Montfort Associação Cultural

7 de janeiro de 2005

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Evolucionismo e nazismo

Autor: Fábio Vanini

  • Consulente: Leandro Lemes do Prado
  • Localizaçao: – Brasil

Aqui não há dúvida, mas sim esclarecimentos.
Os srs da organização montfort falam da teoria evolucionistas de Darwin e fazem ligações com o nazismo, com uma sociobiologia evolutiva que JAMAIS existiram na obra e/ou pensamento de Charles Darwin.
Envio em anexo pequeno ensaio sobre os equívocos e confusões geradas desde o nascimento da teoria de Darwin até aonde foi parar essa bola de neve: a eugenia dos nazistas.
Grato
Leandro Lemes do Prado

EPISTEMOLOGIA DAS CIÊNCIAS SOCIAIS
Professor: João Quartim de Moraes

TEXTO: Darwin lido e aprovado
Últimas reflexões sobre a antropologia darwiniana;
Tort, Patrick

A teoria darwinista, um dos mais importantes pensamentos fundadores em matéria de ciência, alicerce da teoria materialista e anti-criacionaista, fora usada e abusada por várias correntes ideológicas que se apropriaram, equivocadamente ou intencionalmente, de sua teoria evolutiva, da seleção natural e da antropologia darwiniana para justificar teorias sociais do desigualitarismo. De forma que o legado darwinista acabara servindo de inspiração para as teorias “modernistas” da eugenia, a ideologia que fundamentava o “racismo científico”, e fundador de quase todas as sociologias biológicas evolucionistas.
A responsabilidade por tal equívoco cabe, em primeiro lugar, sobre o evolucionismo filosófico de Spencer, sistema de pensamento que serve como referência ideológica ultral-liberal, emergente do contexto de lutas ideológicas que é o da Inglaterra nos anos de 1860, fundamentando-se na teoria darwinista da evolução das espécies. Isso além de representar as aspirações da burguesia industrial inglesa.
Spencer tinha uma visão orgânica da sociedade, e como um organismo, esta estaria passível de evolução. Num total equívoco, ou oportunismo, a teoria da seleção natural é adotada para tratar das sociedades, onde os mais fortes prevalecem e devem sujeitar os mais fracos para garantir a “seleção natural” dos seres humanos.
“A adaptação é a regra de sobreviência no seio de uma concorrência interindividual generalizada: os menos adaptados sem apelo e sem consideração”. Esse ultraliberalismo de Spencer abraça a teoria Darwiniana justificando e incentivando a concorrência entre os homens.
A preocupação de Spencer está em aplicar a teoria darwiniana não em um corpo onde seu uso seria legítimo, mas onde Darwin recusa precisamente sua aplicação: na marcha das sociedades humanas. Tal deslize científico trará as piores conseqüências conceituais, teóricas e políticas na Europa e no mundo.
Spencer utiliza de Darwin como uma chave para uma antropologia social evolucionaista e/ou sociobiologia. Spencer é, então, o fundador do “darwinismo social” e “criador de todos os paradigmas comuns às sociobiologias ulteriores da história.”
O erro deu-se na determinação, e interpretação, dos “conceitos-chave” da antropologia darwiniana (alheia à antropologia evolucionista). Para Darwin, “a seleção natural seleciona a civilização, que se opõe à seleção natural.” A civilização, tende a excluir, cada vez mais, pela ética e através das institucionalizações, os comportamentos eliminatórios. A seleção natural de Darwin, não seleciona apenas “variações orgânicas”, mas também a instintos que também apresentem uma vantagem evolutiva. “No lugar da eliminação dos menos aptos, aparece junto com a civilização, o dever de assistência que põe em operação, no seu lugar, múltiplos recursos de ajuda e de reabilitação.”
Através dos instintos sociais desenvolvidos pela ética, a seleção natural assume o seu caráter reversivo, selecionando, desta forma, seu contrário.
Em outras palavras: as sociedades humanas passam a adotar um conjunto de comportamentos anti-eliminatórios e, portanto,”anti-seletivos no sentido assumido pelo termo seleção na teoria desenvolvida em A ORIGEM DAS ESPÉCIES.”
A emergência progressiva da moral nas sociedades aparece como um fenômeno indissociável da evolução, fundamentando uma teoria materialista dos fundamentos da moral, desvinculando a idéia de ética de uma obrigação transcendental e/ou metafísica. A teoria da seleção natural estende-se desta forma à explicação do devir das sociedades humanas.
Tanto a sociobiologia de Spencer quanto o discurso de ruptura para com a teoria Darwiniana devem ser recusados. O primeiro por não ser, verdadeiramente darwiniano, e o segundo, por não considerar que a seleção natural submete-se a sua própria lei, numa forma onde a humanidade favorece a proteção dos fracos, transcendendo da esfera da biologia para a esfera social. A teoria da evolução das sociedades humanas de Darwin pode ser resumida como a dialética das realidades biológicas versus sociais. “Levando-se me conta a formidável conversão que implica o universo mental darwiniano, uma vez compreendido o seu continuísmo evolutivo, a distinção teorízável entre dois tipos de realidades (biológicas e culturais) se desvanece no seu essencialismo para se reformular como distinção dialética.” Poucos são os estudiosos que submetem suas análises à dialética. Inclusive as teorias liberais-spencerianas pecam em obscurecer a verdadeira teoria darwinista com a na- prática da dialética. Ao recusarem a árdua jornada intelectual que implica uma visão dialética do problema, os pensadores liberais que monopolizaram a antropologia darwiniana “desviaram a curso do rio”, fundamentando “teorias da concorrência” que, sob uma ótica darwinista, não teria o menor cabimento. A seleção natural sob a modalidade do efeito reversivo , obriga a conceber a derrubada mesma da operação seletiva como base e condição do acesso à civilização.
Uma pergunta que paira no ar, após todos esses anos, é: por que, diabos, o efeito reversivo não fora visto dantes? Bom, além da “formatação filosófica” imposta pelo pensamento spenceriano, da nova organização econômica social, onde uma “lei de evolução” que era, na verdade, uma nova versão de teorias de progresso desenvolvidos muito antes por teóricos do liberalismo.
Adicionamos isso à total confusão (intencional ou não) executada pelo pensamento Spenceriano quanto à teoria darwinista. E, talvez o principal motivo: La Descendance de l´Homme era esperada como a continuação de A Origem das Espécies, e, por isso mesmo, foi pouco lido e, quando lido, seus comentadores davam mais ênfase quanto as nossas relações e ligações com a animalidade que a seu verdadeiro propósito: a exposição da teoria da reversão. “Devemos ao efeito da reversão as nossas aquisições originais de nossos instintos sociais.” ” … por mais importante que tenha sido a luta pela existência e ainda o seja, outras influências mais importantes intervieram no que diz respeito à parte mais elevada da natureza humana.
As qualidades morais progridem de fato diretamente ou indiretamente, bem mais pelos efeitos do hábito, pelo raciocínio, pela instrução, pela religião, etc, do que pela ação da seleção natural, ainda que possamos atribuir com certeza à ação desta última os instintos sociais, que são a base do desenvolvimento do sentido moral.”(Charles Darwin, La descendence de l´homme).
Outra grande causa do equívoco e da confusão do pensamento de Darwin foi o nascimento da eugenia. O eugenismo foi a tentativa de demonstrar o caráter hereditário das qualidades intelectuais, e estabelecer estatisticamente a estrita hereditariedade do gênio, fazendo total abstração dos fatores educativos.
Francis Galton, primo de Darwin, fora o primeiro teórico do eugenismo. Sua doutrina era hostil à reprodução das “pobres e indolentes”, pensada como um obstáculo ao aumento numérico dos “homens superiores”.
O eugenismo fora uma tentativa de selecionar artificialmente novas gerações humanas, gerando, artificilmente, a evolução da espécie humana e criando um novo homem: o super homem! Assim surge a idéia e a “recomendação de medidas institucionais de intervenção corretora e compensadora tendo como finalidade restaurar a qualidade biológica do grupo pela introdução duma seleção artificial aplicada a seus membros.” De Darwin até o nazismo na Europa, o caminho é cortado por inúmeras correntes ideológicas cuja característica comum é a traição do pensamento integralmente desenvolvido de Darwin; o que foi escrito sobre o Homem não está contido em seu trabalho A Origem das Espécies, mas onde o assunto é, de fato, tratado: La Descendence de l´Homme. “O transformismo darwiniano em antropologia era um humanismo materialista aberto para a ética assimilativa e oposta a qualquer forma de opressão e coerção desigualitárias.” De resto, toda essa maré de confusões e equívocos em relação ao pensamento darwiniano pode ser evitada, com a leitura partindo de um ponto de vista dialético de sua obra.
Quando assim for feito não restará, qualquer vestígio que seja, do mito de que o legado darwinista fora responsável pelo desenvolvimento de inúmeras teorias do desigualitarismo e, inspirador da terrível solução final nazista.

 

Caro Leandro, salve Maria,

Recebemos sua carta e o texto em anexo, escrito por você, e o lemos com certo espanto. Porém, não pela crítica ou pela intenção de nos corrigir, pois isto, quando feito com caridade, é virtude.
Ficamos espantados sim com a ingenuidade da tese defendida. Desligar os frutos de sua raiz resultaria na morte da árvore, e o que vemos na história moderna é um aparente triunfo do evolucionismo exatamente nas ideologias alimentadas pelo Darwinismo. Triunfo aparente, pois reina sob a fragilidade da imposição.
Certamente não se acharão nos textos de Darwin apologias claras a raças superiores, eliminação artificial de homens inferiores, esterilização de doentes e indigentes, etc. Seria chocante para a época publicar nas academias inglesas de ciências tais propostas.
Contudo, se sabe, por exemplo, que Wallace, que publicou a teoria da Evolução ao mesmo tempo que Darwin, era espírita. E o espiritismo Kardecista é tremendamente racista (veja os artigo sobre esse tema no site da Associação Cultural Montfort). Já aí se vê em que fonte Wallace andou bebendo.
Além disso, no próprio texto que nos enviou, você deixa passar algumas contradições que fragilizam a tese que defende.
Em primeiro lugar, você diz que o darwinismo equivocadamente justificaria as teorias sociais contrárias ao igualitarismo.
Como poderia a mesma teoria ser suporte científico para o Nazismo e Comunismo ao mesmo tempo, sendo o Comunismo igualitário?
É bem conhecido o fato de que “O Capital” foi dedicado a Charles Darwin (“A Charles Darwin de um autêntico amigo seu”- é a dedicatória de Karl Marx).
É também conhecido que Heinrich Himmler, chefe da SS nazista teria dito: “A lei da natureza deve seguir seu curso por meio da sobrevivência dos mais aptos”.
A única maneira de se explicar essa relação, é a de que o darwinismo era, de certo, pelo menos logicamente, favorável à eliminação dos menos aptos. E através da seleção natural se chegaria, teoricamente, em certo igualitarismo. E isso se deduz da própria seleção darwiniana. A seleção natural, para Darwin, normalmente eliminaria as mutações e “novidades evolutivas”, mantendo a homogeneidade genética da população. E isso é o que claramente postula o “neo-darwinismo”.
Portanto, os indivíduos tendem a ser iguais entre si, ao mesmo tempo em que os mais fracos, débeis ou inferiores (menos aptos) são eliminados. E aí está a ponte entre as duas ideologias, o Nazismo e o Comunismo. Não estamos tratando ainda da negação da aplicabilidade às sociedades humanas, dita por Darwin.
Não pensemos, também, que Darwinismo e Capitalismo são ideologias sem relação histórica. É conhecido que Darwin foi muito influenciado pelas previsões de Malthus. Darwin herdou do capitalismo a idéia da sobrevivência do mais adaptado ao mercado. A livre-concorrência encontrou justificativa no Darwinismo, ainda que Darwin não tenha se pronunciado explicitamente sobre o assunto. Sobre a livre-concorrência, John Rockfeller, advogado ferrenho do evolucionismo, teria dito:”não é uma má idéia no negócio empresário. É simplesmente o operar de uma lei da natureza e de Deus”. Repare que ele conseguiu incluir uma religiosidade em suas teses capitalistas e evolucionistas. Capitalismo e Comunismo encontram convergências no Darwinismo.
O ponto principal é que não se pode negar que tais ideologias, e tantas outras que destroem o mundo moderno, serviram-se naturalmente da teoria de Darwin.
É óbvio pensar que, se o homem descende de um ancestral macacóide, as leis que regem um, regem o outro.
E isso é o que postula o Uniformitarismo, doutrina abraçada por Darwin. Tal doutrina ensina que as leis que regem o passado são as mesmas sempre, de modo que se estudando o presente se conhece a evolução no passado. O que nos leva a concluir que quando Darwin diz, em “La descendence de l´homme”, que há um efeito reversível no homem, quanto às leis da seleção natural, é no mínimo estranho em suas teses.
O fato de Darwin recusar a aplicação de suas teorias às sociedades humanas, conforme o que diz em seu texto, é o mesmo que um cientista, ao publicar a fórmula de um novo veneno de ação sutil, letal e eficaz, dizer em outra publicação posterior que não é aconselhável utiliza-lo em seres humanos. Se Darwin foi ingênuo ou não, sua intenção real não nos cabe conhecer, tanto para um lado, como para outro.
Em seu texto, há uma citação de fonte desconhecida, que diz que para Darwin “A seleção natural seleciona a civilização, que se opõe à seleção natural”.
Infelizmente não compreendi bem essa frase, que está, inclusive, em negrito. Seria o mesmo que dizer que a civilização que não “concorda” com a seleção natural é eliminada? Se for, logo Darwin se entregou. Se não for, peço que me esclareça.
Se “a civilização tende a excluir, cada vez mais, (…) os comportamentos eliminatórios”, como está escrito em seu texto, então se conclui que os que eliminam são eliminados. E os que eliminam os que eliminaram serão eliminados também. Logo, não sobra ninguém! Repare que essa idéia é um absurdo. Além disso, não é nem de longe historicamente evidenciada.
Bush e Bin Laden que o digam.
Esse efeito reversivo, em que nos homens aparece pela assistência social, é colocado como instinto social desenvolvido pela ética. E isso complementa a falsa idéia de reversibilidade posta por Darwin, principalmente quando diz: “Devemos o efeito da reversão às nossas aquisições originais de nossos instintos sociais”. Instintos originais herdados de quem? Qual é a origem? É semelhante a dizer: “devemos a marcha ré à primeira marcha!”. É uma tolice tal afirmação. Ainda mais se tomarmos que os homens descendem dos macacos, como dizem os evolucionistas.
Os macacos teriam germes de assistência social, de pacto social?
Se as qualidades morais progridem pelo efeito da razão, como o próprio Darwin defende, logo se conclui que a vida intelectual humana permite um auto-governo superior aos instintos. É absurdo, portanto, dizer que os instintos geraram a atividade intelectual humana e a capacidade de amar. Conhecer e amar são potências superiores aos instintos, e o menos não pode dar origem ao mais. Logo, Darwin se entrega a mais uma contradição.
O eugenismo, criado por Francis Galton, primo de Darwin, também não pode ser tomado como mera distorção do darwinismo. Se eles eram primos, era de se supor que se conheciam, e também no nível das idéias. E por que Darwin, que se mostra um cientista tão escrupuloso, nunca previniu explicitamente o mundo contra o eugenismo?
Tanto não previniu, que um dos cientistas selecionistas mais conceituados do início do séc. XX, R. Fisher, propôs hipóteses importantes em genética de populações e foi, ao mesmo tempo, um dos maiores advogados do eugenismo na Inglaterra. Esse cientista fez parte do grupo que difundiu a “Nova Síntese Evolutiva”, ou neo-darwinismo, tratando de biologia, sem, aparentemente, suas aplicações práticas na sociedade humana. É “ciência para inglês ver”, e para ser ensinada, “inocentemente”, em todas as escolas modernas.
O tal “efeito da reversão” não nega o eugenismo, uma vez que “as qualidades morais progridem (…) pelo efeito do hábito, pela instrução, pela instrução, pela religião, etc.” Se a moral evolui, conforme o sentido da frase, por que o eugenismo não poderia ser moralmente correto, para aquela sociedade? A evolução moral é, por isso, outro erro condenável, defendido também por Darwin, fonte para tantas ideologias modernas.
Caro Leandro, dizer que Darwin deve ser lido “de um ponto de vista dialético”, como escreve, deve ser corrigido para “de um ponto de vista contraditório”. E não se deve ter uma leitura ingênua das idéias de Darwin. O tal efeito reversivo substitui a caridade, própria somente dos seres intelectuais, e nunca dos animais irracionais. Darwin reduziu o amor ao próximo por causa de Deus, o mandamento de amor ensinado por Cristo, a um instinto social, oriundo dos seus ancestrais macacóides. E isto é maldade.

Do evolucionismo, sem caridade, livrai-nos, Senhor,
Fábio Vanini

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