova pergunta (é difícil conter-me!!): qual a posição da Igreja sobre o conhecimento da Trindade? Ele é lógico apenas (de caráter racional) ou tem algum caráter místico? Por exemplo, devo contemplá-La sabendo que o Espírito Santo se manifesta como o amor do Pai pelo Filho ou, devo contemplar o mistério da Trindade? (A questão que me tortura é que tantas vezes há questões que buscam racionalizar Deus e a razão Divina é inconcebível para nossa consciência. Não se pode descrevê-la, mas sentí-la, como São Francisco de Assis o fez).

Atenciosamente,
Jairo

Prezado Jairo,
Salve Maria.

Sua “tortura”, é você mesmo quem a faz. E você a faz porque tem uma idéia errada sobre a relação entre a Fé a razão. É o que se depreende de suas perguntas e do texto da Escritura que cita, aplicando erradamente o que ela diz.
Com efeito, a Igreja ensina que não há conflito — e que não pode haver conflito — entre a Fé e a razão, porque Deus é quem nos revela o conteúdo da Fé e Ele mesmo é o autor da razão. Se houvesse contradição entre as duas, haveria contradição no próprio Deus, o que é absurdo.

A Fé é uma virtude soobrenatural intelectual. Isto é, ela é praticada pela nossa inteligência especialmente, quando aceitamos com nossa inteligência o que Deus revelou, ainda que não o compreendamos. Porém, nada que Deus nos revela — mesmo os mistérios incompreensíveis a nosso intelecto — é contrário à razão. Deus nunca nos pede para crer no absurdo.
A Fé sem a razão é misticismo louco. A Razão sem a Fé é racionalismo naturalista.

Procure ler o que diz o Concílio Vaticano I sobre este tema.
São Tomás de Aquino tem excelente explicação sobre a geração do Verbo em Deus e sobre a processão do Espírito Santo, que publicaremos em resumo em nosso site. Ninguém, é evidente, pode explicar como Deus é uno e trino, ao mesmo tempo. Mas é possível explicar como se dão as processões em Deus. E a explicação de São Tomás é bem racional, mas não racionalista.
Quanto mais compreendemos da Fé com nossa inteligência, mais nossa Fé será elevada. Por isso, Deus nos pediu para amá-Lo também com toda nossa inteligência.

De seu texto perguntando a respeito da contemplação mística da Trindade, deduzo que você talvez esteja sendo mal orientado em como rezar e fazer meditação.
Em vez de pretender “contemplar a Trindade”, faça uma meditação simples sobre as parábolas e fatos do Evangelho. Procure um bom livro de meditação – que não seja carismático, porque é o espírito do carismatismo que o está perturbando.
E, sobretudo jamais procure sentimentos na meditação. Não se coloque no nível de São Francisco de Assis.
Na oração, por vezes, Deus nos concede ter sentimentos, mas normalmente os sentimentos não devem ser procurados, nem desejados. Deus os dá quando quer. Dando, devemos aproveitá-los, mas sem jamais colocar os sentimentos acima da compreensão intelectual, porque a verdade é imutável e nos liberta — “A verdade vos libertará– nos disse Jesus –, enquanto os sentimentos podem ser bem enganadores, e mesmo podem não provir de Deus.

Esperando te-lo ajudado, coloco-me a sua disposição,
in Corde Jesu, semper,
Orlando Fedeli.

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