Montfort Associação Cultural

23 de agosto de 2005

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Evangelhos de Nag Hammadi

Autor: Orlando Fedeli

  • Consulente: Paola Victorelli
  • Idade: 40
  • Localizaçao: São Paulo – SP – Brasil
  • Escolaridade: Superior concluído
  • Religião: Católica

Prezado Prof. Fedeli,

fazendo uma pesquisa na web me deparei com uma resposta ao Sr. Romulo quanto ao evangelho de Tomé.

Gostaria de esclarecer que fui criada na Italia, em Verona, e minhas aulas de religião foram durante toda minha formação feitas por Franciscanos descalços. Um deles inclusive trabalhou anos como ajudante na biblioteca do Vaticano. Tenho na família 2 Franciscanos e eu mesma levo o Tau no pescoço no lugar da cruz.

Os manuscritos encontrados em Nag Hammadi, no Egito, em 1945, do qual faz parte o Evangelho de Tomé, passaram não sò por todos os testes cientìficos de comprovação de compilação, como este especificamente data de 40 anos após a morte de meu grande amigo e irmão Jesus. Além claro, de ser o único escrito em língua Copta.

Sinto discordar de sua resposta ao dizer que “Ademais, até os estudiosos não católicos reconhecem que esse Evangelho é falso, através do exame do que diz o documento, e através de sua análise histórica.”
Gostaria que me indicasse estes estudiosos, pois sendo eu mesma estudiosa de tais manuscritos à 20 anos, jamais me deparei com contrariedades, tanto menos meu professor da ordem dos Irmãos Menores jamais discordou da autenticidade de tais documentos!

Hoje vários religiosos inclusive discutem a possibilidade dos 4 evangelhos terem sido extraídos do evangelho de São Tomé, primeiro por ter sido compilado ao menos 60 anos antes da compilação dos 4 evangelhos bíblicos e segundo por conter em vários trechos o mesmo idêntico ensinamento que hoje encontra-se selado na Bíblia.

Não falo de conspirações, nem tanto menos de enganos, mas bem sabemos que dogmas são criados para que não se façam perguntas. Portanto, como nosso amigo Jesus deve ser lido e entendido sempre que possível pelas suas enumeras máximas e conceitos, creio ser dever de um Cristão ler TODOS os evangelhos apócrifos. Nenhum homem é maior que Cristo, ninguém o representa nem filtra minha comunicação com ele, já que Ele esta em tudo.

Creio porem que estes documentos gnósticos sejam para a Igreja motivo de preocupação, pois neles Jesus diz: “Não construam uma igreja em cima do meu nome”, enquanto por outro lado, pela Bíblia diz a Pedro que seja a base de sua igreja.

A nos foi dado o livre arbitreo. Que ele seja exercido em plenitude. Uma grande historiadora, a Professora Elaine Pagels, escreveu sobre os “Evangelhos Gnósticos” em um livro traduzido em português tb. Ela mesmo diz que o que permitiu que ela analisasse tais textos foi exatamente o sentido de liberdade que Jesus lhe passou, e a própria Igreja lhe permitiu ter!

Sem esquecer que neste livro, assim como no Evangelho de Tomé, existe a máxima que mais me impressiona, pela paz que me traz e foi citada pelo saudoso Papa João Paulo I em seu Angelus domenical, uma semana antes de sua morte: “Deus não é só Pai, é Mãe também”.

Este é o conceito maior do Evangelho de Tomé. Tendo sido citado por um Papa não vejo como pode ser considerado por quem quer que seja uma declaração falsa! Em tempo, Monsignor Luciani, que tive o prazer de conhecer ainda pequena em Veneza, quando ele ainda era bispo daquela cidade, foi o primeiro a me falar, ja que eu era desde então curiosa sobre tudo, sobre o Evangelho de Tomé.

Por favor, professor, se não quiser publicar minha mensagem, faça por favor a caridade Cristã de mandar ao menos ao Sr. Romulo esta minha missiva.

Informar é dever de quem não teme, confundir a arma do covarde e ocultar a arma do poder.

Tenho certeza que Senhor faz parte de quem não teme.

Até breve

Paola Victorelli

Muito prezada senhora Paola, salve Maria!

Muito obrigado por me escrever.

Registro os valores que atestam sua autoridade no estudo dos apócrifos: a senhora estuda há vinte anos os apócrifos, teve professores de religião franciscanos, ademais tem dois tios franciscanos, e seu professor franciscano jamais discordou da autenticidade dos documentos de Nag Hamadi.

Esqueci-me de citar que a senhora usa o Thau ao pescoço. Mais: que, quando era criança conheceu o arcebispo Luciani, futuro João Paulo I.

Tudo isso lhe dá autoridade no tratar da questão dos manuscritos de Khénoboskion.

Faço-lhe um reparo: não neguei que os documentos de Nag Hamadi sejam documentos autênticos. Neguei que sejam verazes. Neguei, e nego, que eles sejam ortodoxos. Afirmei que são falsos evangelhos, feitos por homens, e que não foram inspirados por Deus.

Afirmei, e reafirmo, que o Evangelho de São Tomé é um falso evangelho, e de doutrina gnóstica. A senhora me pergunta se estudiosos defendem essa mesma opinião que eu defendo.

Mas são praticamente todos os que fizeram análise deles.

Por exemplo, Henri-Charles Puech, que foi um dos três especialistas que estabeleceram o texto do Evangelho de São Tomé. Esse autor afirma que a versão copta do Evangelho de Tomé encontrada em Nag Hamadi, é heterodoxa, tendo muitas loggia de cariz gnóstico (Cfr..Henri-Charles Puech En quête de la Gnose, Ed Gallimard, Paris, 1959, dois volumes, II vol. p.53).

Puech afirma ainda que é praticamente impossível verificar se algumas das loggia veio mesmo de Jesus. (Cfr. idem, vol. I p. 54).

Peço-lhe que consulte a renomada edição Marietti dos apócrifos aos cuidados de Mario Erbetta (Gli Apocrifi del Nuovo Testamento, edição Marietti, 2 volumes, Casale, 1975). Nessa obra, no primeiro volume, na secção Vangeli Apocrifi — B, à página 256, se encontra o Evangelho de São Tomé, com seu texto analisado. Lá se pode ler que esse evangelho é inteiramente gnóstico, quanto à sua doutrina. (Cfr.op. cit. pp. 258-260).

Hans Jonas afirma que os manuscritos de Nag Hamadi são inteiramente gnósticos (Cfr Hans Jonas, La Religion Gnostique ed.Flammarion, Paris, 1978, p.385).

Quanto à data desse falso evangelho, a senhora me afirma que ele teria sido composto 60 anos antes dos quatro evangelhos canônicos. Ora, o fragmento da gruta 7 de Qumran, fragmento do Evangelho de São Marcos, data dos anos 50. Se o evangelho de São Tomé tivesse sido escrito 60 anos antes dos evangelhos canônicos, ele teria sido escrito antes da morte de Cristo, o que é um absurdo.

Puech, que como já disse, foi um dos três especialistas que estabeleceu o texto do documento original desse apócrifo, afirma que, embora seja difícil estabelecer com precisão a data de sua redação, ele teria sido escrito, o mais tardar, no início do século III. (CFr. Henri-Charles Puech, op..cit . Vol II p.52).

Não me detenho, agora, a examinar o texto do Evangelho de São Tomé. Talvez o faça, noutra ocasião, quando tiver tempo. Posso lhe garantir que a doutrina desse falso evangelho é herética e gnóstica.

Passo, isso sim, a examinar algumas afirmações suas que me deixaram estarrecido, e que expliquam sua simpatia por esse apócrifo gnóstico.

A senhora me diz:

1- “bem sabemos que dogmas são criados para que não se façam perguntas”. Minha senhora, com todo o respeito, como seus mestres franciscanos não a advertiram de que sua recusa dos dogmas é herética, por ser modernista?

A senhora estudou os apócrifos durante 20 anos, e se esqueceu de estudar o Catecismo e a Pascendi de São Pio X?

Se a senhora não aceita os dogmas, a senhora não é mais católica.

Que lhe adianta então usar um thau pendurado ao pescoço?

2- “Nenhum homem é maior que Cristo, ninguém o representa nem filtra minha comunicação com ele” Sua frase deixa claro que a senhora não aceita o Papa como representante de Cristo, e não admite que o Papa “filtre sua comunicação com Cristo”.

Também por essa idéia de que cada um se comunica diretamente com Deus, sem nenhuma autoridade intermédia, a senhora não é católica.

E como diz a senhora que ouve as frases de Cristo?

A senhora se esqueceu de que Cristo disse aos apóstolos: “Quem vos ouve, a Mim ouve”? (Luc. X, 16).

E a senhora recusa intermediários entre a senhora e Cristo, quando Cristo estabeleceu intermediários entre Ele e nós?

E a senhora se esquece que Cristo deu o poder a Pedro e sobre ele fundou a sua Igreja?

Como se atreve a senhora a contrapor os apócrifos aos evangelhos canônicos?

Pois a senhora afirma:

3- “Creio porem que estes documentos gnósticos sejam para a Igreja motivo de preocupação, pois neles Jesus diz: “Não construam uma igreja em cima do meu nome”, enquanto por outro lado, pela Bíblia diz a Pedro que seja a base de sua igreja”.

Preferindo os apócrifos gnósticos aos evangelhos de Cristo, a senhora deixa de ser católica e se torna gnóstica, ainda que seus mestres franciscanos a aprovem. Mesmo tendo conhecido o Arcebispo Luciani, quando menina.

4 – “Ele esta em tudo”.

Que entende a senhora com essa afirmação? Acredita a senhora que Deus está substancialmente presente em tudo?

É o que parece.

E, se for assim, a senhora, mais uma vez, se afirma gnóstica ou panteísta.

5- “Deus não é só Pai, é Mãe também”. Crê a senhora que em Deus haja dualidade de sexos? Pensa a senhora que Deus possui matéria?

Como é que Deus pode ser mãe?

Pai, é claro que Ele é, já que Cristo nos ensinou assim, e a razão compreende que Deus é Pai, porque nos dá a vida, assim como nosso pai humano nos transmitiu a vida.

Mas como Deus é mãe?

Explique-me isso, por favor, já que João Paulo I não o explicou.

6- Creio ser dever de um Cristão ler TODOS os evangelhos apócrifos”. Nessa frase está bem clara sua opção pela Gnose.

Dever dos cristãos é não ler os evangelhos apócrifos, a não ser para recusá-los e refutá-los, como eu o fiz.

É claro que vou publicar a sua carta que comprova quanta confusão reina, hoje, nas mentes, a tal ponto que uma senhora educada por franciscanos ousa escrever tanta coisa contra a fé sem a menor cerimônia. E tomara que o tal Rômulo a leia para verificar como se refutam os erros de gnósticos que desconhecem tanto o cristianismo como a Gnose.

Lamentando sua completa falta de conhecimento da doutrina católica a mais simples, assim como sua curiosidade equivocada, que a levou a beber doutrinas más em fontes venenosas– e me refiro a TODOS OS APÓCRIFOS — me despeço,

in Corde Jesu, semper,
Orlando Fedeli.

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