Montfort Associação Cultural

24 de dezembro de 2005

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Expectativas do encontro do Papa Bento XVI com D. Fellay

Autor: Orlando Fedeli

  • Consulente: Renato Rosa
  • Idade: 22
  • Localizaçao: Leiria – Portugal
  • Escolaridade: Superior em andamento
  • Profissão: Estudante
  • Religião: Católica

Caro Prof. Orlando

Li com interesse o comunicado de imprensa relativo ao encontro do Papa com o superior geral da Fraternidade de S. Pio X, com o respectivo comentário elaborado pelo Prof. Orlando.
O que mais me admirou no comentário foi como de um comunicado tão vago como o que foi divulgado, que não revela propriamente o conteúdo da discussão, o Prof. Orlando pôde tirar conclusões tão concretas acerca dos próximos passos na reconciliação daquele grupo com a Igreja Católica.

O Prof. Orlando colocou logo como certo que os primeiros passos fossem o levantamento da excomunhão e ainda a liberalização da missa tridentina para todo o mundo! Ora, nada disso aparece no comunicado. Quanto ao levantamento das excomunhões, admito que isso seja provável, como um sinal de boa vontade e abertura por parte do Papa (se bem que tais excomunhões repousam sobre algo concreto, objectivo, que não pode ser escondido). Mas não parece assim tão certo que seja dada liberdade para a missa tridentina em todo o mundo. Nem parece ser do agrado do Papa. Não se vê razão para que a celebração da missa tridentina deixe de estar sujeita ao que é dito na carta “Quattuor abhinc annos” e no Motu Proprio “Ecclesia Dei”. Por que razão somente o Papa deveria fazer cedências no diálogo com os tradicionalistas? Talvez possa haver mais flexibilidade na concessão da missa tridentina, mas nunca ela poderá deixar de estar sujeita a controlo, por meio duma autorização, seja ela dada pela Santa Sé ou pelo Bispo diocesano, e sob determinadas condições.

O Prof. Orlando fala de seguida duma discussão de problemas de fundo, que seriam o Vaticano II e a “Nova” Missa. Certamente, nem são outros os problemas de fundo que causam a divisão.
Contudo, o Prof. Orlando mostra entender que esta discussão teria apenas como fim o reconhecimento de erros no Vaticano II e na “Nova” Missa, pois fala apenas de “dificuldades que o Papa tem a enfrentar”, como se não existisse qualquer dificuldade do lado dos nossos irmãos tradicionalistas. O que o leva a pensar que o Papa é um aliado incondicional da Fraternidade de S. Pio X e que está disposto a aceitar todas as suas reivindicações, sem mais? Aliás, as suas acções e intervenções recentes têm mostrado o contrário.
Não vejo razão para que o Card. Ratzinger, agora Papa, mude a maneira de proceder que teve antes, quando foi encarregado por João Paulo II de negociar um acordo com D. Lefebvre. Assim, parece mais razoável que a discussão tenha como fim o seguinte:

“Declaramos aceitar a doutrina contida no número 25 da Constituição dogmática “Lumen Gentium” do Concílio Vaticano II sobre o Magistério eclesiástico e a adesão que lhe é devida.
A propósito de certos pontos ensinados pelo Concílio Vaticano II ou respeitantes às reformas posteriores da Liturgia e do Direito e que nos parecem dificilmente conciliáveis com a Tradição, comprometemo-nos a ter uma atitude positiva de estudo e de comunicação com a Sé Apostólica, evitando toda a polémica.
Declaramos, por outro lado, reconhecer a validade do Sacrifício da Missa e dos Sacramentos celebrados com a intenção de fazer o que faz a Igreja e segundo os ritos indicados nas edições típicas do Missal Romano e dos Rituais dos Sacramentos promulgados pelo Papa Paulo VI e João Paulo II.
Por fim, prometemos respeitar a disciplina comum da Igreja e as leis eclesiásticas, especialmente as contidas no Código de Direito Canónico promulgado pelo Papa João Paulo II, ressalvando-se a disciplina especial concedida à Fraternidade por uma lei particular.”

A finalidade da discussão não será descobrir erros no 21º Concílio Ecuménico (nem tal é razoável, discutir com o Papa o magistério supremo da Igreja na sua forma mais solene), de que Bento XVI é ardente defensor. Ela destina-se a promover um estudo atento da doutrina do Concílio, para que os membros da Fraternidade entendam a sua fidelidade e continuidade com a Tradição, e esclareçam os pontos que lhes parecem mais difíceis de compreender como Doutrina da Igreja. E isto para que por fim lhe prestem a sua inteira adesão, como convém aos verdadeiros católicos.
O mesmo se passa em relação à Missa renovada por Paulo VI. A discussão destina-se a que os membros da Fraternidade esclareçam os pontos para eles difíceis de entender, para que por fim possam afirmar a inteira validade, legitimidade e dignidade da Missa como é prescrita actualmente, sem prejuízo da celebração da Missa tridentina, por motivos razoáveis.
É mais provável que as etapas referidas digam respeito aos tempos necessários de estudo e reflexão, com vista à adesão perfeita ao ensinamento da Igreja e consequente recondução ao rebanho de Cristo.
É mais razoável pensar que Papa preveja um modelo de integração da Fraternidade semelhante ao aplicado à Fraternidade de S. Pedro, ao Instituto de Cristo Rei ou à Administração Apostólica de Campos. Porque havemos de pensar que agora se passe a proceder doutra maneira ou a perseguir fins distintos dos procurados até agora?
Bento XVI procederá de modo semelhante a João Paulo II, que sempre apoiou enquanto Card. Ratzinger.

Rezemos para que finalmente se dê início ao processo que leve todos os tradicionalistas à integração perfeita na Igreja, Corpo de Cristo.

Muito prezado Renato,

salve Maria!
  
    Você não imagina como sua carta é oportuna. Mais: é providencial!
    Ela me permite esclarecer algo mais do que penso da situação atual da Igreja.
    Antes de tudo, lembro-lhe que não estou ligado à Fraternidade Sacerdotal São PIo X. Com ela travei polêmicas, porque não concordei com a instituição nela de tribunais com pretensos poderes, que só cabem à Rota Romana, para tratar da nulidade do vínculo matrimonial.
    Apoio a posição dos lefevristas quanto ao problema da Missa Nova e a favor da Missa de sempre.
    Sublinhei que apoio apenas a Fraternidade na questão da Missa, porque a Fraternidade é muito heterogênea, e não posso aprovar os maurrassianos, os nacionalistas, os favoráveis a Franco e ao fascismo, e muito menos, alguns sede vacantistas e gnósticos que existem por lá.
    Rezo para que Dom Fellay tenha êxito em sua defesa da Missa de sempre, — o quanto antes! — obtendo de Roma a liberação universal da Missa, chamada de São Pio V, e a declaração favorável a Dom Mayer e a Dom Lefebvre de que Roma não os têm como excomungados.
    Essas duas condições foram colocadas muito bem por Dom Fellay, para depois discutir o Vaticano II e a Nova Mssa com o Papa Bento XVI.
    O fato de haver encontros entre Dom Felaly e o Papa já é um passo adiante, e animador de esperanças.
    Claro que a aceitação dessas duas condições não aparece nos Comunicados emitidos. É só uma dedução lógica.
    Poderei estar errado? Admito facilmente poder estar errado, em meu raciocínio.
    Admito poder estar equivocado nas deduções que fiz dos Comunicados da Santa Sé e da Fraternidade sobre o primeiro encontro do Papa Bento XVI  com Dom Fellay, porque dei apenas uma interpretação de fatos por indícios.
    Mas no Comunicado da Fraternidade se usa o termo consenso, termo que reforça minha dedução hipotética.
    Depois, houve entrevista dada pelo Padre Schmidberger sobre esse encontro. Ele é o primeiro assistente de Dom Fellay, e presenciou o encontro dele com o Papa Bento XVI. Padre Schmidberger fez declarações mais otimistas do que pessimistas sobre as discussões que se tem levado a cabo, há tempos já, em Roma, e sobre o encontro com Bento XVI..
    Disse eu que, se sair o acordo, é certo que as duas condições colocadas por Dom Fellay serão atendidas. Não creio que Dom Fellay aceite qualquer acordo sem ver levantadas as excomunhões e liberada a missa.
    Você me diz que acha isso “provável“, mas não certo.
    Não há muita razão para divergência séria entre prever algo como certo e o prevê-lo apenas como provável. Isso é matéria puramente opinativa.
    Quem viver, verá.
    Rezemos para que a minha esperança seja atendida.
    Que seja atendida por causa da Missa, e não para que eu tenha minha opinião vitoriosa. E isso é mera opinião minha sobre um futuro que só Deus conhece, e não um “dogma”. Justamente eu que sou inacertante em minhas previsões, posso muito bem estar equivocado.
    Você justifica a sua previsão dizendo-me:
 
    “Mas não parece assim tão certo que seja dada liberdade para a missa tridentina em todo o mundo. Nem parece ser do agrado do Papa”.
 
    Ora, Dom Fellay, que está metido direta e pessoalmente no caso, escreveu uma previsão mais próxima da minha que da sua, embora os fatos possam vir a dar razão a você. O que eu lamentaria. Por causa da Missa. Por causa da Igreja. Não para ver triunfar meu palpite inacertante. Garanto-lhe.
    Vejamos então o que disse Dom Fellay em Conferência sobre Bento XVI , realizada em Bruxelas em Junho passado, e publicada exatamente no dia  do encontro dele com o Papa Bento XVI, o antigo Cardeal Ratzinger;
 
    ”Roma sabe perfeitamente que essa Missa – [a Missa que foi rezada durante 2.000 anos] - não pode ser proibida, e este e aquele Cardeal começa a dizê-lo. Entre esses o ex prefeito da Congregação para a Liturgia, o Cardeal Medina, declarou: Fiz pesquizas e não encontrei textos que interditem a Missa antiga”.  [Ora, dizer que ele não foi foi proibida significa reconhecer que ela é permitida.
    "Roma sabe disso, e por Roma eu entendo a Cúria, João Paulo II e agora Bento XVI, eles sabem que a Missa Tridentina nunca foi proibida, e que ela não pode ser proibida, que não existe nenhum elemento jurídico ou teológico que permita a proibição dessa Missa. Eles o sabem , e portanto, um dia, essa injustiça feita contra a Igreja e à Missa antiga desaparecerá.
    "Rezemos para que isto ocorra sob este pontificado -- [o de Bento XVI] — porque é totalmente possível que seja assim”. [Sou eu que coloco esse destaque nas palavars de Dom Fellay]
 
    Ora, estas palavras foram escritas em Junho deste ano.
    Em Agosto se deu o encontro de Dom Fellay com Bento XVI. E é claro que eles trataram desses assuntos que os dividem e que sobre os quais — diz o Comunicvadao da Fraternidade — chegaram agora a um “consenso”.
    Você me pergunta, argumentando contra minha opinião, a qual você tem todo o direito de repelir, e de defender outra:
    
    ”O que o leva a pensar que o Papa é um aliado incondicional da Fraternidade de S. Pio X e que está disposto a aceitar todas as suas reivindicações, sem mais”.
    
    Nunca disse que o Papa Bento XVI é um aliado incondicional da Fraternidade São Pio X. E não creio que seja assim.
    O próprio Dom Fellay salientou na Conferência citada que a formação de Ratzinger foi modernista, e que ele atuou no Vaticano II como perito modernista. Depois, como Bispo e Cardeal continuou sempre defendendo o Vaticano II “segundo a letra”, contra os que defendiam o “espírito do Concílio”.
    Apenas, ele tem mostrado mudanças, especialmente na questão da Missa. O que desagrada sobremaneira os modernistas.
    Disse Dom Fellay:
 
    ”Eu penso que o Cardeal Ratzinger é o Cardeal que nos conhece mais que todos, aquele que nos seguiu desde o início”. (Dom Fellay, Conferência citada).
 
    Disse ainda que a eleição dele foi “para os progressistas, um desastre”, (…) porque  certamente o Cardeal Ratzinger pode ser considerado um dos melhores” [candidatos ao Papado] “Nos últimos anos, ele, várias vezes criticou a Nova Missa, e até escreveu um livro sobre esse tema. Tudo isso parece ir na direção certa (Dom Fellay, Conferência citada).
 
    Você se espanta do quanto tirei dos dois Comunicados da Santa Sé e da Fraternidade.
    E depois você me dá como será – em 11 linhas — o comunicado final que seria assinado por Bento XVI e por Dom Fellay.
    Aceito que você me julgue imaginativo. Mas minha imaginação — que é bem grande — não conseguiu montar um Comunicado Final dos encontros eclesiásticos em pauta.
    Sua imaginação venceu a minha. Em 11 linhas. Parabéns!
    Você considera ainda que: 
 
    ”É mais razoável pensar que Papa preveja um modelo de integração da Fraternidade semelhante ao aplicado à Fraternidade de S. Pedro, ao Instituto de Cristo Rei ou à Administração Apostólica de Campos. Porque havemos de pensar que agora se passe a proceder doutra maneira ou a perseguir fins distintos dos procurados até agora?”.
 
    Agora, você superou sua própria imaginação.
    Jamais Dom Fellay aceitará o Vaticano II como está, e a nova Missa de Paulo VI que propiciou os abusos combatidos por João Paulo II e pelo Cardeal Ratzinger.
    Dizendo isso, você demonsra não conhecer o que escreveu o Cardeal Ratzinger a respeito da nova Missa. Pelo menos você deveria saber que ele quer que o padre reze a Missa de costas para o povo, e sem rock, que ele chamou de anti culto. E dizem que mesmo a Missa Nova deverá ter ainda algumas partes em latim.
    Creio que não lhe será difícil imaginar que a Nova Missa, sem rock, e com o padre dando as costas ao povo, estará morta muito rapidamente.
    Ou será que isso também é imaginação de minha parte?
    Concordo inteiramente com seu desejo final para rezarmos pela união perfeita dos tradicionalistas a Roma, e ao Papa.
    E não creio que isso esteja tão distante, pois que o próprio Dom Fellay afirma que
    
    ”Eu não estou desencorajado. Vê-se bem que o bom Deus está agindo. Certamente não se pode dizer que a renovação da Igreja esta concluída, mas é como quando se percebem tantos pequenos brotos verdes no meio do deserto: vê-se um aqui, outro ali, e se sabe que depois disso o bom Deus fará de tal modo que no meio do deserto um dia haverá verde por toda a parte.” (Dom Fellay, Conferência citada)
        
    Quanto tempo levará o deserto a reflorecer ?
    Não se sabe. Certamente não será de um dia para o outro.
    Dom Bosco, no sonho em que vê a destruição da Igreja, e, depois, o retorno do Papa a Roma, afirma que o tempo que se levou pra sair de Roma será igual ao tempo que se levará para retornar a Roma. Ele fala em 200 dias de afastamento, e 200 dias de retorno. Claro que não são dias.
    São 40 anos que se passaram desde o Vaticano II, e que exigirão mais 40 anos para retornar?
    Não sei e não dei palpíte sobre isso.
    O que creio e espero ardentemente é baseado nas promessas de Cristo de que as portas do inferno não prevalecerão sobre a Igreja, que o barco de São Pedro não afundarã jamais. E sei que — como diz Dom Fellay, mais um pouco e a barca afundará. Estou citando o que expressou Dom Fellay, analisando o sermão do Cardeal Ratzinger na abertura do conclave. 
    O que sei é que o Terceiro Segredo de Fátima mostra uma procissão saindo de uma cidade arruinada — a Igreja ? — e subindo uma montanha com a cruz –  Um calvário. A Missa? — e, depois, o Papa caminhando atrás da procissão com passo vacilante e cambaleante, ser fuzilado e morto a tiros e a flechadas junto com muitos Cardeais prelados, padres e povo.
    Desejar isso, torcer com toda a alma que isso aconteça logo, — um logo que não sei quando será —, não é sonhar quimeras proféticas. Não é imaginar reinos milenaristas. É crer e esperar nas palavras de Cristo e na promessa de Nossa Senhora em Fátima.
    A igreja vai tirunfar. A virgem vai vencer esta batalha contra o demônio .
    Quando? Não sei. Só quereria que fosse amanhã.
    Será logo? Será no Sínodo? Só Deus sabe.
    Dom Fellay como vimos acima,  acha que possivelmente será neste pontificado.Que normalmente será mais curto do que o de João paulo II, dada a idade avançada de Bento XVI.
    E se não for? Será depois.
    Será com outro Papa
    A noite não é eterna. O sol vai renascer.
    A aurora já ilumina o leste.
    O deserto, aqui e acolá, já está florescendo.   
    O que não significa que se terá imediatamente um dia luminoso. Ou que a vinha do Senhor rapidamente terá muitas uvas e uma garnde safra. O vinho custa a fermentar e a envelhecer. Os grandes triunfos só vêm depois de longas batalhas.
    A Ressurreição de Cristo foi o grande milagre da História, e a Idade Média viu o triunfo da Igreja só 1.200 anos depois.
    Deus amanhece devagar…
    
In Corde Jesu, semper,
Orlando Fedeli.

Replica

Caro Prof. Orlando,
a paz de Cristo esteja connosco!

Agradeço em primeiro lugar a rapidez com que respondeu à minha anterior carta, referente ao encontro entre o Papa e D. Fellay. Não esperava, na verdade, tal rapidez, devido ao elevado número de cartas que são enviadas ao vosso site.

Declaro ainda que, da minha parte, pretendo discutir estes assuntos com o máximo respeito por todos os envolvidos, ainda que discorde das suas opiniões.

Li com atenção a sua resposta à minha carta, e gostaria agora de fazer alguns esclarecimentos.

Olhemos para as duas condições postas pela FSSPX para o diálogo com Roma. O levantamento das excomunhões, muito bem, nada tenho a opor. Contudo, penso que o fim da excomunhão não significa que se passe a ter por louvável e acertado tudo o que disseram e fizeram D. Lefebvre, D. Antônio de Castro Mayer e os restantes. Significa apenas boa vontade e abertura para fazer o diálogo, sem o peso duma excomunhão.

Quanto à Missa tridentina, não tem sentido argumentar que ela não está proibida. Claro que não está proibida! Pois se há tantas pessoas, católicas, que a celebram licitamente! A Missa tridentina é permitida seja para associações, como a Fraternidade de S. Pedro, etc, seja para outros grupos de pessoas, e para sacerdotes, que fazem uso da permissão dada expressamente em 1984, na carta “Quattuor abhinc annos”, confirmada pelo Motu Proprio “Ecclesia Dei”, de 1988. O que penso sinceramente é que a celebração da Missa tridentina não pode ser liberalizada totalmente, ou seja, sem ser sujeita a uma autorização. Não pode ser dada a mesma liberdade para a Missa tridentina e para a Missa actual que, quer queiramos quer não, é a Missa em vigor para a Igreja Católica de rito romano. A Missa tridentina pode ser celebrada, sim, mas mediante uma autorização, que é dada quando se cumprem algumas condições. Ela não pode ser permitida sem mais, sem qualquer controlo.

Quanto ao texto de 11 linhas que seria o comunicado final do diálogo, não o inventei. Nem teria capacidade imaginativa para tanto. Peço desculpa ao Prof. Orlando e a todos os leitores por não ter citado a origem do texto. Trata-se da declaração doutrinal pertencente ao protocolo de acordo assinado por D. Lefebvre e pelo Card. Ratzinger, em Maio de 1988. D. Lefebvre, no dia seguinte a ter assinado, decidiu retroceder na decisão e desistiu do acordo, por achar que Roma não estava disposta a cumprir o prometido, sobretudo no que se referia à nomeação dum bispo pertencente à fraternidade. Esta recusa do acordo levou à ordenação dos 4 bispos a 30 de Junho. Desta declaração doutrinal, que D. Lefebvre não só admitiu como inclusivamente chegou a assinar, fazem parte os 4 pontos que trancrevi e ainda um outro, prévio a todos, que diz: “Prometemos ser sempre fiéis à Igreja Católica e ao Romano Pontífice, seu Sumo Pastor, Vigário de Cristo, Sucessor do Bem-Aventurado Pedro no seu primado e Chefe do Corpo dos Bispos.” Não o transcrevi porque, por aquilo que é continuamente dito pelos responsáveis da FSSPX e pelos tradicionalistas em geral (tirando os sedevacantistas), este ponto é algo assumido e inquestionável para eles, e portanto livre já de qualquer discussão. Como pensei que reconheceria o texto, visto o seu grande conhecimento destas questões, não citei a origem. Pela confusão causada, mais uma vez as minhas desculpas. Penso que por instantes me enganei, cuidando que a existe ligação entre o Prof. Orlando e a FSSPX, o que sei que não é verdade.

Mas a razão pela qual transcrevi este texto é que ele é a melhor pista sobre como será um acordo entre Roma e a FSSPX. Os intervenientes são praticamente os mesmos: o Card. Ratzinger, agora Papa, e o máximo representante da FSSPX. Por este texto verificamos que Roma não prescinde de determinados pontos (de que não pode, na verdade, prescindir), como o Concílio Vaticano II e a Missa renovada por Paulo VI. O próprio D. Lefebvre mostrou estar, ainda que por momentos, disposto a aceitar essas condições. Nada nos indica que o objectivo das conversações, por etapas, não seja alcançar um novo acordo semelhante a este.

Mas concordo consigo, quando diz que excedi a minha imaginação ao pensar que D. Fellay aceitaria um acordo semelhante ao feito com Campos, etc. Também penso que ele “nunca aceitará o Vaticano II como está e a nova Missa de Paulo VI”. E lamento o facto porque, se isso é verdade, e ele não está disposto a aceitá-los, não vejo que possa haver qualquer acordo com Roma.

Quanto às críticas do Card. Ratzinger à “Nova” Missa, criticar abusos não significa recusá-la. Penso que em nenhum dos escritos do Card. Ratzinger encontramos uma recusa da “Nova ” Missa e consequente defesa da Missa tridentina. Todos criticamos os abusos, na esperança de conseguir uma celebração cada vez mais digna.

Pareceu-me que o Prof. Orlando tem uma ideia um pouco “extremista” e distorcida da Missa actual, talvez fruto dalguma má experiência. Garanto-lhe que o rock não faz parte da Missa actual e que a maioria dos responsáveis da Igreja não o defende. Participo sempre na Missa actual e posso dizer-lhe que a maior parte das vezes são celebrações dignas, sem esses abusos tantas vezes condenados, com uma música sacra bela e expressiva da Fé, apesar de serem composições recentes. Há muitos abusos, infelizmente, que todos condenamos. Mas tais abusos não fazem parte da Missa e não afectam a dignidade que ela tem em si. Se há lugares em que a Missa é mal celebrada, bem mais são aqueles em que ela preserva a sua dignidade, segundo a vontade da Igreja.

Continuo a rezar para que todos sejamos reunidos na unidade da Igreja.

Misericordias Domini in aeternum cantabo
Renato Rosa

Muito prezado Renato,
salve Maria !
 
    Você me diz:
 
   “O que penso sinceramente é que a celebração da Missa tridentina não pode ser liberalizada totalmente, ou seja, sem ser sujeita a uma autorização. Não pode ser dada a mesma liberdade para a Missa tridentina e para a Missa actual que, quer queiramos quer não, é a Missa em vigor para a Igreja Católica de rito romano. A Missa tridentina pode ser celebrada, sim, mas mediante uma autorização, que é dada quando se cumprem algumas condições. Ela não pode ser permitida sem mais, sem qualquer controlo”.
 
    Ainda ontem, o Cardeal Medina declarou que o Papa vai dar essa autorização:“o Papa pode agir brevemente para liberalizar as normas da Igreja, permitindo a todos os padres o uso do rito Tridentino”.
 
    E ainda:
 
    “Como membro da comissão Ecclesia Dei, disse o Cardeal Medina, ele é solicitado algumas vezes para celebrar uma missa no rito Tridentino. Quando recebe tal pedido, diz ele, “Eu o faço, sem pedir permissão para ninguém”.
 
    O Cardeal Medina disse também que poderá ser constitutído um grupo de estudos para debater os dois pontos em lítigio, pontos propostos a discutir pela Fraternidade São Pio X, e que o Vaticano exige que sejam aceitos: a Nova Missa e o Vaticano II
    Ora, aceitar debater esse dois problemas é admitir que eles não são são dogmáticos, nem instituídos infalivelmente.
    Já é um progresso.
    Claro que sei que a Nova Missa não inclui o rock
 
    A Constituição Sacrossantum Concilium do Vaticano II recomendou o canto gregoriano e a polifonia(no. 116). Mas, no número 119, ela  admitiu a música tradicional dos nativos. E no Brasil, então, entrou o samba, e, na Argentina, o tango. Desapareceu o gregoriano. O rock dominou as missas até no Alto do Goloso do Grogotó dos Pimentas.
 
    No Número 120 se elogia e recomenda o órgão como instrumento (no. 120). Mas, no mesmo número 120, admitem-se outros instrumentos… E lá vieram o bumbo, a cuíca, e o reco-reco. Desapareceu o órgão.
 
    A Constituição Sacrossantum Concilium do Vaticano II em seu número 36 recomendou que se mantivesse o latim como língua sacra da Igreja (no. 36). Mas, no número  54 se permitiu a língua vernácula. Resultado: o latim ficou proibido.
 
    Esse é um dos males do Vaticano II: afirma um princípio e abre exceções. Que são brechas tão largas na muralha que só ficam entradas. Desaparece a muralha dos princípios. Só restam ruínas e brechas.
    É isso que permitu a auto demolição da Igreja de que falou Paulo VI, que não tomou providências para acabar com a demolição e nada construiu, a não ser as medonhas e inóspitas salas em arte moderna nos Museus Vaticanos, a horrível sala Paulo VI com seu Cristo explodindo como um homem bomba da Al Qaeda, ou o Crucifixo deformado do comunista Manzu. 
    Então não me venha dizer, meu caro, que o rock não pertence à Missa Nova. Que você assiste uma missa Nova piedosa, devota e respeitosa, acredito.
    Mas são essas Missas Novas devotas, piedosas e respeitosas que escondem, tentam justificar, e permitem as profanações existentes em toda a parte, graças às ambiguidades dos textos da Missa Nova.
    É você que, olhando a Missa em sua capela piedosa, não vê as profanações e sacrilégios que ocorrem por toda a parte
 Recomendo-lhe que leia a crítica dos Cardeais Ottaviani e Bacci sobre a Missa Nova.
    Recomendo-lhe que leia a Ecclesia de Eucharistia.
    Recomendo-lhe que leia Redemptionis Sacramentum.
    Recomendo-lhe o que disse o Cardeal Ratzinger em seus livros, comentando os abusos e erros da Missa Nova. Por exemplo, a Missa voltada para o homem, para o povo, e não para Deus.
    Recomendo-lhe que leia a poesia de Antero de Quental sobre a futura Missa do povo.
    Recomendo-lhe que leia o livro de Monsenhor Klaus Gamber sobre a Missa Nova.
    O Cardeal Ratzinger gostava muito desse livro. Parece até que ele está seguindo as suas recomendações…
    E uma recomendação era a de dar liberdade completa à Missa antiga, e ir esvaziando a Missa Nova, até restar uma só Missa no Rito Romano. Porque só pode haver uma só Missa no rito romano.
    Advinhe qual.
 
In Corde Jesu, semper,
Orlando Fedeli

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