Montfort Associação Cultural

12 de janeiro de 2005

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Falta de Caridade

Autor: Orlando Fedeli

  • Consulente: Afonso
  • Localizaçao: Rio de Janeiro – RJ – Brasil
  • Profissão: Padre

Queridos irmãos em Cristo.

Gosto muito do que Vocês argumentam baseados em documentos da Igreja, mas sua linguagem debochada em relação à Igreja, seus pastores, à TFP e outros desafetos seus deixa transparecer que falta o principal em católicos, que é a caridade.

Henri de Lubac foi suspenso por Pio XII. No seu exílio intelectual escreveu um verdadeiro poema de amor à Igreja que são as suas “Méditations sur l”Eglise”.

E também quando entram na política, como no artigo de Marcelo Fedeli de 25 de outubro de 2001 são de uma ingenuidade que chega a ser irresponsável. Sobre a autodefesa da Inglaterra (?) e Estados Unidos, gostaria que lessem: Terror contar o Estado Nacional – EIR, que se pode adquirir pelo endereço eletrônico ocomplo@terra.com.br

Se querem discutir, mantenham-se – é um conselho amigo – no terreno religioso, da doutrina, porque em política “há mais coisas entre o céu e a terra do que pode imaginar a nossa vã filosofia”. E não falem mais de “legítima” defesa do império mais cruel que a humanidade tem visto.

Com todo o respeito,

Padre Afonso

Rev. Padre Afonso, salve Maria.

É uma alegria e um prazer receber uma carta de um sacerdote, porque nos permite – o que é raro – iniciar nossa resposta pedindo que nos abençoe. Bendito o que vem em nome do Senhor.

O senhor afirma gostar de nossos argumentos, pois reconhece que nos fundamentamos em documentos da Igreja. Muito obrigado por esse elogio e por esse reconhecimento.

Porém, depois, o senhor nos critica, dizendo que usamos “linguagem debochada em relação à Igreja, seus pastores, à TFP e outros desafetos seus deixa transparecer que falta o principal em católicos, que é a caridade”.

Padre, permita que, com todo o respeito por seu caráter sacerdotal, repilamos essa acusação, porque ela não tem fundamento. Pautamos nossa conduta sempre em respeitar a Santa Igreja pela qual queremos viver e morrer.

O senhor não poderá citar uma carta sequer na qual tenhamos respondido de modo “debochado” a uma autoridade eclesiástica. E muito menos em relação à Igreja, que é a única coisa pela qual existimos, e cuja defesa é a razão fundamental de nosso site.

Sempre fizemos e fazemos questão de responder com reverência aos poucos sacerdotes que nos escreveram. Aliás, o próprio tom desta carta comprova o que dizemos.

Não compreendemos também porque o Sr. mistura os pastores da Igreja com a TFP “e outros desafetos”.

Pelo que sabemos, os pastores da Igreja não apóiam a TFP, nem se sentem unidos a ela…

Por acaso, Vossa Reverendíssima é ligado à TFP?

Vossa Reverendíssima nos acusa ainda de faltar com a caridade.

Também contra isso, permita-nos – com todo respeito – protestar.

A caridade manda corrigir os que erram, e manda mesmo, em certos casos, atacar os que erram. Foi o que fez o próprio Nosso Senhor Jesus Cristo com os fariseus, escribas e doutores da lei. Ou será que, quando Nosso Senhor Jesus Cristo os atacava com palavras bem duras, faltava Cristo com a caridade? Nós nunca chamamos ninguém de “sepulcro caiado” ou de “filhos do demônio”.

Provavelmente, o senhor considera que a ironia que usamos, por vezes, para profligar os inimigos de Deus seja falta de caridade. Mas esse julgamento – permita-nos lembrar-lhe com o devido respeito -não tem base na doutrina católica. Os santos sempre usaram esse método, quando ele foi necessário, para combater certos hereges. Basta ler o que escreveu São Bernardo, ou o que escreveu Davi, nos salmos, para comprovar o que dizemos. Ou as cartas de São Jerônimo, que  sendo santo, Doutor e Padre da Igreja, não pode ser acusado de não ter caridade (Em apêndice, tomo a liberdade de lhe enviar a tradução de cartas de São Jerônimo ao herege Vigilâncio).

O senhor cita o padre (depois, Cardeal de Lubac) como exemplo de amor à Igreja.

Ora, Padre, esse Cardeal era modernista, e sua doutrina foi justamente censurada por Pio XII.

Ou o senhor acha que Pio XII errou ao condenar a chamada Nova Teologia?

O senhor aceitaria as teses da Nova Teologia?

Não creio, Padre, que o senhor repila a condenação de De Lubac, feita por Pio XII.

O Cardeal De Lubac deveria ter acatado imediatamente a correção feita pelo Papa, e renegado as teses que Pio XII condenou. Fazer poesia sem renegar os erros condenados pelo Papa não é amor verdadeiro pela Igreja.

Obviamente sem pretender dar-lhe lição, pois sou um simples leigo e o senhor é sacerdote, mas só para recordar permita que lhe lembre que, sem a verdadeira fé, não é possível haver caridade.

E será que a caridade permite chamar um de nossos articulistas de “irresponsável”?

Saiba, Padre, que a tese de que a Inglaterra e os Estados Unidos tinham direito a responder ao ataque terrorrista de Bin Laden com a força foi endossada pelo Cardeal Ratzinger, e confirmada pelo porta voz do Vaticano, Navarro Valls. Nosso colaborador Marcelo Fedeli reproduziu a mesma tese defendida por Ratzinger e pelo porta-voz do Vaticano, e criticou a tese oposta, que Monsenhor Martino, observador do Papa na ONU, defendeu, condenando o que o Cardeal Ratzinger e Navarro Valls haviam defendido.

Por essa razão, perguntou o autor do artigo que o senhor considera irresponsável: a quem seguir?

O senhor, pelo visto, prefere seguir a posição justificadora do ataque terrorista de Bin Laden, defendida por Monsenhor Martino. Nós seguimos o que afirmou o Cardeal Ratzinger e o porta-voz da Santa Sé. Os quais, aliás, só repetiram a tese da legítima defesa, aprovada pela doutrina da Igreja Católica.

Portanto, Padre, seria ao Cardeal Ratzinger e ao porta-voz do Vaticano que – indiretamente – o senhor chama de “irresponsáveis”?

Sua critica à reação americana poderia levar seus leitores ao equívoco de que o senhor defenderia a legitimidade dos atentados terroristas de Bin Laden, o que seria uma imprecisão lamentável.

É claro que o senhor não pode defender atos de terrorismo, mesmo contra os Estados Unidos, porque o terrorismo, de si, é criminoso e contrário à caridade, não é verdade, Padre?

Se o senhor nos quiser esclarecer como e por que nós deveríamos deixar de acatar o que disseram o Cardeal Ratzinger e o porta-voz do Vaticano, nós o ouviremos com respeito, porque o senhor é sacerdote. Mas, mesmo o Sr. não poderá nos convencer de que é ilegítimo reagir a um ataque terrorista, porque essa tese é contrária à doutrina católica, e contrária à caridade. Quanto à sua opinião sobre o “império mais cruel que a humanidade tem visto”, permita-me dizer-lhe, Padre, com todo o respeito que se lhe deve – e falo como professor de História – que esse título de mais cruel império da História é muito difícil de ser dado.

Sem querer defender os Estados Unidos, parece-me que o senhor olvida a História da Revolução Francesa, que assassinou centenas de milhares de pessoas, ou a Historia da URSS, ou a história do nazismo. Recomendo-lhe que leia, por exemplo, a obra “O livro Negro do Comunismo” escrito por dois ex-comunistas.

Recomendo-lhe ainda a leitura do livro “A Guerra Civil Espanhola” de Hugh Thomas (e esse também é um autor insuspeito, por ser esquerdista), onde ele afirma que nunca na História se viu tanto ódio à Igreja como nessa guerra. Também seria bom lembrar dos martírios que sofreu a Igreja no México, no século XX, quando o Partido Revolucionário Institucional, que tiranizou o México, durante muitas décadas perseguiu brutalmente os padres, fazendo milhares de mártires. Recomendo-lhe que leia a vida e o martírio do Padre Pró. E não se esqueça de ler a história de Fidel, o “democrático” tirano do Paredón cubano.

Agradecendo sua boa intenção de nos bem corrigir e aconselhar, rogando que reze por nós e pedindo sua benção, nos despedimos

in Corde Jesu, semper,
Orlando Fedeli.

P.S.

Trechos da carta de São Jerônimo a Vigilâncio.Considero, ademais, que teu nome te foi imposto por antífrase. Porque tu dormes com todo o teu espírito, e o profundíssimo sono que te faz roncar é antes letárgico. Com efeito, entre as numerosas blasfêmias que tua boca proferiu, eis o que tu ousaste dizer: a montanha da qual — no livro de Daniel — foi arrancada uma pedra sem a mão de um homem, é o diabo; a pedra, seria Cristo que assumiu o corpo de Adão, o qual antes estava ligado ao diabo por seus pecados; Ele nasceu da Virgem, para separar o homem da montanha, isto é do diabo. Ó língua a ser cortada, a rasgar em tiras e em pedaços ! Há um só cristão que interprete que Deus Pai todo poderoso desempenha o papel do diabo e que ouse sujar os ouvidos do mundo inteiro com tal blasfêmia?
(São Jerônimo, Cartas, Les Belles Lettres, Paris, 1953, Carta LXI. A Vigilâncio, vol. III, pg.114. A Tradução da versão francesa é de OF).

Como, o senhor pode notar, Padre, São Jerônimo ironiza o nome de seu oponente. Faz mais: deseja que sua língua seja cortada. Desse modo fica provado que não é contra a caridade, em certas ocasiões e na devida medida, usar de ironia para combater os inimigos de Deus e da Igreja.

Respeitosamente, in Christo,
Orlando Fedeli

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